ANTONIO CORPORA SOB O SIGNO DO FOGO
Acho que jamais teria usado um automóvel em Roma se não fosse por Daiana e Antonio Corpora; se não fosse por Corpora, Daiana teria ''sonhado com um Império'' diferente do meu e eu não teria, consequentemente, escrito minha ''Carta a Corpora''; pois ela tinha sede de mitos e monumentos históricos, e eu: do despontar de novíssimas combinações cromáticas, de novíssimas pulsações de ritmos e do aperfeiçoamento do processo de planificação; do ''gesto'' sempre presente, mas circunscrito a um mínimo de ataque direto. O resultado final disto, claro, só poderia ser um diálogo, e a surpresa que aquele logos feito dois provocou em nós nos fez perceber de imediato o quanto era raro (longe da insignificância expressiva de Hemingway) : duas vozes quase marcianas, num lugar totalmente marciano; uma vez que o Quirinal de Roma se deriva de Quirino, nome sabino do deus Marte, que desde tempos remotos já era venerado nesta colina; ao final da República foi identificado com Rômulo, filho de Marte, o deus da guerra. Era isso que atingia à mim e à Daiana primeiramente, naquele momento: o imenso Palácio do Quirinal, iniciado por Gregório XIII em 1574, foi até 1870 acasa de veraneio dos papas; antes da República romana, a residência do rei; e hoje é a moradia do Presidente da República. Encontram-se nele obras de Maderno, Bernini, Reni, Giulio Romano, etc... ----- Tive que abandonar temporariamente o laboratório dos mitos para escrever minha ''Carta'' à Antonio Corpora (.) ------, disse à Daiana, parando o carro nas Quattro Fontane, com o quádruplo fundo de Porta Pia e dos três obeliscos de Esquilino, do Quirinal e do Pincio; em seus respectivos ângulos, as quatro fontes representam o Tiber, o Aniene, a Fidelidade e a Força. Continuei: ---- Segundo uma velha e lúcida fórmula francesa: ''Le classicisme est le romantisme dompté(.)'' ; e eu diria paralelamente que a pintura de Corpora, atravessada pelo raio criador do Fogo , implica o ''gesto'' domado; é claro que compreendemos o apelo do artista a dados de permanência, com rejeição , por livre escolha, de certas rubricas pasteurizadas como ''ultra'', ''post'' ou ''neo''. Mas uma tal depuração de meios não é coisa simples de ser conquistada, apenas através de um poderoso auto-controle crítico isto se torna possível: sob o signo do Fogo que, destruindo a escória dos motivos ulteriores, conserva o que tem probabilidade de subsistir dentro dele, separando o essencial do efêmero, oportunista e provisório (.) ----, eu e Daiana andávamos pela Via delle Quattro Fontane como dois apaches, numa atitude muito antiga que, graças às três grandes direções do ''diálogo'' romanesco moderno (representadas por André Malraux, Henry James e Kafka) tomava a forma artística de uma atitude de discussão: --- Como pode o artista realizar uma tal operação (?) (ela indagava) : somente pela maestria da técnica (?), pela simbiose da razão e dos sentidos (?) --, de fato, eu não era Sócrates; não era o homem seguro a quem bastava falar para chegar a um acordo: -- Talvez mais pelo princípio da sabedoria segundo o qual a imaginação possui também uma medida , a chave de matemáticas secretas a serem decifradas(: a INTELIGÊNCIA, Daiana, não mais a RAZÃO: qualquer que seja a aptidão da crítica para simplificar aquilo que lhe escapa, é preciso notar discretamente (para não ofender ninguém) que a palavra INTELIGÊNCIA, colocada no lugar da palavra RAZÃO, afasta-nos muito de Sócrates e nos aproxima de Nietzsche; pois ao contrário da RAZÃO, a INTELIGÊNCIA se interessa por tudo, e ergue pontes entre tudo: entre os mundos ocultos e os artistas complexos, entre os filósofos difíceis e as civilizações luminosas, entre os fragmentos de civilizações obscuras e os esboços de realizações modernas, etc... tudo pertence à INTELIGÊNCIA e tudo lhe importa. Ela é o interesse universal que compreende tudo apaixonadamente, pondo tudo em relação com tudo. E pôr tudo em relação com tudo não é tarefa para amadores.
Carta
Mallarmé também nos propunha um ambiente ''que l´air charge / De vue et non de visions (.) ''. Esta distinção entre ''vue'' e ''visions'', aplicada ao caso de vossa pintura, revela que vosso espírito nunca fora passivo; mas que teus quadros são ''chargé de vue'', pelo contato que soubeste estabelecer entre a vista e a matéria. Em vós o método da investigação poética da matéria submetida ao exame do olho ---- essa mão do espírito -, atinge um grau de lucidez tal que vos converte em aguda testemunha visiva do tempo.
MEDIDA DE RIGOR INICIÁTICO
Dafne era uma mão treinada, por assim dizer: ----- Vai ficar tudo azul (escreveu ela no MANUSCRITO), tenho fé no azul... está tudo se lavando (.)
?
