segunda-feira, 8 de julho de 2019

MADAM, I´M ADAM - Prefácio

primeiros escritos
Matheus Dulci, 
pseudônimo de Kalki Maitreya nas redes sociais.


Quando o mago dos sonhos, o Dr. Sigmund Freud, buscou aproximar-se de Gurjdief, não obteve resposta alguma; saiu totalmente decepcinado do Priorato de Avon, exclamando '' ele é um louco apartado da realidade''. Gurjdief dispensou a visita do grande psiquiatra, que dez anos antes havia declarado '' o humor é uma sublimação da dor''. Pois bem: neste livro de contos, pretendemos nos aprofundar no caso desta espécie de homem, que osicla entre a loucura da realidade e a realidade extra-sensorial. Para o Mestre Gurjdief, por exemplo, a psicologia moderna oferecia apenas um conhecimento parcial do ser humano, muito relativo, sem dúvida, por seu caráter de codificação. Vejamos o exemplo da loucura, segundo um conhecido texto de Deleuze sobre ‘’Um Novo tipo de Livro’’: a tentativa de codificar a loucura é feita sob três formas, segundo ele. Primeiramente, as formas da lei, ou seja, do hospital, do asilo – que é a codificação repressiva, é o confinamento, o antigo confinamento que será chamado no futuro a tornar-se uma última esperança de salvação, ‘quando os loucos dirão: “Bons os tempos em que nos confinavam, pois hoje em dia se passam coisas piores”. Em seguida (continua Deleuze) houve uma espécie de golpe formidável, que foi o golpe da psicanálise freudiana: ‘’...entendia-se que havia pessoas que escapavam à relação contratual burguesa tal como ela aparecia na medicina, e essas pessoas eram os loucos, porque estes não podiam ser partes contratantes na sociedade capitalista, pois eram juridicamente “incapazes”. O golpe de Freud foi fazer passar sob a relação contratual uma parte dos loucos, no sentido mais amplo do termo, os neuróticos, e explicar que se podia fazer um contrato especial com eles (donde o abandono da hipnose). Ele é o primeiro a introduzir na psiquiatria, e é nisto finalmente que consiste a novidade psicanalítica, a relação contratual burguesa que até então fora excluída dela’’. E sobre essa codificação floresce ainda nossa burocracia ocidental panótipa. Por tais motivos, Gurdjief entendia que o homem, louco ou normal, em tal contexto carecia completamente de unidade e vontade própria. Isso que convencionamos chamar ''vontade'', atualmente, não passava para ele de um mero concurso de convenções institucionais, que funcionavam em forma de contratos: um subproduto social, político, deste endosso que por meio de cláusulas jurídicas de ''comportamento social'', prendia o ser humano num estado larvar de desenvolvimento espiritual. Lendo seu famoso livro ''Relatos de Belzebu a seu Neto'', fica claro que a psicologia moderna toca apenas com a ponta do pé as águas profundas do inconsciente humano, que Freud pretendia ter ''desvendado completamente''... e que o ''verdadeiro homem ainda é algo por vir''. A psicologia institucional fala muito sobre o que o homem É, enquanto a psicologia esotérica de Gurjdief falava do que ele poderia chegar a Ser, falava de Evolução, Energia Psíquica e Poder Espiritual. Dito de outra forma, o mago misterioso de Fontaineibleu acusava o cidadão moderno de ser uma larva, uma forma vermicular evolutivamente estacionária, diante de suas potencialidades iniciáticas. E como não se impressionar com uma sociedade como a capitalista, que se dessangra em ritmo de necrose entre o delírio político-sexual da época e sua racionalidade técnica aplastante? Por outro lado, como aceitar a filosofia de Gurdjief, sem abandonar nossas posições dirigidas dentro de tal sociedade? Uma filosofia que ataca de maneira frontal inclusive a arte e sua tradição de ''pretensa'' ruptura de parâmetros, vendo em todo esse empreendimento nada mais que um vago descanso do homem no ócio do espírito. L.Pawels, em sua efêmera estadia no Priorato de Avon, conta seus desentendimentos com o Mestre Gurdjief, já que este acusava a literatura moderna de ser uma resultado superficial da realidade, e de utilizar uma linguagem falsa e fútil para encenar estados intensificados de consciência. Ipsu Facto: Pawels sai do Priorato com os nervos destroçados, e com o espírito catapultado à loucura. René Daumal, outro ilustre residente e discípulo de Gurdjief, cai rendido ante a mirada daquele homem, tensionando as cordas de seus nervos e escutando voces dentro da cabeça, que repetem incessantemente seu nome... a loucura também o cobiça. ‘’Muitos eram os chamados, poucos os eleitos’’, diria depois Ouspensky, mas... justamente isso era o que apaixonava as mentes mais brilhantes daquela época: uma praga (segundo Freud) que a psiquiatria deveria combater sob o nome de ‘’O Perigo Esotérico’’.
Em ''Conversações com Gente Notável'', Gurjdief põe na boca de um sábio Persa um demolidor ataque contra o que define como uma literatura complacente com a pura sensação --- a literatura de ''bom tom'' ---, e uma arte ocidental alienada da verdadeira problemática do homem. Na linguagem sagrada, a arte está destinada a criar um estado mental específico sobre seu receptor, enquanto que a linguagem ocidental moderna apenas equivoca os sentidos e funde seu receptor numa confusão pasmosa e auto-reflexiva. Neste livro, pretendemos justamente oferecer à leitora uma operação que começa por uma fragmentação dramática dos planos da realidade, que não poupa nem mesmo o narrador, que muda de pele constantemente e sem aviso prévio, afim de levar todos os seus componentes narrativos ao estado de partículas de um caleidoscópio. Trata-se de um ciframento de caráter esotérico, que lembra uma trituração. Tal trituração vem acompanhada, instantaneamente, de um processo de deciframento e iluminação, que confere à mescla narrativa em ebulição os nexos e significados necessários, formando o sub-plano secreto de um super-significado articulado e organizado num nível intensificado de conscientização. O ciframento volta depois , mas com um caráter ainda mais agressivo do que no começo da operação, ainda mais esotérico. As peças da narrativa, digo, seus personagens, vão progressivamente se dando conta de que fazem parte de algo ainda maior do que tinham decifrado antes; um mosaico ainda mais vasto, enigmático e ameaçador, mas sem compreender qual , como ou porque...
Matheus Dulci é aqui também uma tentativa de James Joyce, claro, que ao ser interrogado a respeito do que achava de Freud e suas idéias, se limitou a dizer: ''I AM FREUD''. E também : ''MADAM, I´M ADAM''.
À Freud se atribui atualmente o fato de fazer a Humanidade consciente de seu Inconsciente. Mas isso é verdade apenas em parte. Freud conseguiu fazer o mundo notar apenas um dos aspectos do inconsciente, que poderíamos definir como sendo o ''hemisfério do primitivismo animal''. Com uma visão muito mais completa do Inconsciente nos brinda o velho contemporâneo de Freud, F.W.H. Myers, cuja quantidade de estudos sobre a ''consciência subliminar'' constitui, em palavras de William James, ''a primeira tentativa'' de examinar os fenômenos da alucinação, do hipnotismo, do automatismo e da mediunidade - e James poderia ter complementado ''da inspiração e do sonho'' á sua lista - como partes conectadas á um tema inteiro'' (...) Freud sublinhou exageradamente e sem fundamento algum o que chamamos ''o aspecto negativo do Inconsciente, e ignorou seus aspectos positivos, muito mais importantes, diga-se de passagem. O freudiano médio tende a pensar que a casa da mente tem apenas dois pisos - um piso baixo de consciência pessoal, e um sótão cheio de bagunça, ratos e salamandras venenosas - o Inconsciente pessoal. Mas, de fato, como nos adverte Myers, a casa da mente é um estrutura de muitos pisos, e o subsolo dela não tem fundo, e o salão de festas não tem teto. Como sustentou Myers e como todos os mestres da vida espiritual descobriram por experiência e conhecimento- direto, ambos os setores da mente se abrem ao infinito daquilo que William James chamou de consciência Cósmica, ou que os místicos chamam de ''Cabeça de Deus'', a ''rede sináptica da mente de Deus'' ou Atman-Brahmin, A Luz Cristalina, O Vazio Vivo do Cosmo, etc.
 Ocupar-se com as coisas é participar de modo irrefletido da dinâmica de realização de um mundo. Nos deixamos absorver tão firmemente a essa lida ocupacional que deixamos escapar o Aberto do mundo, onde a Arte instala suas pontes para além do homem. Em uma conferência muito posterior a Ser e Tempo, intitulada A Questão da Técnica, Heidegger trata mais especificamente do modo moderno e contemporâneo de acontecimento histórico do mundo. Na "era da técnica", como é denominada, por ele, a época atual, o homem toma todos os entes como recursos para os seus afazeres, como se toda a realidade se reduzisse a mera reserva de energia disponível para sua exploração e consumo. A experiência do pensamento se reduz, por sua vez, às operações calculantes que visam à previsão e ao controle dos entes. Heidegger diz que o mundo atual é pobre de pensamento, querendo significar com isso que a presente era da técnica põe sob ameaça a possibilidade mais essencial do homem: a meditação sobre o sentido das coisas, da existência e do mundo. Para que essa possibilidade seja preservada em meio ao nivelamento calculante promovido pela técnica moderna, Heidegger propõe o exercício de uma disposição do espírito denominada como serenidade (Gelassenheit). Inspirado no místico alemão Mestre Eckhart, o filósofo entende essa disposição como uma equanimidade da alma, uma atitude de suspensão e desapego da vontade. A "serenidade" faz parte do pensamento que medita. Ao contrário do pensamento calculante, que reduz tudo à condição de disponibilidade, o pensamento meditante nos solicita uma atenção livre de qualquer violência subjetiva, isto é, de qualquer identificação a um aspecto exclusivo das coisas, preservando em sua abertura compreensiva a diferença irredutível entre as realidades que se apresentam e a dinâmica de realização dessas realidades.
Em nossas leituras de Castaneda, não pudemos evitar a evocação do "deixar-ser" da "serenidade" heideggeriana quando nos deparamos com a estranha proposta do "não-fazer" de Don Juan. Antes de parar o mundo, um dos ensinamentos fundamentais que Don Juan apresenta a Castaneda em Viagem a Ixtlan é o "não-fazer". Segundo ele o guerreiro precisa não fazer a fim de experimentar outras possibilidades de ser de uma coisa ao relacionar-se com ela. Destacamos, a seguir, um trecho da referida obra:
''-Aquela pedra ali é uma pedra por causa de fazer
''-disse ele. ...não havia entendido o que ele queria dizer.
''-Aquilo é fazer! - exclamou.
''-Como?
''-Isso também é fazer.
''-De que é que está falando, Don Juan?
''-Fazer é o que torna aquela pedra uma pedra e um arbusto um arbusto. Fazer é o que torna você, você e eu, eu. (...)
''-Tome aquela pedra por exemplo. Olhar para ela é fazer, mas vê-la é não fazer. Tive de confessar que as palavras dele não estavam fazendo sentido para mim.
''-Ah, fazem, sim! - exclamou. - Mas você está convencido do contrário porque isso é você fazendo. É assim que você age em relação a mim e ao mundo...
''-O mundo é o mundo porque você conhece o fazer necessário para torná-lo mundo - disse ele. - Se você não soubesse o seu fazer, o mundo seria diferente''
 (Castaneda).
A fim de não-fazer, Castaneda precisava conseguir parar seu diálogo interno, pois só de olhar uma pedra já estamos fazendo-a pedra pelo nosso pensamento. O nosso diálogo interno, a todo instante sustenta um mundo que nos é mais familiar. A questão que trazemos é: que mundo temos nós, ao longo dos últimos tempos, feito? Don Juannos fala que todos nós fomos ensinados a concordar sobre o fazer e que não temos idéia de como esse fazer é poderoso, mas felizmente, o não-fazer é igualmente poderoso.
Quando tentamos co-responder à leitura desses pensadores, buscamos abrir um espaço para pensar em novos modos de estar no mundo. Modos que privilegiem as possibilidades de experiência do mundo enquanto mundo. Pensar já é em si uma prática, pois pensamento é uma forma de desvelar mundo. O termo desvelamento (Unverborgenheit), utilizado por Heidegger para traduzir a palavra grega aletheia, indica que a verdade não é a correspondência adequada a uma realidade em si, mas a própria dinâmica de acontecimento/aparecimento das realidades.
A obra de arte, na concepção de Heidegger, tem uma articulação essencial com essas idéias, na medida em que ser obra é instalar um mundo, e para instalar um mundo é preciso deixar em aberto o Aberto do mundo. A obra coloca à luz o ser das coisas e a possibilidade de abertura e transcendência no relacionar-se com elas.
A arte não consiste em mera representação de um mundo; da mesma forma quando o guerreiro vê, ele faz uma experiência livre de suas idéias prévias de um mundo simplesmente dado. "Parar o mundo", em Castaneda, e "ser obra de arte", em Heidegger, podem ser relacionados pelo fato de apontarem para uma abertura de possibilidades de sentido para além do mundo que tomamos como dado. O nosso modo de ser mais comum é tão próprio ao nosso existir, quanto o fato de que ele não esgota nossas possibilidades existenciais enquanto ser-no-mundo. Mais do que fazer experiências exóticas de mundos, o que buscamos lembrar, através da ressonância entre esses pensamentos tão distintos, seja através da arte ou por outros caminhos, é a "brecha", a "abertura" que nos permite transitar entre mundos.
Para Heidegger, na linguagem de-mora o ser. O Sendo só pode se re-velar através da linguagem; se o pensamos ele ‘é’, pois o pensar aproxima o ser da Clareira (onde sua pre-sença contrapõe-se ao ente). A imagem de uma floresta assemelha-se à existência humana, vários são os caminhos possíveis para se chegar a uma Clareira. Mas o que entendemos como linguagem não nos leva ao ser, no máximo indica-nos o Caminho da Clareira. "A libertação da linguagem dos grilhões da Gramática e a abertura de um espaço essencial mais originário está reservado como tarefa para o PENSAR e POETIZAR. Nossa relação com a linguagem deve ultra-subjetivar-se (ir além do sujeito), nada deve comandar a linguagem, pois na Clareira impera o inefável, ante o qual nossa língua e nossa identidade nada são.
Matheus Dulci

