Mas o que se movia visivelmente dentro do invisível fluxo de consciência da ouvinte e do narrador? A reflexão no teto de uma lâmpada e cúpula, uma inconstante série de círculos concêntricos de variadas gradações de luz e sombra: uma catedral gótica em construção, sugerindo a invasão do universo inteiro por um sentimento metafísico desconhecido. Em que direções estendiam-se A Ouvinte e O Narrador? Ouvinte, es-sudeste: narrador, nor-noroeste: no 53º paralelo de latitude, Norte, e no 6º meridiano de longitude, Oeste: em um ângulo de 45º em relação ao equador terrestre, provavelmente numa balsa de madeira motorizada boiando sobre um rio tórrido. E em que estado de repouso ou movimento? Em repouso relativamente só a eles mesmos quando mergulhados subitamente no simbolismo poético dentro de cada personagem, mas produzindo um movimento simpático muito específico de convergência sentimental e física. Em movimento sendo ambos e cada um deles carregado para Oeste, para a frente e para trás respectivamente, pelo perpétuo movimento próprio da terra através de sempre mutáveis rotas de navegação fluvial de sempre mutável espaço interior indeterminado dos personagens. Em que postura? A ouvinte: reclinada semilateralmente, para a esquerda, mão esquerda sob a cabeça, perna direita estendida em uma linha reta e descansando sobre a perna esquerda, fletida, na atitude de Géa-Tellus, completada, recumbente, plena de sementes e rasgos felinos de fisionomia. Narrador: reclinado lateralmente, para a esquerda, pernas cruzadas na poltrona, o dedo indicador e o polegar da mão direita descansando na ponta do nariz, na atitude de cumplicidade representada por um cigarro entre os dedos, dizendo para a ouvinte: ''A cada vez que se olha pela janela ou que se anda pela rua, a consciência descreve intermináveis círculos, vai da frente para trás e vice-versa, captando todo tipo de interferencia e sofrendo todo tipo de enriquecimento em fluxo, por isso uma das tarefas da arte é chegar o mais perto possível do mecanismo da percepção... ela tinha tudo o que se pode definir como classe e poder, e me fazia pensar nas coisas mais agradáveis e valiosas que uma transação milionária bem sucedida pode proporcionar a um homem de negócios bom no que faz: fichas azuis de cinco mil dólares espalhadas sobre uma mesa verde de jogo, ouro vinte quatro quilates em estatuetas de marfim indiano, diamantes polidos á perfeição em coroas da realeza britânica, grandes orquídeas brancas em salas de acupuntura de hotéis seis estrelas, partituras de Chopin ou Haydn diante de crianças angelicais, um sol preguiçoso numa manhã de verão nas praias da Riviera Francesa ou Itacaré, etc. ..Mergulho de um corpo em cores que são ventos. O copo de licor dourado: um sino ouvindo e repetindo a paisagem tropical. A tranquilidade chegou-me como um presente refletido nos ombros dela, e eu nadei através de um sentimento de felicidade mais profundo do que o ar. Roçando, em cada poro, o céu do seu corpo. Apaixonar-se subitamente é individualizar alguém pelos signos que traz ou emite. É isto: o ganho não previsto, o prêmio subterrâneo e coruscante, leitura de relâmpago cifrado. Tornar-se sensível á esses signos, aprende-los. Salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo, vibrando no crepúsculo. Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência herdada e ouvida. No amor, de um modo geral, a pessoa amada aparece áquela que ama como um signo, ou melhor, como uma pluralidade de signos, implicando, envolvendo um pluralidade, uma multiplicidade de mundos inacessíveis, misteriosos, desconhecidos.
(...
?????
Ela
estava olhando para mim também, e isso foi suficiente para que eu refletisse um
pouco mais em tudo, desnudando seus ombros para minha inspeção, fingindo que o
abrir dos seus olhos diante de mim tinha sido um falso despertar. Fazer amor
com ela na noite anterior tinha sido parecido com uma maratona. Não achei que
ela chegaria assim tão depressa á consciência límpida daquele mundo
intermediário, suspenso, onde eu era mais um entre os milhões que ficam lá no
fundo da própria mente sem dizer nada, com músculos suficiente para mover o
sexo que mantém vivo o mundo, e eu tinha feito ela sentir isso nos últimos dois
dias, os saudáveis e vívidos impulsos e o suor do custo da cultura adquirida.
Eu queria os sais do seu suor na minha boca e ela não tentava prolongar muito
as negociações da sedução, muito pelo contrário: fazia amor como se estivesse
subindo um muro inclinado, martelando-me com seu ritmo, um doce ritmo
propulsor, ritmo contra ritmo, sem que nenhum de nós dois recuasse um segundo
sequer, o que por vezes fazia ela mergulhar numa profundeza melhor do desejo, e
depois entrávamos os dois então no que devia ser a satisfação de um bonito
momento de prazer, quente e bom. Nesses momentos eu costumava pensar nos
quartos dos andares superiores como quartos imaginários de papel. Em função de
um inexplicável efeito de psico-acústica, todos eles pareciam de fato feitos de
palha, madeira leve e pergaminho colado em estruturas de papelão, porque quando
estávamos deitados em nossas camas no primeiro andar, parecia que todos os sons
dos aposentos contíguos e superiores passavam facilmente pelas paredes e portas
de correr. Com frequência eu ficava deitado na minha cama de madrugada
escutando Carmen digitar no teclado do seu note-book e cantar baixinho
lânguidas canções xamânicas do rito do peyot. Ás vezes eu ia até ela e deitava
a cabeça em seu colo, perguntava alguma coisa sobre sua produção poética, que
tinha se tornado incrivelmente prolífica nos ultimos dois anos, e ela
resmungava respostas vagas e delicadas, alisando meu rosto e afastando dele
qualquer sensação de perplexidade com a ponta dos dedos, ao mesmo tempo que seu
riso ecoava hipnoticamente pelos outros quartos. Haviam outros sons de hóspedes
desconhecidos ressonando pelo hotel inteiro de madrugada, mulheres rindo
abafadamente entre confidências de adultério, casais entediados discutindo á
meia-voz, pessoas se drogando sozinhas sob a solenidade do luar, e ás vezes o
murmúrio suave e abafado de uma cópula na escuridão. Eu não era ansioso, não
procurava ficar enchendo a boca dela com todos os meus gostos.. tudo isso me
chegava aos ouvidos em ondas naquele hotel com suas vinte e duas celas de
papel, no meio de um Rio de Janeiro praticamente deserto daquele lado, pelo
menos para mim, onde um hóspede que por acaso pintasse quadros poderia colocar
a saturação prateada do luar sobre a vegetação amarelada de ferragens
retorcidas e violetas de velório, ao pé das putas selvagens fincadas na calçada
suja e rodeada de areia branca. Na verdade, digo isso pensando mais no caso do
escritor de exceção, ao se tratar de um escritor que é ao mesmo tempo um
colorista empedernido e um devorador de paisagens psicológicas sobrenaturais.
Eu estava vagando á esmo novamente entre os bueiros e quiosques na beira da
praia a uns dois quilômetros do hotel, só que de dia. Os matizes se fundindo
numa cor de carne alegre e estonteada de sol em Copacabana, cobrindo a areia da
praia como uma segunda pele viva. A praia ofuscava, com o brilho do sol, o
enxame de corpos e o sal que eu trazia nos olhos, das ondas além da rebentação,
meu primeiro mergulho no mar depois de muito tempo. O sol batendo tão forte em
mim que pequenos arco-íris se formavam na espuma das ondas, em torno da minha
faiscante cabeça solitária, como espíritos; voltando à esfarrapada camiseta que
também me servia de toalha, eu acabava de ter uma idéia para o fim do meu livro
que deveria anotar no caderno assim que terminasse o cigarro. Mas estava
preocupado em pensar que, se não sentasse na areia da praia carbonizada e
abrisse o caderno logo e anotasse a idéia, provavelmente a esqueceria. Tentei
repetir a idéia para mim mesmo várias vezes a fim de fixá-la na memória: mas
agora a idéia já tinha escapado, e eu pensava apenas: '' Carmen tem todos os
atributos do espírito poético francês do simbolismo, menos a erudição: sua
maior alegria é abordar de maneira lógica os grandes segredos da experiência
mística dos quais nada sabe, na verdade; no meio dessa madrugada escaldante,
falou-me durante horas, mencionou de passagem Marx, Jung e Husserl - Heidegger
, Kierkgaard - D.H. Laurence e Henry Miller - Norman Mailer e John Updike -
Nietzsche e Conrad - Fitzgerald e Nathanael Hawthorne - Vico e Edmund Wilson
(adoro os AnosVinte!, disse desavergonhadamente) - Jean Genet e Antonin Artaud
- Lautreamont e Huxley - etc -houve ainda mais uns cinquenta nomes de
importância variada - foi-me necessário, portanto, algum tempo de reflexão para
compreender que Carmen nunca havia lido nada daquilo - estava apenas
investigando gratuitamente meu cérebro (?) - no entanto, parecia-me jamais ter
conhecido uma garota tão inteligente: a amplitude de suas perguntas, a energia
de sua curiosidade e a percepção rápida que brilhava em seus olhos enegrecidos
pela lâmpada do abajur como bronze ao sol eram impressionantes. ---- Minha
história (eu lhe dizia) a galeria dos meus personagens, a essência da trama(:
deve haver demasiada introspecção nos personagens(: transformar o barro poético
primordial em alguma coisa parecida com ''escrever bem''(: assim que, modestamente, apresento aqui a
natureza felliniana de uuma idéia caleidoscópica(.) ----, e passei o caderno
para ela dar uma olhada: foi em meio a uma tal confusão mental que procurei
outra vez a lembrança daquela casa de campo em Barbacena e me satisfiz com ela.
Eu realmente não valia nada, certo? Toda a aldeia desconfiava de mim até hoje.
Aquelas mesmas moças ainda faziam muxoxos quando pronunciavam meu nome, mas
minhas noites, ou mesmo minhas rápidas escapadas após duas horas de trabalho
naquele hotel- fazenda , ocupado com as vigorosas coxas delas atrás dos
estábulos, minhas mãos pesando em seus flancos gordurosos, permanecendo imóveis
ou mexendo-se lentamente no compasso da respiração, na veia saltada latejante
de um pescoço grosso de mulher, de uma loira corpulenta de braços roliços,
levantando o tecido estendido e volumoso da barra de seu vestido. O sentimento
de ter penetrado novamente aquela Gorda Divina em sonho. O sexo do meu sonho
penetrando a divindade gorda do sonho, e se apresentam ao meu espírito frases
como : ''Até o coração, até o rabo, até a flora, a fauna, bem no fundo da
garganta(.) ''. ---- Do que você está rindo, K(?) ----, Carmen perguntou, indo
me encontrar num bar duas horas depois. O garçom nos viu sentar na entrada do
pub e sem demora nos trouxe as mesmas duas taças de cristal cheias de cerveja
ale ebânea espumante, que dois nobres gênios escoceses preparavam em seus
divinos tonéis nos fundos do estabelecimento, tão sagazes quanto os filhos da
Leda Imortal. ---- Eles enceleiram as bagas suculentas do lúpulo (eu disse à
Carmen, copo na mão), e juntam e peneiram e esmagam no pilão, e as preparam e
misturam nelas sumos azedos, e levam ao mosto ao fogo sagrado entregues à faina
dia e noite, sem cessar(.) ----, etc, continuei: ---- Sabe de uma (: gostaria
de brincar de inventar as formas que o amor tem de surpreender as pessoas(: ele
vem como Deus ao coração dos celerados, e também às escondidas como o Dia do
Senhor, como um ladrão à noite (.) ----, disse, pensando em como eu tinha me
enrabichado por Jaqueline daquela vez, em Barbacena, Jaqueline a Gorda: e por
aquele caminho em que seguiam manadas incontáveis de carneiros-guias e ovelhas
reprodutoras, e carneiros e ovelhas já tosquiados preparados para exposição
Dorper e White Dorper e gansos, novilhos médios, éguas resfolegantes; carneiros
angorás e reprodutores e vacas holandesas prestes a dar crias, e animais de
engorda e porcos castrados de primeira qualidade e novilhas Angus e Red Angus e
Black Angus e Angus misturados com Nelores e Guzerás; e suínos ricos em
toucinho e várias diferentes variedades de porcos de raça impecável, junto com
vacas leiteiras e reses de excelente qualidade premiadas; ali se ouvindo
permanentemente tropéis, cacarejos, rugidos, mugidos, balidos, bramidos,
roncos, grunhidos, triturações, mastigações, salivações, de carneiros e vacas e
porcos e gansos vindos das pastagens de Milho Verde, Mantiqueira, Carandaí,
Lafaiete, Cupim, Santos Dummont e dos vales regados por regatos de Torreões e
Ponte Nova, Mar de Espanha e Ivanhoé, Cátera e Gutierrez, e das gentis
declividades do lugar e seus úberes distendidos pela superabundância de leite,
e barricas de manteiga e coalhos de queijo mineiro fresco, e barriletes de
fazendeiros e pescoços e peitos de cordeiros e grandes quantidades de milho e
muitas centenas de ovos oblongos, diversos em tamanho , ágata e castanho
-acinzentados. Foi assim que eu entraria de novo na propriedade rural e
hoteleira da Senhora Raquel Kiernan , e ali, sem dúvida alguma, encontraria de
novo Jaqueline, a Gorda, comandando, monitorando e classificando o desempenho
diário das vacas holandesas no curral. ---- Não vamos durar mais nem um
diazinho juntos(: duvido que você vá querer ir comigo pra São Paulo(.) ----,
Carmen disse, carregando sua infâmia proto-poética como um charuto na ponta dos
lábios, como um estigma de ferro em brasa. Como eu disse: não entendia direito
o circulo social dela. O cheiro que ele difundia silenciosamente na minha visão
tinha o brilho fosco da pérola, enroscado ao seu redor, circundando os passos
dela por aí com uma auréola da cabeça aos pés, mas a isolando completamente de
mim. A casa do meu caralho caindo de novo. ----- Já tinha dito antes que iria
pra Minas (ela me perguntou porque não permanecia no Rio, até ela voltar: -----
Não é um lugar prático para alguém como eu(: gasto uma nota preta toda vez que
venho, só com hospedagem(: hoje não existem mais casas de hospedar do tipo
pensão Moss (lembra do que te contei uma vez(?), acabaram(: no começo do século
XXI eu ainda detinha o conhecimento das últimas, nas ruas de Botafogo,
Laranjeiras, Flamengo(: pelo Largo do Machado,Catete, Glória, Riachuelo,
Haddock Lobo e Conde de Bonfim(: me serviram de residência durante seis meses e
a outros drogados da Lapa, traficantes em trânsito, comerciantes na altura da gerência,
viúvas de travestis, solteironas abastadas, traficantes do Disk Droga(: eram
cômodos enormes e alucinantes , e uma sala para receber os motoboys do crime de
classe-média(: através dos meus papéis e anotações, posso acompanhar meus
passos por esses vários endereços cariocas que percorri num curto espaço de
tempo, até ser esfaqueado na mão por uma puta cara que me chamou de pivete(:
Ladeira do Seminário -bem no centro, na encosta do Morro do Castelo; Marrecas,
onde se comprava farinha de aipim; Riachuelo , velha rua de Mata-Cavalos, onde
se acotovelavam amigos de Machado de Assis. Morei também em Senador Dantas,
numa pensão Moss bem familiar, coletivas austeras alternando com lupanares
instalados ali, na vizinhança da Ajuda e bem no centro da cidade(: e ainda
conheci essa rua cheia de velhos sobrados recuados em sonho, lendo a
Encantadora Alma das Ruas, de João do Rio, de jardins de árvores copadas,
trepadeiras nas grades e subindo pelas sacadas; assim vegetal e molhada,
verlainiana e fresca, cheia de frutos, de flores, de folhas, de galhos (.)
----, eu disse, refazendo meus caminhos pelos corredores subterrâneos do ópio
para reencontrar minha pequena, negra e gelada cela na Ratoeira do Céu. Perseu
no Labirinto. O mundo mais vibrante, as Ariadnes feitas com as carnes mais
tenras, são feitas de mármore barato, semeando devastação tóxica pela minha
passagem. ----De olhos mortos volto a percorrer a cidade da desova, das
populações petrificadas de medo (: impossível retomar minha confissão, ou
anulá-la, desemaranhar o fio do tempo que a teceu e fazer com que ela se divida
e se destrua (: mas... FUGIR(?!) também não, que idéia, o labirinto é mais
tortuoso do que os considerandos de certos juízes criminais (.) -----, eu disse
e, sem qualquer vã ornamentação em torno da voz, teria me envenenado
completamente se continuasse falando. Estava pronto para o Exílio, quando
voltamos para o hotel em silêncio; me bastou, ao deitar na cama, lembrar-me
dela escapando por minhas mãos pelo espaço de dez segundos, no momento em que
já era visitado pela Luz da Prisão (resíduos das recordações de Jaqueline, a
Gorda) para que o elemento onírico que criava essas expressões me envolvesse,
me causando o vazio interior que precede o nirvana: na escuridão mãos
espirituais se fazendo sentir agitadas; a oração em forma de tantras dirigida
para a região adequada da cabeça; uma luminosidade fraca mas crescente de luz
rósea gradualmente visível (aparelho distribuidor de oráculos, busto que fala,
livro oracular -eu escavo a consciência em busca do veio dourado. Minha enxada
encontra a forma dura do meu membro ereto: a aparição do duplo etérico sendo
semelhante à vida devido à descarga de raios jívicos provindos da coroa da
cabeça e rosto. A alma navegando o sangue bombeado embaixo. Alguns rochedos
talvez pudessem me estender uma mão de pedra, mas estavam suficientemente longe
de mim para que eu pudesse agarrá-los. Caía e, para retardar o baque final,
indagava por meio do meu nome terrestre quanto ao meu paradeiro no mundo
celestial, declarando que estava agora a caminho do Pralaya, mas ainda
submetido à provas nas mãos de entidades sedentas de sangue. Me sentir cair me
causava esta embriaguez, que é o desespero absoluto vizinho da felicidade
suprema, durante a Queda e a Ressurreição; de voltar às coisas que ainda são,
para retardar o choque do fundo do abismo e o despertar na Prisão de Luz: por
isso, eu acumulava as catástrofes do passado, provocando acidentes ao longo da
verticalidade do precipício, entraves ao ponto de chegada efetuado pela glândula
pineal. Raios laranja ígneos e escarlates emanados da região sacra. E,
finalmente, eis-me na consoladora suavidade carcerária do Grande Hotel dos
Kiernan, em Barbacena, que dentro de algum tempo também deveria largar, pois
oitenta mil reais não são eternos.
Desintoxicação...