Para Des Moines e (por extensão) para mim, Dafne e Ariels, as letras bulbosas das pichações no porão de Trastevere, suas afirmações orgulhosas de filiações a gangues de imigrantes, exprimiam uma pretensão à importância que era pateticamente desproporcional à realidade de seus autores: jamais haviam ouvido nomes como Céline, Giotto, Dorazio, etc... Teriam de lutar muito para chegar àquelas alturas, e como poderiam, quando se vissem face a face com a obra deles, saber ou entender o que havia produzido aquilo ? Que relação tinha aquilo com eles? Em se tratando de um ser sensível, quando entrassem em contato com a obra madura dos mestres europeus, já estariam todos meio enlouquecidos. A maioria dos jovens realmente talentosos que encontrávamos naquele porão me passavam a impressão de serem um tanto dementes: ------ E porque não seriam (?) ---, questionava-nos Des Moines. De fato, aqueles jovens haviam crescido em meio à famílias de baratas espirituais, vivendo como maníacos por comida, bebida e viagens turísticas amenas evazias; trabalhando em meio à comerciantes de sucesso e inovadores de aparelhinhos, aprendendo a invejar os mastins da publicidade. Mergulhados no lodaçal de pseudo-impiedade da revolta pré-adolescente, aqueles rapazes perdidos proclamavam sua identidade desfigurando a propriedade privada pelas ruas de Roma. - Seus únicos domínios legais (continuou Des Moines) não se estendem por um centímetro além de suas próprias peles, e cujas magras posses de ossos estão todas a vista. A única alegria dessa gente consiste em desafiar a lei um pouquinho: suas vozes espalhafatosas e excêntricas manifestam o mero prazer da camaradagem de esquerda entre vizinhos, a abundante atenção mútua daqueles que têm pouco a fazer na vida e nenhum lugar interessante para para ir (.) ------ , na verdade, eu particularmente só conhecia dois que tinham conseguido chegar ao topo ---- digo: Hollywood -, o que equivale dizer o topo da lona de circo: outro dia mesmo, voltando da Casa della Fornarina, onde acredita-se tenha vivido a bela amante de Rafael, eu conversava com um deles; era um sujeito que anos antes havia matado um bezerro no campo da Toscana com um martelo e arrastado-o para casa a fim de não morrer de fome. Quando passávamos pela Ponte Sisto, ele me contou sua história: tornara-se um jovem escritor e roteirista e seu editor o havia empregado como faz-tudo em sua casa. Trabalhava catorze horas por dia digitando textos, registrando livros, despachando pacotes, indo ao banco, respondendo e-mails, varrendo cinzas de charutos, dirigindo os carros da família, etc. O editor dele, rico como Creso, sempre o homenageava como gênio, mas dizia que seria bom para o rapaz um pouco de trabalho honesto.
VOCÊ ACORDA EM VILLA SCIARRA...
Abro a janela do terceiro andar e vejo um exército de pombos pretos explorando em arcos rápidos e nervosos o meio invisível que os sustenta. A tarefa do dia pairava no ar acima do meu rosto sonolento como uma teia com uma aranha imóvel no centro. Foi como acordar com o nariz e a boca obstruídos por uma grande vagina lacrimejante cor de salmão; inconscientemente, eu estendia esta observação às últimas obras de Piero Dorazio, cujo processo estético era organicamente vivo: ele inventava anagramas de cor e localidade. Na Casa do Trastevere também era assim: você acorda em Santa Maria dei Sette Dolori, cor de não sei o quê; você acorda em Santa Maria della Scala; você acorda em Sant´Egidio; você acorda na Torre delli Anguillara. Acorda entre as quatro e as cinco da manhã, procurando os cigarros, com um gosto de terror na boca, seca por ter respirado por ela enquanto tinha pesadelos com explosões e tiros. A maior parte do barulho que um tiro de revólver produz é resultado da expansão de gases, e há também o pequeno estrondo sônico que a bala causa por viajar em grande velocidade. ------ Já no primeiro século islâmico (Des Moines nos explicara ontem à noite) o hadith Al- Hasan al-Basri, dizia: ''O fiel acorda aflito e vai para a cama aflito, e isso é tudo o que o envolve, porque está entre duas coisas terríveis: o pecado que passou, e não sabe o que Deus vai fazer com ele, e o tempo que lhe resta na Terra, e não sabe que desastres se abaterão sobre ele(.) '' ----, meus sonhos, na Casa do Trastevere, eram sinistros, impregnados da miséria do mundo que líamos no New York Times, no Wall Street Journal e assistíamos pela Al Jazeera. Algum membro do Movimento sempre largava os exemplares antigos no porão ou líamos na internet e, como se já não bastassem o Presidente Putin, a Síria, Donald Trump e as tragédias domésticas americanas no Queens e no Brooklyn ------- infanticídios que tinham como vítimas bebês de dois, três, quatro anos, tão pequenos que se reagissem pareceria uma blasfêmia contra Deus ------, entre as oito e as nove da manhã, enquanto coava o café e Daiana se revirava na cama sonhando com seu queijo quente girando dentro do micro-ondas, a toda hora eu passava pela frente da televisão da cozinha e assistia um pouco do noticiário local e aos debates entre jornalistas europeus; ficava assistindo até que os intervalos comerciais, todos já vistos repetidamente inúmeras vezes, me entediavam tanto que eu desligava aquele aparelho idiota. Você acorda em Vicolo del Piede, que começa na Piazza di Santa Maria, uma ruazinha estreita cheia de mesas e restaurantes, rezando para que, se alguma coisa tiver que explodir, seja em San Crisogono e não aqui do lado de mim, dividindo o café da manhã com o cadáver da minha juventude. Não sei mais como começa isso, mas esse início já é bem bom: Você está andando na Via della Lungaretta com um cigarro na boca e olheiras fundas: Começa com o guano, uma caixinha preta cheia de bonecos do Profeta. Começa no terreno baldio nos arredores da Via di San Cosimato: como fedor de produtos químicos no porão de Trastevere: esperanças perdidas, promessas mofadas, gente jovem falando a todo minuto e poços de petróleo brotando no mar distante enquanto o