FIO-ARACNÍDEO (contos)

COBERTOR ESCOCÊS

Ia às bibliotecas e anotava num caderno boa provisão de cenas, metáforas. Separava os materiais por temas: brilho do luar, brigas, assassinatos, manhãs de primavera, dias de chuva, amantes que se abraçam, etc.. Punha tudo isso no computador e a partir desse pot-pourri eu tirava novas harmonias. Eu não estava roubando a plantação, apenas colhendo alguns frutos: quando em nível microscópico, a fraude não pode ser detectada. A voz de Julia estava cansada, coloquial, natural , levemente fanhosa como se estivesse resfriada; o cabelo loiro escuro comprido, com os anos adquiriu fios prateados quase invisíveis, intensificando seus estranhos traços de índia, não de índia verdadeira, mas da garota branca capturada e criada em tendas enfumaçadas; o rosto, ali nas montanhas de Juiz de Fora, tinha ficado mais duro e cinzelado, os lábios sem batom, mais finos, os olhos, mais opacos. A cor da pele, depois de um longo fim de semana na praia, comigo, estava mais do que bronzeado, com um fulgor facilmente absorvido pela pele. Era verdade que seu corpo estava mais largo, mas com seu antigo senso de elegância ela manipulava bem o novo peso enquanto eu explicava à ela minha teoria do plágio: ------ O plágio, doutora, não existe (: é só uma tonalidade que se empresta à vida (: sou apenas um glutão mimético como estes pássaros poliglotas que sabem contra-fazer todos os cantos para extrair a síntese suprema da própria garganta. Devoro todos os livros enquanto a humanidade brinca de asneiras nas redes sociais: pego tudo que passa sob meus olhos desde os doze anos de idade, coloco adiante como um degrau(: neste exato momento, enquanto você me ouve falar, eu me alinho sinistramente à sua postura, avalio a incidência da luz no quarto, a sua maneira de me escutar, seu comportamento, seu temperamento: me pergunto em que livro você poderia estar .. posso continuar falando indefinidamente , enquanto eu quiser te ter nesta indefesa disposição de espírito(: isso é mais forte do que eu, sou uma águia ávida por desposar todos os contornos do céu (: conhece aquela história do camaleão que se instala no cobertor escocês (?) ------, eu me perguntava se aquele não seria exatamente o ruído do desenvolvimento de meu personagem que agora continuava na espiral infinita, e este roçagar, o roçagar de sua incerta multiplicidade... da minha derradeira figura separada do personagem  por uma membrana aracnídea, extremamente difícil de ser visualizada. ---- Alguns segundos mais tarde (eu disse à Julia ) o camaleão explode, não sabendo mais escolher entre as cores (: minha população sorridente e colorida estende-se então à terceira ou quarta geração de personagens, mais real, mais presente do que as cartas e telefonemas mais intermitentes - certas epifanias de negócios.



FIO ARACNÍDEO

------ Considere por um instante (eu disse à Julia) esses milhares de obras-primas encalhadas sobre tantas prateleiras do mundo como destroços de uma cultura arruinada: é uma quantidade incalculável que ninguém lê; túmulos de signos luminosos, murados para sempre no silêncio da indiferença... é uma honra para mim o papel que assumi, de reciclá-los (: se tudo já foi escrito, para que recomeçar (?), para que buscar novas idéias (?), basta recortar, fundir, transubstanciar, numa palavra, servir-se (.) ------, de fato, na minha suíte, naquela tarde, não havia a menor pressa e podia-se pensar no quiséssemos: minha obra-prima já estava concluída, e a vagina de Julia já estava casada com meu falo para sempre, desde o passado, ainda que nossos corpos tenham seguido caminhos tão diferentes.  De manhã, no dia seguinte, estávamos frente a frente na cama, agindo como se fôssemos independentes, como se meu pau e sua xota existissem apenas para fazer água. A noite tinha sido agitada , e agora, dormindo profundamente,  ela nem ligava para as sacudidas que eu lhe dava; eu estava com uma daquelas ereções estúpidas e insensíveis como a do remendo literario da véspera. Com a ponta dos dedos, eu movia Julia à vontade: devo dar uma esguichada dentro dela e deixá-la (?), ela está abrindo e fechando como uma flor. A flor diz: fique ái, meu garotão! A flor fala como  uma esponja bêbada. A flor diz: quero acalentar esse pedaço de carne até acordar. Permaneci imóvel, mal respirando, enquanto ela ficava cada vez mais perto de gozar. Segundos antes de gozar, ela pararia repentinamente, fodendo lentamente meu pau um pouco mais, subindo e descendo, siriricando por uns instantes. Com os dentes cerrados, Julia passou a fazer uns ruídos incríveis, seguidos por sons faisanescos tão soberbos que eu não sabia dizer como tinha conseguido viver sem eles até então. Enquanto eu obedecia, estudei todos os ângulos de sua expressão de clímax, tentando registrar seu pico transitório em minha mente. O corpo dela perdendo nome e endereço, querendo cortar o meu pau e conservá-lo dentro dela para sempre, como um canguru. Julia não era apenas aquele corpo deitado de bunda para o céu, o vítima indefesa de uma cobra no meio do mato. Jato de gotas brancas num gramado verdejante. Essas adoráveis pombinhas, que é como ela as via, estão lhe dizendo, à sua maneira arrulhante, a criatura graciosa e dadivosa que ela é; a massa branca é apenas bolo de anjo: se ela virasse um pouco mais os olhos enquanto está abençoando as pombinhas de Deus, veria a si mesma apenas como uma rapariga desavergonhada oferecendo a parte traseiro do seu corpo a um homem nu, como uma égua no campo. Mas ela não quer pensar nessa rapariga, especialmente numa postura tão equina; quer conservar a grama verdejante e a sombrinha rosa aberta. Julia conversava com muita elegância, agora, como se estivesse toda de branco, com os sinos da igreja tangendo: estamos em nosso cantinho privado do universo, uma criatura com aparência de noviça recitando os Salmos no Sol. Meu pau ficou agora macio e plumoso, tão cálido de amor, um pedaço de sangue embrulhado em veludo. O Sol brilha fortemente lá fora e (como é bom: estár aqui aquecendo suas frias partes traseiras: as pombas gotejantes no meio de suas pernas, asas roçando levemente o arco de mármore (de um lado, se o vórtice cessou, de outro, um movimento perdura, marcado mais insistentemente por uma dupla pancada que ainda não, ou jamais, alcança sua própria noção, e da qual um roçagar do momento, tal como deveria verificar-se, preenche de novo confusamente o vórtice ou sua cessação: ------ Não vou te perguntar nada, K (Julia disse) porque você poderia mentir na minha frente, como já fez muitas vezes antes, mas poderei te dizer se estou certa ou errada na próxima vez que te encontrar: você ainda ama sua ex-mulher (?) não responda(.) -, ela riu na minha cara. - Qual delas (?), a irmã de uma delas é uma beleza (eu rolava a cabeça de um lado para o outro. ------ Como ela se chama (?) -, perguntou Julia. ------ Fernanda (.) a primeira vez que vi ela de biquini quase gozei dentro da piscina do meu sogro, em Varginha (.)-----, respondi, relapso, como se a queda total do momento , que foi a única pancada nas portas do túmulo após a ejaculação, não abafasse a visitante e sua sombra de perguntas: a mais ou menos dez centímetros de sua vala aberta eu observava meu dedo indicador, que se misturava ao seu nervo cor-de-rosa -olhando-a de --- não, gradual pressão daquilo que não se percebia, embora não explicasse a evasão certa num intervalo... que tipo de ternura, ó criança (eu me perguntava mais tarde: que palavras inesperadamente sábias ou amistosas, que bater de asas voltariam a alcançar meu coração escondido daquele anjo, distante da minha selva, da minha raça, do meu céu (?), não foi difícil que meditando no hálito que havia roçado por ela, eu baixasse meus braços (alguma dúvida última: de passagem, agitando minha próprias asas; mas a fricção familiar e contínua de uma idade superior me tornava terrivelmente pensativo, com as mãos nos bolsos da calça jeans, chutando distraidamente alguma pedrinha pela Avenida Oceânica... rimo aonde (?) a que solidões iniciáticas (?), das quais mais de um gênio foi cioso de recolher toda a poeira secular em seu sepulcro, para mirar em si mesmo aquele nojo pela literatura, que cada dia se repetia com mais força em mim, e para que nenhuma suspeita remontasse ao fio aracnídeo; para que a derradeira sombra se mirasse em meu próprio ser e reconhecesse na turba de minhas aspirações a estrela nacarada de uma nebulosa ciência oculta.  Voltei a pensar em Nietzsche: ''Talvez se pudesse chegar a escrever algo verdadeiro quando essa repugnância pelos literatos e suas palavras moles chegasse a um grau irresistível; repugnância de verdade, dessas que podem provocar um jato de vômito com apenas ver um desses coquetéis de artistas que falam do amor e da morte enquanto disputam o resultado do prêmio Jabuti. Schopenhauer falava da Beleza com um ardor melancólico --- porque, em última análise (?) Porquê vê nela uma ponte na qual se chega mais longe... ela é, para ele, a redenção da ''vontade'' por instantes ------ ela seduz à redenção para sempre... ele a louva, em especial, como redentora do ''foco da vontade'', da sexualidade , como aderido ao dharma passivo do Buda. QUE SANTO ESQUISITO(!) ------ Alguém te contradiz, Arthur Schopenhauer... e temo que seja a natureza (.) Para que (afinal) existe beleza no som, na cor, no cheiro e no movimento rítmico da natureza (?) O que dissemina a Beleza (?) Felizmente, o divino Platão também te contradiz, sustenta outra tese: a de que todo Beleza incita à procriação (de que isso é justamente o ''proprium'' de seu efeito, do que há de mais sensual ao que há de mais espiritual.