Um
pequeno sacrifício financeiro, era verdade, mas eu pensava que agindo assim
sempre haveria um lugar para onde escapar caso alguma coisa desagradável
acontecesse. Eu de fato usava na minha mente a palavra ''desagradável'', o que
nada tinha a ver com Carmen. Muito pelo contrário, mas tomada a decisão de
partir, tudo que vinha na minha mente era a última vez em que eu havia
coabitado com a Gorda, o mês tumular e irresponsável que havia precedido nossa
súbita separação; a libertação das visitas de sua família, daquele maldito
círculo de caipiras chatos sentados na varanda do hotel. Varanda que por sua
vez me dava segurança quando vazia de tarde: segurança pela seu luxo colonial,
por seus ritos de xícaras de porcelana e torrões de açúcar se dissolvendo no
café, pela elegância medicamentosa e quase imóvel da Sra. e da Srta. Kiernan,
sempre gripadas sob as lamparinas da recepção. E francamente, sem nenhum
espírito de proselitismo, é impossível a uma pessoa que não se droga frequentemente
como Jaqueline viver junto de uma que o faz, como eu. Essa amarra Jaqueline
havia adquirido ao longo do nosso curto relacionamento; mas, como um ácido, a
amargura do cânhamo veio a passar sobre ela, comendo sua meiguice inicial de um
ou dois tapas. E é raro que um fumante abandone a droga; é a droga que o
abandona, estragando tudo. Então, além de não fumar mais comigo, Jaqueline
passou a temer tudo na vida que não pudesse ser dito de uma maneira simples e
familiar, ou com um mero sorriso. Em outras palavras, ela passou a ter medo de
mim e da minha obra. Ela se tornou o barômetro de uma sensibilidade enfermiça
que os outros me atribuíam; e só este medo provava o perigo das minhas recaídas
e consequente poder da Gulosa sobre mim ( por isso, quando cheguei no hotel,
perdi algum tempo contemplando e recordando a casa de fazenda de cinco andares,
revestida de tábuas horizontais pintadas de branco e plantada a meia altura
numa colina salpicada de rabos-de-raposa e margaridas-do-mato; procurando não
confundir uma possível tentativa de desintoxicação com uma convalescença de
dengue, ou uma supressão abrupta de haxixe e ópio do meu organismo com seus
substitutos mais imediatos: exercícios físicos, caminhadas pelo campo, banhos
gelados, cocaína, licores, etc... e sem, por sua vez, confundir o hábito atual
com a intoxicação: ela vinha de muito antes, sendo mantida viva
'''homeopaticamente'''' . Eu pensava: ''Doze quilômetros de uma estrada rural
silenciosa e deserta separando Barbacena das montanhas onde eu havia morado com
Jaqueline em 2007. Ou 2008? Não importa: para mim, as colinas verdes e suaves,
com as montanhas também verdes vistas à distância através das janelas dos
quartos do hotel, me devolviam algo como a paisagem que eu via do meu quarto de
dormir quando era criança, na fazenda onde cresci (exatamente a vista do quarto
no último Anexo) e aumentava a sensação que a Gorda me transmitia , de que
enfim estávamos à salvo com nossos verdadeiros eus , e ''em casa''. Minha
figura sentada na varanda do hotel sobre um enorme bloco de pedra aos pés de um
moinho redondo recebeu Jaqueline como se eu fosse um herói que voltava vivo do
inferno: um herói de ombros largos, de vasto peito, de membros rijos, de olhos
franco s, de cabelos loiros de múltiplas poses de gola desgrenhada de boca seca
de nariz torto de punhos cerrados de frio de rosto pálido. Os olhos de
Jaqueline nos quais uma lágrima e um sorriso constantemente lutavam por
supremacia, tinham a dimensão irreal de
um pé de alface. Os sintomas de sua carência eram de uma natureza tão estranha
que ninguém saberia descrevê-los. Imaginei que a Terra girava um pouco menos
depressa dentro de seus olhos, que a Lua se aproximava um pouco mais do chão;
uma poderosa corrente de sopro gelado emanava a intervalos regulares da cavidade
profunda da sua boca. Ela vestia uma túnica longa, sem mangas, de couro de boi
tosquiado, que chegava até os joelhos como um Kilt solto, e isso era amarrado
no meio por uma faixa de palha e fios de juncos trançados; suas extremidades
inferiores estavam cobertas por botas altas tingidas com líquen purpúreo: como
minha alma se regozijou com o simples fato dela ali banhada pelo sol frio da
manhã, e logo me aproximei desejando ser envolvido por seus braços roliços
contra seu grande corpo sólido e branco.
----- Ah, Jaqueline, como senti falta da sua presença substancial (.)
----, não, não foi o que eu disse, pensava no peso dos grandes seios em minhas
mãos, e de como aquilo era agora aconchegante, diferente de todos aqueles meses
sem fim à beira-mar, em que eu acordava
tendo apenas o travesseiro para abraçar. Abracei-a mais tarde: ----- Ainda não
são nem onze horas(?) verdade(?) -----, em silêncio, segurando uma torrada de
canela numa das mãos e meu braço na outra, demos uma volta no jardim para
colocar a conversa em dia. ''Algumas pessoas'', eu pensava então ''podem ver
um argueiro nos olhos dos outros, mas
não podem ver a trave nos próprios olhos (.) ''. Eu fui até o fundo daquele
quintal para fazer xixi e, poxa vida, enquanto eu descarregava meu fardo de
mijo, nossa, ainda falando comigo mesmo, eu sabia que ela estava com a mente
inquieta. Jaqueline disse: ---- Tive um bebê (.) ----, e meu coração murchou
aceleradamente sob a areia escaldante do medo, em instantes rápidos como traços
de lápis, pequenos como eles, pequenos como o enigma inquietante que se vê
entre as pálpebras de um cavaleiro mongol. Ela se explicou, após assegurar
(rindo da minha cara desolada) que o filho não era meu. Jaqueline e o filho
moravam na única casa de aldeia que, como a igreja, tinha um teto de ardósia.
Era uma casa de pedra de cantaria, retangular, dividida em duas partes por um
corredor que se abria como uma brecha heróica entre os rochedos; e ela contava
com uma renda bastante boa agora, desde que tinha asssumido a administração da
fazenda das Kiernan. Poderia inclusive viver no luxo dali em diante, ser
servida por vários empregados, mover-se altivamente entre os imensos espelhos
emoldurados que se erguiam do tapete até o teto de madeira, coberta de grifes
caras da cabeça aos pés. Mas isso não faria nenhum sentido por ali: a Gorda
simplesmente se recusava o luxo e a vaidade, dizendo: ----- Conforto demais
mata os sonhos da gente (: e o amor também (.)-----, e por mais doce, isso
deveria ter substituído subitamente aquilo que eu estava procurando imaginar
que existia dentro de seus olhos desde o começo, uma espécie de chegada
fragmentária e imóvel da alma num deserto vivo. Ou a primeira equação dessa
incógnita. Antes do meu retorno , o amor realmente havia depositado sua alma na
terra, e assim manteve Jaqueline como que presa nos abraços e beijos de um
lutador de vale-tudo de Ressaquinha, acostumado a derrubar brutamontes em Belo
Horizonte. Jaqueline era considerada uma gorda bonita por todos os que a
conheciam, embora , como as pessoas frequentemente diziam, ela era mais uma
patroa do que uma mulher. ----- Porque voce não vem até o curral me ajudar a
pesar as novilhas, K(?) -----, propôs-me ela, estabilizando-se; o frenesi
superaquecido do primeiro contato comigo transmudando-se numa serena afeição
física. É assim que prefiro descrever o que estava acontecendo com ela, para
agora tentar descrever o que estava acontecendo comigo. ''Ninguém pode dizer se
sairei daqui, nem, se sair, quando isto
ocorrerá(: tentar descrever os sintomas da abstinência da droga para Jaqueline
seria impossível e inútil(: como o amor, ou um enjôo em alto mar, a carência
química penetra o organismo por todos os lados(.) '', eu pensava , caminhando
com Jaqueline para o curral , já no início do meu primeiro dia de mal-estar.
Digo, no início foi um mal-estar. Depois as coisas se agravaram dramaticamente.
A palidez de cera do rosto dela era quase espiritual para mim naquele momento,
em sua pureza ebúrnea, embora sua boca como um botão de rosa fosse um genuíno arco
de cupido , de perfeição grega. A enorme porteira precipita meus olhos sobre o
curral lotado, que cheira a flores de bosta bovina verde no chão: Mimosa I,
Mimosa II, Mimosa III... uma multidão de jovens vacas holandesas enfim, uma
litania ainda grande de quadrúpedes preto e branco que respondiam por nomes
resplandescentes esperavam Jaqueline do outro lado do curral; ágil, a Gorda
possuía no porte roliço a suntuosidade pesada do bárbaro que pisa com suas
botas enlameadas um tapete de peles preciosas. Talvez fosse isso que conferisse
aos traços ovais do seu rosto uma expressão (tensa de sentido reprimido) que
emprestava aos seus belos olhos uma propensão estranha ao enternecimento. Os de
Jaqueline eram do mais azul dos azuis , realçados por pestanas lustrosas e por
sobrancelhas escuras e sedutoras. Mas a maior glória da Gorda era sua abundante
e maravilhosa cabeleira: loira escura com ondas naturais. ----- Imagine um
silêncio que correspondesse ao lamento de milhares de bebês cujas mamães não
voltaram para lhes dar o peito(.) -----, eu disse, tentando explicar à ela as
consequências da ausência química que começava a reinar no meu organismo
naquele momento, com um despotismo ameaçador. Poucas pessoas têm noção do
quanto pode ser doloroso fisicamente a abstinência para um organismo viciado em
láudano ou heroína... os fenômenos tornam-se nítidos: ondas elétricas,
efervescência nas veias, dores nas articulações, cãimbras, suores na raiz dos
cabelos, boca seca, lágrimas de irritação, desespero. ----- O corpo à espera de
notícias, certo(?) -----, concluí, e corri para ela depressa,como se (quem
diria?) pela boca a Gorda pudesse me descarregar até o coração. Os lindos
lábios por um momento fizeram beicinho mas então ela ergueu os olhos e soltou
uma risadinha alegre que continha toda a frescura de uma jovem manhã de maio.
Mas talvez a Gorda não se importasse nem um pouco com o que eu estava sentindo;
havia também aquela dor às avessas imprecisa de vazio em seu coração, que lhe penetrava até o âmago
. Depois que o brutamontes partiu para seu vôo solo, deixando Jaqueline sozinha
com o bebê, ela sempre reencontrava os antigos gestos dele tão expressivos
dentro de si, que se revelavam talhados num cristal multifacetado, tão
expressivos que eu suspeitava terem sido totalmente involuntários, pois ele era
um rapaz muito novo e me parecia impossível que tivessem vindo de pesada
reflexão e decisão. Dele, tangível, só restava em sua alma o molde de gesso que
a Gorda tinha feito de sua pica, provavelmente grande quando dura. Mais do que
qualquer outra coisa, o que devia tê-lo deixado impressionado nela era o vigor
, a fome de piroca, portanto a beleza daquela parte que vai do ânus até o alto
da vagina. Por um instante, Jaqueline ficou silenciosa com os olhos tristes
postos no chão. E eu pensava ainda em como aquilo tudo ainda conseguia ser tão
bonito: aquela expressão tensa no seu rosto! Uma tristeza persistente ali o
tempo todo. Sua alma em seus olhos e ela dando tudo para estar recolhida na
privacidade de seu quarto familiar, entregue às lágrimas, podendo dar uma boa
chorada e aliviar seus confinados sentimentos sem exagero, porque ela sabia
chorar bonito diante do espelho como ninguém. Você é encantadora, Gorda! Sim,
ela soube desde o princípio que sua fantasia de um casamento planejado nos céus
com véu e grinalda, repicando nas colunas sociais de Barbacena, usando um
suntuoso vestido guarnecido com renard azul, não se realizaria (aquele
brutamontes era jovem demais para compreender; por ocasião da única viagem que
fizeram juntos (para Tiradentes), da janela, através das cortinas do hotel,
Jaqueline havia entrevisto para eles uma vida de cômodos magníficos e mornos, e
enquanto andava de braço dado com o ogro pela cidadezinha histórica,
ajuizadamente ela desejou morrer de amor, Rivotril e flores, por aquele
''cavaleiro teutônico''. Mais tarde, já morta em seu amor quatro ou cinco
vezes, a casa onde morava com o bebê na aldeia tinha ficado enfim disponível
para o drama, agora mais grave que todas aquelas mortes internas. Eu deslizei um
braço pela sua larga cintura diante da peãozada no curral, e ela ficou olhando
desconfiada para mim. Chamei ela de minha queridinha com uma voz estranhamente
rouca e lhe roubei um meio beijo (o segundo!) , mas apenas na ponta do nariz.
Aquele que conquistasse a Gorda (a peãozada pensava) devia ser um homem entre
os homens: mas o belo ideal amoroso dela não era nenhum príncipe encantado
viciado em heroína que fosse colocar a seus pés gordos um amor maravilhoso e
raro , mas sim um homem prático com um rosto forte e tranquilo, capaz de
calcular arrobações no olho, e que ainda não tivesse encontrado seu ideal na
vida; com cabelos talvez grisalhos e que a compreenderia , a tomaria nos braços
protetores, a estreitaria com toda a força de uma alma apaixonada e a
confortaria com um longo beijo de sopa dos mil e um golpes do universo humano
canibal. Era por alguém assim que a Gorda suspirava naquele momento. Não por
mim . Eu estava muito ocupado em tentar não encarar tragicamente o primeiro dia de
desintoxicação, em que a nova possibilidade de saúde e limpeza do organismo
ainda me parecia apenas um desses filmes ignóbeis em que ministros inauguram
estátuas. Era duro sentir a cada segundo que aquele tapete voador do ópio
existia, e que eu não mais voaria nele; assim como era gostoso sair para
comprar drogas químicas numa rua sórdida embandeirada de varais de roupas em
Salvador, como na Bagdá de um califa; e tão doce voltar depressa para meu hotel
em Ilhéus para consumí-las. TÃO DOCE! Desenrolá-las do papel, deitar sobre
elas, abrir a janela sobre o pontal marinho, escrever e sonhar... fora do
tempo. Algo sem dúvida doce: o drogado sábio se integra aos objetos que o
cercam (meus cigarros eram dedos que caíam da minha mão, imitando o otimismo da
saúde num abismo de perfumes insidiosos. Acho que foi Pablo Picasso quem disse
que ''o cheiro do ópio é o cheiro menos
besta do mundo''; de fato: só se aproximam dele o cheiro de um circo numa
recordação da infância ou de um porto movimentado ao luar. Ópio bruto: se você
se contentar em conservá-lo numa caixa qualquer que não seja de metal, a
serpente negra logo achará jeito de escapar (ela margeia as paredes, desce os
degraus, os andares, vira , atravessa o vestíbulo, o pátio, o umbral e, em
seguida, vai se enrolar no pescoço de algum policial na rua em frente ao hotel.
Tudo bem: a impossibilidade de contar minha história em um balé, em uma
pantomima com sutis marcações, me obriga a usar palavras pesadas e idéias
precisas, enquanto busco a retomada da vida refazendo seu curso, enchendo minha
mente da volúpia imaginária de ser agora o que por um erro mínimo (um excesso
de dosagem) eu não pude ser até o momento, para me atirar aí como nos buracos
negros (aqueles momentos em que me desgarraria do vício através de
compartimentos mentais complicados nas armadilhas de um céu subterrâneo; cortar
fios químicos de onde pendiamm sentimentos inflamados em forma de ramalhetes,
buscando extrair desse cansaço abstênio qualquer acesso de ternura que também
me enchesse de tesão por Jaqueline. Em compensação, mais tarde foi com muita
sinceridade que olhei para a Gorda atrás do carrinho do bebê na cozinha de sua
casa, pensando que jamais chegaria o dia em que pudesse chamá-la de minha
mulherzinha. Ainda assim me sentia privilegiado, capaz de passar de um estado
de surpresa ao de delícia lúbrica diante do seu físico: a cor de um rosado
especial da carnação dela, que às vezes ia até o violáceo; com os fios de
cabelo que entremeavam seu loiro com o
jaspe e o ônix, com a ágil ondulação dessa cabeleira de claridade, cujas crinas
despenteadas corriam como raios flexíveis nos flancos da ágata musgosa. Mas a
Gorda não era apenas uma qualidade de carnação, de cabelo, de olhar azul
translúcido e triste, possuía também uma maneira de andar, uma postura corpulenta
impregnada de autoridade, e até mesmo uma maneira de me piscar um olho à
distância, que a tornava única para mim. Pensava então que talvez ela fosse
cuidar um pouco de mim, me proporcionando todos os mimos que uma criatura
abstênia pode ter, pois a Gorda tinha também a sabedoria feminina, e sabia que
um homem, qualquer que fosse, gostava daquela sensação de ser bem recebido no
lar dela. Seus bolos assados na chapa a ponto de adquirirem uma tonalidade
dourada, e o pudim da Rainha das Rosas de um cremoso delicioso, lhe tinham
valido famosa reputação na aldeia, porque ela tinha uma boa mão para acender o
fogo, polvilhar fermento na farinha que crescia, e sempre mexer na mesma
direção, então acrescentar creme de leite e açúcar, e bater bem as claras em
neve, embora ela não gostasse de comer quando havia visitas; frequentemente a
Gorda se peguntava porque as visitas mais magras não comiam algo poético como
rosas ou violetas e a deixavam em paz na sala de visitas lindamente mobiliada
com quadros e a fotografia do pai do seu filho ainda no porta-retrato: ele era
alto de ombros largos, com dentes tortos sob o bigode aparado; ela disse que
eles tinham planejado se estabelecerem numa bela e confortável casa de fazenda,
despretensiosa e aconchegante, ao pé de uma montanha na Encosta do Céu (todo
dia eles tomariam seu café da manhã juntos, simples mas perfeitamente servido,
só para eles dois e antes de sair para cuidar dos animais ele brincaria um
pouco com o bebê, e daria nela um bom e apaixonado abraço de marido: -----
Minha mulherzinha querida(!) -----, ele exclamaria, e olharia por um momento
profundamente nos olhos dela, sorrindo... mas ele se foi bem antes e nada disso
nunca aconteceu.
Regresso
ao hotel
Depois
de arrumar o quarto do bebê, Jaqueline colocou as sandálias e modificou a
posição do candelabro na mesa; o bebê se esforçava ao máximo em dizer o nome
dela, pois ele era muito inteligente para os seus onze meses (todos diziam), e
grande para sua idade (diziam) , e a própria imagem da saúde perfeita e recém-chegada
ao mundo (diziam), um perfeito feixe de puro amor puro (diziam), e certamente
ele seria um dia bem importante (diziam todos na aldeia). Eu tinha começado a
compreender de novo o rosto de Jaqueline, os olhos azuis e inquietos, o que
havia de dureza em sua mandíbula, e a facilidade com que conseguia alegrar sua
boca para brincar com o bebê e logo torná-la novamente inexpressiva; como no
antro de uma feiticeira, a Gorda mantinha guardados encantos agressivos, que um
gesto imprudente meu poderia liberar do mármore, dos tapetes, do teto de
ardósia, do teto de madeira, do veludo do sofá, dos cristais ou mesmo do canto
de sua boca. Fechei os olhos. Jaqueline bebericou o vinho e me olhou
intensamente. Seus olhos tinham cor de musgo de turfa, suas pupilas estavam
dilatadas. ---- Ah, agora já percebo aonde estamos chegando(: rápido demais pra
mim dessa vez, querido(.) -----, disse ela, tocando a boca com o guardanapo e
semicerrando os olhos. ----- Ainda não tirei suas roupas(.) ----- , respondi.
Ela deixou as mãos caírem sobre a mesa, definindo o estado que experimentava
como uma conclusão poética. Seria curioso saber a que escala de estratificação
astral eu correspondia em sua mente. ''Tornar o mistério luminoso '', eu
pensava ''conferindo-lhe sua pureza de mistério (: Meine Nacht ist Licht (
Minha Noite é Luz (.)''. Agora ela me parecia realmente triste. Não tinha
tirado nada dela, apenas cheguei a mão até seu sutiã e ela me pareceu triste em
vez de chocada, e duas bem grandes bonitas lágrimas rolaram por suas faces.
Numa noite de tempestade contida como aquela, o céu baixava sobre a terra como
uma poeira azul num copo d´água. O bebê agora berrava e eu vi que a Gorda
desejava no fundo do coração que alguém fizesse ele parar logo com aquilo. Fui
até o quarto e peguei ele no colo.
Debruçada na janela, ela disse sem se virar: ---- Estou farta de
mentirosos e trapaceiros e farsantes e loucos (.) ----, e secou os olhos e
fungou. Eu sustentava um ar misterioso e místico, que sabia combinar com a
paisagem gelada e erma, destacada da noite da aldeia pela janela. Aquilo tudo
era como aquelas pinturas que costumavam
pintar nas calçadas dali nos Domingos de feira, com aquele giz colorido
diferente: a noite e as nuvens surgindo como espíritos por trás das árvores.
''A poesia'', eu pensava ''é uma visão do mundo obtida sempre por um esforço, e
não por um simples abandono dos sentidos ( não se confundindo nunca com a
sensualidade em estado bruto, mas opondo-se à esta: nasce, por exemplo, da
tentativa de se delimitar exatamente um fantasma, buscando os contornos do
vazio numa paisagem rotineira''. Ouvindo uma música silenciosa como aquela (o
bebê ainda no meu colo agora tinha-se calado e ria pra mim), e o perfume de
Jaqueline como uma aragem lisérgica nas minhas narinas. ---- Não (disse ela)
essa noite não dá pra mim, K (.) -----,
e enquanto ela me olhava sua pulsação se acelerava, sua expressão contendo
sinais claros de interesse intrigado e aguçado, mesclados à um receio
infundado. Meus olhos a queimavam como se estivessem penetrando nela toda. As
pessoas são tão estranhas! A emoção penetrava nela através de ondas curtas e
leves, invasoras, escoando pelos pés, as mãos, os cabelos, os olhos, para se
perder por toda sua natureza, à medida que Jaqueline dava de ombros pra tudo mais
e voltava para a janela, como se por ela fosse avistar o pai do bebê à galope
de uma hora para outra. Minha religião imediata pregava a paciência, ainda que
a abstinência retorcesse já minhas vísceras naquele momento. Dentro dela, ainda
era aquele brutamontes quem importava; havia nela feridas óbvias que precisavam
ser curadas com o bálsamo-paciente-do-coração. Ela uma mulher feminina, não
como aquelas outras garotas volúveis das cidades grandes que eu conhecia,
aquelas bailarinas fitness com tinturas intelectuais, que exibiam o que não
tinham na internet, enquanto a Gorda só ansiava ter notícias do pai do seu
filho, ter o conhecimento de tudo para tudo poder perdoar, se ela pudesse
fazê-lo se apaixonar de novo, esquecendo o que tinham passado. Então quem sabe
ele a abraçaria gentilmente desta vez, como um verdadeiro homem, apertaria seu
grande corpo roliço contra o dele, e finalmente a amaria, o garotinho também
todo dele enfim. Depois que o bebê cochilou, o silêncio dentro da casa
coincidiu com um período de vertigem meu, e eu decidi voltar para o hotel.