preço do barril despenca. O programa de defesa dos exércitos e uma frota de barcos metálicos desconhecidos. Começa em qualquer ponto do deserto de negra miséria do mundo, com o medo e a repulsa se debatendo dentro de você, como se fosse o resultado de fettuccine azedo de uma cantina italiana ------ o dobro da comida necessária, como servem hoje em dia. Opressão e monotonia. Giulio Carlo Argan dizia que a pintura de Piero Dorazio tendia a desenvolver nossa capacidade de avaliação estética de qualquer fenômeno, nossa aptidão a considerar rigorosamente os valores estéticos, orientando a atividade de nossa consciência em uma direção que fosse ''também '' estética. Você acorda em Paris e toma consciência de seu novo ofício. Nova York acrescenta-lhe a dimensão de extrema modernidade. A Alemanha está em busca de um novo filão na pintura contemporânea e acolhe-o para discutir sua ''problemática''. Começa com dínamos norte-coreanos girando a todo vapor sob o oceano. Ponha o ''Homem ao Piano'' de Zenoshano bolso de Des Moines e dêm-lhe um baseado aceso para ver o que acontece. Ponha os 600.000 mortos da Síria estendidos no pavimento de asfalto e recolha o dinheiro do seguro. Telefone para Donald Trump e dê parabéns a ele pela vitória: diga que ele perderá as eleições. Provoque-o: diga que sua única chance é o avanço do terrorismo. Elogie a Rússia. Diga que Bush filho foi o único capaz de peitar a Rússia e que isso não voltará a acontecer nunca mais. Compre seis Packards e uma sala de cinema pornô em Tokyo. Limpe todas as pistolas automáticas da casa com um limpador de cachimbos. Gire o botão da rádio até encontrar a nova música do Aerosmith. O pavor fechará a porta que o levaria de volta ao sono, ao lado de Daiana, com uma consciência, mais nítida a cada dia, de que tudo que resta ao seu corpo na Terra é manter seu panamá limpinho e sua calça jeans bem passada. Você acorda em Valle Giulia: um quadro de Piero Dorazio é outro quadro de Piero Dorazio passado a limpo, uma operação de progresso crítico. A alegria da Arte consiste em fazer e refazer o universo visivo posto à disposição da leitora. Na cama, Daiana emite um excesso de calor através da gordura que ganhou nas cantinas do bairro no último mês: --- Acho que estou comendo macarrão demais (.) ---, ela diz, entre o sonho e a vigília, respirando de modo claramente audível ao meu lado, um ronco discreto e incansável que prolonga, na inconsciência, seu monólogo cotidiano, sua falação constante. Você acorda em Santa Mônica (EUA), superando o sol negro da melancolia que havia suspenso Gerard de Nerval no meio da rua na noite de seu suicídio, em Paris. Quando, num acesso de fúria reprimida, eu a cutuco com o cotovelo, e delicadamente pouso a mão numa de suas nádegas desnudas onde a camisola se levantou; ela se cala, dócil, e então temo tê-la acordado de novo. Tudo que desejo é alçá-la novamente para o nível de sono em que sua respiração pare de fazer seu nariz vibrar. Você acorda numa balsa, flutuando sobre o Tevere, certo de que lembrou de comprar chicletes, o que adoçará seu hálito irresistivelmente. Você começa com qualquer coisa, sendo qualquer coisa, dizendo qualquer coisa... porque é tudo loucura mesmo e ninguém vai saber a diferença. Uma voz a mais, uma voz a menos, não impedirão o Natal de vir mais cedo esse ano por causa da Guerra Nuclear. No ano que vem você ganhará uma nova perna de platina, a menos que o governo de Donald Trump determine que todo o suprimento de platina do mundo é exclusivamente para as asas dos aviões da Força Aérea americana. Você canta a sua canção e dança com sua namorada, pois o tempo é curto. A realidade é inesgotável. Aliás, parece-me útil, como introdução a este texto, lembrar que no processo intentado neste ´seculo excluíram este dado básico: ''A realidade é inesgotável''. O biólogo Haldane também escreveu a respeito: ''A realidade, não é só mais fantástica do que pensamos, é mais fantástica do que podemos imaginar(.)''. Mesmo assim, comprar pacotes turísticos para percorrer a Inglaterra não vai ajudar manter vivo mais nenhum menino hindu. Você acorda em Bagdá: quando desferir golpes de baioneta, lembrem-se de procurar sempre as partes moles, nunca o osso, a cartilagem ou os tendões. Se você é um bombardeador, certifique-se de que os para-quedas estão todos em ordem. Mas se estiver entediado, busque o bombardeio de Chungking no Youtube : é bem bonito, apesar do barulho e da fumaça. Se você é um homem-bomba, ora, relaxe! Claro, tanto faz quem é você, todos só desejam certificar-se de que seus alvos serão atingidos. Se as pessoas a sua volta começarem a gritar de dor e terror antes da hora, vocês taparão os ouvidos e pensarão consigo mesmos: ''É só o inimigo berrando (.)''. Você acorda em El Paso, trabalhando com ''recursos humanos'' para o Exército dos Estados Unidos: primeira vez que você se vê aconselhando jovens, antes que os fatos objetivos de sua carreira o façam sentir-se preso numa armadilha, dentro de um ''curriculum vitae'' tão apertado quanto um caixão. Você se pergunta: ------ Este será um bom ano para os empresários da América (?) ---, e qualquer que seja a resposta, a idéia não lhe soa nem um pouco consoladora. O ar negro do porão de Trastevere torna-se irrespirável. No terceiro andar, Daiana se vira na cama, como um cadáver numa câmara ardente numa cerimônia católica. Você acorda no Vaticano. Na Praça de São Pedro se levanta majestosamente o maior templo de toda a cristandade: a Basílica Vaticano. Emoção? A primeira bolinha branca é a careca de um arcebispo. A segunda, talvez seja o próprio Papa. Você fica parado entre essas duas projeções fantasmagóricas porque seus olhos estão fervendo por causa das lâmpadas de xenônio que estão te cegando enquanto você olha diretamente para elas, achando que encontrou a face de Deus. No método do artista abstrato, encontramos uma concepção paralela a esta: é o resultado de um longo processo de decantação de elementos. Você acorda em Villa Sciarra...