MUSGO BRANCO

Naquela tarde, meus manuscritos estavam todos espalhados sobre a mesa como doentes terminais num leito de hospital. ----- O gabinete de trabalho de Goethe também era terrivelmente primitivo. Tudo muito modesto (.) -----, eu disse à elas. Minha voz estava como que queimada de tanto constrangimento. Sentado na escrivaninha, eu apertava meu próprio joelho, numa aceitação dolorosa do meu estado de nervos. Pegara aquelas moças pelo cabelo e as acorrentara à uma revolução mundial que só estava acontecendo na minha cabeça. Digo: acorrentara-as à uma coisa autêntica, e logo depois caíra enfermo, rindo triunfalmente do caos imaginário no qual eu lançara o mundo. Aquela era a simples, horrível definição do que eu era de fato, sobretudo diante de quem, muitas vezes, me ouvia de olhos fechados. Estranho, mas eu não estava pálido. ----- A palidez (eu disse) sempre me pareceu um recurso simplório e clemente de escritores românticos (.) quanto mais tempo eu me exponho à luz crua da minha obra, que tosta minha pele e dilata minhas narinas, mais julgo reconhecer no fundo de suas instalações uma razão que se ignora a si mesma. Se longos períodos de doença acamada tornam as expressões fisionômicas mais amplas e serenas, e as fazem refletir emoções que um corpo sadio traduz por decisões, em modos diversos de intervir, de dar ordens, enfim, se um leito de doença transforma uma pessoa num mímico autista, então não é sem razão que minhas centenas de páginas estão espalhadas nessa mesa, sofrendo em seus repositórios (.) -----, eu disse. Minha vontade de deitar, de levantar-me da mesa e escorregar para a cama, era imensa naquele momento. E se uma delas era agora minha de fato, eu certamente a veria do meu lado, ao abrir os olhos e acordar. Por hora, tinha as duas no meu campo de visão, aferrando-me ao último resto de silêncio interior que elas haviam destruído em mim com seus respectivos solilóquios. Em outro contexto, porém, eu já me ouvira advogando por causas perdidas, mas pedir à qualquer uma delas que fosse minha, porque nada podia estar dito, nem ser verdade por antecipação, exigia agora uma linguagem diferente. Qualquer verdade só começaria do outro lado, ao término da viagem de nossos corpos, e eu não poderia exigir nada delas até lá. ------ Eu, particularmente, não me importo que você seja assim (.) ------, uma delas disse. Mas em nenhuma a recusa parecia ser uma solução ventilada a sério. Temendo ser incompreendido, ou mal interpretado, resignava-me a fingir timidez e espera; algo como um corpo de virgem contraído pelos pavores do atavismo. ------- Não riam (eu disse) ; o que mais eu posso fazer nesse momento além de enfileirar belas palavras no meu musgo branco (?) Apesar de tudo, vocês me deram margem suficiente para experimentar uma breve felicidade de labareda (.) -----, eu disse.



CAVALO MORTO

Agora, cinco anos depois, ela reaparece aqui dizendo que leu tudo que publiquei na internet nos últimos tempos e que... seu único fraco é a televisão, que assiste horas a fio. ----- Tv a cabo (.) --, disse, e me convidou a pôr ''algo especial'' na vitrola. ----- Shérérazade, de Rimsky Korsakov (.) -----, sugeriu ela, e eu respondi que seria uma ótima opção, se tivéssemos dezessete anos de idade e fôssemos europeus. Observei-a atentamente: ela parecia realmente segurar algumas daquelas lembranças com as duas mãos, maravilhada com a matemática oculta de algumas daquelas formas poéticas inacreditáveis, a espiral narrativa perfeitamente logarítmica e as ''câmeras'' crescentes dentro das personagens. ----- O que meu poema não conta (eu disse) é que no final o herói abre os olhos e recupera sua personalidade (: ou seja, eu, o homem conhecido neste livro(: ''Os dois provavelmente terminal batendo um longo papo, hein(?)'', digo para mim mesmo, olhando para você (.) ---, Julia estava mais gorda, sem que isso destruísse completamente certa graça natural que adejava, tendo como foco os pulsos e os tornozelos. Lutando para me ajustar à presença dela e ao ambiente da casa vizinha ao zoológico, lembrava-me em rápida sucessão de rabiscos à crayon com letras de jardim de infância, de Juiz de Fora numa longa noite de chuva, de poemas presos com ímãs na porta de uma geladeira, nas minhas telas pintadas pela metade, encerradas na praia de todos os verões; em quartos alugados às pressas, em colagens de textos perfeitas, em haikus escritos com pena de corvo; em libros recortados durante um certo Natal; em Joana, Sabrina, Beatriz, Carmen, Isabel e outras; neste circo de papelão embaixo da minha mesa que ninguém sabe quem fez. --- Como vai sua ex-mulher, K(?) ---, ela me perguntou. ----Joana (?), ela agora é uma encantadora granfina da elite branca que tira seu espírito de alguns livros que lemos juntos naquela cobertura imensa (: todo mundo que pinta ''vê'' alguma coisa em Mallarmé(.. ao passo que Sabrina, que nunca lê nada, tornou-se realmente ''alguém'' (.) ----, mas Julia não sabia de quem eu estava falando. ------Ela também pinta (?) ------ , perguntou-me. ---- Não, ela é uma prostituta de luxo (.) ---, respondi. ------- E voce frequenta a dama (?) ---, Julia ria. ------ Não tenho dinheiro para pagar o preço dela(: acho que ela nem mora mais na cidade (.) ------, eu sempre tinha amado Julia, do meu jeito, desde quando ela tinha apenas dezessete anos; ela sempre adotava diante de mim uma atitude de brilho cortês, de entusiasmo filial. ---- Sabrina é a melhor amiga de Joana (.) ---, concluí; na minha lembrança, a linha firme do queixo da minha ex-mulher, do seu pescoço e dos seus ombros, aparecendo com a suavidade fantasmagórica daquelas velhas fotografias de estúdio. ------- Outro dia ela me convidou para ir num evento e eu achei chatíssimo (: ela começou a estudar e trabalhar na empresa do pai, antes de terminarmos(: então, eu comecei a andar demais sozinho pela cidade, e a admirar demais as garotas que sentavam do meu lado nos ônibus, e numa bela manhã acordei com uma vontade incrível de pegar um ônibus para Ilhéus e escrever alguma coisa em completa solidão(.) -------, as pessoas da sociedade facilmente imaginam os livros como sendo uma espécie de cubo, do qual uma das faces é retirada, de modo que o autor se apressa em fazer entrar  os fantasmas que invoca no escuro. ---  Certo, não seria chato dar uma olhada nisto(Julia disse: lendo você, eu tomei o hábito de pesquisar entre os grandes autores antes de escrever uma carta ou um e-mail importante para alguém(:  de um eu apanho um cumprimento... de outro um pouco de persuasão, de outro.. sei lá,... um epigrama bem elaborado.. e envergo tudo como uma vara até ela se tornar uma arco perfeitamente tenso, sempre causa impacto (: ainda mais se levando em conta que, de outra maneira, eu não teria absolutamente nada a dizer, como Antonin Artaud: ''toda escrita é uma bela porcaria'' (: mas te confesso que fazer isto com perfeição é muito mais difícil que escrever com as próprias palavras, é necessário muita cultura (.) ----, Julia realmente aprendia comigo e, vendo ela falar eu me lembrava de seus lábios fazendo aqueles biquinhos antigamente, pequenos e tensos em volta dos sons da língua francesa; quase me apaixonei por ela novamente. ------- Sem dúvidas há muitas confidências também, na escolha dos remendos (: vejamos esse remendo aqui, não me lembro a autoria, mas é especialmente notável. Posso ler pra você(?) -----, perguntei. --- Pois fique à vontade(.) ---, ela disse. ------ ''A buceta de Marta. Ela bem  que sabe foder quando se concentra na coisa. Vou pegá-la meio dormindo, com os antolhos cerrados. Ali, bem quieta, deitada, enroscando-me na posição de colher. Ponho a chave na fechadura e empurro a porta de ferro. Ferro frio contra pica vibrante. Devo encostar-me furtivamente, e enfiar enquanto ela sonha. Subo silenciosamente as escadas e tiro desordenadamente as roupas. Posso ouvi-la se virando aprontando-se em seu sono para jogar para cima de mim a sua bunda quente. Deslizo suavemente para baixo das cobertas e me aconchego a ela. Finge que está desligada, morta para o mundo. que ela pode acordar. Devo fazer a coisa como se eu também estivesse dormindo, se não ela se sentirá insultada. A ponta já roça os cabelos soltos. Ela continua terrivelmente quieta. Quer trepar, sinto, mas não cede. Está bem, brinque de morto comigo. Eu a viro um pouco, só um pouquinho. Ela reage como um lenho encharcado. Vai permanecer assim pesadona e fingir que dorme. Já enfiei a metade. Tenho que movê-la como um guindaste, mas ela é móvel e está tudo perfeitamente lubrificado. É maravilhoso foder a mulher da gente como se fosse um cavalo morto''.