Desse modo, meu orgulho se protegeria por trás do mal-estar, contra qualquer
novo golpe do destino, mas também mantinha intacto o que em mim ainda havia de
simplicidade autêntica .Começou assim a última e mais longa das minhas fases de
desintoxicação, com uma caminhada noturna frustrada de regresso ao
Hotel-Kiernan; parando para ver pelas janelas dos casebres os interiores
dourados através da renda ilustrada das cortinas; flores, folhas de acanto,
cupidos de arco e flecha, vacas bordadas; e como na insônia, tudo aquilo em que
não acreditava tornava-se instantaneamente decorativo, ou era apropriado pelo
filtro psíquico da minha consciência como parte de uma obra-prima abstrata e
invisível, dentro da qual eu existia ( obra-prima furtiva, sem forma e sem
juízes: diante e sobre os lados das janelas, as lâmpadas como círios montavam
uma guarda de honra às árvores ainda com folhas que se estendiam em maços de
lírios orvalhados; o menor dos meus gostos, enquanto caminhava pela alamenda
escura, vinha me provar que um espelho de cristal, que meu punho por vezes
abria e fechava, aprisionava o universo de casebres, de lâmpadas,de berços e
bebês, de batismos e missas, de casórios e traições, de currais e negociatas em
caminhões de gado. Fosse qual fosse o individualismo abstênio que me atacava, o
lado solitário e cósmico, reservado e aristocrático, luxuoso e bizarro da
obra-prima invisível que me navegava naquele instante carecia completamente da
necessidade de expressão. Exausto, voltei para o hotel das Kiernan e me deixei
ficar longamente sentado na grande poltrona de couro da sala de recepção,
bebericando as bordas de um copinho de licor amarelo. Aí, na intimidade com o
invisível, segui elaborando a alquimia interna da desintoxicação restante; uma
solene escada de mármore conduzia aos corredores cobertos de tapetes vermelhos,
sobre os quais hóspedes quase imateriais andavam silenciosamente ( talvez
cientes de que eram apenas personagens em um filme, misturando neste sonho seus
gestos com os meus, elevado pela arte à dignidade de um culto masturbatório.
''Bastam ---- '', eu pensava ''bastam iniciarem um dos seus mínimos gestos e
uma transposição promíscua e sobrenatural desloca a verdade do mundo externo
para o meu colo, e logo tudo em mim se torna rito, passagem e iniciação (: é
estranho estar digitando agora dentro deste magneto de energia psíquica ; este
teclado tem algo de incrivelmente vagabundo pra mim ----gesto de solidão que me faz possuir
imagens alheias que servem ao meu próprio prazer egoísta sem que o percebam (os
poetas, nos quais se prolonga a infância, sofrem muito ao perderem esse
poder... ''Mas ainda tenho muito tempo para fazer meus dedos voarem(!)'', e, de
repente, via-me no espelho do salão vazio, duro como ferro. Via-me trepando
comigo mesmo, meus músculos crescendo, endurecendo em volta das coxas,
omoplatas e braços, num fogo que só se abrandava ao se tornar escritura e
desenho. Eu era agora um personagem em evidência num filme . Cerca das dez
horas da noite, a porta do grande salão não deixava mais de se abrir, de voltar
a fechar-se, de se abrir de novo, para dar passagem aos ''hóspedes''. No
entanto, atento àquele jogo de chegadas e conversações, fingia não ver quem
entrava, e só no momento em que estava a dois passos de distância, é que eu me
erguia gracioso, sorrindo sedutoramente para todas as mulheres sem exceção; e
estas faziam, encantadas diante de mim, uma reverência que ia até os abismos da
genuflexão, de modo a colocarem em seguida seus lábios na altura dos meus
olhos, quando eu voltava a me sentar em silêncio. Naquele momento agitado, não
cheguei a me sentir nenhum super-homem ou fauno imoral (elas não tinham todo
esse poder) , mas um jovem de pensamentos banais, bonitinho e falsamente
civilizado, completamente perdido no mundo e embelezado pela violência da
voluptuosidade. Tal admiração era ainda acrescida do fato da cultura
infinitamente inferior da Srta. Kiernan, que apesar de tudo recebia os hóspedes
com elegância e finura, e conduzia alguns debates relâmpago sobre os quadros
pendurados na parede; a própria Sra. Kiernan (sua mãe) estava, sob esse
aspecto, ainda menos avançada do que se supunha; mas bastava à Amanda que o
fosse mais que a mãe para impressionar os hóspedes diante desta: haviam na
parede muitas reproduções em pequenas dimensões de Tarsila do Amaral e
Portinari. E quando Amanda (Kiernan) tirou por um momento as presilhas para
ajeitar o cabelo (pausa: nunca se viu
nos ombros de uma moça tão magra uma cabeça de tranças castanhas-escuras mais
bonita e charmosa ---- a um tempo desenvolta e majestosa ---- de um gênero
intermediário entre a Vênus de Milo e a Vitória de Samotrácia ---- uma visão
radiosa, quase enlouquecedora para mim, no fogo daquele momento, em sua
delicadeza . A Srta. Kiernan quase pôde ver nos meus olhos um lampejo de
admiração, que fez com que quase todos os meus nervos tinissem; ela pôs as
presilhas no balcão e balançou suas
sandálias de fivela mais rápido, pois perdeu um pouco a respiração quando
surpreendeu a expressão nos meus olhos. Eu olhava como uma cobra olha sua
presa, balançando o chocalho da minha mente sob o pórtico do mundo, da vida, e
a Srta. (Amanda) Kiernan, sozinha aqui, se sentindo a dona -herdeira de um
grande negócio. Me levantei e marchei em direção à sombra densa dela, como um
corpo sólido pisado no chão. Seu
instinto de mulher tinha lhe dito que ela havia despertado o demônio existente
em mim, e com esse pensamento um vermelho abrasador deslizou da sua garganta à
sua fronte até a cor encantadora de sua face adquirir um rosa gloriosamente
vivo. Ela ergueu a cabeça à minha aproximação, silenciosa . As sandálias a
empurraram um pouco para frente e transportaram seu olhar com infinita cautela
sobre a lã alta do tapete, como o hálito de uma amante, insensibilizando os
medos que nasciam em nossos peitos, densos e rápidos, a cada um de nossos
gestos; de modo que foi por isso que eu fiz aquela patética insinuação sobre
estar tarde, quando ela me perguntou as horas: ---- Já se passaram mais de meia
hora da hora de beijar (.) -----, então, quando fui chegando mais perto , ela
pôde me ver tirar a mão do bolso, ficar nervoso, e começar a brincar com os
aplicativos do celular, debruçado no balcão ao seu lado. Mas se deu que ela se oferecia à mim por
muito menos (no amor, muitas vezes, o desejo de agradar faz as pessoas
concederem além do que as expectativas haviam prometido há um minuto. Eu me
movia com vagar, os músculos fatigados, as veias doídas da abstinência,
embotado pelo perfume daquela cabeleira estranha, que tão bem recuava o momento
em que eu parecia não estar ''nem aqui nem agora''. Cerca de uma hora depois, o
balde metálico de gelo com a garrafa de espumante apareceria no carpete perto
da porta entreaberta do meu quarto, no último Anexo, e a Srta. (Amanda) Kiernan
me peguntaria: ----- O banho estava bom(?) ----, as cortinas duplas bem
fechadas, e da fenda da porta, tão obscena, naquele instante, quanto uma
braguilha aberta, despontando a pequena chave que manteria a porta fechada após
ela entrar. Sua mão alcançou a parte inferior da minha cintura, e o canto preso
da toalha se soltou, desmoronando aos nossos pés. Ela retribuiu tirando o
vestido: seus peitos eram medianos, rígidos e redondos, os ombros largos e os
braços e coxas firmes e suaves ( as marcas de sol eram muito pálidas, quase
imperceptíveis... ----- Porque não colocar o balde entre as pernas, Amanda (?)
-----, sugeri à ela, pensando que os homens dotados de uma imaginação plástica
meio louca devem receber em troca esta grande faculdade poética, pela qual
negar nosso universo e seus valores para poder agir sobre eles com uma vontade
soberana. ''Fumar ópio durante muito tempo'', continuei comigo mesmo ''sempre
vem (necessariamente) substituir obsessões sexuais de baixa intensidade por
outras bem mais altas e singulares, ignoradas por um organismo sexualmente
previsível e esteriotipado(: por exemplo, um modelo espiritual superior será
realmente pressentido , procurado, incorporado através dos séculos e das artes,
resistindo às aparências, e virá obcecar esta sexualidade transcendente, como
um modelo humano hipnótico, através dos sexos e dos meios culturais os mais
disparatados(.) ''. Então, Amanda (Kiernan) sentiu uma espécie de sensação
percorrê-la toda, ao encostar no balde, e soube pela sensação no seu couro
cabeludo e por aquele endurecimento dos mamilos que aquela coisa estava
chegando porque a última vez também tinha sido assim, quando ela aparou seu
cabelo devido à lua. Meus olhos escuros se fixaram novamente nela: seus cabelos
cheios e desarrumados combinavam perfeitamente com o corpo . E para não ficar
imobilizada de encabulação, ela disse: ----- Mas onde será que eu pus a
toalha(?) -----, e logo eu disse que ela era maravilhosa, perfeita, incrível.
Disse que tinha amado seus seios. Meio sedutoramente, meio inquietantemente,
ela passou as mãos de cima a baixo ao longo das coxas finas e torneadas; sua
carne logo acima do joelho se esticou e avolumou numa curva para o lado,
adquirindo a forma da tampa de um piano de cauda visto de cima, o que me
encantou. Depois, separou as coxas e retirou o balde dali, deixando-me ver um
flash de pêlos castanhos-claros. Bebi com os olhos cada um daqueles pêlos e
contornos, literalmente adorando-a em seu santuário. Durante quase uma hora
inteira, o corpo de Amanda foi mercê das ordens e estímulos do meu, que
pareciam não emanar mais desse mundo. E durante a noite inteira ocupamos nossas
mentes nos dando papéis sexuais esplêndidos através de motivações luxuosas;
inventamos tantas que, pela manhã, percorremos fracos as possibilidades de uma
futura vida de ação: se por acaso alguma delas viesse a se concretizar (um
emprego, um casamento ou mesmo uma fuga) creio que seríamos incapazes de sermos
felizes, pois em uma única noite havíamos exaurido todas as delícias secas, e
várias vezes ejaculamos nossas ilusões na cama, com suas mil e uma variantes de
glória melecando os lençóis. Pela manhã não nos restava nada além do que uma
miséria vesga e vegetativa. ----- Olhe justamente, K (.) ------, disse-me
Amanda fixando em mim um olhar risonho e suave, e porque, como perfeita
dona-herdeira do hotel, pretendia manter-me enjaulado numa daquelas celas de
aluguel para sempre, deixando luzir meu conhecimento de artista extraviado do
mundo sobre o seu ----- Olhe ----continuou : ----- Creio que os quadros de
Tarsila do Amaral vestem-se à moda parisiense, como ela mesma se vestia (:
enormes brincos e molduras de vidro trazendo o mesmo nome de Lalique num
prolongamento decorativo da belle epoque(: a pagu dos olhos orientalizantes,
assimilando o espírito caipira de Minas e São Paulo por meio da técnica
européia, certo (?) -----, as palavras de Amanda soavam claras como cristal,
mais musicais que os passarinhos naquela manhã-mate, embora cortassem
gelidamente o silêncio; e havia aquele tom na voz dela informando que ela não
era alguém que pudesse ser nem mesmo ligeiramente escarnecida.. menos culta,
mas mais viajada do que eu. Quanto à mãe dela, com toda sua arrogância e
fortuna, mais tarde eu travei uma longa conversa com ela: falei longamente
sobre peculiaridades técnico-administrativas da holding J and B, com
ramificações em áreas que iam da bioenergia à celulose, produtos de limpeza,
cosméticos, florestas, bancos, comunicação estratégica, além de alimentos, o
carro-chefe do grupo que o mercado internacional começou a procurar
entender,quem eram e o que vieram fazendo e sua capacidade megalomaníaca de
gerir um negócio deste tamanho (: Friboi, Seara, Swift, Tyson, Anglo, Bordon,
Rezende, Wilson e tantas outras empresas(: foi fundada em 1953, no interior de Goiás, pelo patriarca José
Batista Sobrinho, e até o início do ano 2000 a JBS faturava apenas R$ 500 milhões, com meia
dúzia de frigoríficos(: em pouco mais de uma´década, tornou-se presente em mais
de 20 países, exportando para cerca de 150 mercados com (entre outras
operações) o abate diário de 100 mil bovinos, 70 mil suínos e 13 milhões de
aves. São 200 mil funcionários e um faturamento de R$ 92 bilhões em 2013
(:negócio de carne bovina, suína e de aves, Sra. Kiernan, cujo CEO global raramente
altera o tom de voz para explicar o que pensa à sócios ou jornalistas ... -----
Ela ficou encantada com seu papo-furado, K(.) ----, Amanda disse depois, mas me
advertindo que eu tinha corrido um grande risco de sair humilhado daquele dedo
de prosa, pois geralmente a velha não tolerava essas ''liberalidades'', e
sempre lançava para os interlocutores um bem calculado olhar de desprezo,
quando tentavam se aproximar, o que fazia as pessoas murcharem. ----- Azul
puríssimo (continuei então) rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante, tudo
em gradações mais ou menos fortes, conforme a mistura do branco (.) -----,
referindo-me à sua amada Tarsila, evidentemente (já sob o repicar daqueles
sinos vespertinos e ao mesmo tempo um morcego a voar da capela coberta de hera
em frente ao hotel através da penumbra; e, caminhando, Amanda podia ver à
distância na rodagem as luzes dos faróis dos carros pitorescos que ela teria
gostado de tentar reproduzir com uma caixa de tintas porque era mais fácil do
que fazer um homem ou tocar uma mazurca de Chopin. ------ Tarsila descobriu (eu
disse) o lado animal do vegetal, tornou plástico o sortilégio tupi e africano
(: e inaugurou um 'eixo' inesperado (: Sabará-Paris, território ideal que
reunia Rousseau, Léger, Gleizes, Lhote e muitos ingênuos decoradores anônimos
de capelas, arcas e baús (.) -----, meu mal-estar havia aumentado um pouco sob
os lampiões, naquele segundo dia de
abstinência; Amanda amava ler poesia e eu observei que, partindo de Tarsila do
Amaral, a pintura havia começado a influenciar a pintura feita no Brasil, até
alcançar os poemas gráficos dos poetas concretos de São Paulo. Meu rosto
perdia, caminhando ao lado dela, os reflexos de aço azulado do ópio, a dureza
de estátua de ferro em praça pública; meus olhos se adoçavam ao cair da noite
até o ponto de inexistirem, até não serem mais do que dois buracos por onde
passava o céu da desintoxicação. E um certo balanço no andar dela revelava uma
inteligência aberta a todas as coisas que via em mim e não compreendia. ----- A
Jaqueline já tinha me falado bastante de você, K (: da última vez que você veio
eu achei aquilo engraçado (: ainda vejo bastante ela, passando aqui pra
conversar com minha mãe, à caminho do curral(: ela nunca foi com a minha cara,
me acha uma patricinha, e acho que sou mesmo (: mas ela é uma espécie bem
rústica de ''evaporeé'', como dizem os franceses(.) ------, Amanda comentou e,
sem tentar, ia desenvolvendo a mentira, acrescentando mais uma palavra ou um
gesto dos ombros, um bater de cílio ou sorriso encantador; desta forma, nos
provocava uma perturbação deliciosa, alguma coisa como a emoção que costumo
sentir à leitura dos Cantos de Maldoror. Aquilo era a solução elegante, rápida,
luminosamente falsa e clara, de um conflito nas nossas profundezas. Porém, mais
tarde, refletindo mais detidamente,
sozinho no meu quarto, percebi que aquele aprazível conflito interno entre os
estados poéticos das nossas consciências era daquele gênero que os
garimpeiros-marujos, no Pará, costumavam chamar de ''nó-de-puta''.
Nó-de-puta
---- A
administração familiar, se profissionalizada, pode ser muito eficiente (.)
-----, disse a Sra. Kiernan, dona do hotel e do rebanho, e representante da
quarta geração do clã dos Kiernan, que vinha se sucedendo à frente daquele
empreendimento há 70 anos, iniciado por um pequeno pecuarista chamado José (ph)
Kiernan, filho de imigrantes irlandeses. Mas o que de fato a Sra. Kiernan me
ofertava com aquela nova disponibilidade para a conversa (domada e submissa por
minha amabilidade) , eram os antigos encantos, energia e valores de uma cruel
menina da aristocracia rural dos arredores de Barbacena, que desde pequena
montava a cavalo, derrubava bois, descadeirava gatos e cachorros, arrancava os
olhos dos coelhos e explorava sexualmente um ou outro empregado, em meio a
refeições com muita carne de porco e sobremesas de frutas; e, tanto quanto a
filha, tinha permanecido uma flor de
virtude social aos olhos da sociedade. Unicamente, era incapaz de compreender o
que eu havia procurado nela, e o pouquinho que havia encontrado daquilo: um
resto provinciano de encantamento poético. Como poderei explicar que Amanda
(sua filha) já tinha trinta e três anos (como eu) ?, pois é necessário que ela
tenha minha idade para que eu aplaque enfim minha necessidade de falar de mim,
simplesmente, como tenho necessidade de me queixar e tentar conquistar o amor
de uma certa leitora. A época em que Amanda cursou a faculdade de direito no
Rio de Janeiro, foi a época do grande luxo internacional na sua vida; após se formar,
ela fez ainda um cruzeiro pelo Mediterrâneo, depois foi ainda mais longe, nas
ilhas *****, num iate branco onde ela flanava acima dela mesma e do seu amante,
vice-presidente de logística e suprimentos de uma fábrica de bebidas
alcóolicas, orgulhoso de sua companhia e sua fortuna. Ao voltarem, o iate
ancorou em Veneza e ali Amanda fez sexo escondido com um sujeito envolvido com
cinema; ele se apaixonou por ela e viveram algumas semanas através de salas
imensas num palácio dilapidado. Em seguida, veio a Riviera francesa, entre
Marselha e a fronteira italiana, num grande hotel dourado enroscado sob as asas
de uma águia negra. Mas as relações de Amanda com aquele projeto abortado de
cineasta se fundavam num mal-entendido, desde que as apaixonadas declarações
dele, em lugar de se dirigirem à mulher superior que ela já se julgava ser,
naufragavam rente à pálida sombra de um delírio amoroso medíocre. Mal-entendido
tão natural e que existirá sempre entre um playboy idiotizado pelo amor e uma
puta de alta estirpe, e que o perturbou profundamente enquanto ele não foi
capaz de reconhecer a natureza das faculdades imaginativas de Amanda e não teve
sua parte na inevitável decepção final, que deveria ainda experimentar com
inúmeras outras mulheres parecidas, pois seu pau era incrivelmente pequeno e isto parecia definir as coisas
negativamente para ele. Ainda na Riviera, Amanda dormiu nos braços de um
fabricante de inseticidas norte-americano, num leito de cortinado e baldaquim;
houveram passeios numa comprida limousine branca onde pela primeira vez ela
usou cocaína e participou de swings com homossexuais drogados. Num navio no mar
de não sei onde a cena era iluminada pela chama baixa de uma lamparina retrô,
no topo da qual uma enorme quantidade de droga crepitava numa colher metálica
de sopa; os corpos se imbricavam uns nos outros e, sem despertar a menor
surpresa, o menor desagrado nela, Amanda
se meteu ali, com uma garrafa de absinto na mão (as pernas dobradas e a nuca
apoiada num tamborete onde realmente não havia lugar para mais ninguém; sua
agitação inicial não incomodou nem mesmo um dos bofes que dormiu com o pau
enfiado na boca dela, um pesadelo de morfina o convulsionando. Mais tarde
(foram três longos dias) ela se revirou naquele ''leito'', rasgando sua camisola
de seda, e foi sumariamente enrabada por um jovem desconhecido que não poderia
ter mais de quinze anos de idade. ----- É a primeira vez que transo com uma
garota (.) ----, ele disse depois, apalpando seus peitos como um bebê com sede.