SEMPRE TRABALHANDO...
Por um momento, tal como o primeiro gole de uísque antes que o gelo derreta, a nova disposição torna as circunstâncias favoráveis. Como os lençóis são ruidosos! Onda a se quebrar rente ao ouvido. A escuridão da noite, encapsulada pelo silêncio das árvores em volta, desperta o ouvido interno, e eu VEJO TUDO. Deitado de barriga para cima, ostento a tranquilidade de um morto, até que a tampa do meu corpo físico, como um caixão, se abre a poucos centímetros acima do nariz. O universo e suas engrenagens ocultas se encaixam, e Deus se torna minha visão, minha audição, minha mão e minha língua. Para perceber o pensamento espião, eu não preciso mais repetir o nome de Allah, a não ser em sonhos, ajudado pelo Profeta. O Trastevere inteiro está em silêncio ----- o tráfego matinal ainda não começou, e os motoristas noturnos, com canos de escapes barulhentos, finalmente foram se deitar. Particularmente, eu nunca fui uma pessoa impressionável. O Profeta me havia ensinado a desmontar o universo inteiro dentro da mente como se ele fosse um relógio suíço. Nos primeiros cinco segundos de Samadhi, era como se Salvador Dalí tivesse coberto dez ou vinte centímetros da tela. Ouço um caminhão solitário mudando de marcha num sinal de trânsito a um quarteirão dali e, a um distância de dois cômodos, um movimento inquieto de patas macias. Em seu cativeiro (a Casa), a gata Caramela passa a maior parte do dia debaixo da minha cama, e à noite sofre alucinações com as aventuras de gatos selvagens da rua que eu jamais a deixarei experimentar. Cinco minutos: agora há uma bela chama de energia psíquica queimando meus olhos, bem levantada no meio de tudo no meu espírito. Tão desolado é o panorama sensorial dessas horas da noite, que os ruídos abafados da gata enlouquecida me tranquilizam o bastante para que minha mente, baixando a guarda por um milésimo de segundo, mergulha totalmente no esplendor da chama acima do meu nariz. Já no terceiro século islâmico (IX d. C.), al-Muhasibi descrevia o autêntico guerreiro de Allah no fim da estrada espiritual vendo Deus bem diante de si ------ como o viam todos os homens no momento da Grande Aliança ------- de tal modo que os atributos d´Ele substituíam os seus, e sua existência individual desaparecia, ainda que por um momento apenas. Quando a fortaleza da solidão se misturava ao secreto intercurso com o Indescritível , e o júbilo esplendoroso desse intercurso assoberbava a mente, ela não mais se ligava à este mundo e ao que ele continha. Quarenta minutos: sou arrancado do Samadhi e fagocitado de volta à cama pela minha bexiga cheia, e torno-me novamente exposto ao nível mais baixo da manifestação, à consciência de que minha vida, no estado ordinário de consciência, não passa de uma mancha supérflua, um equívoco prolongado imposto às labaredas indomáveis do Fogo divino. Na selva escura do mundo, minha vida se desvia do caminho reto do Samadhi. Mas principalmente depois de quebrar o recorde da semana em termos de meditação, trago comigo da minha viagem noturna ao Paraíso Invisível, insights inteiros, longas cadeias de sinapses previamente conectadas como numa supermolécula, que mais tarde tentarei engaiolar dentro de palavras com um tinteiro musical. De fato, eu era um artista até a raíz dos cabelos. Tinha percebido isso ao me comparar à Salvador Dalí: '' Cantando a ânsia da estátua que perseguia sem trégua, o temor à comoção que aguardava na rua. Cantando a sereiinha do mar que para mim cantava, montada em bicicletas de corações e conchas''. Salvador Dalí também estava sempre trabalhando. Trabalhava incansavelmente, como um louco. Quando parava de trabalhar, ele não era nada, nem um pano de prato do qual se pudesse torcer uma gota dágua. Eu mal notava as pessoas na Casa do Trastevere quando estava escrevendo ou pintando. Esforçava-me sobretudo para que os canais de tv e os jornais do mundo não monopolizassem a interpretação da realidade, e apelava em preces para que Allah ajudasse os homens de ciência no sentido de realizarem pesquisas que ajudassem o desenvolvimento da Arte a alcançar a Quarta Dimensão Vertical. O Fogo! Para mim, não fazia diferença o lugar onde eu estava; podia trabalhar até no Pólo Norte que, se estivesse conectado à internet, meu Império conceitual seguiria se expandindo em todas as direções do globo. Às vezes, interrompia o trabalho subitamente e ia comer uma fatia de melancia com grattachescca (mistura de xarope com gelo picado) na vialle de Trastevere. Ou tomava apenas um café expresso e voltava fumando para Casa, sem conversar ou olhar para ninguém. Nunca acontecia nada, ao contrário do que todos prometiam naquele porão, noite após noite. Falava-se de tudo, todos ficavam incrivelmente animados, e pela manhã descobríamos que nada tinha sido resolvido ainda na realidade. Nesses dias, Zenosha gostava de