PARIS ---- DENVER -

Não toquei neste caderno enquanto estive em Paris. James Joyce comia no Fouquet e passava noites no Bistrô de Madame Lapeyre na esquina da Rue de Grenelle e Rue de Borgognne  . O Rainey de Céline... e a Rue St. Denis era sua ''rua-doentia''. Algumas sublimidades  para enriquecer o pensamento de viagem durante o vôo de volta. Tudo por causa da natureza do Tempo, que se apresentava como um tempo marcado; porque Paris pareceu-me excessivamente cotidiana nas ruas à noite , os lugares cuidadosamente escolhidos onde estive ; algumas influências literárias continuavam mais fortes que nunca, minha escrita era quase uma extensão mística delas. E eu havia dito a ela que minha fé do método era toda no sentido de desvendar o feitiço da última configuração do mundo . O Nada concreto e o Nada do grande mundo virtual gelatinoso.  O páthos emaranhado de engrenagens explicativas , umas mais outras menos convincentes. ----- Podemos conversar um pouco antes de contemplar a calmaria do meio-dia, com a licença poética formando um Todo com o Nada  ; certamente entreveremos uma forma redonda de longe , um círculo perdido entre os gráficos do notebbok , um quadro mais claro do tipo de reforma política global que essas empresas daqui têm em mente: uma peça de futurologia para transformar Paris num verdadeiro  centro global sob contrato da agência de planejamento do governo francês feita por uma instituição de ''programas financeiros'' , detalhando as ''necessárias infra-estruturas '' caso se queira que Paris um dia venha a cumprir de fato com sua suposta vocação como centro mundial . La nuit avait couvert la moitié de son parcours (... ) -----, eu disse. Aquilo que ela recebera nas salas de diretoria das empresas, durante a tarde , era indicativo de uma direção que numerosos executivos transnacionais achavam apropriada. ----- À medida que o Sistema Industrial Global evolui , as cidades grandes desnacionalizam-se e tornam-se menos francesas, exigindo uma mudança psicocultural de imagem e atitude no tocante à impressão de xenofobia que os franceses parecem exsudar e que é banida e reprimida na propaganda oficial. Quando finalmente voltei para a América, tudo que fiz foi passar três meses em Denver contemplando  as planícies ; as planícies me conectavam com o Nada por motivos óbvios ---- razão nunca mais profunda que a música do silêncio ( o verdadeiro som interior de um país ) como possuidor de uma responsabilidade com minha própria personalidade e pensamento. A noite dos Estados Unidos como veículo do poeta lírico, do contista fragmentário cuja prosa o passo de Proust havia franqueado ---- aquele ruído escutado no vazio durante o vôo de volta, as vistas dentro do nada do espaço aéreo noturno, o domínio assombrado das energias mentais do poema... Reabrindo o caderno em terra firme , verifiquei que a recomendação mais radical do relatório era a de que Paris deixasse de ser a capital da França . ''Orléans '' dizia na página 223 ''será a nova capital administrativa do espaço francês : os mais altos níveis de governo francês permanecerão em Paris (as funções externas e fiscais )mas a estrutura administrativa será transferida . E a nova cidade global teria que ter, naturalmente,  toda a infra-estrutura necessária : hotéis de luxo , centros de convenção , uma rede midiática , uma universidade mundial e um centro financeiro ----  objetos que nos concerniam pelo fato de poderem ser pensados e detalhados até fim com o prazer da fruição. Assim eu representava-me e fruía os dois tipos de acomodação para executivos globais que tínhamos em mente : as primeiras para executivos interessados em cultura, divertimentos e vitalidade urbana, moda como hobby de executivas mulheres e outras acomodações voltadas exclusivamente para as famílias . ----- Um centro vital de consciência financeira planetizada com luxo (eu disse) Na saliência liberal irrealizável falando muito das próprias vidas em todas as propagandas. Eu falando não mais como um escritor, mas como um (em francês) ''arrangeur '' : aquele que arranja assuntos e esforça-se para compreender um acontecimento histórico como ele realmente foi , através de uma filosofia individual que sempre recorre à Deus no fim . ''O acontecimento em si é o acontecimento tal como ele apareceria para Deus '' (pág. 227) Quando ultrapassamos um certa idade  (continuei ) a alma da criança que fomos e as almas dos mortos dos quais saímos vem jogar sobre nós suas riquezas e maus destinos, exigindo nossa colaboração nos novos sentimentos que experimentamos e nos quais,  apagando sua antiga efígie, nós os refundamos como uma criação original ( nous volons dans l ´espace cruel ) . A transcendência da consciência consiste justamente em ultrapassar o mundo na direção de uma ipseidade que ela deseja como ''em-si '' ; mas esse ''em-si'' que ela projeta para além do mundo conserva em si mesmo os caracteres essenciais da consciência. É um em-si que é em si mesmo seu próprio fundamento, como a consciência é por si mesma sua própria motivação, um em-si que envolve, ultrapassa e retém nos seus flancos a facticidade do mundo do ''freguês mundial '' ; da invenção como filha da necessidade ; do jet set empresarial na ponte aérea dos centros de lucro coordenados ; das companhias com ''espírito de previsão capaz de capitalizar as oportunidades internacionais''  . ---- Devemos compreender (ela sorria ) que a antropologia cultural foi um importante instrumento na formulação liberal da comercialização competitiva ( os mesmos hábitos e os mesmos gostos para expandir o consumismo, as mesmas planilhas usadas por Adorno para escrever sobre a Indústria Cultural e mais os filmes de Hollywood para lembrar-nos que existe uma classe inteira acima do parasitismo respeitável (.) -----, eu disse.


Chegada em Nova Orleans .

Comi como um rei num restaurante a beira-mar com meu último  dinheiro até chegar em Nova Orleans e sintonizar suas rádios regionais no carro ---- não muito longe do jazz em ato ao sentir o cheiro do grande rio . Mas uma vez tomada a decisão, arrependi-me e ajuntei num pós-escrito : ''O cheiro da argila, pétalas e melado, como em Algiers ,  lendo aquele poema de 403 versos (aos quais são acrescentadas, todavia , sete páginas de notas ) , encontra Eliot maneira de incluir citações de , alusões a , ou imitações de pelo menos 35 escritores diferentes (alguns dos quais , como Shakespeare e Dante , chamados a contribuir diversas vezes , bem como várias canções populares ; e de introduzir passagens em seis ou  sete línguas estrangeiras, incluindo o sânscrito . A idéia de miscelânea literária fôra inquestionavelmente uma idéia tomada de empréstimo à Pound '' . No entanto , nunca vou esquecer da expectativa louca daquele momento: a rua de poucas casas, as palmeiras, as imponentes nuvens do fim de tarde no Mississipi . Eu me decidira após fazer um exame do horizonte à minha volta e inspecionar meus possíveis ---- o resíduo eliotiano de invenção original como empréstimos ou adaptações de outros escritores ---- : eu buscava a todo custo recompor com o que me lembrava, e lembrava-me da maior parte de tudo que lia ; minha erudição tornara-se capaz de fazer soçobrar a falsidade das informações por dentro . Alusões eruditas misteriosas e macarrônicas , sempre acompanhadas de café forte como petróleo . Já a refeição do meio-dia me era  indiferente ; comer pão integral ou , ao contrário salada sem nenhum pão, ou jejuar por um ou dois dias ; ou ficar uma ou duas noites sem dormir e então acordar na velha casa de campo do outro lado do estado . quarenta horas sem se deitar era algo que nenhum escritor ex nihilo conseguiria apreciar . Durante o café  da manhã eu me sentia uma ser psíquico larvar, procurando um pretexto para a instrospecção do Nada  ---- a xícara de café e o jornal , um cigarro poético e perfumado . O índice da Metal Bulletin do minério com teor de 62% de ferro negociado no porto chinês de Quingdao subiu 6,5% , para  $U 92,23 a tonelada ; foi a primeira vez em dois anos e meio que a cotação  ficou acima dos $U 90 e agora o avanço acumulado em 2017 é de 17%. Naquelas manhãs em que folheava o jornal ao sol, na porta de alguma padaria , meu pensamento era vivo e gentil ; e eu contava para mim mesmo as histórias que aprofundavam melhor certos conhecimentos --- se o maior produtor mundial de aço era a China, que não era nem uma economia de mercado , eu me contava também a história dos mais de 700 milhões de  toneladas de capacidade ociosa do setor siderúrgico existente no mundo ---- a China era responsável por 400 milhões : vinte bilhões por ano de subsídios para sustentá-la e poder praticar preços ''políticos '' . Essa última categoria era, numa cabeça dada ao anedótico como a minha, bem vasta . A ascensão da empresa global chinesa fôra deflagrada pelo credo no culto da grandeza e na ciência da centralização . O sucesso final do shopping center chinês global dependerá da venda das idéias , e não se pouparão esforços para vendê-las : note-se que a China não está apenas liquidando empréstimos e financiamentos contra sua economia , mas também fazendo as mesmas operações externamente , mas como credor . A nova estratégia de inserção  financeira da economia chinesa não é novidade , assim como a gradual internacionalização do yuan, que ainda é marginalizado nas transações dos mercados cambiais globais . Eis o  caráter essencialmente dramático da minha imaginação ---- permanente exploração das possibilidades do drama poética moderno ---- tornamo-nos parte dessa mitologia empresarial moderna ( a ausência de ''objetividade'' de certas decisões , sua imanência --- o crescimento das empresas como ideologia e arma, enquanto  continuava a abordar a literatura inglesa como um perfeito norte-americano : com aquela combinação de avidez e isenção peculiar aos americanos , e com leitura superior às do crítico inglês comum no tocante às literaturas antigas e modernas do Continente . Alcancei êxito, como poucos escritores alcançaram , na tarefa enormemente delicada de estimar escritores ingleses mortos ; e escritores de língua inglesa em relação a escritores do Continente. Ora um extravasamento econômico oracular , ora um objeto linguístico deliberadamente construído para produzir certo efeito ...



O que é o Mississipi perto de Idaho ou West Yellowstone...

