segunda-feira, 8 de julho de 2019

MADAM, I´M ADAM - Prefácio

primeiros escritos
Matheus Dulci, 
pseudônimo de Kalki Maitreya nas redes sociais.


Quando o mago dos sonhos, o Dr. Sigmund Freud, buscou aproximar-se de Gurjdief, não obteve resposta alguma; saiu totalmente decepcinado do Priorato de Avon, exclamando '' ele é um louco apartado da realidade''. Gurjdief dispensou a visita do grande psiquiatra, que dez anos antes havia declarado '' o humor é uma sublimação da dor''. Pois bem: neste livro de contos, pretendemos nos aprofundar no caso desta espécie de homem, que osicla entre a loucura da realidade e a realidade extra-sensorial. Para o Mestre Gurjdief, por exemplo, a psicologia moderna oferecia apenas um conhecimento parcial do ser humano, muito relativo, sem dúvida, por seu caráter de codificação. Vejamos o exemplo da loucura, segundo um conhecido texto de Deleuze sobre ‘’Um Novo tipo de Livro’’: a tentativa de codificar a loucura é feita sob três formas, segundo ele. Primeiramente, as formas da lei, ou seja, do hospital, do asilo – que é a codificação repressiva, é o confinamento, o antigo confinamento que será chamado no futuro a tornar-se uma última esperança de salvação, ‘quando os loucos dirão: “Bons os tempos em que nos confinavam, pois hoje em dia se passam coisas piores”. Em seguida (continua Deleuze) houve uma espécie de golpe formidável, que foi o golpe da psicanálise freudiana: ‘’...entendia-se que havia pessoas que escapavam à relação contratual burguesa tal como ela aparecia na medicina, e essas pessoas eram os loucos, porque estes não podiam ser partes contratantes na sociedade capitalista, pois eram juridicamente “incapazes”. O golpe de Freud foi fazer passar sob a relação contratual uma parte dos loucos, no sentido mais amplo do termo, os neuróticos, e explicar que se podia fazer um contrato especial com eles (donde o abandono da hipnose). Ele é o primeiro a introduzir na psiquiatria, e é nisto finalmente que consiste a novidade psicanalítica, a relação contratual burguesa que até então fora excluída dela’’. E sobre essa codificação floresce ainda nossa burocracia ocidental panótipa. Por tais motivos, Gurdjief entendia que o homem, louco ou normal, em tal contexto carecia completamente de unidade e vontade própria. Isso que convencionamos chamar ''vontade'', atualmente, não passava para ele de um mero concurso de convenções institucionais, que funcionavam em forma de contratos: um subproduto social, político, deste endosso que por meio de cláusulas jurídicas de ''comportamento social'', prendia o ser humano num estado larvar de desenvolvimento espiritual. Lendo seu famoso livro ''Relatos de Belzebu a seu Neto'', fica claro que a psicologia moderna toca apenas com a ponta do pé as águas profundas do inconsciente humano, que Freud pretendia ter ''desvendado completamente''... e que o ''verdadeiro homem ainda é algo por vir''. A psicologia institucional fala muito sobre o que o homem É, enquanto a psicologia esotérica de Gurjdief falava do que ele poderia chegar a Ser, falava de Evolução, Energia Psíquica e Poder Espiritual. Dito de outra forma, o mago misterioso de Fontaineibleu acusava o cidadão moderno de ser uma larva, uma forma vermicular evolutivamente estacionária, diante de suas potencialidades iniciáticas. E como não se impressionar com uma sociedade como a capitalista, que se dessangra em ritmo de necrose entre o delírio político-sexual da época e sua racionalidade técnica aplastante? Por outro lado, como aceitar a filosofia de Gurdjief, sem abandonar nossas posições dirigidas dentro de tal sociedade? Uma filosofia que ataca de maneira frontal inclusive a arte e sua tradição de ''pretensa'' ruptura de parâmetros, vendo em todo esse empreendimento nada mais que um vago descanso do homem no ócio do espírito. L.Pawels, em sua efêmera estadia no Priorato de Avon, conta seus desentendimentos com o Mestre Gurdjief, já que este acusava a literatura moderna de ser uma resultado superficial da realidade, e de utilizar uma linguagem falsa e fútil para encenar estados intensificados de consciência. Ipsu Facto: Pawels sai do Priorato com os nervos destroçados, e com o espírito catapultado à loucura. René Daumal, outro ilustre residente e discípulo de Gurdjief, cai rendido ante a mirada daquele homem, tensionando as cordas de seus nervos e escutando voces dentro da cabeça, que repetem incessantemente seu nome... a loucura também o cobiça. ‘’Muitos eram os chamados, poucos os eleitos’’, diria depois Ouspensky, mas... justamente isso era o que apaixonava as mentes mais brilhantes daquela época: uma praga (segundo Freud) que a psiquiatria deveria combater sob o nome de ‘’O Perigo Esotérico’’.