citar a passagem de um livro encontrado no porão, de alguém chamado Werner Heisenberg: ''As fórmulas matemáticas não representam mais a natureza, mas o conhecimento que temos dela; isto quer dizer que renunciamos à descrição da natureza (.) ''. ------ Ótimo (!) -------, alguém sempre respondia, rindo. Muitas garotas tatuadas ficavam só de calcinha e sutiã e bebiam Coca-cola à minha volta enquanto eu trabalhava. Levantava às vezes e ia à janela olhar a ruela, as libélulas, os comerciantes e moscas zunindo acima de suas cabeças. Ouvia John Coltrane no café da manhã e Count Basie no almoço. À tardinha, tomava gim fizz ou scotch, para aguentar alguns minutos de conversa, preguiça e vadiagem. Depois, voltava ao trabalho e parecia grudado à mesa: buscava organizar meu universo próprio estabelecendo limites por meio de perfurações filosóficas ou místicas e, mais tarde, por meio de collages operatórias (espaços móveis entre os parágrafos, com criações verbais geométricas não-euclidianas nascendo dessas combinações inéditas, atingindo por vezes um grau de absoluta pureza diamantina, como Rimbaud). Mas quando alguém se sentava à mesa comigo, sobretudo as garotas mais novas, considerava que era meu dever tentar diverti-las. Apenas Des Moines tinha dificuldades de rir de minhas palhaçadas: ele não queria ser louco daquele jeito; e (pensando bem) as outras pessoas também não. Na história simplificada que eu ensinava àquelas meninas, para quem era difícil aceitar que o mundo não tinha começado no momento em que elas nasceram e em que a internet se alastrou, até mesmo os maiores dos grandes homens terminavam em nada perto do Profeta: numa sepultura, sem terem conseguido realizar suas visões e deixando dúvidas sobre a imortalidade de suas almas no outro mundo ------- Carlos Magno, Carlos V, Napoleão, ou a figura indizível, de certo modo bem sucedida e, ao menos no mundo árabe, ainda um pouco admirada, de Adolf Hitler. - A História é uma máquina que constantemente reduz a Humanidade a pó (.) ----, eu dizia à elas, rindo muito, o que precipitava o assunto numa espécie de cacofonia de comunicação frustrada. Eu me via, então, como uma figura tragi-cômica que lembrava vagamente Antonin Artaud, pouca coisa mais velho que elas, numa praia de ossos literários, a gritar em sonhos para uma frota de jovens que partiam em direção ao lodaçal fatal do mundo: esgotamento de recursos naturais, liberdades políticas e individuais em declínio, anúncios impiedosos a afirmar uma cultura pop demente, emporcalhando , da música das rádios às universidades e moças absurdamente magras e atléticas. Então eu olhava para Des Moines e ria, ria ria... e dizia que aperfeiçoar nossa energia espiritual (nesse ponto, infelizmente, elas já não me levavam a sério) era uma das leis máximas do Islã, assim como da verdadeira Arte: --Seja qual for o avanço do muçulmano na estrada mística, deve-se observar suas ordens com total sinceridade(: dentro da sóbria tradição sunita, o senso que se adquire da esmagadora Grandeza e Poder de Deus não está muito longe do de um teólogo como al-Ash´ari, para quem tanto o poder de agir quanto o de criar vem de Deus, e o fiel pode esperar confiante pela sua Orientação (.) em ambos há um belíssimo senso da incursão do divino na vida humana, de uma inescrutável Providência modelando as vidas humanas à sua maneira (.) os Mestres Sufis tentavam expressar a inebriante e inexprimível experiência de Deus numa linguagem exaltada e colorida, como no Colóquio dos Pássaros, de Attar, mas sempre acabavam provocando alguma oposição (: começa-se por querer filmar o interior de nosso cérebro, depois o da alma, depois o do Fogo do Espírito Santo, e então você se torna louca e perigosamente criativo: Ressuscitar em Allah também quer dizer alargar a óptica do Invisível, aprendendo a testemunhar e discernir o que é presença e o que é ausência de Deus (.) -----, eu dizia, agora sem rir. Quando elas cansavam de me ouvir, desciam em fila indiana para o porão, onde haviam montado um estúdio, e me desenhavam falando naquela mesa em sessenta atitudes diferentes. Eram como mineiras que desciam em um poço profundo, para escavar ouro. De vez em quando, encontravam um pepita e voltavam à sala para me mostrar. Então eu lhes dizia: ----- Num verdadeiro artista a fantasia constitui uma lúcida exigência técnica, a própria base do trabalho, e não um mero apêndice ornamental como se vê nas galerias de arte contemporânea do mundo atual(: '' C´est bon d´enfoucher un dada, mais ne pas croire que ce soit Pégase (.) '', nos dizia Bonnard. Assim, torna-se possível evitar qualquer desvio hiperbólico inútil; tal simplicidade nada tem de simples, é o resultado extremo da transmutação de complexos valores inventivos em valores espirituais. Dividir o espaço em harmonia com a coesão interna advinda de Deus(.)
VERDE-ÁCIDO...