O que é o Mississipi perto de Idaho ou West Yellowstone , o rincão mais  distante e obscuro do Wyoming ;  é lá que as cabeceiras do Missouri , modestas como uma riacho, começam . Um tronco rachado por relâmpagos elementais nos cantos dos estados, descendp para um tempo incansável nos meandros do rio ---- estou no tempo (penso ) sou meu próprio tempo, como entendia Heidegger ; há uma transparência temporal coincidindo com a transparência da consciência : a consciência do tempo . Où mène-t-il pour nous soliciter si fort ?? Troncos, e mata fechada nas margnes , mais fechadas que em Hudson ---- iluminado pela luz do norte enquanto prossigo , mas nunca estive em Cascade ; as indústrias químicas e usinas elétricas ao longo das margens . Depois Williston Dakota do Norte e as neves de inverno. A máxima do ´seculo XVIII sobre vantagens comparativas de custos e divisão do trabalho aplicada em escala global à maximização do lucro --- David Ricardo . Racionalização do tempo - uniformidade - - controle de qualidade --- centralização e dominaçãodo mercado . Sioux City em um amanhecer cinzento , um conselho de chefes da caravana explicando a eliminação de grande parte dos gerentes operacionais da multinacional e sua pronta substituição por um sistema sistema de controle rigidamente dirigido pela sede em Nova York . Holding Company com alto grau de centralização , depois .... ----- O tempo é o limite opaco da consciência ordinária (eu disse) ; uma opacidade inatingível  numa transparência total ---- todos os nossos atos pressupondo uma compreensão pré-ontológica do tempo . Tematizando o ttempo como objeto de intuição (Bergson) somos alguma coisa caída no tempo ordinário buscando expandi-lo através do Nada da consciência ---- se nos voltamos para o tempo , através da consciência ordinária dele, para segurá-lo , ele se pulveriza em presente punctforme , naquilo que não é mais e que ainda não é (...) ----, concluí . O Missouri desembocava enorme nas águas do Mississipi em St. Louis, levando o tronco em sua Odisséia dos ermos de Montana até as noites nas margens de Cairo , Greenville e Matchez. Algiers - Louisiania (onde, agora, comecei a ler em alemão Dichtung und Wahrheit , de Goethe ; um Marat de reserva e trechos de St.Simon sobre a Regência . Ver-se-á mais tarde que Eliot difere de Válery na crença de que a poesia dever ter ''sentido '' , mas em vão procuraremos expressões como ''estado de consciência'' para reduzir o modo do ser do ''para-si '' ; a facticidade como reflexo do em-si sobre o para-si , transitando na superfície do para-si como um fantasma inconstante do em-si. A filosofia tem  seu lugar na poesia , mas apenas como algo que ''vemos'' ali entre outras coisas com que o poeta nos confronta. Quilômetros a oeste: Baton Rouge , onde algum fenômeno sobrenatural criou os ''bayoux '' ---- através do paciente olho da minha alma flutua o espectro das brumas, o fantasma , a luz da noite , o sudário de névoa que cobre o Mississipi . Espírito por espírito , todas essas formas de bayoux ( pântanos alagados da Louisiania) nadam pela noite anfíbia e aquosa dos palácios musgosos no manuscrito extenso e elaborado da noite. Concepção da poesia como uma espécie de pura e rara essência poética, sem relação com qualquer dos usos humanos práticos para os quais somente a técnica da prosa é apropriada.


Richmond, Califórinia. San Francisco. Hudson ---

----- A ciência da centralização baseia-se no controle 4.0 do cruzamento de dados. Comunicações fracionadas  horizontalmente , até os centros de poder mais altos  --- informações fluindo retransmitidas a executivos em todo o mundo , de acordo com o ''acesso controlado'' . Os gerentes das subsidiárias ficam perturbados quando vem o placar global . Atuam melhor quando conhecem apenas o necessário . Mas comigo não funciona assim.. Ora, controla-se uma grande companhia controlando suas despesas de capital , os produtos e , em grande detalhe , seu orçamento operacional.  A lógica da empresa planetária aumenta a dependência da sede mundial , do centro omnipotente de todas as informações, como numa mandala (.) ---- , eu disse.  O movimento em torno à mesa do café da manhã era uma cena puramente auditiva, alegre e congestionada pela cafeína e o tabaco, descomedidamente viva sobre as águas marrons de Nova Orleans ; olhei por sobre a amurada pensando que o rio Mississipi terminava na noite plausível do Golfo do México ; e que todos aqueles efeitos sonoros no pensamento daquele instante, que vinha me permitindo escutar outras vozes e sons além dos  ''meramente existentes'' , estavam vindo de um mundo fora dali , um mundo impessoal e indolor , distante das balsas do rio e do jazz de NO. ; eu era  inteligente e refinado demais para ser feliz ali ---- esse era o laço impalpável que eu sentia unir-me ao Nada e à Bolsa de Valores . ---- Hoje , no entanto (eu disse ) ao cabo de vinte anos de versos despersonalizados e hiperintelectualizados , grande parte deles escritos como imitação de Eliot, Pound e Joyce , minhas anotações indicam que tornei-me formalmente discípulo desses Mestres como desculpa da minha despersonalização inata. Há muito de Eliot na minha pedanteria , e em minhas tendências místicas nadificantes ; todos aqueles quadros, livros, revistas e jogos de palavras no jardim dos séculos ; pela via Merrit, quando em Nova York  arranha-céus e luzes . Ora, eu queria ficar não apenas rico, mas também poderoso : acostumara-me a negociações bem sucedidas com reis, generais e sheiks , e  sabedores de que o balanço da minha companhia tornava o orçamento nacional de muitas potências  soberanas parecidos com os balancetes de minhas subsidiárias , não foi preciso me convencer de que a empresa planetária tornara-se o mais importante ator na política mundial. E quanto mais uma elite econômica aspirante (eu pensava ) questiona a sabedoria liberal convencional ou desafia elites e paradigmas mais antigos, mais crucial se torna a legitimação de sua influência ou autoridade política, não só inevitável, mas razoável na medida do possível ... Parvenu (!)  QUANTO BOM HUMOR (!) , aquele prazer era tal que  se tratava do meu ser no meu ser, sob a forma do ''para-si'' , eis o que chamaremos de ''acontecimento filosófico'' ---- como sempre, sem saber porquê, e`mais uma vez a caminho de San Francisco . O pensamento rachado e errante  (simultaneidade das anotações ) e encharcado , parcialmente afundado e virado pelo peso da água em seu interior, flutuando para o mar ao redor dos recifes, onde o barco oceânico passava uma vez mais por seu estranho destino multidimensional, como um espectro . Eu estava sentado sob a luz de um poste em alto-mar, lendo este diário. Meu espectro era um poeta descuidado, um olho, um homem , um espectro vigia da noite do Nada , pleno de panoramas e continentes  ---- sonhando com a garota da foto. A Causa Sui era o sentido do mundo ; o mundo a anunciava e se fazia mundo anunciando-a ; era por ela que , da irrupção do para-si no em-si , o em-si era ''mundificado'' . Todavia, a ''causa sui ''' não nos pertence como fazendo corpo com nosso projeto num avião à jato . Unidade transcendente do nosso projeto , pelo qual o para-si escapa do ciclo de produção imediato... para usar uma palavra de Tawney : ''PARVENUS "" (ironicamente )  .  Mas em comparação com a geração que tinha formado o ''sistema bancário do Leste '' , os escritórios de advocacia de Wall Street ,  as corretoras e o mundo da ''Segurança Nacional '' , os administradores não eram visivelmente patrícios, do Leste , ou egressos das universidades grãn-finas . Ironicamente , alguns dos maiores globalistas  do mundo vieram à luz no viveiro do isolamento norte-americano , o Meio -Oeste . Os ''administradores planetários'' passaram a constituir a corporificação que Thorstein Veblen há muitas décadas previu que terminaria por governar o país , ainda que mais como administradores do que como os ''construtores de impérios'' da propaganda . O ex-presidente da Exxon  , Clifton C. Gavin , havia iniciado a carreira como engenheiro de processos na refinaria de Baton Rouge. Os caminhos favoritos para a promoção sempre foram o departamento de finanças, contabilidade , engenharia e comercialização. Os homens que tinham subido aos mais altos escalões ali haviam chegado por distinguirem-se dos outros desenvolvendo habilidades organizacionais altamente lucrativas  ---- o mar na curva do rio ou apenas  a noite rolando em silêncio ( o Golfo do México era uma eternidade chuvosa e encharcada no banco de trás (neotomismo americano -Diário de Bordo) o mau tempo lá fora parecendo irremediável;  a paisagem vista da balsa , situada no meio de uma chuva contínua e sem igual , parecia porém ter uma doçura deslizante de silêncio , a calmante aproximação navegante . No outro dia o céu estava mais claro , mas com uma saraiva incerta que o vento morno fundia e dispersava : e eu discernia mais um daqueles dias tempestuosos pela frente , desordenados e agradáveis , em que os telhados, batidos por pancadas intermitentes que um raio de sol logo seca , deixam deslizar uma gota de chuva e, enquanto o vento não recomeça a rodopiar, alisam ao sol momentâneo , que as irisa , suas ardósias furta-cor ; um desses dias cheios de tantas mudanças de tempo , de incidentes aéreos, tempestades , que o preguiçoso não as dá por perdidas , pois se interessou profundamente pela atividade que a atmosfera tem desenvolvido em vez dele, agindo de certo modo em seu lugar , como um mago ; dias semelhantes a esses  tempos de rebelião ou de guerra que não parecem vazios ao estudante que não vai na aula , porque, nos arredores do Congresso americano ou lendo os jornais do dia , temos a ilusão de encontrar  , nos acontecimentos ocorridos , um proveito maior para nossa inteligência e uma desculpa para a perpetuação do ócio criativo ( as imagens cambiante do poeta simbolista , com suas ''associações múltiplas '' : personagens , situações, lugares, momentos vividos , emoções obsessivas , paixões amorosas e padrões de comportamento repetitivos ) . Enfim : dias em que aquele que nada fez além de exercícios físicos acredita extrair hábitos de trabalho superior do Éter meditativo e da Arte. Obviamente, estou falando do mundo vago do sono ; o narrador, confinado em seu quarto obscurecido, perdeu a noção do quarto em sua consciência,`que se expandiu em direção a outros lugares . Richmond, Califórinia. San Francisco. Hudson --- no apartamento de Carolyn , lado direito da Market  -



Balsa de Algiers , Canal St , no mercado.

Segui andando repleto de memórias perfeitas do mundo da noite, todas elas de alguma forma tão marcantes e milagrosamente ''inglesas'',  como se eu tivesse mesmo vivido tudo aquilo como um americano inglês. Parei em êxtase na Market St. , para reconstruir os eventos que os Estados Unidos , pretendente número um ao cargo de polícia mundial , já praticaram na era Reagan , em contraste absoluto à sua doutrina monetarista , paralelamente um hiper-keynesianismo estatista , ampliando constantemente , mediante gigantescos processos de endividamento interno e externo,  historicamente sem par , a economia do armamento improdutiva e , com isso , a parte disfarçada que ocupa a economia estatal em sua reprodução, arruinando-se dessa maneira até o ponto de ter que pedir esmolas de seus aliados para sua intervenção militar no Golfo Pérsico... (sem querer fui do apartamento que servia peixe com fritas até o apartamento de Carolyn e percebi, ao subir os degraus íngremes do prédio , que só em San Francisco e Lowell, Mass , havia degraus daquele jeito , e noites tão  goudtrichianas quanto  sugestivas do futuro. Talvez : ao mesmo  tempo, as polícias monetaristas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha tenham feito com que a decadência das estruturas internas sociais e econômicas ultrapassasse tanto o nível geral e médio dos países ocidentais que também a esse respeito, ao repercutir realmente A CRISE , houve uma tentativa de usurpação do governo precisamente por aquele poder que o monetarismo queria afastar definitivamente : a saber , o LEVIATÃ , o monstro da economia estatal , que sempre  se levanta como a FÊNIX das cinzas quando o mercado chega ao fim de sua ''sabedoria'' .


O fantasmagórico monte Shasta à distância..