As caretas de Amanda criavam um contraste extraordinário com a calma drogada
das outras pessoas (calma vegetal de corpos dobrados em que os esqueletos
visíveis sob as peles muito pálidas nada mais eram que a delicada armadura de
um sonho de ópio. Na verdade, pouca coisa daquela noite restava em sua alma e
aqueles jovens fumantes evocavam em Amanda apenas as oliveiras que ela
encontrou dias depois em Provença, oliveiras tortuosas sobre a terra vermelha,
plana, com nuvens prateadas suspensas no ar. Na Itália, sonhou algumas vezes
com a mãe: recebia dela ordens de pagamento, e-mails pedindo notícias e fotos,
e jóias que usava uma noite e logo as revendia para pagar os jantares das
amantes lésbicas e parceiros gays (os aspargos acabavam de ser servidos,
naquela hora, após o ''poulet financiére'', aspargos verdes crescidos ao ar
livre e que, como dizia um refinado autor que assinava E. de Clermont-Tonnerre
: '' Não possuíam a rigidez impressionante de seus irmãos (.) ''. ----- Devem
ser comidos com ovos cozidos e molho verde (.) -----, comentou a Srta. Bréauté,
autora de um estudo sobre gastronomia mediterrânea, que só frequentava os meios
aristocráticos da Europa, e entre estes somente os que tinham uma certa fama de
inteligência lésbica. Com ela Amanda comeu várias vezes e voou até Paris, tudo
dentro de um luxo quente e dourado... e invento para ela aqui os apartamentos
mais aconchegantes, onde eu mesmo me adaptei em várias ocasiões; mas houve
alguma oportunidade em que Amanda (convidada pela Srta. Bréauté) não foi
recebida, tal o esnobismo que se manifestava na festa de então: ela passou a
noite quase toda num corredor vazio para onde lhe tinha conduzido um segurança,
onde a necessidade de falar com alguém
não a impedia apenas de escutar, mas também de ver o que acontecia a sua volta;
e , neste caso, a ausência de toda descrição do meio exterior já era em si uma
descrição do estado interno dela. E se lhe era recusada toda cena
justificadora, Amanda, um cigarro aceso entre os dedos, evocava-as com um
fervor tão desesperado e ofendido, que por alguns segundos (mais de uma vez)
chegou a acreditar que bastaria um nada ---- um ligeiro deslocamento,
imperceptível, de suas retinas ----- para que o luxo privativo do outro lado
daquela mansão se tornasse também seu. Finalmente de volta ao hotel, ela se
imiscuiu intensamente por mais alguns dias na vida da viadagem parisiense,
multiplicando-se pelos bares médios e minúsculos de Montmartre. E recontando-me
, com um certo sotaque forçado de príncepe alemão, a história de Amanda Kiernan
em Paris, eu ria bem alto, como se meu riso, semelhante a certos aplausos que
aumentam a admiração interior, fosse necessário à minha narrativa para lhe
corroborar a comicidade. . ----- Agora estou realmente ansiosa para me mandar
de volta pro Brasil (.) -----, Amanda pensou consigo. ''Mergulhe-a, K(!) '', eu
refletia em resposta, entrevendo os contornos dos meus dedos sob as nádegas
brancas dela em flor, na poltrona do avião. Um Martini, dois. Meu rosto estava
tão junto do dela , naquele momento, que eu podia ouvir cada detalhe de sua
respiração, transplantando-a através do ar para dentro do meu livro, mas ainda
não conseguíamos nos beijar. O autor da narrativa ainda era um espírito. Eu
lia, olhava.. ''Pensamentos(!)'', pensei de repente; Amanda os expressava então
da forma mais direta, naquela hora, quase no sentido em que a Srta. Bréauté
empregava a palavra quando, em Paris, achando enfadonho e antiquado que os
convidados de suas festas de gala fizessem seguir suas assinaturas, na lista de
recepção, de uma reflexão filosófico-poética, advertia os recém-chegados com um
tom suplicante: ------ O seu nome, minha cara, mas nada de ''pensamentos'' (!)
----, aqui, tentando ver claro na escuridão e, com os pés na terra, após o
longo vôo transcontinental, abordando cara a cara problemas que Amanda foi
obrigada a abordar apenasde viés, tamanha a humilhação que experimentou na
França (certamente aumentada pelo seu sentido de futilidade). ----- Para os
franceses do círculo da Srta. Bréauté ----- ela me disse na varanda do hotel, me
servindo o café da tarde : ----- ...o Brasil é apenas uma ilha além dos mares e
dos sóis, onde homens de compleição atlética, rostos rudes, passam a madrugada
agachados ao redor de fogueiras
gigantescas , descascando laranjas que depois seguram com uma das mãos
enquanto a outra repousa fechada no cabo do facão (.) -----, tais pensamentos
eram até certo ponto tocantes para mim e, já em torno deles, sem que a forma
tivesse ainda a profundidade narrativa que só deveria atingir bem mais tarde; o
fluxo de palavras numerosas e imagens opulentas inconscientemente articuladas
fazendo-as assimiláveis àqueles versos do tipo que se poderia descobrir num
Henry Miller ou num Campos de Carvalho, por exemplo, e onde um romantismo
intermitente, contido, e que tanto mais me emocionava, todavia não penetrava
nas fontes físicas da vida, nem modificava o organismo inconsciente e
generalizável em que o autor acolhia as idéias de sua personagem. Esboço
sublime, no entanto: Amanda triunfava(!), era a palavra-poema que caía daquela
visão e começava a petrificá-la; o cubo noturno do quarto onde volteavam como
sóis ( confundidos num emaranhado com as pernas de uma acrobata de maiô azul,
executando um grande sol em voltado meu falo ereto) as laranjas atiradas pela
cor da palavra: ----- BRASIL(!) ----, mas justamente, citando desse modo uma
frase isolada, decuplicava-se seu valor atrativo na história; as que entravam
ou tornavam a entrar no decurso daquele café na varanda, magnetizavam por sua
vez, chamavam a si com tal força as cenas em que suspeitavam-se encravadas, que
minhas mãos, eletrizadas, não podiam resistir à força que as conduziam ao caderno e à caneta. Eu relia aqueles
rascunhos do começo ao fim, antes de recomeçar a escrever, e não encontrava a
paz de espírito até perceber de súbito, esperando-me na luz da consciência
divina em que eu as havia banhado, as frases que acabava de ouvir Amanda
pronunciar diante de mim. daí, ela, liberando um fragmento de imaginação que há
algum tempo existia em mim, declarou: ----- O que você quer de mim, K(?) -----,
era uma frase murmurada mentalmente numa noite antevista por ela numa página já
escrita. ''Mas teria ela antevisto aquilo no mogno da cômoda'', eu pensava ''
ou talvez numa percepção inconsciente associada ao lugar (o quarto, a Luz) e ao
momento transpassado pelo presente (?) ''. Ela estava sorrindo, alheia às
minhas divagações, satisfeita por eu estar tão obviamente aos seus pés; eu
podia sentir o cheiro do seu batom, quando ela disse: ---- Acho que é hora de
tirar as roupas e colocar aquele balde de gelo entre as pernas, certo ?) -----,
e a voz que eu ouvia era surda, naquele momento , dirigida para um só ponto por
uma mão em concha, recortando uma boca de criança triste que aguardava os
suspiros contidos de um tigre. Até aquele momento eu me mantive encostado na
parede do banheiro de forma que meu corpo ficasse fora do raio de visão dela;
me mexi, em seguida, colocando um joelho contra a porta e o outro do lado do
batente, sentado sobre os pés. Minha indumentária se resumia à uma venerável
cueca Calvin Klein preta, quando puxei para o lado uma das pernas, liberando
meu conjunto peniano para o alto, para poder balançar um pouco meu caipirão
para ela à medida que ele endurecia. A arte nasce do coito entre o elemento
macho e o elemento fêmea que nos compõe a todos, sem exceção, sendo bem mais
equilibrados e desenvolvidos nos artistas de gênio do que nos outros seres
humanos; isso resulta de uma espécie de incesto, de amor consigo mesmo, ou
partenogênese. ----- Você quer me ver lavando os seios, K(?) -----, Amanda me
perguntou, passando a língua nos lábios; vi os olhos dela correrem para baixo,
passarem pelo meu peitoral, descerem pelo meu abdômen e pousarem na minha mão recheada do meu pau:
a velocidade do meu punho pareceu dizer que sim. Não se pode traduzir um
autêntico poeta-vidente pela musicalidade do seu estilo, pois seu pensamento
comporta também uma estrutura plástica: se tal plasticidade muda, seu
pensamento também muda; portanto, um poeta só deve contar com leitores que
conheçam sua língua, o espírito de sua
língua e a alma de sua língua. Eu diria que Amanda estava coberta de
razão: um mistério emanou um arrepio
através de sua epiderme, quando caí sobre ela tirando sua calcinha; todo o azul
reverente sobre a pele branca vestindo um prestígio afrodisíaco obscuro, mas
potente, como uma lisa coluna que torna-se sacra ao esporrarem hieróglifos
nela. Os sinais foram bárbaros e tórridos durante o ato sexual:
amores-perfeitos, arcos, corações trespassados, gotejando suor e sangue, rostos
um sobre o outro, respirações uma dentro da outra, estrelas, meias-luas,
linhas, andorinhas, serpentess, divisas, propagandas de cerveja, toda uma
literatura profética e apocalíptica nascendo de nossos múltiplos orgasmos. Mais tarde, naquela noite, na sala de jantar
do hotel, pelas palavras da sua velha mãe e pelos gestos histriônicos de seu
novo homem (e autor), um novo universo também se abriu instantaneamente sobre
Amanda: o universo do irremediável em literatura. O mesmo, aliás, em que eu
vivia, com uma diferença peculiar: em vez de agir e saber que estava agindo,
Amanda sabia claramente agora que era eu quem estava agindo sobre ela, como um
carrasco. Seu olhar ---- que poderia também ser o meu próprio , quando a fodia
----- possuía a agudeza rápida e precisa do extra-lúcido, e a ordem
extra-sensorial deste mundo ---- vista de dentro para fora ---- apareceu diante
de nós tão perfeita em sua inevitabilidade que só restava ao nosso novo mundo
agora desaparecer completamente da face da Terra, como se jamais tivesse
existido. Amanda não disse mais nenhuma palavra, durante o jantar, mas o fato é
que a partir daquele momento em diante, eu poderia, sem fingimentos, sem
transposições, sem truques narrativos do arco da velha, falar da minha vida
ali, naquele novo mundo auto-criado. Minha vida atual.
Recém-chegado
Tudo
era uma questão de velocidade(s). Velocidade imóvel; de velocidades em si,
velocidades sedativas, de seda (jogo fonopoético com ''en soi'', em si, e ''en
soie'', de seda). Velocidade diversa da condição humana normal, que só nos
oferece uma imobilidade relativa, ou a dos metais, que exibem uma imobilidade
ainda mais relativa... lá onde começam os reinos inorgânicos muito rápidos para
que possam ser percebidos por olhos não-treinados. O olho-ventilador, o anjo;
mudando as velocidades, provocando a intuição muito nítida de mundos que se
superpõem, num estilo que não se deixa diluir de nenhum modo, nascido de um
profundo corte da visão carnal: a morte separa completamente nossas águas
pesadas de nossas águas leves; a iniciação as separa um pouco. O importante é
que a minha voz não se pareça mais com a minha voz, mas que a máquina cósmica
das velocidades produza para cada um destes novos estágios uma voz própria ,
nova, fluida, desconhecida, secretada em colaboração com a nova velocidade. O
busto de Amanda, por exemplo, declamado, clamado pela grandiosa máquina cósmica
da VOZ como se fosse uma esponja capaz de reter ''o som e a voz articulada'' de
uma nova antiguidade (idílica, diáfana, intocável como uma madona francesa
medieval, toda luz e cultura, de raça, sedutora, com suas tranças castanhas e
seus olhos verdes caramelados como mel no fogo: isso me faz pensar naquela
planta descoberta por Fogar no fundo da água (Impressões da África, R.Roussel)
e que conservava as imagens, eu anotando (como ela) os absurdos transparentes
do semi-sono crepuscular. Flutuo. Ora, é um livro que tenho que concluir.
----
''NADA(!)'' (Amanda disse) seu olhar
embotado pareceu me responder; era uma
manhã encantadora e eu tinha dormido a tarde e a noite anteriores inteiras,
após uma farra numa suíte do Ritz (: fui visitar uma amiga no Pont des Arts,
num ateliê que ficava nos fundos de um café na Rue des Lombards, mas envolvida
pelo ótimo cheiro de croissants que saía dos fornos, decidi fazer o desjejum (:
e lá estava Monsieur Lemoine, me olhando com essa mesma cara que mistura
absinto, sarro, láudano e doença(: uma claridade filtrava-se através das
vidraças do café, iluminando esse mesmo velho homem de semblante de aristocrata
do Ancien Régime, no qual Deus parece ter tido prazer em sublinhar o contraste
entre as maçãs do rosto, a altivez orgulhosa da testa, os restantes cabelos
velhos, o nariz austero e aquilino e, depois, inesperado sob o traço das
sobrancelhas hisurtas, o singular embotamento de um olhar tão delirante quanto
compassivo. Vinte minutos depois, estava sentada diante dele no apartamento da
minha amiga Berthe, pois ele era pai dela (: havia móveis e cavaletes e uma
janela no ateliê que dava para um restaurante do outro lado da rua (: fumamos e
conversamos um pouco: ele simpatizou comigo logo de cara, e antes de ir embora
disse que estava voltando para o Brasil, que provavelmente moraria no Rio mas
visitaria nosso hotel com prazer ( ''---- No inverno(.) '' ----, ele disse
(sorrindo: referindo-se à Barbacena como a famosa ''Cidade dos Loucos'' (e ao
Bispo do Rosário) , onde realmente
existiram muitos hospitais psiquiátricos; a cidade atraía esses manicômios
antigamente em decorrência da velha idéia, defendida por alguns médicos, de que
seu clima ameno, com temperaturas médias bem baixas para os padrões
brasileiros, faria com que os doentes mentais ficassem quietos e menos
arredios, menos loucos, facilitando o tratamento. Um deles hoje em dia é o
Museu da Loucura. Antes de nos despedirmos, no entanto, Monsieur Lemoine
voltou-se para sua filha, iniciante talentosa na arte, e disse(: ----- Deixei um crédito no La Platense pra
você comprar telas , tintas e o que faltar (: o dono é meu amigo(: eu vou te
mandar uma amiga, Madame Olívia Monvel, que disse estar precisando de um
retrato urgente, como se necessita (creio) um aborto ou um pacotinho de
heroína(: não quero voce pintando só pra passar o tempo, encurtarei sua mesada
e mandarei pra cá também toda e qualquer amiga que me restar na cidade, pra
voce pintar(: te fará bem trabalhar sob pressão por uns meses(: como disse
Niezsche: ''Um verdadeiro artista só pode contar com as estrelas'' (.)----,
concluiu ele, obviamente se referindo às putas que serviriam de modelo para a
filha (:) ----, eu ouvia o relato de Amanda estarrecido, enquanto observava
atentamente Monsieur Lemoine na mesa; mas como nos aproximarmos dele sem espantar
suas companhias ou constrange-lo era a questão: por hora ele me parecia um
tanto embaraçado ali, pregado em sua cadeira por um torpor tenaz. Foi um dos
seus olhares para o vazio que me alertou (um olharzinho de nada; um daqueles
olhares bem simples, sem história, como os que trocamos na rua diariamente sem
consequências: breve e furtivo, um olhar que eu poderia não ter visto e que não
deixou , uma vez verificado, mais lembrança do que um fantasma: o que havia
naquele olhar era um nada de conveniência, mas que possuía uma força estranha,
surgida das profundezas dos olhos e que, pela sua duração, parecia afastar
aquelas prostitutas mais velhas dele, do quarto que tinha alugado no Hotel
Kiernan, para transportá-las de volta a algum lugar que elas conheciam, em
Barbacena, e para o qual ele não seria novamente convidado. "Grande
lascivo '', pensei comigo , em sintonia com Machado de Assis ''espera-te a
grandiosa voluptuosidade do nada(!)''. Olhar parecido com uma união que ele não
queria mais, ou da qual acabava de se arrepender, após ter se saído
relativamente bem com elas no quarto. As duas na sua mesa tão inocentes e
alheias às suas paisagens internas; estarrecidas também (?, abobadas ou tensas,
seguindo com ele em direção ao buraco final e à última palavra. Tão treinadas,
comuns, caladas, falantes, imbecis; aquele buraco no meio da noite as havia
estado esperando, e à ele, desde sempre, em algum universo paralelo que
subitamente engolira nossa dimensão: o buraco esperava-os apenas, sem esperança
ou interesse. Na cabeça delas, lembranças de outros clientes, colegas de
profissão, cálculos vagos (flores sem viço que mudavam de nome depois da
meia-noite.
-----
Então ele é também um pintor, certo(?) ----, perguntei para Amanda. ----- Sim,
mas você precisa ver a minha mãe falando sobre ele (: ''o vagabundo'', o
''pobre cão'', o ''maldito colorista'' (: acho que ela nem desconfia o que são
essas moças na mesa dele, mas mamãe vive dizendo que as camareiras acham o ar
do quarto dele pesado e enjoativo, que ele mal abre a janela durante o dia,
espalha um monte de coisas pelo chão, fuma demais (: podem até pensar que ele
dorme muito, mas eu o conheço: na poltrona, a maior parte do tempo ele fica
mergulhado num estado em que o mínimo movimento custa caro, sobrando força
apenas suficiente para pensar na própria cabeça, nos contornos quase imateriais
do corpo na penumbra.. ou , quando abre os olhos e acende o abajur, nos
defeitos do teto, nas cortinas imóveis, etc.. (nos efeitos da iluminação
natural do sol nascente sobre as cores do quadro que mostrou-me da última
vez(.) -----, ela disse; mas Amanda não tinha se interessado muito pelos
progressos daquele quadro: tratava-se de uma amazona, com delicioso talhe de
ampulheta e de pele lembrando suco de morango; sobre o cavalo, ela parecia
daquelas capazes de partir um homem em dois, mas que numa cama devia servir
para muitas coisas mais. Sobre o quadro: ----- Chame-o (Monsieur Lemoine disse
à Amanda) de sonho de vigília de um homem que vai envelhecendo mal (.) -----, e
eu ri, me perguntando porque seria que um velhote franzino daqueles viveria
suspirando por mulheres robustas e carnudas como aquela amazona com pele cor de
suco de morango. ----- No dia em que ele me apresentou o quadro, confessou que
vinha copiando os contornos de uma fotografia publicitária, tirada de uma
revista de moda, e que seus pincéis a estavam acabando de despir(: mas eu pedi
para ver a foto e ele desconversou(.) ----- , Amanda completou, e minha
curiosidade teve que esperar até a tarde do dia seguinte, pois Monsieur Lemoine
dispensou suas duas companhias e subiu para seu quarto como um autômato. Eu e
Amanda, logo depois, fizemos o mesmo, e trepamos na cama do quarto dela, que
tinha uma varanda com cadeiras de balanço de cana da índia de frente para o luar.
Confesso que naquela noite me daria no mesmo foder ou não, porém Amanda se
revelou uma garota incrivelmente capacitada para continuar surpreendendo após o
ato, tão disposta se mostrou a inundar a noite com mais relatos e confidências
pitorescas; aos poucos eu iria percebendo que quando acontecia de fazermos amor
e a bebedeira nos obrigava a conversar longamente entre uma e outra foda, era
como possuir dezenas de mulheres em uma, sabendo profundamente de cada uma
delas. ----- Antes que eu saísse de seu quarto (Amanda disse) Monsieur Lemoine
me perguntou(: ''-----O que você acha(?) não tenho certeza de que comprarão
isso (: parece um Modigliani dos tempos em que o italiano já estava podre (:
parece-me com qualquer coisa estranha e suja que me ocorreu de repente,
enquanto caminhava por aí, mas juro que estive trabalhando duro no cabelo liso,
loiro e cheio com a larga linha amarelenta que o divide (.)'' -----, eu o
espiava com dissimulação (continuou Amanda), pois sabia que não era bom falar
de quadros com um artista antes que estivessem pintados ou vendidos (: é
necessário um certo sacrifício, quando se trata de uma causa nobre, como um
quadro ou um livro grandiosos (: mesmo assim, não fui capaz de decidir se ele
tinha realmente algum valor como artista, mas ficou indiscutível, ao menos para
mim, seu valor como filósofo, quando estava calmo o bastante para formular
frases inteiras: ''----- Sujeitos ao tempo e ao espaço (disse ele, na porta do
quarto) acontece-nos de vez em quando esquecer estas duas categorias, e
situar-nos num território insólito, fora da faixa mesmo de teólogos e poetas,
fora da faixa de toda verbalização (: os tecnocratas de toda espécie que nos
rodeiam, os ''toscos'', aplicam a esse estado de espírito o nome de evasão,
condenando-o expressa ou veladamente (: mas o desejo de evadir-se da realidade
pode ser substituído por outro: o de mudar de realidade, transfixar-se em outro
mundo; sucede-me, pois, às vezes, evadir-me ou transfixar-me nos quadros de
Gastone Biggi (: a grande protagonista dos quadros de Biggi é a esfera; segundo
Empédocles de Agriento ''altiva e alegre na sua independência, como o Sol'' (:
pintura de uma certa realidade não-quotidiana que anexamos ao nosso próprio
território, que nos apresenta de novo à Pitágoras intacto e absoluto (.) ----,
foi então (continuou ela) que ele me contou como tinha feito e perdido o ateliê
no mercado de Barbacena; não entendi nada, por sinal, apenas que agora ele
carregava consigo seus papéis-cartão, sua caixa de óleos e pincéis, e, segundo
ele, sua eterna ''promessa de cigarros e garrafas''. Ainda segundo ele ''Pintar
era mais divertido que advogar'', profissão de que se aposentou há anos, a fim
de devotar-se à pintura de celeiros vermelhos ao crepúsculo, estradas rurais
flanqueadas de vidoeiros prateados e mulheres nuas.