------ Marco Polo tinha dezessete anos quando partiu de Veneza com seus tios. Dezessete anos depois, voltou à Veneza em farrapos. Quase imediatamente depois disso se alistou na guerra contra Gênova, foi feito prisioneiro e, durante seu encarceramento, escreveu o livro que imortalizou sua viagem. Curioso, hein (?) ----, eu disse à Des Moines: o azul do cartaz de ''La Dolce Vita'', no Azurro Scipioni, era o único toque enfático de cor naquele panorama pré-alvorada. Ele não soube me explicar de maneira convincente como tinha se tornado assessor do secretário de Segurança Interna de Roma, um daqueles patetas católicos de direita com um sobrenome alemão (Hildburghausen ou coisa que o valha) e um sobrenome italiano (Palazzeschi ou coisa que o valha). ------- Ontem ele disse que ia elevar o nível de terror da cidade verde-ácido para amarelo-urânio (.) ------, Des Moines disse, rindo. ------ A palavra psiquiatra (retruquei, rindo também) assusta todo mundo que não é rico... certo (?) Pense um pouco em Marco Polo, é o que eu lhe recomendo neste momento; pense em como ele deve ter se sentido, trancado numa masmorra como estava, após ter vivido um sonho de esplendor e magnificência : Pense em Balboa, Colombo, Américo Vespúcio (!) Homens que sonharam e depois realizaram seus sonhos. Homens cheios de deslumbramento, de anseios e de êxtases. Navegando direto para o desconhecido e terminando por encontrá-lo, ou morrendo de fome no meio de uma miragem: Cortês, Ponce de Leon, De Soto (!) Loucos sonhadores fanáticos em busca do indescritível (!) Do milagre (!) Assassinando, estuprando, saqueando. A Fonte da Juventude.... hein (?) Ouro. Deuses. Impérios (!!) Sim, mas também febre, fome, sede, fezes, cadeias, flechas envenenadas, miragens e morte violenta.... semeando o ódio e o medo por onde passavam, como uma epidemia: espalhando sua ganância, sua inveja, sua malícia, sua inquietação, sua força (.) ------, acho que essa foi a primeira vez que consegui fazer Des Moines rir de mim com sinceridade na vida. Ele tinha seus motivos: o que começara com a terceira sura do Alcorão e bonecos de nitroglicerina e sal de Epsom, rapidamente evoluíra para um inacreditável esquema de burla do relatório de atividades financeiras suspeitas da Europa e dos Estados Unidos. ------ O cara da equipe de segurança da prefeitura me explicou tudo, voce deve ter conhecido ele no Porão: trouxe o dinheiro à bordo do avião usando a documentação falsa do empregado de uma firma de transferência de dinheiro que perdeu o acesso ao sistema bancário internacional. Durante o vôo , a senha era chamar as aeromoças de ''Garçonetes Espaciais''. Depois de chegar à Dubai, ele entrou com o dinheiro numa rede obscura de empréstimos que está espalhada pelo leste da África e no Oriente Médio inteiro. E voltou com malas de dinheiro vivo (.) -------, passávamos por uma igreja, naquele momento: os vitrais, que sacrilegamente ousavam atribuir a Deus um rosto, ficaram subitamente enegrecidos quando Des Moines acabou de falar... ou talvez fossem apenas as décadas de fuligem industrial de Roma, ou o simples acréscimos de grades protetoras, o que os tornavam ainda menos compreensíveis , ainda mais sacrílegos. ------ Os católicos e sua religião monótona (eu disse, não conseguia mais parar de rir ) com seus corais premiados, tão ilusórios quanto o transe aparvalhado do candomblé brasileiro (.) -----, minha resposta havia sido rápida e inteligente, na tentativa de cortar a onda de adrenalina que tinha inundado o corpo de Des Moines. Olhei para ele: parecia estar se liquefazendo por dentro, desconfiado de que diante de mim, seu rosto estivesse vergonhosamente paralisado de medo; porém, havia também traços de uma certa beatitude em sua fisionomia, de quem enfrenta um inimigo infinitamente superior em armas. --- A Corrida do Ouro. O Estouro da Boiada. O Porco Gadareno. (eu disse) A continuação da pilhagem universal pelos Estados Unidos da América... certo (?) E agora, o que resta de toda essa merda além da promessa de eterna recessão mundial (?) A caça ao tesouro terminou, Des Moines. Toda a riqueza da Terra foi acumulada e concentrada nas mãos de uns poucos, e apodrecerá nessas mesmas mãos, sem utilidade para nada nem ninguém, nem mesmo para aqueles que o possuem. Mas basta entoar a frase mágica que a plenitude da Terra volta a se abrir diante de nós: ''Quando Marco Polo foi para o Oriente (...) ''. Nossa imaginação se afoga antes mesmo que a frase termine... certo (?) ÁSIA (!!) Apenas essa palavra e a mente do ser humano estremece. Marco Polo nos fornece milhares de detalhes magníficos, mas, somados, são ainda como uma gota num balde. Independentemente do que o Ocidente possa ter conquistado, dos milagres que criou, a palavra ''Ásia'' enche nossa memória com algo esmagador e incomparável. Profetas, estudiosos, sábios, iniciados, sonhadores lúcidos, loucos, fanaticos, tiranos, imperadores, conquistadores, todos eles maiores do que a Europa e os Estados Unidos jamais conheceram igual. Religiões, filosofias, templos, palácios, muralhas, fortalezas, livros, pinturas, tapeçarias, jóias, músicas, mulheres, drogas, bebidas, incensos, roupas, modas, artes culinárias, marciais, medicinais, espirituais, metais preciosos e grandes invenções, grandes línguas, grandes cosmogonias, TUDO VEIO DA ÁSIA. Até mesmo as estrelas vieram da Ásia. Deuses e semideuses, milhares deles. Deuses-homens. Avatares. Precursores. Civilizadores. Eu mesmo vim