Em ''Conversações com Gente Notável'', Gurjdief põe na boca de um sábio Persa um demolidor ataque contra o que define como uma literatura complacente com a pura sensação --- a literatura de ''bom tom'' ---, e uma arte ocidental alienada da verdadeira problemática do homem. Na linguagem sagrada, a arte está destinada a criar um estado mental específico sobre seu receptor, enquanto que a linguagem ocidental moderna apenas equivoca os sentidos e funde seu receptor numa confusão pasmosa e auto-reflexiva. Neste livro, pretendemos justamente oferecer à leitora uma operação que começa por uma fragmentação dramática dos planos da realidade, que não poupa nem mesmo o narrador, que muda de pele constantemente e sem aviso prévio, afim de levar todos os seus componentes narrativos ao estado de partículas de um caleidoscópio. Trata-se de um ciframento de caráter esotérico, que lembra uma trituração. Tal trituração vem acompanhada, instantaneamente, de um processo de deciframento e iluminação, que confere à mescla narrativa em ebulição os nexos e significados necessários, formando o sub-plano secreto de um super-significado articulado e organizado num nível intensificado de conscientização. O ciframento volta depois , mas com um caráter ainda mais agressivo do que no começo da operação, ainda mais esotérico. As peças da narrativa, digo, seus personagens, vão progressivamente se dando conta de que fazem parte de algo ainda maior do que tinham decifrado antes; um mosaico ainda mais vasto, enigmático e ameaçador, mas sem compreender qual , como ou porque...
Matheus Dulci é aqui também uma tentativa de James Joyce, claro, que ao ser interrogado a respeito do que achava de Freud e suas idéias, se limitou a dizer: ''I AM FREUD''. E também : ''MADAM, I´M ADAM''.
À Freud se atribui atualmente o fato de fazer a Humanidade consciente de seu Inconsciente. Mas isso é verdade apenas em parte. Freud conseguiu fazer o mundo notar apenas um dos aspectos do inconsciente, que poderíamos definir como sendo o ''hemisfério do primitivismo animal''. Com uma visão muito mais completa do Inconsciente nos brinda o velho contemporâneo de Freud, F.W.H. Myers, cuja quantidade de estudos sobre a ''consciência subliminar'' constitui, em palavras de William James, ''a primeira tentativa'' de examinar os fenômenos da alucinação, do hipnotismo, do automatismo e da mediunidade - e James poderia ter complementado ''da inspiração e do sonho'' á sua lista - como partes conectadas á um tema inteiro'' (...) Freud sublinhou exageradamente e sem fundamento algum o que chamamos ''o aspecto negativo do Inconsciente, e ignorou seus aspectos positivos, muito mais importantes, diga-se de passagem. O freudiano médio tende a pensar que a casa da mente tem apenas dois pisos - um piso baixo de consciência pessoal, e um sótão cheio de bagunça, ratos e salamandras venenosas - o Inconsciente pessoal. Mas, de fato, como nos adverte Myers, a casa da mente é um estrutura de muitos pisos, e o subsolo dela não tem fundo, e o salão de festas não tem teto. Como sustentou Myers e como todos os mestres da vida espiritual descobriram por experiência e conhecimento- direto, ambos os setores da mente se abrem ao infinito daquilo que William James chamou de consciência Cósmica, ou que os místicos chamam de ''Cabeça de Deus'', a ''rede sináptica da mente de Deus'' ou Atman-Brahmin, A Luz Cristalina, O Vazio Vivo do Cosmo, etc.
 Ocupar-se com as coisas é participar de modo irrefletido da dinâmica de realização de um mundo. Nos deixamos absorver tão firmemente a essa lida ocupacional que deixamos escapar o Aberto do mundo, onde a Arte instala suas pontes para além do homem. Em uma conferência muito posterior a Ser e Tempo, intitulada A Questão da Técnica, Heidegger trata mais especificamente do modo moderno e contemporâneo de acontecimento histórico do mundo. Na "era da técnica", como é denominada, por ele, a época atual, o homem toma todos os entes como recursos para os seus afazeres, como se toda a realidade se reduzisse a mera reserva de energia disponível para sua exploração e consumo. A experiência do pensamento se reduz, por sua vez, às operações calculantes que visam à previsão e ao controle dos entes. Heidegger diz que o mundo atual é pobre de pensamento, querendo significar com isso que a presente era da técnica põe sob ameaça a possibilidade mais essencial do homem: a meditação sobre o sentido das coisas, da existência e do mundo. Para que essa possibilidade seja preservada em meio ao nivelamento calculante promovido pela técnica moderna, Heidegger propõe o exercício de uma disposição do espírito denominada como serenidade (Gelassenheit). Inspirado no místico alemão Mestre Eckhart, o filósofo entende essa disposição como uma equanimidade da alma, uma atitude de suspensão e desapego da vontade. A "serenidade" faz parte do pensamento que medita. Ao contrário do pensamento calculante, que reduz tudo à condição de disponibilidade, o pensamento meditante nos solicita uma atenção livre de qualquer violência subjetiva, isto é, de qualquer identificação a um aspecto exclusivo das coisas, preservando em sua abertura compreensiva a diferença irredutível entre as realidades que se apresentam e a dinâmica de realização dessas realidades.