INTERRUPÇÃO
Reencontramos
Monsieur Lemoine, naquele Domingo, pouco antes do crepúsculo, andando à margem
da alameda como quem volta para o hotel; as tardes de Monsieur Lemoine se
repetiam, com temores e preferências, enquanto seu nu progredia lentamente no
cavalete do quarto: talvez já retido, completamente terminado, nos ossos de sua
face, naquelas maçãs do rosto salientes, com um brilho mortiço no olhar. -----
Bom dia, madame (.) ----, ele disse para Amanda, todo cerimonioso, e levantando
um pouco seu chapéu me cumprimentou silenciosamente. ----- Bom dia, Sr. Lemoine
(: de onde o Sr. vem com essa aparência boa e altiva (?) ----- , ela perguntou.
------ Não sou eu quem estou bom e altivo, meu anjo, é o dia (: fui caminhar
por aí, mas depois de uma hora de caminhada, aquele exército de tabaréus
pinguços veio no meu encalço e me obrigou a jogar(: a sinuca (a princípio) é
comigo mesmo, mas minhas pernas começaram a tremer um pouco, de fraqueza, e foi
como se eu nunca tivesse segurado um taco em toda minha vida (: o horror, o
horror(!) -----, retrucou ele, explicativo, e nós rimos. ----- O Sr. já deve
ter visto o K, no hotel, mas ainda não foram apresentados (: o Sr. tem aqui um
autêntico discípulo de Marcel Proust (: ''a memória das coisas passadas não é
necessariamente a memória das coisas como estas foram'' (: certo(?) -----,
apresentou-me Amanda, produzindo um efeito vivo na fisionomia morta de Monsieur
Lemoine. ----- Que preciosa novidade, Miss Kiernan (: não era com a senhorita que
eu conversava outra dia sobre estudos de dialetos selvagens (?) e não sei com
quem, em Paris, um dia, eu comentei o quanto me agradava imaginar a tradução
das obras completas de Proust para o tupi-guarani, para assim podermos
ensiná-lo aos índios (: ''as coisas como estas foram'' (!, Proust não criava
personagens ''à clef'', mas certos amigos entravam em doses maciças nas suas
misturas (: ele não conseguia compreender, então, que o modelo, cujos defeitos
pintava com charme, se recusasse a lê-lo, seja por rancor ou fraqueza de
espírito (.) -----, ele disse, apertou as costelas com certa dificuldade e fez,
depois, uma cara infantil para que escutássemos, a nossa volta, tudo aquilo que
ia ficando de noite; parecia ter tomado uma joelhada na barriga. ------ O Sr.
está bem, Sr. Lemoine (?) -----, Amanda perguntou. Eu por enquanto me limitava
a rir. Mais tarde, um dos informantes do hotel, cumprindo ordens da mãe de
Amanda, descreveu-o chegando ao povoado onde Jaqueline morava, nos seguintes
termos: ''Entrou naquele seu boteco preferido, pediu uma cerveja, bebeu,
titubeou um pouco, pediu mais uma, rodou em volta das mesas como um vagabundo,
avistou uma puta esquelética que pareceu agradá-lo, e com uma cômica
autoridade, sem pedir permissão à ninguém , sentou-se com ela no colo e começou
a se vangloriar. ----- Mas de quê (?), pelo amor de Deus(?!) -----, perguntou a
Sra. Raquel Kiernan. Informante: ----- Eu estava num canto do balcão, perto da
TV, e todos falavam muito alto, de modo que não deu para ouvir muito (: mas que
ele se vangloriava, não resta dúvida (: embebedava o mundo com teorias,
lembranças, prognósticos políticos delirantes (: e dava pena ver aquele povo
todo, entre os quais dois ou três fazendeiros ricos, não exatamente rir, mas
sugarem seus cigarros de palha e charutos com volúpia, ouvindo-o atentamente
(.) -----, naquele momento, fomos nós três alcançados por uma chuvinha
alfazema; a floresta apresentava tons dolorosos de uma vermelho amarelado onde
se insinuava o castanho-junho; mais além a estrada serpenteava subindo a Serra
da Mantiqueira, vertentes cor de peito de morcego das colinas, o ar rescendia a
maçãs, cerejas, morangos e... ROSAS. Foi o que Monsieur Lemoine disse, ao ver
Amanda flertar com uma rosa à margem da alameda: ----- ''Transplantá-las,
porém, da terra, que crime, Senhor (!) -- No peito ou nos livros morreriam de
tédio, - e, inalienáveis, em ambos nem enfeite, nem rosas seriam (.) --
Vivas,tristes ou belas, não as canteis jamais (.) -- Deixai que os campos ou os
ventos as agitem serenas, -- frágeis, mansas, no mistério de todas as palavras
(.) '', concorda com o poeta Dantas Mota, meu caro (?) ----, ele me
perguntou,de súbito. Assenti com a cabeça e disse que o poeta tinha sido amigo
do meu avô, que costumava dizer dele: ''Desceu ao abismo mais pobre e perigoso
e trouxe de lá o verso lento e severo, semelhando o fluxo do rio São
Francisco''. Monsieur Lemoine conhecia de fato Minas Gerais, tinha desenvolvido
ali alguns hábitos , incluindo as drogas, que lhe proporcionavam, justo a partir
daquela hora do dia em que estávamos adentrando, a impressão deliciosa e
redentora de abrandamento das suas dores, físicas e espirituais. Voltou ao tema
da memória, falando de Proust com propriedade: ----- Quando penso nele,
geralmente o vejo de barba, diferente daquela famosa foto (: numa das banquetas
vermelhas do Larue, em 1912 ou 1913 (: e sem barba eu o vejo na casa de Madame
Alphonse Daudet, assediado por um certo Jammes que parecia mosca varejeira em
torno dele (: e também o vejo morto,com aquela maldita barba do começo (:
enfim, com e sem barba, que diabos estou falando (?, o tempo da infância:
futuro, partido a priori em fragmentos (certo?) num cosmorama(: mas nem todo
escritor possui um estilo idêntico ao nervo, um estoque inesgotável de asma, um
detector de ondulações humanas, um quarto forrado de cortiça e três mil anos de
cultura acumulada (: sim, aquele quarto de cortiça, de poeira e pequenos
frascos, ora deitado de luvas, ora de pé num banheiro de cena de crime,
abotoando um colete de veludo num pobre torso quadrado que parecia conter todo
seu vertiginoso mecanismo literário (: eu o vejo também entre as capas dos seus
móveis, a poltrona e o lustre recobertos (: a naftalina cintilando na penumbra,
ele apoiado na lareira da sala desse ''Nautilus'' como um personagem de Júlio
Verne, ou então de fraque, ao lado de uma moldura revestida de crepe, como
Carnat morto (:quando eu estava morando em Paris, cheguei a sonhar uma noite
que ele tinha me acompanhado até o Louvre, com um jeito de lamparina acesa em
pleno dia, de campainha tocando o dia inteiro numa casa vazia (: cheguei mesmo
a rascunhar um conto sobre esse sonho,
mas Madame Dubech me disse: ''----- Tenho dó de gente que não sabe escrever (.)
'' .Certo, um pintor geralmente fica de pé o dia todo (,) eu sentia necessidade
de me divertir com qualquer coisa acessória, como escrever ou frequentar
lugares agradáveis, de preferência com um pouco de luxo, um pouco de arte e
pessoas finas, como no encontro que tive no meu sonho (: ele reaparecia, no conto,
lá pelas onze da noite; eu estava ensinando pintura à minha vizinha do primeiro
andar, em Montmartre, sobre quem Proust me havia dito em surdina: ''------
Quando eu tinha vinte anos ela se recusava a me amar; agora que tenho quarenta
e criei Charlus e a Duquesa de Guermantes, ela se recusará a me ler (.) ----
'', fechei os olhos e deixei o tempo
correr ( O Tempo Perdido (!, pensando que aquele simples fato já lhe daria
combustível para mais um tomo de quinhentas páginas da Recherche. Então eu
disse: ----- Não nos custaria caro,
Marcel, quem sabe, irmos hoje à noite no Dancing do Amassadeurs (: os garçons
do café aqui são tão insolentes, vê-se que eles só lidam com gentinha, com
exceção daquele moreninho da Martinica (: mas Madame Dubech tem medo de ir a um
lugar realmente chique (: no fundo, ela não tem confiança em si, fica
intimidada até com minhas boas maneiras (: em todo caso, sente-se à vontade o
bastante, quando o caso é dizer que não me ama, que nunca me amou de fato (: de
todo modo, foi eu mesmo quem pediu à ela que me prevenisse (: à meia-noite,
subi as escadarias do Dancing e encontrei-o no hall da entrada (: ele já me
aguardava, sentado numa banqueta, imerso em trevas totais ao lado de um dj
senegalês que berrava palavrões por cima das batidas de rap. -----
MAAAAAAARCEL(!) ----, eu gritei: ----- PORQUÊ DIABOS NÃO ME ESPEROU NA PORTA,
ELA FICA SEMPRE ABERTA MESMO NESSES LUGARES (.) ----, comentei. ----- Caro
Lemoine (ele respondeu, com uma voz obstruída pela mão, que era um lamento, um
riso, sei lá o quê. -----Caro Lemoine... -----, ele disse, e a partir daí, à
medida que sua voz saía pela boca, o sonho foi se desmantelando em alexandrinos
intermináveis que descreviam a Rue D´Anjou, a partir do Boulevard Hausmann, até
o Faubourg Saint-Honoré, e daí estendendo-se indefinivelmente por toda Paris,
num turbilhão inesgotável de frases descritivas só com vírgulas e nenhum
ponto(: sua última frase inteligível que captei foi : ''----- Perto do antro
onde voava um dia Froment-Meurice, e o inefável Nadar (.) -----, mas no conto
que depois mostrei à Madame Dubech, esqueci o começo e suprimi esse final, e
talvez por isso ela tenha achado tão fraca minha história (: me defendi
explicando à ela que para compreender Proust, era preciso antes compreender a
atmosfera de sua casa e conhecer a Comédie-Française tal qual era em sua época
ou pelo menos visualizá-la mentalmente com precisão (,) empurrar aquela
primeira porta à direita de um pequeno corredor entre o palco e o grande
''foyer' dos artistas (: ali ficava o camarim de Raquel, da Berma, queridos
(não a mãe da nossa Amanda aqui) onde sob o calor de uma boca de calefação, se
viam móveis cobertos, uma harpa, um cavalete de pintura, um pequeno órgão,
pêndulos de globo, bronzes, pedestais de ébano, vitrines vazias, uma poeira
ilustre (enfim... ali vocês estariam na casa do grandioso Marcel Proust,
esperando que Celeste viesse para introduzí-los (.) -----, quando Monsieur
Lemoine fez aquela pausa (como falava !, enquanto eu e Amanda ríamos, eu
pensava que, depois de rodar tanto por aí, gozando de um padrão de vida
aparentemente bem alto, agora aquele homem estava ali, naquele hotel-fazenda
perdido no nada, menos sólido a cada dia, pontual em acordar depois do meio
dia, um pouco desesperado, às vezes, com aqueles frasquinhos de heroína iguais
aos meus, ou brincando de se embebedar com as meias-garrafas que encontrava na
bagagem ou trazia do boteco; nós seguimos escutando-o dizer que SIM, o
pensamento preso ao nu: uma mulher de esqueleto grande, com uma cabeça loira,
camponesa e jeitão de homem: a cena continuaria sendo pintada noite adentro, no
quarto forrado de madeira grená e decorado com pequenas gravuras representando
cenas e paisagens de suas viagens ao Oriente, que ele deixava espalhadas sobre
os móveis, onde pairava sempre um aroma constante de borras de vinho, vindima e
perfumes caros (fais ce que voudras saute Bourgignon - no vale do olho -
Monsieur Lemoine o Ródano os primeires feixes cor de palha do pincel até o sol
nascente projetando sobre a estrada parda branca faixas negras de Diná Rocha à
sombra das amoreiras esqueléticas em cada paragem o quadro no quarto vinho tão
forte como bifes crus e tão rico como o Palácio de Francisco I e perfumado como
as rosas orvalhadas de Barbacena (este indefectível cigarro - esta noite e
estas cantigas - tantas vezes viajado pelo mesmo papel - só os rabiscos
indicando as viagens interrompidas; não atravessado, naquele momento, o rio em
pensamento para Lyon, onde Jean-Jacques sofreu de clorose na mocidade... as
cidades dentro de seus olhos eram dicionários de radicais latinos descrevendo
Orange Tarascon Arles onde Van Gogh decepou a orelha (-------------) estaminets
à caminho do sul (: para beber o vinho
preferido dos Papas, para comer pratos fortes com azeite e alho (: à caminho do
sul (Monsieur Lemoine pensava) soprando gelado pela topografia da Camargue
empurrando-me para Marselha diante do Passeio de Apollo, ostras e vin de Cassis
petite fille tellement brune tête de lune qui aimait máquinas com ranhuras
postadas nuas como estatuetas da Fócida de pernas abertas em torno de seu
pescoço. ----- Será que alguém já pensou nisto(?) -----, Monsieur Lemoine
pensou, agora com mais calma, avivando a lembrança da Riviera passado San Remo
avistando no alto da colina a igrejinha cor de caramelo: ----- Já se disseram(:
energia, coragem, mas isto porque eram homens quem falavam, era preciso que as
mulheres também falassem, são elas que podem pensar como eu e dizer Dignidade;
o mais belo prêmio, diriam (: mas eu o ganharia porque diria também Felicidade
e diria à Louise(: ----- Você não tem o direito de ir contra sua felicidade.
Sua Felicidade, sua Felicidade (.) -----, Porto Maurizius garrafas azuis de
seltzer alinhadas no poente cor de cinzano ao lado de um cálice de Vermouth
Torino . ------ Ora essa (seguiu pensando Monsieur Lemoine, em seu quarto) como
é estranho que agora eu venha a pensar em Louise (: porque Louise (?), porque
aqui, neste lugar, neste momento (?), porque o rosto dela... nenhuma ponta de
nostalgia (: aqueles ''jantares de artistas'' na casa dela; seu tolo perfume de
erotismo e elegia, num jantar após o outro, no tom de alegria lasciva e
medíocre instalado depois, na Itália, Savona edificada para cenário pintado
pelo ***** (havia ambulâncias estacionadas numa praça ao luar de casas de
pedras tristes onde viviam operários, a geada cobrindo tudo como aqui, no
barzinho o ''Escritor Famoso'' ensinando a beber conhaque e marrasquino em
partes iguais (: havanuzzerone, apurou-se que o homem afinal não escrevia
aquilo que sentia que devia escrever, apurou-se que afinal não queria escrever
nada daquilo, queria SENTIR, apenas SENTIR (-----------) conhaque marrasquino
(já não era novo: Pierre C. tinha dinheiro e faria tudo por Louise: um desses
homens bons em aplacar pequenas dificuldades financeiras, o que sempre agrada
algumas mulheres (: Louise chamava a isso ''ser um homem'' (: ----- Gosto de
quem sabe mandar (ela dizia) e é um pormenor interessante ele saber falar aos
garçons e aos maitres d´hôtel, eles
obedecem-lhe (.) ------, mas com a saúde que ela tinha, ela devia buscar uma
academia, e não restaurantes; ------ É interessante ser magra e elegante, não
sentir fome toda hora, não dormir tanto
e percorrer Paris o dia todo a pé, e a noite (.) -----, eu disse à ela,
mas não era eu talvez o mais indicado para falar no assunto: eu na verdade já a
tinha como minha eleita, eu O Louco. ----- Só um louco se comporta assim, Jean
(.) -----, Louise disse-me. Mas o Louco agora estava bem apaixonado, ainda que
deitado na cama de uma puta que nem sequer havia se vestido ainda, da qual nem
sequer me recordo o nome (mas amava Louise de longe, passava meses sem aparecer
na sua frente. E que maravilha, agora, pensar naquilo (!), Louise recebia
minhas cartas e e-mails, lia e relia, temerosa da opinião alheia. ''Alegria
excessiva'', ''Carnes excessivamente plenas'', ''Puta gorda'', e ''Sangue
envenenado'', eram expressões comuns naquela barulhenta e divertida
correspondência; em muitos jantares que Louise dava eu me fazia presente
através delas, mesmo estando ausente: a voz clara mas sem corpo que os (a todos
seus convidados e pretendentes) atormentaria na vertigem da clandestinidade
(aquilo irritava-os tremendamente: sentiam que eu queria dizer a todos, sem
mostrar o rosto, que todos eles mentiam; apurava-se então que a maior parte dos
escritores e poetas contemporâneos desejavam apenas serem uns ''pastorezinhos''
nus e morenos sentados no alto de um morro a tocar flauta à luz do sol poente.
Eu imaginava Louise meio satisfeita, meio atemorizada; meio honrada por aquelas
minhas ''homenagens'', meio atemorizada pela perspectiva daqueles prazeres que
elas prometiam. Ela olhou com ar perplexo o relógio de Montparnasse cujos
ponteiros marcavam 11:20h. ----- Eu não te compreendo, Louise, seu temperamento
é muito estranho (: não consigo saber se você ama aqueles homens ou se eles lhe
causam repugnância (.) -----, terça-feira, fevereiro e quinze (me estirei na
cama para me reconhecer e insultar: ----- Um homem que se ama (Louise não sabe
o que é um homem), e que tem uma porção de gravuras orientais (: um solitário,
com sua cigarreira de prata e muitas pequenas manias (.) ----, já desperto, com
náuseas, colocado de novo num outro dia, ali estavam a hora, a estupidez
prazerosa, a fêmea pertinaz na tela, pernas abertas, a farsa do trabalho
artístico, a necessidade de companhia e vinho. Presente mesmo estando ausente.
Durante os dias em que vaguei por Gênova, eu ainda era aquela mesma
invisibilidade invasora: imaginava-os discutindo os comentários de Louise sobre
o seu ''amigo misterioso''... Gênova pejada de doges de mármore de íngremes
escadarias de mármore de leões ao luar, o velho burgo ducal a arder nas minhas
retinas: todos os palácios de mármore e casas de pedras da praça e os
campanários. Auto-de-fé ao luar. Morrendo deliciosamente só no hotel todas as
noites, maravilhado com meu recente dom de ubiquidade. ----- Gênova que
procuras (?) -----, as perguntas mais loucas me apareciam enviadas
telepaticamente por Louise: tinha que pensá-la nua antes que pudesse vê-la, ou
tê-la; em minha lembrança, o rosto do primeiro nu que fiz de Louise dava um
passo atrás e não se confessava, permanecia confundível, e no mês seguinte, ao
nos encontrarmos de novo, olhando-nos nos olhos como dois filhotes de animal
ensopados, ela disse: ----- Você não está nada mal (.) -----, foi o suficiente:
agora, todos aqueles imbecis saberiam: após o coito o quadro veio inteiro, num
jato, as nádegas de Louise untadas com cascas flutuantes de uma fruta doce cujo
nome era Gauguin. ----- Não gosto que falem enquanto estou gozando (.) ----,
ela disse; eu, porém, não parava um segundo sequer de dizer porcarias, enquanto
via mentalmente Pierre, seu pretendente mais apaixonado, empalidecendo,
lançando olhares furiosos para o meu quadro, enquanto C. Lemaitre (o gay) dizia
em alto e bom som, às gargalhadas: ----- É definitivamente o quadro de alguém
que comeu a buceta que pintou (.) -----, Meu Deus, e dizer que a vida é isto,
QUE NOITE HORRIPILANTE, depois fiquei imaginando quem morava naquele hotel;
ainda naquela tarde, encontrei uma russa na escada que tinha os olhos típicos
de uma viciada. ----- AMANHÃ, NESTE ENDEREÇO(.) -----, Louise disse, me
entregando um bilhete. Deux Mondes: espantou-me o fato de ela ser ''um pouco''
conhecida por ali. Pele rosada, boa expressão corada e saudável, com aqueles
cabelos loiros caídos nos ombros: uma carne branca e nutrida em excesso por
doces e cremes batidos com açúcar. Eu sorria para ela, roçava sua anca,
sentindo a doçura leitosa do resto do corpo. Por via das dúvidas, Louise falou
um pouco antes. Falou de Pierre, em seu papel de ''protetor'', a quem ela vinha
enchendo gratuitamente de esperanças nos últimos meses; explicou-me o mecanismo
de sua devoção e a pressão que suas ''escapulidas'' geravam sobre ele através
aquele bando de farristas dos seus jantares (uma daquelas gargalhadas de
escárnio que ela entreviu em meu rosto naquele momento ameaçavam gelar a
audiência se detonadas em público, mais tarde; mas Louise recobriu intensamente
meu riso com o seu próprio, enquanto sentia o ventre molhado enchendo-se de
porra bruta. ----- Ela fez realmente isso(.) ----, pensei depois, dias depois,
ao reencontrá-la no Dôme, com Pierre. Ela estava com um jeito tão estranho. Na
segunda vez, naquele mesmo hotelzinho barato, aquele seu riso esquisito já
estava um pouco mais frouxo no rosto, apontando apenas para o teto, e não para
o céu da minha boca. ----- E Pierre (?) ----, perguntei. ------ Não me serve
pra muita coisa(.) -----, respondeu ela, secamente. Eu a ouvia divagar, cada
vez mais estupefacto: ela contava irrelevâncias ao ar, ao hotel, às fendas no
teto; mexericos de projetos editoriais e cinematográficos que tornariam
''temporariamente'' imortais um ou outro nonato condenado ao esquecimento; e
fumava, deitada, meu cachimbo de ópio, relembrando outras travessias noturnas
em invernos chuvosos, com uma memória impessoal: evocava circunstâncias,
mexericos.