da Ásia. Da Ásia eternamente inspirada e insuperável. Se no ´seculo XIII ela era como um grandioso sonho dourado, hoje em dia ela o é ainda mais (!) Ásia inexaurível, borbulhante (!) Existe a Mongólia, existe o Tibet, existe a China, existe a Índia... e existe a Coréia do Norte. Mesmo hoje em dia, nossa concepção desses lugares, das pessoas que as ocupam, do tipo de sabedoria que possuem, do espírito diário que as anima, de suas lutas, de seus objetivos e realizações, é quase nula. Nossos aventureiros se perdem por lá como criancinhas sem pais; nossos estudiosos se confundem com o que lá encontram; nossos evangelistas, jornalistas, políticos, fanáticos e beatos lá se reduzem a nulidades risíveis; nossas máquinas lá parecem fracas e insignificantes , nossos exércitos lá são engolidos como sanduíches do Mc´Donalds. Vasta, multiforme, resistente, imperecível, poliglota, ora alerta, ora ameaçadora, sempre misteriosa, a Ásia apequena o resto do mundo. Somos como insetos de asas esfacelantes tentando lidar com tempestades radioativas gigantescas. (.) -----, aqui e ali, enquanto eu e Des Moines caminhávamos na viale de Trastevere, voltando para Casa, uma luz fraca aquecia a janela de um quarto de criança ou patamar de escada. Na penumbra, sob a cúpula reluzente de uma escuridão contaminada pela corrupção das luzes da cidade, os ângulos dos beirais, ripas e fachadas recuavam em direção ao infinito, ponteado pelos carros estacionados na rua. -----Impressionante como as necessidades do automóvel se tornaram decisivas para o urbanismo moderno (: todas essas árvores, cujas folhas formam essa penugem prateada à luz dos postes, correm o risco de serem arrancadas na próxima onda de alargamento de ruas (.) ----, Des Moines disse. ---- Ou no próximo atentado terrorista (respondi, rindo: As unidades habitacionais de preço acessível também estão diminuindo, como pedaços de papel repetidamente dobrados; e os armazéns das esquinas também foram sumindo, engolidos por franquias com decoração padronizada, de um mau gosto insuportavelmente alegre (.) O país inteiro está ficando coberto de gordura , poluição e asfalto, e as pessoas vivem como lesmas grudadas a essa camada(.) Acredita que aqueles fanáticos da Al- Qaeda que pilotaram os aviões que derrubaram o World Trade Center tinham uma formação técnica excepcional (?) Aliás, o chefe da gangue tinha se formado em planejamento urbano na Alemanha (.) ----, eu disse. --- Sério (?) Ele devia ter vindo fazer o planejamento da reforma da viale de Trastevere(.) Teria ficado ótimo (.) ----, quando finalmente chegamos na porta de Casa, pensei que Des Moines ia querer descer até o porão para fazer sua a recontagem de bonecos do Profeta do dia, ou procurar um daqueles livros de sufismo em árabe dos quais lia ó as trinta primeiras páginas e largava, ou fazer café, ou assistir aos noticiários da manhã, em que os jornalistas brincam uns com os outros e jogam conversa fora só para limpar a garganta. Mas não: ele se despediu de mim friamente e ficou ali parado na porta, fumando seu cigarro, mergulhando a cabeça esvaziada pelo passeio (cansada demais para pensar) na paisagem sub-lunar do Trastevere.
O POETA E O PORTEIRO
Eu era uma pessoa mais positiva e enérgica do que Des Moines (pensava) e certamente daria algum uso mais criativo àquelas horas iniciais da manhã, antes que Daiana acordasse. O Porão? Não: nem vale a pena descer lá agora, só encontraria os restos mortais de alguma orgia adolescente, a visão de uma camisinha que parecia uma água viva morta boiando na privada. Vou até a porta da frente, segurando minha caneca de café, e Des Moines não está mais lá. Do outro lado da rua, o porteiro do prédio em frente franze a sobrancelha pra mim à distância. Seus olhos dizem: esse cara vive flertando com as empregadas que trabalham nos últimos andares. Todas as noites (ele tem razão, afinal) enquanto entro em casa carregado de pacotes e sacolas de compras. ''Capogrossi, Cosangra, Corpora, Afro, Dorazio, Franchina, Santomaso, Scialoja, Turcato, Vedova, para citar apenas a qualhada da nata'', penso. ''Muitos jovens tentam impressionar o mundo comprando um monte de coisas que carregam em sacolas (.) '', o porteiro pensa. ''A vida é isto (eu penso), habitar uma habitação, comer coisas fritas, tomar banhos frios, fazer exercícios, perfumar-se. Quem era mesmo aquele grego no livro de Camus (?) Sísifo (!) A rocha empurrada ladeira acima... é inevitável que ela role para baixo: ----- Se eu perder a fé no meu Senhor, Ele rola a pedreira por cima de mim (.) --, e também isto é vida (olhando para o porteiro , a empregada) vida roçando em vida. Respondo a mim mesmo que , aos dezessete anos, a única coisa que eu não queria era chegar aos trinta anos sem nenhuma cicatriz de guerra. Qualquer coisa distintiva, que me impedisse de parecer alguém da televisão. Alberto Magnelli também não frequentou nenhuma escola de belas-artes. Era um auto-didata. Um espírito superior. Mas aqui no Porão, eu e Daiana fomos obrigados a instalar uma rede de computadores, buscar milhares de informações, imprimi-las e entregá-las a jovens burros demais para procurá-las nos livros que agora enchiam a estante. O porteiro continuava me olhando, ao lado de uma empregada. Flerto com ela, mas minhas olheiras denunciam um cansaço repulsivo. Agora terei de arcar com meu cansaço ao longo de todo o dia, até a Casa ficar cheia de jovens burros e iletrados querendo falar comigo a todo