De San Francisco a Portland (1.123 quilômetros) ; noite em Richmond  , Califórnia, jogado numa cadeira, buscando justificar a obra de arte para assim salvar os longos fios do tempo um a um . Eu tinha vivido tão bem ''de qualquer modo'' que fiz recuar o verossímil otimismo pequeno burguês ---- entrei num mundo mais escuro, mas menos insípido . Foi justamente quando minha paixão por ela flambou minhas impurezas diárias , mas só comecei a duvidar da ''salvação'' pela arte quando subi pelo lago Shasta passando por Buckhorn e as montanhas Hatchet , uma passagem espetacular do Nordeste, com muitas árvores e neves . A arte me parecia bem vã ao lado da pureza cruel do mundo natural , da natureza perfeita e cruel . O fantasmagórico monte Shasta à distância... lagos nas montanhas ; o céu azul altaneiros dos ares de montanha.  Lamoine... barrancos ao lado da ferrovia; espaços abertos ; florestas e montanhas até Dunsmuir ---- cidadezinha madeireira com estação ferroviária nas montanhas (Shasta nas nuvens da encosta, no vagar dos fantasmas na neve ) Como os espectros ali se exibem em pleno dia azul , lá em cima ... O grande albergue diante de espaços vazios ao norte e dos trens cargueiros cheios de carvão. Hóspedes nos hotéis. Pinheiros das montanhas. Sentia que não podia decifrar o sentido completo daquilo a não ser me colocando no futuro e esboçando com os olhos um futuro aparentemente vago e ininteligível ---- mas um futuro que (apesar de tudo ) enchia de significado  todo meu presente. Toda aquela ''vida''  naturalmente era projetada ante meus olhos de um modo ''não -temático '' e era objeto daquilo que Heidegger chamava de ''compreensão pré-ontológica'' . A maior parte do tempo o que via mesmo era a energia psíquica em estado puro .


As montanhas enevoadas Horse Heaven

Depois de considerar que o Eu (Moi) era uma produção sintética e transcendente da consciência (nas L.U. – Investigações Lógicas ) Husserl retorna, em Ideen , à tese clássica de um Eu transcendental que estaria como que por trás de cada consciência , que seria uma estrutura necessária de tais consciências , cujas radiações (Ichstrahl) recairiam sobre cada fenômeno que se apresentasse ao campo da atenção . ----- Ajudará a sua compreensão (eu disse à ela) ver também Epictetus e Syrus (.) - --- , a excessiva iluminação elétrica agora em foco sobre o interlúdio intitulado ‘’périplo de caminhão’’ (pensando em Hood River e em como teria sido melancólico parar para dormir lá . Enquanto escrevo isso meu pensamento brinca em bulícios nas orlas das tendas. K-lakk... fazendo chuva com o pensamento . ----- Fui criada em Kansas City , condado de Jackson (ela disse) e meu lugar de origem é o Texas (.) -----, ou Bakersfield (pensei) ou Modesto, ou Delano ---- quatro vezes havia sido refeita a cidade na minha mente enquanto escrevia isso , quatro beijos ela me dera no total . Com efeito , a consciência se define pela intencionalidade e eu passei mais uma noite sozinho na estrada. A consciência unifica a si mesma (eu pensava) de forma concreta, por um jogo de intencionalidades transversais que são retenções concretas e reais das consciências passadas . Fenomenologia da reunião de vestígios perceptivos na consciência, fenomenologia e reencarnação. Assim, a consciência é reenviada perpetuamente à si mesma ; dizer ‘’uma consciência’’ é dizer toda a consciência , toda a trama psíquica da entidade super-consciente . Lattice. Soma védico. Seiva original do intelecto ; as consciências como viajantes do mar escuro da consciência --- a segunda --- , a terceira atenção ---- a sétima atenção totalmente sem Eu ---- e essa propriedade singular de depuração psíquica pertencia à consciência mesma (pensava eu ) ‘’quaisquer que fossem (inclusive)suas relações com o Eu ... ---- Estou indo para Dalles (.) ----., disse a garota ----- Uma cidadezinha de fazendeiros e lenhadores  (.) ----, mas quando chegamos ao pé da colina o irmão dela e eu descemos da carroça para fumar . ----- Os cavalos aqui caminham com dificuldade (.) ----- , ele disse, pisando e rolando os pedregulhos do chão .  ---- Devem ter dado serragem para eles comerem (eu pensei ) magros e suando muito no pescoço, enquanto ela olhava para mim pela milésima vez, puxando as rédeas e apertando forte . ----- Não me incomoda nada (ela disse) Vá em frente (!) , ordenou . Agora no coração indestrutível da estrada (4 portões, 4 torres 4 cigarros e 4 fecundações. Aurora clara sobre a latrina no outro dia. Adiante no grande vale do Columbia (!) ---- Olha (eu disse na hora do café) VOCÊ VÊ (??) -----, mas talvez ela tivesse que apertar um pouco mais os olhos. ---- Todo pensamento apreendido na intuição possui um Eu (eu disse) além do mais , o essencial do câmbio de velocidad jamais será o desaparecimento do Eu .. . nem a exaustiva classificação dos estados de consciência ‘’totalmente sem Eu’’ do esoterismo mais pedante. Acreditem em mim irrestritamente (eu disse) O princípio essencial da fenomenologia é  ‘’ TODA CONSCIÊNCIA É CONSCIÊNCIA ‘DE ALGO’ ‘’ . Salvaguarda e Cogito em Tonompah Falls . ---- Esse bolo vai estar ótimo ainda quando eu chegar naquele buraco em forma de boca de onde a água cai de centenas de metros de altura, acima dos penhascos rochosos , gastos em camadas pelo paciente e assustador rio Columbia , acima dos baixios congelados , evaporando-se em bruma celeste durante a queda . Eu não tinha nenhum osso quebrado e aquilo (pensava) eram só um monte de solavancos do mundo natural . ‘’Eu e meu cavalo havíamos ido embora (---) uma noite na hora do jantar ‘’ , recitei de memória assoviando a velha melodia da minha infância ---- por cuja torrente tenho a impressão de ter me lembrado  também (da minha fronte gelada, de uma noite de pesadelo gritando ‘’Minha mãe é um peixe, Minha mãe é um peixe. Minha mãe não está dentro desse caixão ! Minha mãe não fede assim. Minha mãe é um peixe !) ‘’ . Agora parecia que estávamos no fundo do vale, olhando para cima , para as antigas margens rochosas. Não conseguia ver o que havia na escuridão lá em cima . ‘’A terra pertence aos vivos ‘’ (eu pensava) ‘’lucro sobre tudo o que ela cria do nada ‘’ . METATHEMENÒN ( ainda não saímos do último capítulo !) ; Le Paradis n ´est pas artificiel (----) dormi profundamente enquanto o ônibus passava por Hood River , Dalles. Mas dessa vez sonhei com Voltaire querendo terminar logo seu Louis Quatorze... Acordei onde o Columbia  seguia para encontrar-se com o Snake, nas planícies marrons de Pasco , e em Yakima um pouco depois . No horizonte as montanhas enevoadas chamadas Horse Heaven ----- e para o Sul (Oh, Oregon !) ----, o Parque Nacional Whitman .



A noite nas Bitterroots (rio Coeur d ´Alene, até Cataldo )

Há mais do que uma simples conexão poética entre o ''espírito do Susquehanna '' e uma tarde de vagabundagem em Hood River . Claro que há, mas vamos para Idaho... nosso dever para com os vivos e a circulação sanguínea da terra, o fluxo vermelho amargo fervendo através da terra. O pecado é a nossa veste no mundo desde que Eva mordeu a maçã . E o direito da reflexão presente não se estende além da consciência captada presentemente --- quase dormia ao passar por Coeur D´ Alene (ah, bem ) escrevendo isso ---- mas não importa (!) Vi os lagos e as montanhas enquanto a reflexão modificava minha consciência espontânea . Coeur D ´Alene , como Spokane , fica numa área plana  (eu pensava no pecado como pensava nas roupas que usávamos diante do mundo, na circunspecção necessária em que estávamos submersos no mundo dos objetos , vestidos de valores , unidades de pensamento , qualidades atrativas e repulsivas ---- mas o meu Eu (Moi ) havia decididamente desaparecido por uma ou duas horas enquanto eu subia a serra rente ao lago nevado : foi quando assomei , pelo tempo que me foi possível fixar aquela luz, a grande atitude da consciência desperta. O passo Fourth of July , e a neve impressionante nas ladeiras íngremes , haviam dissolvido na noite nevada o caos cheio de objetos e nomes do meu Ego. Meu único pensamento, naquele instante, era o de que antigamente o índios tinham Coeur DÁlene toda para eles. A noite nas Bitterroots (rio Coeur d ´Alene, até Cataldo) . ANÉANTI , não havia lugar para o pensamento racional naquele nível , e aquilo não era produto do azar , da fadiga ou de uma falta de atenção momentânea, e sim da estrutura mesma da consciência. A certeza de que o pensamento meditativo provinha de que nele se alcançava instantaneamente a consciência sem facetas , sem perfis, inteiramente sem cortes e jogos scripts ( sem os '' abschattungen '' ) ; os objetos se entregavam à ela através de uma infinidade de aspectos, no fundo dos quais surgiam depois como a unidade ideal da multiplicidade. Às vezes eu deitava de lado no escuro ,  ouvindo a terra que agora era meu sangue e minha carne, e pensava : ''Porque Eu (??)'' , e então pensava sobre meu nome até que depois de um tempo pudesse ver a palavra como forma , um vaso, uma garrafa, um lápis, e eu as via virarem líquido e fluírem como melaço frio fluindo na escuridão para o vaso , até que o vaso e a garrafa ficavam cheios e sem movimento : uma forma com significado e profundamente sem vida como o batente vazio de uma porta de repente brilhava como se estivesse vivo ; e então eu percebia que esquecera completamente meu próprio nome , enquanto os ''significados do mundo '', e as ''verdades eternas '', só conseguiam afirmar sua transcendência real na medida em que se tornavam tão independentes do tempo quanto eu e minha consciência iluminada . A consciência do mundo, ao contrário , encontrava-se rigorosamente engessada na ''duração '' .. toda aquela alegre vida do norte na qual eu pensava então (como no Maine, com aqueles crepúsculos vermelhos congelantes ) só devia existir fora do tempo , numa eternidade de neve e fumaça, como as cozinhas de Idaho. Ou então como em Wallace.. fora daquelas minas enormes . Ou Mullan, no coração das grandes encostas íngremes . Sempre seguindo a eternidade dos leitos dos rios e escrevendo como quem mói o próprio café . ---- Descartes passando do Cogito para a idéia da substância pensante, como um rio que deságua no mar (.) ----- , murmurei comigo mesmo . Passar a noite naquele quarto foi como cantar debaixo d´água. Durante toda aquela noite lutei contra a Teoria da presença material do Eu (Moi ) , e saí vitorioso. Acordei para a enormidade da Luz observando pela janela do quarto pessoas ajudando umas às outras a retirar a neve das calçadas . Então vi e ouvi o segredo das Bitteroots (do passo até Deborgia, Montana , e depois Frenchtown e Missoula, seguindo o leito do rio Bitterrot ).


E porque Butte, perto de Anaconda e Pipestones Pass, é ''MAIOR '' (???