EQUAÇÃO
-TÓXICA: CAMINO ROJO, COCAÍNA e ÁLCOOL
Adimitindo
inclusive o fato de que o uso de entorpecentes leva muitos dos adictos ao
transtorno, não compreendo com que direito a sociedade poderia se opor á eles,
pois da única coisa que os legisladores deveriam se ocupar é dos seus efeitos
sobre terceiros. Juan comentou logo depois que ele terminou de falar: -
Concordo com você em linhas gerais, Júlio. Como praticante de nagualismo, não
sou alheio á questão das plantas de poder. O nagualismo é similiar á outros
sistemas porque orienta o praticante á buscar informação ''dentro de si
mesmo''. É como uma velha fórmula de autotransformação e poder espiritual que
remonta aos primórdios de todo o xamanismo. Mas sei que no embalo do nagualismo
surgiu um sub-caminho obscuro derivado diretamente do consumo de plantas de
poder. No México chamamos de ''Camino Rojo'' e é uma prática de altíssimo risco,
pois busca encurtar um caminho de desenvolvimento gradual que não deve ser
encurtado de forma alguma. Usa drogas alucinógenas como o Peyote e a Erva de
São Pedro, uma das dez drogas consideras como mais perigosas e adictivas(.),
Júlio interrompeu Juan nessa altura do diálogo e interpôs: - É a mesma coisa
que acontece com a música sincopada, destinada a provocar transes no
praticante. Meios utilizados em sua origem como facilitadores de aberturas ao
supra-sensível ou extra-sensorial no curso de uma iniciação regular, são
subitamente aplicados a um contexto mundano e alienado. Assim como as danças
das haves derivam das antigas danças extáticas, os entorpecentes urbanos de
hoje em dia correspondem ás drogas naturais que os povos primitivos empregavam
com finalidade ''sagrada'' em suas tradições milenares. É muita ignorância não
se levar esse fato em conta. Essa é a verdade(...), Juan pareceu concordar, mas
retomou sua fala no ponto exato em que tinha sido interrompido: - Para perceber
outras realidades, o nagualismo se vale de meios mais seguros e eficientes,
tais como um implacável controle mental na vida cotidiana, a depuração
sistemática das emoções negativas, a supressão total de qualquer classe de
julgamentos sobre condutas próprias ou alheias, a eliminação dos egos da
personalidade, que sempre se ocultam nos ângulos cegos da mente, assim como uma
perfeita atenção sobre se a Consciência está dirigida ao exterior ou ao
interior, e a constante concentração de energia, entre elas e uma das mais
importantes A ENERGIA SEXUAL, que se recanaliza e se converte em
ENERGIA-CONSCIÊNCIA. Esse é o verdadeiro e genuíno nagualismo original asteca,
o Camino Rojo é uma degeneração posterior que já produziu inumeráveis vítimas
(risos), que ignorando que sem uma depuração prévia muito adequada e
qualificada, o contato prematuro com energias sutis e poderosas produz apenas
transtornos em um personalidade impura e sem direção(...), Juan concluiu
categoricamente, enquanto eu ia juntando
os entulhos numa mesa ao lado dos dois, agora esperava uma réplica ainda mais
inflamada e apaixonada de Júlio, embora concordasse com o que Juan tinha
acabado de dizer em gênero, número e grau. E a réplica de Júlio veio caudalosa,
como imaginei: - Claro, claro. Mas não faz sentido abordar casos de transtorno
provocados pelo consumo de plantas de poder dentro do contexto tradicional, o
próprio Don Juan Mattus se valeu delas com Carlos Castaneda, como você bem
sabe. E isso, além do mais, pode e deve ser extendido á todas elas, como o
tabaco empregado pelos Índios da América Central para preparar psicologicamente
os aprendizes que deviam se retirar da vida durante um certo tempo com o
objetivo de terem ''signos'' e ''visões'' . Em certa medida, pode-se dizer o
mesmo do álcool: se conhece a tradição das ''beberagens sagradas'' entre os
gregos antigos e a utilização do álcool nos cultos dionisíacos e outras
correntes similares. O antigo taoísmo não proibia em nada as bebidas
alcóolicas, que consideram inclusive como ''extratos de vida'' que conduziam a
um ''estado de inspiração''. Os extratos de coca, mescalina, peyote e outros
integram ainda hoje grande parte do ritual de sociedades secretas na América
Central e do Sul, e nada têm haver com o Camino Rojo de que voce falou(.) ,
Juan concordou, abriu um sorriso de quem tinha acabado de lançar uma provocação
no ar e provocou Júlio um pouco mais: - O que eu quiz dizer foi só que a falta
de instrução apropriada conduz o aprendiz a estimular de tal forma o lado
obscuro do seu ser que em pouco tempo não podem senão acabar na mais completa
loucura e enfermidade, produzindo na sequencia uma morte prematura. Mais
próximos de um demônio que de um anjo. Essa foi a razão pela qual Don Juan
Matus advertia Castaneda sobre o enorme perigo com que lidaram seus antecessores,
acabando por cairem presos á práticas de magia negra com inorgânicos para
aumentar o poder que tinham sobre seus semelhantes. "Mescalito mata
!!", Don Juan disse várias vezes á Castaneda(. ). , quem riu agora foi
Júlio, percebendo a insistência de Juan em abordar o lado obscuro do consumo
das plantas de poder. Continuou falando calmamente: - Na atualidade não existem
idéias claras e precisas sobre tudo isso, porque fora de um contexto
tradicional não se leva em conta o fato de que os efeitos dessas substâncias
variam muito segundo a constituição e a capacidade de reação de cada pessoa.
Meu xará, o Barão Julius Evola, falou com extrema propriedade sobre a
existência de uma EQUAÇÃO-TÓXICA, diferente para cada pessoa, mas não se deu,
ao longo do tempo, atenção necessária á essa noção. De fato, a EQUAÇÃO-PESSOAL
deveria ser levada em conta porque, como já reconheceram cientificamente a
maioria dos patologistas e neurologistas, a maioria dos casos graves de
transtornos causados pelo consumo de entorpecentes, o uso da droga é menos uma
causa do que um sintoma de uma profunda alteração, de um estado de crise
interna ou neurose. Em outras palavras, é uma situação psíquica existencial
negativa que precede e independe do uso da droga, e que induz ao consumo da
droga como solução efêmera e desesperada(.), Júlio serviu-se de um drink com
uma garrafa de gim que estava do lado deles, numa mesa, e esperou o troco de
Juan com serena indulgência. Os dois aparentemente estavam gostando de trocar
aquelas farpas. Juan retomou a palavra um pouco mais agressivo : - Mas o
obscuro caminho desses Caballeros Rojos não tem nada haver com o nagualismo,
ainda que muito se diga em nosso meio para confundi-los de propósito. Acabam
todos convertendo-se em escravos psíquicos do mezcal, da ayahuasca, da Erva de
São Pedro e outros enteógenos, cuja periculosidade lhes colocam em destaque na
famosa lista de Drogas Duras proibidas pela Organização Mundial de Saúde
(O.M.S). Além do mais, é sabido que falsos mestres e gurus usam essas drogas
para debilitar a vontade dos seus seguidores e a percepção da realidade em
volta deles e assim dominá-los psicologicamente. Como consequencia, os defeitos
da personalidade preexistentes se multiplicam de forma exponencial: um
indivíduo que era antes ligeiramente rancoroso se torna um sujeito com um
profundo ódio inumano ardendo dentro do peito; um que tinha uma excessiva
tendência ao sexo, se converte em um sátiro descontrolado; outro que era um
pouco metido e presunçoso, a soberba faz dele uma criatura que ninguém mais
suporta e acaba na solidão total. Conheço muitos casos de gente assim, nosso
antigo grupo, inclusive, se desintegrou por causa de pessoas que passaram por
esse tipo de transformação, por isso insisto um pouco em bater nessa tecla:
porque vi essas catástofres humanas de perto. Essas pessoas dificilmente
conseguem sair de dentro desse caos depois, a não ser com ajuda espiritual
externa muito qualificada(...), Júlio compreendeu os motivos da insistência de
Juan sobre esse ponto, mas voltou com a elegante idéia da ''equação-tóxica'': -
Mas para retomar o que dizia sobre a EQUAÇÃO-PESSOAL e a zona específica sobre
que vão atuar os enteógenos, é claro que sem a devida preparação e instrução
eles produzirão uma alienação completa, uma ABERTURA PASSIVA á estados que dão
a ilusão de uma certa liberdade superior, de uma embriaguez e uma intensidade
desconhecida das sensações, mas que em última instância têm um CARÁTER
DISSOLVENTE e que de forma alguma leva a pessoa á ''OUTRO PLANO''. Para esperar
de experiências com plantas de poder resultados espituais satisfatórios faria
falta um grau excepcional de atividade espiritual prévia e ter uma atitude
contrária á da pessoa que busca e necessita das drogas como válvula de escape
para tensões, neuroses e traumas pessoais, ou ao sentimento de vazio
existencial. Para que haja um resultado espiritual genuíno, é necessario uma
RESPOSTA ATIVA de todo o SER da pessoa, mas uma reação desse tipo não ocorre
quase nunca, mesmo no Santo Daime, eu adimito. A ação da ayahuasca é demasiadamente
forte, brusca, imprevista e externa, o que dificulta muito o controle mental e
a possibilidade de uma RESPOSTA ATIVA. É como se uma poderosa corrente se
introduzisse na consciência da pessoa e que só restasse á essa dar-se conta de
que mudou de estado sem poder atuar conscientemente sobre tal estado. É
necessário uma tonelada de energia psíquica e habilidade mental prática para se
controlar uma mudança de velocidade consciencial dessa magnitude, e a maioria
dos praticantes fica limitada ao simples consumo periódico, sem fazer o
rastreamento energético no dia a dia. E dessa forma, todos submergem no estado
alterado de consciência como se estivessem sendo arrastados por uma correnteza
enfurecida. O resultado disso é um mero desfalecimento mental, uma lesão
espiritual, apesar de muitos voltarem dos transes com a impressão de uma
vivência exaltada, beatitudes psicodélicas e volúpias transcendentes. Eu
admito(...), com isso Júlio parecia ter deposto as armas, diante da insistência
de Juan de ressaltar o pouco efetivo que tem sido no mundo o consumo de plantas
de poder com finalidades espirituais. Juan aproveitou esse último gancho para
enriquecer um pouco a perspectiva: - O objetivo do nagualismo genuíno era obter
a chamada TERCEIRA ATENÇÃO, na qual o sujeito e o objeto se fundem, depois de
uma larga e dura prática de fortalecimento da ATENÇÃO, do INTENTO, da ESPREITA,
do SONHOS LÚCIDOS, do SILÊNCIO MENTAL e da extinção da IMPORTÂNCIA PESSOAL.
Trabalho árduo, em outras palavras(...), Júlio assentiu, não parecia de forma
alguma alheio ao nagualismo de Juan, pelo contrário, parecia conhecer
profundamente os princípios do xamanismo tolteca: - Para que o processo siga um
curso ascendente, seria necessário que no exato momento em que a droga libere
uma energia X de forma exterior, uma RESPOSTA ATIVA DO SER introduzisse
subitamente na correnteza do estado alterado de consciência uma energia dobrada
e a mantivesse sob controle até o final. De forma idêntica á onda que golpea um
nadador hábil, poderia ser utilizada também para tomar impulso e supera-la.
Então não haveria desfalecimento, o negativo seria transformado em positivo, o
PASSIVO em ATIVO, a experiência do estado alterado de consciência estaria
descondicionada e não desembocaria numa dissolução extática, desprovida de toda
verdadeira abertura mais além do mundo físico, que só se alimenta de sensações
flutuantes. Seria, ao contrário, possível, em certos casos, chegar ao contato
genuíno com uma dimensão superior da realidade(.), - para mim, com aquilo Júlio
finalizava a questão com chave de ouro.
Câmera-consciência...
Em que ponto
do caso entre K. e Phyllis, dias depois, nos rochedos de Barra Grande, ela o
surpeendeu por conhecer perfeitamente todas as estrelas, tendo tido um tio
astrônomo? Ela lhe ensinou, então, com o rosto bem junto do dele, a fim de que
seguir a mão que apontava. ---- Procure primeiro as estrelas brilhantes (:
depois viaje entre elas(: imagine linhas retas(.) ----, o orvalho os atingia através da manta,
as janelas iluminadas da pousada atrás marchavam sobre a grama japonesa, mas
morriam entre os arbustos podados como tampos de mesa. O hálito quente de
Phyllis falava de lendas acima deles: na maneira como o ardor da faísca se
alastrava pelas ondas no mar adiante dando força e transformando o lugar de
absorção espectral em que estavam nos pormenores da lua. ---- O universo é uma
gigantesca alegria total capaz de se dilatar com sua sombra dispendida pela
distância(.) -----, o andar de Phyllis na areia, agora, era a distância mais
curta entre as coisas que ela queria: no quarto, o canto estridente das
cigarras do lado de fora formava paredes sonoras em volta deles; pela janela, a
rígida cascata das estrelas tinha recebido um golpe lateral: Vega, a rainha do
céu do verão, não mais reinava no zênite, tendo cedido lugar à mais pálida
Deneb e a uma débil constelação em formade casa: Cefeu . Em Andrômeda, K.
procurou o brilho muito débil, que Phyllis outra noite lhe apontou como outra
galáxia completa, a dois milhões de anos-luz de distância; através de oceanos
de ônix, aquela luz havia viajado até eles: como num espelho o seu olhar
viajaria para o exterior numa linha reta. Sentiu-se tomado de vertigem: entre
aquelas multidões cintilantes, sentiu um gigantesco deslizamento, que afundava
para o alto: lembrou-se da iniciação, da prática meditativa intensiva, o
samadhy era muito parecido com aquilo. Depois firmou-se com os olhos na terra
escura: as folhas de um galho lilás quebrado, morto e incapaz de suportar suas
hastes e o outono, pendiam imóveis à luz que vinha da janela: sob o bombardeio
de partículas de luz que delicadamente, ternamente os desintegram, o espectador
no céu se considera um ser poroso: retendo o fôlego, ele é tragado pelo
''maelstrom'' e desaparece atrás da imagem, sonhando em ser o pedaço que falta
do frágil quebra-cabeça. Noite que desliga entre as ruas, a continuidade
insuspeitada de cenas, azulando por cima as pedras brancas, condensação da
distância; as moitas derretem-se (o chuvisco ainda não parou), QUE
DESAPARECIMENTO(!) K. voltou a pensar em Phyllis ali do seu lado, um vapor, uma
penugem de água, uma lembrança de axilas, lábios secos e depois molhados, da
curva ligeiramente musculosa em suas costas onde ele massageava com os
polegares, os eretos bicos dos seios coral provocados pelos seus dedos, a vaga
reserva do olhar dela. Phyllis se tornava informe, indefesa açucarada sob a
emissão do seu sêmen. ----- Estou abusando de você (K disse) ---- Não, não pare
(ela respondeu) ----Vou acabar ---- Acabe então, acabe, está bom (.) ---- É mesmo(?) VOCÊ GOSTA ASSIM(?) ----
Fico desconectada de vez em quando, ainda mais conversando com voce meu
pensamento vai longe ---- Film (.)----, ela assentiu com a cabeça, em silêncio,
a boca cheia. A língua dela levou K. ao calor, ajudada pela mão. ---- Que bom ,
então engula-me (.) ----, ela o engoliu: as folhas do galho quebrado por trás
(calmamente viraram uma página: ---- Film (Filme) é um filme de Samuel Beckett:
trata-se de um filme de perseguição que parece romper (mesmo hoje, passados tantos anos de sua
realização) com todos os padrões estabelecidos por um filme desse tipo: um
único personagem, interpretado por Buster Keaton, é perseguido por alguém ou
por algo que não nos é dado ver imediatamente(.. ----, a cúpula ardente da
noite parecia estilhaçada por uma violenta fuga de pensamentos em disparada.
DÊ-ME AGORA AQUELA POR QUEM VOCÊ FUGIU. Caía agora uma chuva dissolvendo
qualquer forma. As casas passavam sob a água tépida, o outono aquoso e quente
banhava a pequena ilha, o litoral fragmentado do arquipélago os engolia: mas
eles planavam acima, sem planejamento, partindo, partindo sempre: já se
aproximavam ondas de colinas arborizadas, os campos, a reconciliação chegava.
----- Conforme o filme avança e os movimentos do protagonista tornam-se sôfregos
e claudicantes, somos informados que perseguidor e perseguido são a mesma
pessoa, entende(?) em nenhum momento temos certeza se a perseguição está
realmente acontecendo ou se é fruto de um delírio do personagem(: Beckett não
nos deixa a resposta(.) a obra de Beckett tem como primeiras palavras do
roteiro uma frase de Berkeley, que o escritor irlandês abre o que ele chama de
RESUMO GERAL do filme: ''Esse est percipi (: ''a autopercepção subsiste no ser
ao substrato de toda percepção estranha, animal, humana, divina. A pesquisa do
não-ser para supressão de toda percepção desconhecida acaba na insuprimível
percepção de si. Proposição ingênua que ressoa por suas possibilidades formais
e dramáticas. Para poder figurar nessa situação o protagonista se cinde em dois,
objeto (O) e olho (OE), o primeiro em fuga, o segundo em sua perseguição. Ele
aparecerá somente no fim do filme, quando o olho perseguidor se revelará, não
como um terceiro, mas como ele próprio.Então, no fi m do fi lme, O é percebido
por OE, sendo que o ângulo não deve ultrapassar 45º. Convenção: O entra em
percipi = experimenta a angústia de ser percebido somente quando o ângulo é
ultrapassado (Beckett) ----, K. olhava a nova rua de comprido e orientava-se.
Rostos súbitos, totalmente desconhecidos, faiscavam através do seu espírito
enquanto procurava apagar-se no sono: plantas detalhadas de prédios ainda não
construídos, nítidas em todas as alas e cornijas, eram desdobradas
instantaneamente sobre a sua vacilante superfície interna: ----- Beckett parece
almejar um ambicioso projeto: encontrar devires imperceptíveis por meio da
supressão da percepção, utilizando o cinema como veículo para o projeto(: ele
parece apontar para essas devires em Film(: nessa sua única iniciativa
cinematográfica, produziu uma obra de singularidade estarrecedora: um filme que
atinge não a “essência” da percepção, mas o âmago da própria imagem-movimento,
melhor dizendo, um filme que comporta no encadeamento de suas imagens,
imagens-movimento puras, inventando, dessa forma, ângulos e perspectivas
inusitadas, ultrapassando a dimensão do humano. Beckett talvez tenha criado o
cinema do INUMANO(.) propondo com sua obra a PERCEPÇÃO DA PERCEPÇÃO, ao fundir
a percepção objetiva com a percepção subjetiva, levando, assim, a
imagem-percepção a um esgotamento que produz efeitos: criam-se formas não
humanas de apreensão do real: mas para Beckett a imobilidade, a morte, o negro,
a perda do movimento pessoal e da estatura vertical, quando se está reclinado
na cadeira de balanço que nem balança mais, são apenas uma finalidade
subjetiva(: não passam de um meio em relação a um objetivo mais profundo.