minuto. Alberto Magnelli (penso: Quando você se torna um artista auto-didata ,tudo que existe no mundo real diminui muito de importância. Você percebe que pode fazer qualquer coisa que os outros precisaram estudar para aprender. Alguém certamente meteu nas mãos de Magnelli uma palheta, uma tela e uns tubos de tinta. Magnelli-mirim esmagando as tintas sobre a tela, diretamente, como elas saíam dos tubos. Nada no mundo podendo mais deixá-lo puto. Nada no mundo mais podendo ameaça-lo. Magnelli-mirim perigosamente altivo e excludente. As mãos do pintor como lei; mesmo que alguém viesse a quebrar ou duvidar daquela lei, ainda asism ele não voltaria a duvidar de si. Magnelli cresce. Magnelli, O ILUMINADO (!!) Bem, cara leitora, suponha agora que você fosse eu, naquele momento, ... suponha que estivesse vivendo em Roma, contente de ficar por aqui o resto da sua vida. Suponha que toda noite, ao voltar para seu estúdio no Porão da Casa, você parasse alguns minutos, bem agasalhada, na frente da Casa para tomar sua caneca de café e fumar, enquanto o porteiro te olha desconfiado do outro lado da rua. Suponha que sua mente é um caderno enorme que aceita tudo que sai da ponta do lápis na sua mão. Naturalmente, se a senhorita for para a cama com todos os nomes de pintores que citei a pouco retinindo na sua cabeça , ao invés de vossas selfies, terá algum sonho fantástico e indescritível. Pois foi assim que surgiu Alberto Magnelli, não o pintor abstrato formidável, difícil de ser corretamente apreciado, e sim Magnelli, o pesquisador perseverante de arte dentre os mais lúcidos da Europa de então. Em determinados momentos, a leitora poderá se ver sonhando de olhos bem abertos, sem saber se está na cama ou de pé na frente da casa, terminando de tomar seu café. Recordemos brevemente que nos primeiros anos da formação de Magnelli havia irrompido na Itália o Movimento Futurista, e um pouco mais tarde verificou-se a contribuição de De Chirico e outros com a chamada pintura ''metafísica''. Magnelli havia deglutido tudo isso sem piedade. Mas haverá momentos também em que a leitora, cativa da mente deste que vos escreve, esperando fechar os olhos e entregar-se à mais deliciosa sensação de sonho, ao invés da promessa de volúpia onírica, ver-se-á lutando contra um gigantesco pesadelo , como o seguinte: (mas o que acontece neste pesadelo não acontece em palavras, como aqui): Alguém que você acha que é você está se olhando no espelho. A leitora vê um rosto que não reconhece. E é o rosto de uma completa idiota. Ela fica aterrorizada e logo depois se vê num campo de concentração de imagens oníricas, onde é chutada para lá e para cá como uma bola de futebol. Você, amada, desejada leitora, simplesmente esqueceu quem é você, seu nome, seu endereço, até mesmo a bela aparência que tinha na TV. Você sabe que enlouqueceu, depois de anos da mais vil tortura, que parecem terem sido compridos num segundo, e de repente se vê na saída do pesadelo, sendo empurrada por uma baioneta para o mundo da pintura abstrata. Sua emoção, então, é indescritível(!) Você se dá conta ,de súbito, de que todos os movimentos que a partir do impressionismo se ligaram pelo imperativo cultural do tempo fatalmente tiveram que desembocar ali, no ABSTRACIONISMO, pois que cada um deles apresentava uma filtragem de elementos em que era manifesta, desde já, o preocupação de se abstrair o acessório, a anedota , as historinhas, para se atingir o essencial, a FORMA PURA. De repente (pois tudo que é abstrato é também muito repentino) você não faz mais a menor idéia de onde possa estar de novo: Kandinski compondo sua primeira tela abstrata; Jean Arp trabalhando febrilmente na Suíça; Mondrian expondo em Amsterdã; e você, cara leitora, continua ali, parada diante da porta, o café acabou e têm-se a certeza de que não se sentiria mais viva em nenhum outro lugar do que se sente ali. Mas o homem do outro lado da rua (o porteiro, franzindo o cenho ameaçador) quer que você pense que ele está no controle da situação. Mas ele não está, não: pois na sua cabeça , leitora, as coisas continuam acontecendo num jorro que foge da jurisdição mental dele: Delaunay pintando as primeiras ''Janelas'', Kandinsky encontrando-se com Franz Marc, afundação do grupo Der Blaue Reiter, e assim por diante. Tudo ao mesmo tempo. Mas o porteiro segue te olhando desafiador, certo de que pode lidar com qualquer coisa que fuja da normalidade. Mas isso ele não pode lidar, não: surge o cubo-futurismo de Malevitch, Kandinsky publica ''Do espiritual na arte'', Picabia executa as primeiras grandes telas abstratas, nasce o suprematismo, explode o construtivismo de Tatlin. Então você se enche de contrariedade e sente que pode resolver sozinho qualquer coisa que esteja lhe incomodando na vida. E o olhar do porteiro está te incomodando muito, naquele momento. Então você olha para ele e caminha cinco passos na sua direção, e pára. Você não consegue mais tirar seus olhos de dentro dos olhos dele: Magnelli se fecha num pequeno estúdio em Florença durante cinco anos seguidos, proibindo-se, segundo suas próprias palavras, ''de tocar na cor antes de ter dominado o desenho''. Por isso desenhava, desenhava, desenhava sem cessar. Você continua olhando fixamente para o porteiro. A demonstração prossegue: depois de alguns minutos encarando-o fixamente em silêncio você passa a ter bem menos medo dele e ele muito mais medo de você.
FIM
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