Eles haviam escondido as mulheres de Montana , menos uma . Olhei por acaso para frente, e a vi do lado de fora da vitrine . Não muito perto do vidro, nem olhando para nada em especial. Apenas esperando nosso ônibus seguir viagem . ---- Sinceramente (eu disse à ela ) não gostei muito de Missoula. É uma cidade universitária de esquiadores, nada mais . Pelo menos foi o que vi perto da rodoviária (.) -----, e acendi meu cigarro. Durante a viagem , percebi que ela dormiu a caminho da grande Butte, e uma hora antes ela se referira à Butte como à uma espécie de Éden, onde a mais modesta vida americana alcançava sua realização .  ----- E porque Butte ,  sobre o divisor de águas, perto de Anaconda, e Pipestones Pass, é ''MAIOR '' (???) ----, ela perguntou ao acordar . ---- Bem (eu disse), não sou da região, mas repare só nos nomes que a cercam... No limiar da noite , as teimas de qualquer ilusão aqui encontram suas florestas (.) -----, disse. Não tinha parado para rever Missoula justificando-me que aquilo não passava de uma grande entroncamento ferroviário . ----- De qualquer modo (continuei ) , É só olhar o mapa, e ver Butte nas geografias rústicas do divisor de águas, que pensamos logo na Nevada de Mark Twain (.) ----, concluí . quando chegamos em Butte, ela decidiu vir comigo só porque eu falava francês. Com isso, eu sabia que estava-me estabelecendo e prosperando dentro da hora que se apoderaria da geleira da noite , mas estava avisado quanto ao Amor. ---- Quando o presente humano não é apenas um jogo, rapidamente se torna um massacre de arqueiros. Mais sanscesse vaguant, déborant sa course par toute l ´étendue  montrée de feu, tenue du vent (.) -----, eu disse ainda. nossa caminhada curta pelas ruas íngremes de Butte logo revelou-se, não o Éden que ela descrevera n o ônibus, mas um buraco negro gelado no fim do mundo onde toda a população da cidade parecia estar bêbada. Só então me lembrei que era sexta à noite. ---- Vamos beber alguma coisa (??) ---, sugeri. O frágil escolar K  (pensei então ) tentando converter o devir num maravilhoso fluxo sanguíneo alcoolizado, enquanto desfiava um fogo tão questionado, tão remexido dentro de mim , e caído no limite do meu olhar imóvel, que mais parecia uma alga radioativa.



Olhando para trás , vi Butte ainda como uma jóia na neblina

Na parede dos fundos havia um grande letreiro elétrico piscando com números de aposta . ---- Em Montana (o velho falou ) as pessoas bebem demais, brigam demais e amam demais . Velhos garimpeiros , jogadores, mulheres da vida, mineiros , índios , cowboys, e turistas que parecem ETs recém-chegados entre eles (.) ---- , eu disse. Eu me sentia como um pedaço de queijo podre entrando num formigueiro (toda minha concepção do DIÁRIO amadurecera durante as noites de Montana ---- todo o significado que eu precisava estava lá ; era como se eu estivesse descendo de preocupações metafísicas ''chuvosas'' de volta para o barulhento lar do Eu. Progressivamente, eu escapara da ''mystique de haschich '' inicial do DIÁRIO para aquilo que, por essência e necessidade, passava a brotar da situação histórica e política da América e , ao mesmo tempo , para a ''teknè '', a aptidão política e econômica de realizar tudo aquilo que fosse possível reconhecer. Minha visão de conjunto dos acontecimentos ligava-se estreitamente à personalidade do homem de Estado , , de suas visões particulares , pois de sua força e postura sempre dependeria o ''ser '' do Estado (Diese Anschauung von Politk und Staat ist eng an die Person des genialen Staatsmannes gebunden ) . O Estado deveria fundar-se no ''ser do povo '', e não na fogueira das vaidades da política institucional, nos desvios e manobras da oposição, e menos ainda no fajuto niilismo das pretensões racionais da mídia liberal. Por isso, me impressionava muito positivamente que eu estivesse jogando cartas na noite dos saloons de Montana ; fumaça e uísque desde 1880 ; dias de manadas de gado viajando para o Texas ; de cães pastores tão peludos quanto os do Colorado . Saí para a noite fria da montanha sozinho depois de satisfazer minha alma com as cartas . ''O velho mundo de jogatina '', pensava então '' unidade de sangue e fonte de Montana ''. Stammeseinheit ---- uma parte do vocabulário de Schmitt funcionava laboriosamente no meu pensamento pós-racional, seguindo as pistas do progresso do espírito .  O ''vínculo vivo'' (lebendige Verbundenheit ) que une o líder ao povo (Gefalgschaft ). Na noite de Montana e com mais intensidade ainda nos jovens vaqueiros e mineiros e suas mulheres bravas . Um Estado só ''é '' realmente quando se torna o ''ser histórico'' do ente chamado povo. Ser, essência, verdade do ser... meditações que fornecia à minha estratégia ao amanhecer, quando entrei no ônibus. Logo estava descendo a montanha e , olhando para trás , vi Butte ainda como uma jóia na neblina, reluzindo na encosta... Gold Hill e o amanhecer azul do Norte em câmera lenta .O ser muitas vezes torna-se visível escapando de toda possibilidade de representação (novamente rochas, neves , vales e espaços abertos e florestas e artemísias selvagens). Em pouco tempo estava andando no ABERTO DO MUNDO sob o sol tênue em Three Forks , onde o Madison e o Missouri, em estranha confluência, atuam ; onde o Missouri, no meio do inverno, fica cheio e congelado por muitos hectares de ranchos...



A grande sensação das distâncias do Norte

Um amanhecer estimulante, depois de uma ''nuit historique'' ---- as distantes montanhas Bitteroots - Rochosas cobertas de neve . Ali ou você parecia jogador de futebol americano ou cowboy e todas as mulheres seguiam escondidas. Só em Bozeman voltei a ver os limites do mundo outra vez. ''A visão wilsoniana '' escrevi  no papel ''com relação à necessidade de manter uma liderança ideológica mundial de natureza anti-comunista ; o mundo sob uma estratégia americana mais ''realista'' . A renúncia de Nixon abortara a estratégia e Gerald Ford revelou-se frágil. Jimmy Carter foi a consequência política dessa frustração estratégica, governando durante os quatro anos mais desastrosos da liderança mundial dos Estados Unidos. As Tetons do Wyoming , o Pico Granite ; as Rochosas e as Bitteroots e algo parecido com uma geleira distante no norte do Canadá . Era como olhar para o fim do mundo no Wyoming , no Arizona , no Texas antes de El Paso , no Oregon em Mevrill e outros pontos do Oeste . ''A interrupção da estratégia Nixon-Kissinger enfraqueceu a posição mundial da América durante toda a década de 1970: os americanos foram surrados em todos os cenários mundiais  . No Sudeste Asiático a derrota no Vietnã veio seguida pela vitória dos comunistas em toda a Indochina, concluídas em 74-75 . No Sul da Ásia, os Estados Unidos perderam o controle do conflito Índia-Paquistão, e a União Soviética permitiu-se invadir o Afeganistão em 79 . No Oriente Médio perderam seu principal aliado com a vitória da Revolução no Irã no mesmo ano ; e ainda tiveram que suportar o episódio do sequestro de seus diplomatas na mesma hora em que a OPEP infringia um novo ''choque energético'' nas economias capitalistas. Na África o fracasso das experiências desenvolvimentistas dos primeiros governos independentes foi dando lugar à regimes que se auto-proclamavam socialistas enquanto se expandia a influência militar da UNião Soviética na Etiópia , Somália , Angola , Moçambique  , Guiné Bissau , Daomé , Madagascar, Zimbabwe e Zaire. E até na América Central multiplicaram-se guerras civis em El Salvador e Guatemala culminando com a vitória sandinista na Nicarágua '', escrevi. Dificilmente eu parava de falar sobre o que estava escrevendo, mas subindo as Rochosas entre fazendas na montanha e carneiros, falar era apenas uma maneira de aprofundamento interior, ou uma experiência técnica que eu fazia com a mente. Não considerava nenhuma de minhas idéias políticas condicionadas pela ambição , ou pelo esnobismo de arrivista de que me acusavam, enxergando delirantes motivos secretos na minha ''Teoria  da Elegância '' ... eu apenas buscava circunscrever historicamente as eminências e pessoas distintas.  Descendo até Livington no Vale do Yellowstone ; como o do Plate em Nebraska, como o do Nilo, é um dos grandes vales do mundo : nas vastidões vazias nevadas as árvores do vale estendem-se ao infinito . A grande sensação das distâncias do Norte, no Canadá , ou no Wyoming ao sul e à leste para Dakota. Um mundo de terras selvagens de Bigtimber à Denver . ''Ao final da década e 70 o mundo estava envolto numa crise gigantesca e desprovido de qualquer tipo de hegemonia ''.

*

Desde esa voluntad distraída, Kalki-Maitreya nos lleva a contemplar el "verdadero día onírico" y la inmensidad del juego.



Em Milles City , de noite, fazia trinta graus negativos.

Bigtimber ao meio-dia. ---- Está vendo (?) (perguntei à ela) Nunca vou me esquecer dessa xícara de café ; sob a influência da cafeína tudo se agita, as idéias se põem em movimento como um exército ,  e a batalha acontece. As lembranças chegam de assalto, como bandeiras desfraldadas ; a cavalaria ligeria das comparações se desenvolve num magnífico galope ; frases de espírito chegam como atiradores ; as figuras aparecem, o DIÁRIO se cobre de tinta (.) -----, concluí . O ônibus então seguiu viagem por colinas rochosas, ranchos , as árvores de Yellowstone, por desfiladeiros distantes e fendas... no recôndito de sua inteligência , o poeta é um Outro, atuando sob o comando de certas circunstâncias, cuja reunião é sempre um mistério. O poeta se pertence, mas apenas como joguete da força eminentemente mais decisiva de sua consciência amplificada. Donner un sens plus pur aux mots de la tribu. Os períodos realmente reacionários são os mais fecundos para a revolução da consciência artística , porque demandam nova sensibilidade e intensidade paradigmática;  é preciso compreender melhor os motivos da comunidade nas artes espirituais e poéticas da atualidade , do ''bain de foule '' de Baudelaire às intenções ritualísticas do '' Gesamtkuhstwerk '' de Wagner e do ''Livro'' de Mallarmé . A arte ''decadente '' de vanguarda, do século XIX, discerniu a inextrincabilidade de suas problemáticas através de uma fusão característica da paixão do bárbaro com o amor pelo refinamento ; não importava se a Doxa estava do lado da esquerda ou da direita (a língua é de todo modo fascista: assertiva e repetitiva, asserção triunfal binária e repetição estável e a-crítica ; a língua é o campo onde toda ideologia busca arraigar-se como discurso da verdade e do estereótipo alienantes ). ----- Muitas vezes o antídoto é ''trapacear'' com a linguagem (eu disse) como queria Roland Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso; introduzindo na língua uma espécie de anarquia, que apenas a desvia de suas funções habituais em busca de um uso superior de seus recursos. Não sou então mais eu quem escrevo, é aquele que monta à cavalo , faz trocadilhos , bebe, come , dorme, escreve e só tem espírito para inventar extravagâncias, um nicho do Ego do qul se parte. Uma palavra desperta as idéias ; elas nascem, crescem e fermentam. Uma tragédia, uma crônica, um quadro, uma comédia mostram seus punhais, suas cores, seus contornos, seus gracejos. De repente, todas as fornalhas do cérebro estão acesas, o silêncio e a solidão abrem portas para assombrosas  possibilidades da linguagem : e essa ''trapaça '' salutar , essa esquiva vigorosa e impressionante, esses cortes transversais magníficos, essas linhas de espreita e deriva magníficas que nos permite ouvir o inaudível e ver o invisível na linha de minoração infinitesimal da escrita, é a única coisa que merece o nome de ''Literatura''. O resto é apenas Doxa , reprodução mecânica do sistema (.) ----, eu disse. Seguimos em frente. Em Milles City , de noite, fazia trinta graus negativos. 