Trata-se de voltar a encontrar o mundo de antes do homem, de antes de nossa
própria aurora, lá onde o movimento, ao contrário, submetia-se ao regime da variação
universal, e ONDE A LUZ, propagando- se sempre, NÃO PRECISAVA SER REVELADA(:
Beckett remonta em direção ao plano luminoso da imanência, o plano da matéria e
seu marulho cósmico de imagens-movimento(: remonta as três variedades de
imagens à imagem-movimento mãe: as relações entre câmera objetiva e câmera
subjetiva já estão presentes em Film , como SUPERAÇÃO(.) -----, repetidamente
(Phyllis estendida ao lado dele) o coração disparado de K. freava a pretendida
dissolução do espírito (estava ansioso por acordar Phyllis no meio da noite,
para conversar, mas não o fez(: depois de rolar na cama muitas vezes, desceu e
saiu: as estrelas haviam rodado a ponto de se tornarem irreconhecíveis: agora
era como se fossem vistas de outra Terra, além da Via Láctea, cheia de silêncio
e estranheza. Flores lisas com cálices abertos até as lâmpadas, cobertas com
véus, retinham uma luz avermelhada. Alguma coisa passava perto de sua testa no
escuro enquanto uma sonoridade realmente suave, ombro a ombro com ele,
inclinava-se em seus ouvidos em abandono(: cochichos, imagens de contatos,
Phyllis, apalpadelas, a felicidade (um sorriso largo e contente no rosto de
K: ele sabia que tinha se tornado
secretamente uma avis rara entre os escritores do continente e numa idade tão
incrivelmente precoce que sua variedade de interesses dispersos e a
excentricidade de sua visão de mundo em nada impediam sua sombra de seguir
avançando sobre a mediocridade estabelecida de críticos literários de jornal e
poetas surrealistas de mentira, acadêmicos e parnasianos: para K, a tendência
dos escritores atuais era a mesmice, a
especialização aplastante: escolhiam um assunto
ou nicho de conhecimento qualquer e dedicavam o resto do livro a
decorá-lo interiormente como se fossem estúpidos decoradores de apartamentos
terceirizados(: em meio à toda essa lastimosa idiotização, não tinha sido
difícil para ele alcançar uma sombria consagração como realista místico de
enésima potência, nu e cru em busca de um estilo mais flexível e múltiplo, de
uma LINGUAGEM maior que a da formação acadêmica padrão, que transformava todos
os escritores atuais em sonolentos jornalistas de segundo escalão: os dois
primeiros livros de K. haviam sido classificados nos calabouços anônimos da
alta inteligentsia portenha como ''duas estranhas
histórias em quadrinhos'' e o definiam
como um inacreditávelmente jovem literato culto e fluente em Marx, Nietszche,
Kieerkgaard e demais chefes do pensamento moderno, que tinha conseguido converter a matéria absurda e brutal dos
heróis das ''comic strips'' norte-americanas (os super-homens com que está
atualmente intoxicada e aprisionada a imaginação do mundo inteiro) numa crítica
picaresca da sociedade global(: disseram ainda
que havia nos seus livros ecos do impressionismo de Louis Ferdinand
Céline, da fascinação excrementícia e viral de William Burroughs e da
desunidade proposital de estilo que caracteriza as mais avançadas experiências
literárias do século XX. À medida que refletia e andava, K. entrava um pouco
mais no MANUSCRITO, no adeus do gesto, no peso do seu próprio mito selvagem:
---- Foi mais ou menos isto(: no fundo, o que eu queria era vagabundar(: o
herói do meu filme é alguém que desce às profundezas da experiência psíquica e
extra-sensorial que poucos homens conhecem hoje em dia(: sua postura de herói
de histórias em quadrinhos é talvez circunstancial , e apenas emoldura aquilo
que o narrador quer dizer e mistura-se à uma profusão de outras vozes(: a época
em que assisitia filmes antigos na biblioteca pública precedeu uma etapa ainda
mais intelectualizada, uma vez que logo
depois que parti passei a refletir sobre todos os filmes que assistia ou que já
tinha assistido(: de comentá-los, de ESCREVE-LOS(!) não se tratava mais de se
deixar embebedar pelas imagens, mas realmente era preciso ANALISAR O ROTEIRO(:
etapa extremamente importante (: comecei a procurar as raízes e razões de certos filmes não serem
interessantes, o porquê de a primeira metade ser boa e a segunda decepcionar em
todos os sentidos(: ao invés de dizer simplesmente que algo era BOM ou RUIM,
comecei a tentar imaginar como o filme poderia ter sido realizado de modo a
ficar bom, ou porque era irremediavelmente ruim ou cansativo(: sentia realmente
a necessidade de ANALISAR O ROTEIRO(: quando nos obrigamos a resumir o roteiro,
vemos muito bem o que há lá dentro, ou como foi elaborado(: ----, inclinado
diante do mar, abrigava o rosto na camiseta que tinha nas mãos, ondulando ao
vento , seus golpes fendendo o ar, como se batessem sobre um animal, a boa
talagada para refrescar o último da linhagem(: ---- Aprendi muita coisa(: perdi
o entusiasmo pelo cinema americano antigo, que Rossellini odiava, e despertei
para a simplicidade e a clareza (fiquei surpreso ao saber que o roteiro do
filme ACOSSADO (A bout de souftle) havia sido escrito por François Truffaut,
após ler uma notícia alarmanete no jornal(: o roteiro foi recusado pelo ator
Phillipe Lemaire, famoso na época, e outros também declinaram ou não
conseguiram filmá-lo, até que foi parar nas mãos de Jean-Luc-Godard, que não teve
a menor dificuldade em viabiliza-lo, exatamente dois meses depois de Os
Incompreendidos, de Truffaut(: o poeta, escritor, crítico e cineasta italiano
Pier Paolo Pasolini desenvolveu a célebre tese do “Cinema de Prosa” e “Cinema
de Poesia” (: o primeiro cinema, que se consagrou pela fortuna crítica
cinematográfica como cinema clássico, ainda estaria preso ao modelo narrativo
do folhetim e não teria, desse modo, descoberto sua própria essência,
reproduzindo uma língua prosaica, uma linguagem de prosa(: Pasolini o denomina
de “cinema de prosa”(:dizendo que mesmo alguns filmes de arte não escaparam
dessa armadilha: “Porém, historicamente, após algumas tentativas, imediatamente
interrompidas, na época da sua origem, a tradição cinematográfica constituída parece
ser a de uma ‘língua de prosa’ ou, pelo menos, a de uma ‘língua da prosa
narrativa’. (... até mesmo os filmes de arte adotaram com sua língua específica
esta língua da prosa: esta convenção narrativa sem pontas expressivas,
impressionistas, expressionistas etc (...)” (Pasolini contrapõe o “cinema de
prosa” à adoção de uma língua de poesia, que violente a narrativa
cinematográfica tradicional e inaugure novas formas plásticas para a arte
cinematográfica, calcadas em uma língua poética adaptada ao cinema; isto é,
deve-se criar um “CINEMA DE POESIA”(: ele vê nas obras de alguns cineastas,
seus contemporâneos, os pressupostos formais desse “Cinema de Poesia”: a título
de exemplos concretos de tudo isto, submeterei à análise de meu laboratório
filmes de Antonioni, Bertolucci e Godard – mas poderia aqui acrescentar, do
Brasil, Glauber Rocha ou, da Tchecoslováquia, Milos Forman (...)” (Pasolini).
Gilles Deleuze se vale dessa distinção, proposta por Pasolini, de “cinema de
prosa” e “cinema de poesia”, para acrescentar um ponto em relação à questão da
objetividade e da subjetividade cinematográfica. Esse ponto é crucial no que
diz respeito ao seu pensamento do cinema: trata-se do “DISCURSO INDIRETO
LIVRE”. Pasolini já o menciona, destacando que o “Cinema de poesia” se valeria
de uma ‘SUBJETIVIDADE INDIRETA LIVRE’, inspirado naquela figura do discurso,
que se contraporia ao discurso direto, que inspira por sua vez uma abordagem
objetiva da narrativa cinematográfica. O cinema moderno, segundo Pasolini,
SUPERA A NARRATIVA, ainda inspirada no folhetim e nos antecedentes teatrais do
primeiro cinema, instaurando um processo discursivo aparentado ao moderno
romance do século XX, por meio da utilização da técnica narrativa denominada de
MONÓLOGO INTERIOR: “O ‘cinema de poesia’ – tal como se apresenta poucos anos
depois do seu nascimento – tem assim como característica comum a produção de
filmes dotados de uma dupla natureza. O filme que se vê e se aceita normalmente
é uma ‘Subjetividade Indireta Livre’, por vezes irregular e aproximativa –
muito livre, em suma: o realizador serve-se do ‘estado de alma psiquicamente
dominante do filme’ – que é o do protagonista (...)”. O pensador italiano vê
nos filmes do cinema moderno os elementos definidores do que ele chama de
“Cinema de poesia”, que apresentariam como característica fundamental o que ele
denomina “subjetividade indireta livre”. Deleuze, ao analisar a
imagem-percepção, propõe a superação da clássica dualidade
objetividade/subjetividade cinematográfica, quase sempre representada por meio
da utilização da câmera – o que a câmera vê (câmera objetiva) ou o que o
personagem nos dá a ver (câmera subjetiva) –, utilizando-se em parte da tese de
Pasolini. Trata-se não de redefinir o cinema em “prosa” ou “poesia”, mas de
identificar o cinema moderno com o “DISCURSO INDIRETO LIVRE”: quem fala não sou
eu, nem é o outro, falo pelo outro em meio ao meu discurso, isto é: “EU É UM
OUTRO”, tal como a fórmula de RIMBAUD. Com o discurso indireto livre
cinematográfico, temos a possibilidade de equacionar o citado dualismo –
objetividade/subjetividade – que estaria ainda presente no cinema clássico,
constituindo-se como uma característica marcante da imagem-percepção:
Suponhamos então que a imagem-percepção seja semi-subjetiva. O difícil é encontrar
um estatuto para tal semi-subjetividade, já que ela não tem equivalente na
percepção natural. Aliás, a esse respeito, Pasolini recorria a uma analogia
lingüística. Pode-se dizer que uma imagem-percepção subjetiva é um discurso
direto; e, de uma maneira mais complicada, que uma imagem-percepção objetiva é
como um discurso indireto (o espectador vê o personagem de modo a poder, mais
cedo ou mais tarde, enunciar o que este espontaneamente vê). Ora, Pasolini
pensava que o essencial da imagem cinematográfica não correspondia nem a um
discurso direto, nem a um discurso indireto, mas a um DISCURSO INDIRETO LIVRE.
Esta forma de enunciação elimina a metáfora, na medida em que torna homogêneo o
sistema da linguagem, trazendo muitos problemas aos lingüistas, ao colar na
própria enunciação o falante e o discurso de outros. Essa crise de
identificação no processo de enunciação seria uma característica geral da arte
moderna, em especial na literatura, podendo ser exemplificada pelo romance de
James Joyce, ULISSES. Deleuze com esta fi gura do discurso apresenta-nos, já em
Imagem-movimento, uma das características fundamentais do cinema moderno: “Eu é
um outro”. Em outras palavras, a enunciação se faz através da interseção de
falas ou de pontos de vista dos personagens, diluindo-se, assim, a “forma-Eu”.
Esse procedimento no plano cinematográfico foi denominado pelo filósofo francês
de “CONSCIÊNCIA-CÂMERA”: “Em suma, a imagem-percepção encontra seu estatuto,
como SUBJETIVIDADE INDIRETA LIVRE, assim que reflete seu conteúdo numa
CONSCIÊNCIA-CÂMERA que se tornou autônoma (‘cinema de poesia’)” . Deleuze, por
intermédio da tese de Pasolini, e de Film de Samuel Beckett, apresenta o que é
mais essencial na imagem-percepção: sua capacidade de refletir-se (através de
uma consciência-câmera) e de buscar o “em-si” do processo perceptivo (a
invenção de percepções não-humanas) -----
A
crise da imagem-ação...
Os
cabelos de Anabelle estavam caídos e dançavam ao sol enquanto ela se movia
agilmente. K. e ela comeram sob um pesado silêncio, assim que ele acabou de
falar. Sentia, entretanto, que tinha feito uma boa ação, reunindo aquele
sistema de idéias sobre cinema de forma tão sucinta e clara diante dela: -----
Pensamento... á medida que o cinema foi se modernizando, foi dando nascimento á
um tipo de arte que exigia cada vez mais ''pensamento''(.) sobretudo a partir
do que Deleuze chama de ''A Crise da Imagem-Ação: a nova imagem, A IMAGEM
MENTAL, que resulta dessa crise, explica-se em termos de pensamento, no sentido
de que nela a percepção não se prolonga mais em ação, mas se relaciona
diretamente com o pensamento(.) ''a alma do cinema exige cada vez mais
pensamento, mesmo se o pensamento começa a desfazer o sistema de ações,
percepções e afecções que tinham alimentado o cinema até então(.)'', essa
libertação da imagem-movimento ou criação de um novo tipo de imagem se deve ao
Neorealismo Italiano, que foi, na verdade, o responsável pela elaboração das
cinco características que estão na base da nova imagem mental: a situação
dispersiva, as ligações fracas, a errância dos personagens, a tomada de
consciência dos clichês e a denúncia do complô(.) os responsáveis por esta
ruptura foram Rossellini, De Sica,Fellini,Francesco Rosi(...) Rossellini
questionando a grande forma da imagem-ação, com Roma Cidade Aberta (1945) e
Paisá (1946) - De Sica, com Ladrões de Bicicleta (1948) e Umberto D (1952) -
Fellini com Os Boas Vidas (1953), dando vez ao passeio (o passeio é uma
hecceidade) á perambulação aleatória dos personagens. Neles as situações
humanas são dispersivas, lacunares, com múltiplos personagens, que ás vezes
aparecem como principais, ás vezes tornam-se secundários(...) os italianos
tinham uma consciência intuitiva da nova imagem que nascia. Nesses filmes
também se interrompe a linha que ligava os acontecimentos uns aos outros - as
ligações ou os encadeamentos tornam-se fracos, ao acaso (um agenciamento é
precisamente este crescimento das dimensões numa multiplicidade que muda
necessariamente de natureza à medida que ela aumenta suas conexões livremente)
gerando situações dispersivas: personagens que erram sem reagir ao que lhes
acontece substituem a ação (imagem-ação) em que predominava uma situação
''sensório-motora'' (.) o passeio, a perambulação, a errância fazem com que os
personagens estejam num contínuo ir e vir destacado da estrutura ativa ou
afetiva que estava na sua base(.) não há propriamente uma ação que se
desenvolve num espaço determinado, e sim um espaço qualquer, como espaço
desconectado ou vazio, em que ainda se denuncia a fabricação de clichês físicos
e psicológicos como em (ainda nos anos cinquenta) Viagem á Itália (1954), De
Crápula á Herói (1959) e O Xeique Branco (1952),de Rossellini e Fellini, e como
exemplo de denúncia de complôs em forma de imposições de papéis pelo poder estabelecido
temos O Bandido Giuliano(1961), de Rosi, denúncia de um complô organizado por
um poder difuso que faz circular os clichês físicos e psicológicos(.) trata-se
do complô de um poder que se exerce sobretudo pela vigilância dos cidadãos em
todos os níveis, na qual o controle da informação disponível publicamente e os
meios de comunicação desempenham um grande papel, inclusive no que se refere á
vigiar os próprios agentes de comunicação e pessoas públicas(.)
-----.............................................................................
Close-up...
K.
fica ali de pé, olhando e esperando que Phyllis diga: ---- Onde é que estávamos
mesmo(?) essa câmera está aqui há horas, olhando pra nós(.) ----, diz; não pode
crer que aceitem o resultado da última tomada tão facilmente (enquanto ele
apenas olha, a mão dela tranquila e branca (mais dois câmeras já estão
instalados na seção de espera da locação: ali é o hall de entrada da frente;
pessoas entram e saem a cada instante. K. senta-se numa cadeira de imitação de
couro, com braços de metal cromados, e tem a idéia de que está numa delegacia
de polícia e que os outros dois câmeras são os detetives que efetuaram sua
prisão. Pega uma revista: é uma revista católica no formato da Caras. Tentou
ler um artigo sobre um advogado na Inglaterra que ficou tão impressionado com a
ilegalidade do ato de confisco das propriedades dos mosteiros por Henrique VIII
que acabou convertendo-se ao catolicismo e entrando para um mosteiro ( os dois
câmeras agora conversavam em voz baixa, não lhe lembravam mais os detetives do
seu conto : o mais moço torce constantemente as mãos e faz um sinal de
assentimento à tudo o que o mais velho diz. Phyllis reaparece, piscando os
olhos para K. e com uma aparência tensionada (K. estava se esquivando
mentalmente, é muito comum entre escritores). Phyllis reaproxima-se, olha-o no
rosto e oferece-lhe um cigarro. O efeito é mais ou meos o de uma hóstia. A
primeira fumaça do dia, depois de uma noite inteira sem fumar , em meditação.
Phyllis sentou-se à velha mesa redonda, onde um vidro de geléia de uva quase
vazio tronava no centro de migalhas espalhadas: ---- Eu ainda não lhe mostrei
nem a mínima parte do que escrevi(: na verdade, escrevi dois roteiros(: até
agora mostrei à todos apenas um(: além do mais , fazer o filme com poucos
recursos financeiros está sendo estimulante(: onde o diretor tarimbado faz
quinze tomadas, nós gravamos apenas uma ou duas(: isso certamente estimula e
aflige um verdadeiro ator, que busca dar tudo de si, pois sabe que não haverá
repetição (: e isso também vem libertando nossas imagens da ''síndrome de
perfeição fria'' do cinema enlatado com o aspecto espontâneo das nossas
realizações(: e filmes de jovens cineastas sempre se parecem bastante com quem
os faz, pois são realizados em total liberdade(: os cineastas atuais há muito
já perderam o hábito de ''escolher o assunto'' a ser filmado, ISTO É, uma
concepção de filme que poderiam trazer dentro de si já não existe(: ao se
tornarem um rebanho de vedetes, esses cineastas passaram a ser muito
solicitados e quando têm alguma rara iniciativa autoral usam a velha desculpa
da injustiça social para rodarem melodramas baratos que só à seus olhos guardam
alguma relação com o neorealismo italiano(.) -----, Phyllis ouve K. falar em
silêncio, senta-se numa cadeira de praia perto dele e não faz qualquer esforço
para interrompe-lo. No momento, K. não pode pensar em muita coisa fora daquele
nicho crítico: ---- E se por acaso meu filme choca, NÃO FLUI, não procura
simplesmente oferecer um momento agradável aos sentidos, ou um conjunto de
coisas pretensiosamente fortes, importantes e urgentes, é porque ele não tem
preocupação de bilheteria ou compromissos com as verdades estereotipadas dos
livros de sociologia e economia política( -----, agora K. apanha outra revista
do cesto, certificando-se desta vez de que não é religiosa: abre-a num artigo
cujo autor, que, pelas fotografias, parece italiano, conta como levou a mulher,
quatro filhos e a sogra numa excursão de três semanas num camping pelas
Montanhas Rochosas do Canadá, que só lhe custou uma bagatela, descontado o
investimento inicial num Piper Club. Ms não consegue mais acompanhar as
palavras e a cada instante derrapa e se desvia para florescer em rápidas visões
em que Phyllis atua em alguma cena de ZERO, a cabeça esvoaçante brotando da
luz; às vezes, a claridade barulhenta da locação escurecia por trás dos olhos,
e K. contemplava as contorções relembradas a que o desejo lhe forçava de noite:
sua vida então lhe parece uma sucessão de poses assumidas com propósitos
urgentes na cama (numa onda volumosa, sente-se dentro dágua em correntes de
gelatina transparente, fantasmas do gel que ele depositou dentro das mulheres
(os dedos passados nos joelhos puxam fios invisíveis e persistentes (K. se
aproxima de Phyllis como um vitorioso , o suor fazendo-o arder, numa
antecipação cheia de sombras dos cautelosos contatos sob o teto acolchoado de
cinza do carro e, uma vez ali, o triunfo da respiração cintilando pela pele
calma dela, vincada talvez pelas sombras da chuva de verão no pára-brisas.