Em nossas leituras de Castaneda, não pudemos evitar a evocação do "deixar-ser" da "serenidade" heideggeriana quando nos deparamos com a estranha proposta do "não-fazer" de Don Juan. Antes de parar o mundo, um dos ensinamentos fundamentais que Don Juan apresenta a Castaneda em Viagem a Ixtlan é o "não-fazer". Segundo ele o guerreiro precisa não fazer a fim de experimentar outras possibilidades de ser de uma coisa ao relacionar-se com ela. Destacamos, a seguir, um trecho da referida obra:
''-Aquela pedra ali é uma pedra por causa de fazer
''-disse ele. ...não havia entendido o que ele queria dizer.
''-Aquilo é fazer! - exclamou.
''-Como?
''-Isso também é fazer.
''-De que é que está falando, Don Juan?
''-Fazer é o que torna aquela pedra uma pedra e um arbusto um arbusto. Fazer é o que torna você, você e eu, eu. (...)
''-Tome aquela pedra por exemplo. Olhar para ela é fazer, mas vê-la é não fazer. Tive de confessar que as palavras dele não estavam fazendo sentido para mim.
''-Ah, fazem, sim! - exclamou. - Mas você está convencido do contrário porque isso é você fazendo. É assim que você age em relação a mim e ao mundo...
''-O mundo é o mundo porque você conhece o fazer necessário para torná-lo mundo - disse ele. - Se você não soubesse o seu fazer, o mundo seria diferente''
 (Castaneda).
A fim de não-fazer, Castaneda precisava conseguir parar seu diálogo interno, pois só de olhar uma pedra já estamos fazendo-a pedra pelo nosso pensamento. O nosso diálogo interno, a todo instante sustenta um mundo que nos é mais familiar. A questão que trazemos é: que mundo temos nós, ao longo dos últimos tempos, feito? Don Juannos fala que todos nós fomos ensinados a concordar sobre o fazer e que não temos idéia de como esse fazer é poderoso, mas felizmente, o não-fazer é igualmente poderoso.
Quando tentamos co-responder à leitura desses pensadores, buscamos abrir um espaço para pensar em novos modos de estar no mundo. Modos que privilegiem as possibilidades de experiência do mundo enquanto mundo. Pensar já é em si uma prática, pois pensamento é uma forma de desvelar mundo. O termo desvelamento (Unverborgenheit), utilizado por Heidegger para traduzir a palavra grega aletheia, indica que a verdade não é a correspondência adequada a uma realidade em si, mas a própria dinâmica de acontecimento/aparecimento das realidades.
A obra de arte, na concepção de Heidegger, tem uma articulação essencial com essas idéias, na medida em que ser obra é instalar um mundo, e para instalar um mundo é preciso deixar em aberto o Aberto do mundo. A obra coloca à luz o ser das coisas e a possibilidade de abertura e transcendência no relacionar-se com elas.
A arte não consiste em mera representação de um mundo; da mesma forma quando o guerreiro vê, ele faz uma experiência livre de suas idéias prévias de um mundo simplesmente dado. "Parar o mundo", em Castaneda, e "ser obra de arte", em Heidegger, podem ser relacionados pelo fato de apontarem para uma abertura de possibilidades de sentido para além do mundo que tomamos como dado. O nosso modo de ser mais comum é tão próprio ao nosso existir, quanto o fato de que ele não esgota nossas possibilidades existenciais enquanto ser-no-mundo. Mais do que fazer experiências exóticas de mundos, o que buscamos lembrar, através da ressonância entre esses pensamentos tão distintos, seja através da arte ou por outros caminhos, é a "brecha", a "abertura" que nos permite transitar entre mundos.
Para Heidegger, na linguagem de-mora o ser. O Sendo só pode se re-velar através da linguagem; se o pensamos ele ‘é’, pois o pensar aproxima o ser da Clareira (onde sua pre-sença contrapõe-se ao ente). A imagem de uma floresta assemelha-se à existência humana, vários são os caminhos possíveis para se chegar a uma Clareira. Mas o que entendemos como linguagem não nos leva ao ser, no máximo indica-nos o Caminho da Clareira. "A libertação da linguagem dos grilhões da Gramática e a abertura de um espaço essencial mais originário está reservado como tarefa para o PENSAR e POETIZAR. Nossa relação com a linguagem deve ultra-subjetivar-se (ir além do sujeito), nada deve comandar a linguagem, pois na Clareira impera o inefável, ante o qual nossa língua e nossa identidade nada são.
Matheus Dulci

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