Beach, Dakota do Norte.

O seguinte fragmento do diário : ''É a presença constante do escritor no comentarista intelectual que garante o sabor do conhecimento, a melíflua fruição literária das idéias com corpo ( do sujeito impuro das frases do diário ),  o texto corporal e vestimental dos emblemas últimos da consciência ''. Quando escrevo dispenso germes, uma espécie de semente que devolve o verbo à circulação geral das sementes. Não existe nenhuma regra positiva para se reconhecer os diversos graus de afinidade que se encontram entre os pensamentos favoritos de um poeta e as fantasias de suas composições. Ele vai, em espírito , através dos espaços e do tempo . Vai na noite de inverno amarga das planícies cobertas de neve , rodando até Terry e depois Glendive, Montana . Alguns passageiros tinham realmente aparecido somente nessa última parada em Montana, e logo estávamos em Beach, Dakota do Norte, numa noite melancólica, com uma lua fria. Por mais importante que seja o papel da lembrança, ela se apaga diante do imaginário. As coisas outrora observadas renascem no papel transfiguradas : em alguns casos eu tinha visto realmente o mundo, em outros a alma revelara-me o mundo como um Aleph . O mais exato pintor de Florença jamais estivera em Florença. Qualquer escritor pode descrever magnificamente bem as areias e palmeiras e miragens do deserto sem nunca ter ido de Dan ao Saara. Estava tudo explicado no Tratado da Vontade , o plano e o método operativo , assim como a sensação elétrica que Mesmer sempre sentia à aproximação das pessoas tinha sido a origem de suas descobertas sobre magnetismo. A ''anotação louca '' segundo a ''escrita flutuante ''. Pura constatação, sem nenhuma vibração de arrogância, de sentido ou de ideologia. Como uma sucessão de flashs .Mr. Koan ... historias enigmáticas ou incompletas, que não tem uma moral mas uma forte virtualidade de significação. Os mistérios de Ísis, de Delfos, na caverna de Trofônio . Iluminadas por essa claridade súbita, minhas idéias tomam proporções mais extensas, envolvem e acautelam a leitora. Diviso nas minhas anotações loucas verdades esparsas e as reúno ; depois, como um fundidor , organizo o bloco e aciono seu recurso de ensimesmamento poético, de gravidez das palavras. Contido incessantemente nessa expansão da consciência , o bloco de palavras mergulha em si mesmo, me fazendo parecer um escritor frio, dissimulado e furtivo ( a súbita revelação dos poderes da solidão, da energia psíquica que devora a si mesma e de si mesma renasce, incessantemente ).



Na negra meia-noite de Dakota, vergastada pelos ventos de Saskatchewan .

Em Medora,  o incalculável Missouri tinha escavado um desfiladeiro na rocha e ele era o coração das terras bravias. Eu tanto lera e meditara durante a viagem que ,  ao descer do ônibus, só conseguia conceber a vida em suas alturas metafísicas. Que terras ! (pensava) O que o Missouri não faz ?! Embora misteriosamente oculto nas minhas ocupações xamânicas primitivas, meu entusiasmo era o de um espírito metafísico dominado por sua necessidade central : suprimir as barreiras entre interior e exterior, nenhuma distinção entre a consciência ativa e a espontânea. O individualismo contra o universal do modelo estruturalista, o corpo contra o conceito , o prazer contra a seriedade acadêmica,  o diletantismo poético contra o cientificismo estéril. O oracular contra a cronologia. Rocha?? Aluviões ? Ou tínhamos grandes extensões congeladas, varridas por anônimos ventos de diamante , ou fundos desfiladeiros negros como carvão ,ou vales de Iowa ou deltas... ao invisível luar de neve nessa parte mais ao norte da América, as fantasmagóricas colinas rochosas cobertas de neve erguem-se em formas protuberantes e assombradas . .. charnecas ambíguas para a lei dos povoados vestir ... Medora era uma cidade assim  como Belfield, para dizer a verdade, e minha concepção de turismo permanecia um mistério cada vez mais insolúvel diante de tantas cidades iguais. O Grande Oeste americano que se estendia tão longe quanto Pasco , Washington, até lugares ao norte de Oshkosh , Nebraska. Talvez devido à minha aparência insignificante, alguém ali tenha me tomado por apenas um menino caindo de sono  ( o olhar fixo, imóvel e amuado ) ; mas imediatamente senti um perfume de mulher que reluziu em minha alma, como nela reluziram logo depois minhas frases abafadas: ----- O prazer dos textos literários clássicos (eu disse à ela) e o gozo direto dos textos radicais modernos. Os primeiros certamente mais ''legíveis '' (fruíveis e interpretáveis com maior estabilidade) mas os segundos indiscutivelmente ''escriptíveis '' por excelência, isto é , suscitadores de um outro tipo de escritura, como Ulisses e a Recherche. Quando Roland Barthes publicou Le Plasir du Texte , ele desagradou á muita gente ao mesmo tempo ; conseguiu atrair protestos dos mais variados campos, e mesmo politicamente opostos. Os marxistas o acusavam de ser um aristocrata, um individualista, ou solipsista moderno , ou apenas um alienado. Os estruturalistas e semiólogos cobravam dele a ausência de rigor científico , o abandono do método. Firmou-se então em opinião o que antes era suspeita : não se podia confiar em Barthes, não se podia ser barthesiano com tranquilidade, porque ele não parava nunca no mesmo lugar. Barthes se deslocava com um à-vontade despudorado, mas seus deslocamentos eram uma tática perfeitamente coerente com suas convicções fundamentais: essas sim permanentes (.) -----, eu diss.e  . Fitei minha interlocutora e me senti mais deslumbrado com ela do que já estivera com a paisagem à nossa volta até então . E assim mantinham-se meus pensamentos, que seguiam também assombrados pelas rochas e neves lunares do desfiladeiro de terras bravias. Os sentimentos brotavam confusamente do meu coração borbulhante, qualquer posição ideológica que se assumisse, era facilmente utilizado pelo sistema dominante. Os discursos se instalavam e ganhavam consistência ao se repetirem ( eu pensava ) por isso era preciso mante-lo sempre fresco e ativo, transitando pelos arranjos e circuitos de todo o espectro politicamente funcional, como uma graxa. Quando, perto de Dickinson , o ônibus lutava para manter-se na estrada sob uma nevasca baixa, meus olhos foram bruscamente tocados pela brancura das espáduas dela (espáduas ligeiramente rosadas que pareciam corar , como se se sentissem nuas pela primeira vez ). A dois quilômetros de Dickinson, a nevasca tornara-se impenetrável , e um engarrafamento quilométrico se formara na negra meia-noite de Dakota, vergastada pelos ventos de Saskatchewan .



Uma emergência que atingia a própria Dickinson

Era uma noite ártica tempestuosa e cortante, e eu pensava em casas à beira da estrada com famílias e café quente na mesa. O engarrafamento na neve era uma emergência que atingia a própria Dickinson . A cena além dos carros e das luzes era a própria Desolação, a camada de gelo da Groelândia na escuridão . Eu observava tudo impassivelmente, relendo a passagem dos palitos japoneses de Barthes pela milésima vez: ‘’O palito divide, separa, afasta, mordisca , ao invés de cortar e agarrar , como nossos talheres ; ele nunca violenta o alimento : desembaraça-o pouco a pouco (no caso das ervas) , ou então o desfaz (no caso dos peixes e mariscos )  reencontrando assim as fissuras naturais da matéria (nisso mais próximo do dedo primitivo do que a faca ) . Enfim , e esta é talvez sua mais bela função, o palito duplo translata o alimento, quer quando , cruzado como duas mãos , suporte e não mais pinça , ele se insinua sob o floco de arroz e o estende, o eleva até a boca da comensal , quer quando ( por um gesto milenar de todo o Oriente ) ele faz deslizar a neve alimentar da tijela aos lábios, como uma pazinha . Em todos esses usos, em todos esses gestos que implica, o palito se opõe à nossa faca (e a seu substituto predatório, o garfo ) : ele é o instrumento alimentar que se recusa a cortar , a aferrar , a mutilar, a furar (gestos muito limitados, recuados na preparação da cozinha : o peixeiro que esfola, sob nossos olhos , o salmão vivo, exorciza de uma vez por todas, num sacrifício preliminar , o assassinato do alimento ) ; pelo palito , o alimento não é mais uma presa que se violenta (carnes sobre as quais nos afincamos), mas uma substância harmoniosamente transferida ; ele transforma a matéria previamente dividida em alimento de pássaro , e o arroz em jorro de leite’’ . Finalmente (eu pensava, após a leitura) o motorista do ônibus, um homem bom e maníaco, pôde dar a partida e acelerar o motor a diesel . O ônibus com letreiro de ‘’Chicago ‘’ seguiu na frente, incerto em meio à nevasca . Dentro de alguns minutos, voltamos para o solo seco depois de horas de atribulação. Mas para mim foi um ‘’espetáculo ‘’ diferente, afastado como um sulco temporal na minha visão periférica. Depois aquele café cheio de gente e da excitação da madrugada de sexta-feira ---- principalmente por causa do engarrafamento provocado pela neve. O pensamento produzindo ressonâncias tumultuosas, ondulantes e inflamadas. Certamente, as idéias são sempre mais fortes que os fatos ; em caso contrário, o desejo seria menos belo que o prazer, e ele é mais poderoso, ele o gera.


Carona em Toledo até Detroit.

As mesmas ruas esqueléticas nas alvoradas sujas... novamente as metrópoles do Leste ; o primeiro tráfego dos carros ; a grande cidade entulhada se espalhando por todas as direções como um quebra-cabeças, com vias interditadas , maldições , vinganças e rixas , enigmas e maldições ; e por outro lado, com grandes avenidas, largas e desimpedidas, quase tão grandes como o ser. Mas dessa vez não parei para analisar a cena noturna agitada de Chicago no Loop ---- terra de vendedores de carros e de uma desolação fúnebre: o que mais podia fazer (?), pensava, além de pegar carona em Toledo até Detroit (ainda tive que andar cinco quilômetros até a auto-estrada ) . Nela, a noite aparecia novamente fundida ao Nada, vasta e convidativa ( unique montée des hommes , que le soleil des morts ne peut assombrir dons l ´infini parfait et burlesque). Peguei carona para Detroit à tarde ----- parfait et burlesque (par la vertu de la vie obstiné, dans la boucle du Temps artiste, entre la mort et la beauté).

KM