FATOS CRIAM FATOS. No set de filmagem , Phyllis e Anabelle passavam muito pouco
tempo conversando: suas vidas haviam se tornado um ciclo interminável de
levantar-se na aurora, trabalhar com intensidade nervosa durante todo o dia e à
noite, voltar para os hotéis, engolir com dificuldade o cardápio da
nutricionista e então cair na cama com os músculos doendo depois de malhar ( a
mente girando para estudar as falas do dia seguinte (uma existência de horas
isoladas em tubos de ensaio: a inexperiência pueril de Phyllis, as exigências de
Nola para que ela estivesse em frente às câmeras quase que continuamente numa
produção cujo orçamento vinha sendo remendado toscamente à medida que o filme
avançava, o interminável fuzilamento das meias-verdades e invenções
completamente mentirosas a respeito de K. emanando das colunas de jornal
através das focas amestradas da fraternidade crítica nacional se movendo em
torno do MANUSCRITO dele numa embriaguez de puro terror animal e demencia
precoce. A diretora oficial do filme, Nola, uma lésbica quarentona de fala
macia, ressentia-se não sem razão de que uma novata (como Phyllis) ''colocada
ali'' fosse impingida à ela: ressentia-se de que escritores e fotógrafos de
revistas tivessem permissão de entrar em SEU SET para entrevistar aquela bonita
e (na opinião de Nola) incompetente não-entidade fabricada de última hora. Nola
falava arrastadamente uma ou duas palavras de conselho diretorial para os
outros atores, todos tarimbados, e então desabava em sua cadeira de lona, não
dando à Phyllis o paliativo de uma única palavra de encorajamento, nenhuma
crítica construtiva, NADA, e ordenava rancorosamente novas tomadas (às vezes
até quarenta, cinquenta) para as cenas dela. Para Phyllis, tais cenas eram uma
paródia. Estava paralisadamente próxima do seu papel. Pela primeira vez, não podia desaparecer no meio de um trabalho:
cada movimento que fazia era rígido. O enfado maldosamente exagerado de Nola, a
frieza de Paulo Arlt, o produtor-executivo, ao olhar diretamente para ela quando
repetia o quanto já estavam atrasados na programação da filmagem, o testemunho
hostil da equipe ante sua eterna inadequação eram às vezes insuportáveis e
Phyllis corria do set para o trailer reformado que era seu camarim. ---- O
cinema até hoje conheceu três estágios (disse K.) o MUDO, quando o filme era
uma realização física, época de Griffith e John Ford(: fazer um filme então era
se dispor a fazer tudo, a enfrentar os maiores imprevistos(: o diretor
carregava sobre si o peso de um filme e de um material considerável(: devia
orquestrar milhares de figurantes(.) ao passar a ser FALADO, o filme tornou-se
um subproduto do romance e, sobretudo, do teatro(: transformou-se num produto
semi-intelectual(: atualmente o desempenho físico não é o que está em jogo num
filme, pois todos os problemas técnicos são resolvidos por uma equipe numerosa
e competente(: as cenas são tão bem realizadas quanto as do décimo quinto filme
de qualquer grande diretor e o filme inteiro passa a sofrer da ''síndrome da
perfeição fria'' (.) -----, na segunda-feira seguinte, a primeira cena a ser
filmada foi aquela em que SARA (personagem de Phyllis) ouve seu ex-namorado
dizer pelo telefone que vai partir e ela relê a carta de K. em voz alta,
evocadora; Phyllis encolhia-se num canto do trailer (a voz erguida numa
histérica meia-oitava: poucos minutos mais tarde, sem nenhuma batida, a porta
se abriu e K. encheu a moldura da porta, teve que se curvar para entrar. O
trailer estremeceu quando ele cruzou a porta e fez aparecer uma garrafa de
Southern Confort de dentro de um saco de papel. ---- Pode-se dizer que estamos
buscando inovar profundamente a concepção de diálogo do cinema atual(:
negativamente, sim ou não, na medida em que reprovamos diálogos que só sabem
apresentar personagens mundanos que resumem suas experiências na menor das
frases, como em Hemmingway ou Dashiel Hammet(: a fala em nosso filme , pelo
contrário, jorra despudoradamente e já ninguém é capaz de diferenciar o que é
texto e o que é diálogo real, pois a função ali é captar a verdade e não
teatralizar diálogos e gozar de tanta verossimilhança com o resultado final(:
se um diálogo tem forma definida, damos-lhe uma forma(: mas se é informe,
deixamos ele informe e incompleto, e o espectador é que se FÔDA(: e nada de
diálogos do tipo professor e aluno , nada de precisão, o mesmo com a escolha
dos assuntos(: estamos realizando um filme em que não acontece quase nada,
apenas tentamos captar o movimento da GRANDE DERIVA(: nem sangue, nem murros, nem dramas, nem
violência, mas sequências intermináveis de pequenos incidentes cotidianos que
compõem a matéria e a essência do filme(.) ----, Phyllis interrompeu-o: -----
Você parece ter uma necessidade desesperada de enfatizar isto, K(.) ----,
depois encolheu-se novamente no sofá-cama. ---- Tenho(: é verdade, TENHO SIM(!)
todas essas pessoas ali dependendo da GRANDE DERIVA( -------, as palavras
voavam pela boca de K., ditas num tom alto, quase demente. ----- EU NÃO
PERTENÇO AO CINEMA (K. acrescentou , e serviu o Southern Confort no copo dágua
vazio dela (continuou: ---- Mea Culpa(: que asno eu fui de não prever as
dificuldades que você teria nesse papel(: não sou ator, nem diretor, nem
roteiristas ou dialoguista(... mas você é uma autêntica atriz até a medula(:
ouça, Phyllis, a cena que você tem que fazer ali agora é um close-up(: UM
CLOSE-UP MOSTRA PROCESSOS MENTAIS( ----, K. disse, e enfiou o copo de bebida na
mão dela: ---- SAÚDE(!) ----, o cheiro era forte demais, como palha
rançosamente adocicada. Ela engoliu de um só trago: o líquido saturante desceu
asperamente por sua garganta abaixo e seus olhos lacrimejaram avermelhando-se.
----- Mas não tem nada(: eu escrevi o maldito texto(: UM CLOSE-UP(: repito o
que está gravado na pedra da lei (isso é tudo na sua cena: um close-up serve
para mostrar um pensamento ao público (: basta você pensar de verdade, certo(?)
----, sugeriu K. com certa aspereza. ---- Esse é um pouco o jeito da Nola ser(:
ela fica distanciada dos atores até que eles lhe dêem uma boa interpretação (K
disse, e serviu mais um copo da bebida para Phyllis: o Southern Confort havia
acendido um calor reconfortante no peito dela: ----- Esse é o seu filme, minha
bem amada(: só voce pode salvá-lo, nós dois sabemos disto(: Nola é que se fôda também( -----, a
consciência de K, a recordação física dele e a antecipação física do próximo
encontro amoroso entre os dois enchia as veias de Phyllis naquele momento;
trêmula, transparente e transbordante: a sensação era conhecida. Sua
restauração invisível à autenticidade foi realizada num mundo de súbitos moldes
em evolução. K. encostou-se mais à ela, e começou a ronronar, um velho truque
indígena: uma vibração no fundo da garganta dele chegara aos ouvidos dela. Era
um sinal para Phyllis virar-e para ele e mudar o ritmo da respiração
automaticamente. ---- Claro que sim(: sou feliz a maior parte do tempo, é esse
o meu problema(.) todo mundo espera sempre que eu esteja calma e satisfeita e,
que diabos, sempre estou mesmo(: não sei o que há comigo hoje(.) ----, K.
escondeu o rosto no ombro dela, e perguntou: ---- Você acha que pode estar grávida
de mim(?) ----, ante aquele súbito quadro mental, Phyllis enrubesceu e riu de
novo: ---- Não (: o que eu sinto é uma certa relação de proteção que você tem
comigo(: Nola é oca e egoísta e sei que se algum dia eu tiver que bater de
frente com ela, não haverá nenhuma contemplação, mas também vejo algo de
generoso em toda o exibicionismo dela, alguma coisa que está querendo dar ao
mundo e ainda não conseguiu(: no set, quando ela põe aquele boné ridículo, de
borlas, e começa a flertar com o assistente de direção, há momentos em que
tenho vontade de abraçá-la de compaixão, de tanto que ela faz papel de boba(:
mas não senti nada disto quando vi você e ela dançando twist naquela tenda à
meia-noite, um mais bêbado que o outro(.) -----, ela disse (rindo) e fechou os
olhos: parecia que ia fazer o gol que esperava-se dela (o sorriso de K. roçou
em seu ombro: ---- Não há nada de errado em se sentir um pouco atingida no set,
de vez em quando (: NÃO DEMAIS, O SUFICIENTE PARA SE DESEMBARAÇAR(.) ----, K.
disse, e pôs o braço em torno dela, ajudando-a a descer os degraus do trailer.
Ela se sentou num banco de madeira, deixando o calor do Southern Confort
espalhar-se por ela enquanto o maquilador lhe fazia alguns reparos. Respirando
profundamente, entrou então no círculo brilhantemente iluminado. Meia centena
de profissionais altamente habilitados fixou-a. Nola suspirou e encostou-se em
sua cadeira de diretora. Um certo pânico flamejou dentro de Phyllis como uma
labareda. Então ela avistou K. , uma figura maciçamente entalhada em madeira à
distancia, magro e forte, piscando para ela enquanto batucava na coxa,
pensando: ----- Pessoalmente, eu me recusaria a fazer um filme com mais de duas
vedetes(: atrizes famosas geniosas costumam decidir coisas do roteiro ou
retifica-lo, caso não gostem dele(: não hesitam em impor-se à distribuição ou
em recusar certos parceiros de cena (: influenciam a direção pesadamente, como
Anabelle faz com Nola toda hora, exigindo planos mais abertos(: ----, (pensamentos: contudo, ela ria
indulgentemente, quando murmurou: ---- Estou pronta(.) ----, o homem dos
efeitos especiais fez um telefone tocar. Phyllis entrou em cena e ergueu o
gancho PENSANDO se a primordial detonação daqueles pensamentos estavam de fato
ficando visíveis na tela (mantêm-se absolutamente paralisada enquanto outra voz
matraqueia sem parar) ESTOU FICANDO ROUCA -- ''Ele' (como posso dizer) forma um
todo comigo, da mesma maneira que o gavião entre as nuvens, planando nas
correntes de vento à caminho de casa, FORMA UM TODO COMIGO, e o meu nascimento
e a minha morte -- SIM, MEU AMANTE FORMA UM TODO COMIGO SEMPRE QUE CONSEGUIMOS
MEIA HORA A SÓS (os cabelos de K. são mais loiros no alto, de tomar sol no
asfalto (ele construiu uma estrada marginal para manter os carros longe do
CHAKRA, prevendo o tempo todo que isso será uma verdadeira cidade com muitos
milhares de habitantes, uma próspera alternativa para a vida atroz e suicida
que as pessoas levam hoje nas metrópoles(.) DEU PARA OUVIR O BARULHO DA
SUPERSIRENE(?), é uma velha buzina de cerração que pertencia à um barco em
Ilhéus(: usam ela para nos chamar para o jantar ou em caso de guerra nuclear(:
é possível ouvi-la a quilômetros de distância, até nas plantações de cana, e me
lembra aquele triângulo de mar pelas janelas, TODOS OS DIAS, TODAS AS HORAS,
tinha uma cor ligeiramente diferente sempre, reagindo ao vento, ao céu, ao meu estado de ânimo (.)
-----, Phyllis deixou que algumas lágrimas escorressem pelo seu rosto: não
podia dizer se estava projetando uma habilidade de interpretação ou uma boneca
de papier-marchê, mas pela primeira vez, desde que assinou o contrato com a
Moto-Contínuo Filmes, compreendeu o que estava fazendo. ----- CORTE(!) COPIE
ISTO (!!) ----, gritou Nola subitamente numa voz empolgada e estimulante para o
assistente de direção (ergueu-se de sua cadeira de lona, trazendo na mão uma
caixa de lenços de papel), e acrescentou: ---- Eu raramente uso uma primeira
tomada, mas essa foi simplesmente perfeita, Phyllis (: PERFEITA(!!) ----,
abaixando um exemplar antigo do Hollywood
Reporter, K. piscou de novo para Phyllis, de longe, que lhe lançou um olhar de
gratidão. Depois disto, ela foi capaz de entrar no set todos os dias e
mergulhar em suas pungentes lembranças. K. aparecia ainda com frequência, saído
dos limbos do MANUSCRITO. Naquele dia,
Phyllis estava tensa demais para ir à cantina onde os outros almoçavam: assim,
K. encomendou os espessos sanduíches vegetarianos de que Phyllis tanto
gostavam. À noite, quando assistiam ao copião, ele disse calmamente: ----- Você
é linda(... mas muitas outras moças também são(: SÓ QUE VOCÊ TEM AQUELE
MAGNETISMO EXTRA(: Deus sabe o que é, e nenhum mortal ainda conseguiu lhe dar
um nome(.) quando você está na tela, ATRÁI O OLHO(: e isso, Phyllizinha, é o
que faz uma estrela de cinema(.) ----, Phyllis fixou a tela, incapaz por um
momento de compreender o que K. queria dizer ( tudo o que via era uma enorme
imagem dela mesma andando às tontas em cada movimento). No fim das filmagens
daquele dia, K. sentou-se perto de Phyllis no set (Phyllis não havia percebido
até aquele momento o quanto de si mesma as câmeras haviam captado (viu uma moça
dançando com o namorado sob luzes oscilantes, viu seu vôo selvagem pelas ruas
vazias para estar com ele uma vez mais, e viu também o corajoso rosto estilhaçado
dele voando pelos ares no seu sonho em torno dela e mudo ( um momento de
silêncio, aplausos (UM VIVA PARA O MELHOR FILME DO ANO). ''Descoberta
sensacional, esse pessegozinho, tão luminosa quanto Ingrid Bergman (VOCÊ
BRILHOU COMO UMA ESTRELA!!, diziam). Com o tempo, formou-se entre Phyllis e
Nola um fino verniz de amizade profissional, mesmo assim ela não sabia como
responder ao macio tom respeitoso com que passou a ser tratada por Nola. -----
Podemos ir (Phyllis perguntou à K: ----- Poque não(?) -----, era uma úmida e
quente noite de outubro e as poucas luzes na rua do set brilhavam através da
maresia como halos de arco-íris (ESSA MENINA PHYLLIS PODE SER COMPARADA À
VIVIEN LEIGH) essa menina: EU, pensou Phyllis (eles estão falando de mim do
modo como falavam de Vivien Leigh, antigamente). A exaltação aqueceu-a
brevemente; depois, não levou em conta a observação, da mesma forma como não
tinha levado em conta os louvores de Nola. Era a primeira vez que Phyllis
tocava a coroa de louros do sucesso, mas tanto naquela noite quanto pelo resto
da sua vida a humildade que sentia em relação à sua profissão faria com que
qualquer cumprimento, dali por diante, por mais sincero que fosse, soasse falso
ao seu espírito. ---- Ouviu isso(?) ----, perguntou K: ---- As pessoas se
sentem na obrigação de dizer algo simpático nas exibições de cenas dentro de um
set ou estúdio(.) ----, ela respondeu, rápida no gatilho. Então K. pensou
satisfeito que aquele ego estava realmente sob controle (deu um sorriso,
pegando-lhe pelo braço: ---- E então(?) ----, K. puxou-a para o portão
mergulhado na sombra de um edifício de contabilidade (e então?), pensou
Phyllis, sua mente encheu-se rapidamente de uma lembrança não muito
recapturável, o trêmulo momento em que havia beijado K. do lado de fora do seu
apartamento, no Sutton Palace, em Salvador, e do cheiro vigoroso de um limoeiro
vindo não sabia de onde... seus lábios se abriram maciamente, de novo, como
naquela noite. Depois, Phyllis e K. rolaram de carro pela avenida até o motel
mais próximo, cujo nome piscava em letras verdes: The Lanai
A
GRANDE FORMA
K.
percorre a maior parte do caminho até a locação onde será gravada a cena em que
Hester e Sara (personagem de Phyllis) passariam o dia inteiro fazendo testes
Rorschach e de personalidade para os citadinos verem se elas eram
suficientemente boas da cabeça para trabalharem na creche comunitária da cidade
por um mês (explicaram) ; K. agora sobe um quarteirão e passa por um freezer de
Summers, desce uma esquina panorâmica, uma rua paralela e a Prefeitura ao
norte, uma rua de casas de cômodos de tijolos e casas de comércio que ainda
restam, tendas de sapateiro que ainda cheiram secretamente a couro, lojas de
bombons escuras, agências de companhias de seguros, que mostram nas vitrines
fotografias dos prejuízos causados pela enchente do ano passado, escritórios de
corretores de imóveis com letreiros dourados, uma livraria. A Rua Nanouk
atravessa os trilhos da estrada de ferro por um velho viaduto cheio de
rachaduras. A estrada passa por entre muros de pedra enegrecidos, abrandada
pela fuligem ao sol, como se fosse musgo através do centro da cidade, as tiras
de metal no fundo da sombra das árvores como um rio, recebendo leves matizes
rosáceos de poentes das luzes de gás neon das espeluncas para viajantes à
margem da Rua da Estrada de Ferro. De repente sobem até seus ouvidos sons de
música e palavras de Anabelle ou Hester, ao longo do caminho: '' Poucos minutos
antes de sair para enfrentar a parada indigesta que seria aquele jantar com o
grupo de tensegridade(: um trabalho maravilhoso aqui com a Cleargreen para
tentar organizar as coisas, mas o magnetismo espiritual de K. extravasou a
capacidade das instalações(: se exige que um camping planejado para
quatrocentas pessoas abrigue e alimente agora quase mil, com uma porção de
visitantes diários e farejadores nos fins de semana(: mas ontem à noite,
andando quilometros adentro na trilha da cachoeira, descobri um lugar onde posso ser eu mesma durante
algumas horas, embora alguns líderes da tensegridade tivessem comentado minhas
escapadas dizendo que o desejo de privacidade era muito pró-ego e anti-ashram(:
eu não sei bem(: o Buda Gautama mesmo estava sempre fazendo algo do tipo e o
próprio K. nunca nos disse para irmos a parte alguma em bandos barulhentos como
alguns dos ''sannyasins'' parecem querer(: é óbvio que é preciso estar sozinho
de vez em quando e o esforço energético isolado é a única coisa que realmente
pode multiplicar a energia vital de alguém além do padrão meramente humano(:
quando penso em todos os dias que me agitei pela minha velha casa matrimonial
indo de quarto em quarto para me animar, esperando meu marido voltar do
trabalho ou ao menos alguém telefonar, vejo que perdi um tempo precioso em que
poderia ter praticado algumas técnicas de ocultismo(: quatorze cômodos e quatro
banheiros e seis mil metros quadrados de jardim só para mim, por um lado
parecia obsceno e fútil, mas por outro , uma espécie de falso paraíso(: não é
engraçado como o paraíso se encontre sempre no passado ou no futuro, nunca
exatamente no presente(?) não pode haver felicidade no presente enquanto o ego
falante existir usando os outros para fazer suas projeções(: hoje, temos K, e
nada ou ninguém além deste nagual para apontar o caminho(: o ego é como um
punho que se descontrái dentro da gente, depois de ficar fechado e socando
inutilmente madeira cheia de farpas durante anos''. As pesadas pranchas do
velho viaduto, agora, enceradas de preto pela fumaça das locomotivas, retumbam
sob os pés de K. Corre mais depressa: a calçada se alarga, os medidores do
estacionamento começam: corta caminho pelo beco entre a Associação Cristã de
Moços e uma igreja de pedra, cujas janelas com vitrais mostram à rua o avesso
de cenas bíblicas: uma luz verde de aquário: pisa agora as sementes polpudas de
alguma árvore: as folhas tropicalmente estreitas são espigões pretos sobre o
fundo amarelo do céu sombrio. Então K. pára rigidamente na pequena sombra
rabiscada no asfalto para olhar no alto a rocha celeste que reflete com brilho
metálico a pedra que se formou dentro da sua pele quente ao longo da caminhada
de quilometros. Acende um cigarro. Escreve num bloco de mão: ''Jean Genet: ele
é autor de um livro que talvez seja o texto europeu mais contundente do século
XX sobre desobediência e liberdade, que é o livro Diário de Um Ladrão(: hoje me
parece inacreditável que o único roubo que cometi na vida tenha sido justamente
o do exemplar deste livro da biblioteca púlbica do meu antigo bairro, três
meses depois de ter me alistado no exército(:
é provável também que este livro tenha despertado em mim o gosto pelos
diários e crônicas(: enquanto fui soldado, escrevia diariamente em meu diário
no quartel, e me lembro perfeitamente do dia em que fui preso por desacato
neste mesmo maldito quartel(: o Armeiro se levantou do chão com um cigarro na
boca e me convidou para um sparring na grama em frente ao galpão dos tanques,
valendo algo como cinquenta reais(: ---- Vamos boxear um pouco, garoto(.) ----,
mas não só nisso se resumiu aquela noite, e eu vim a ser preso em função do
caos que se seguiu entre os apostadores no final da luta. O Armeiro estava bem
mais alcoolizado que eu, essa é que era a verdade, e distribuiu cigarros de
maconha para os outros soldados antes de começar a luta(: não era uma luta, mas
um sparring pontuado, uma sombra de boxe à valer(: apenas punhos, nada de
chutes ou golpes abaixo da linha da cintura(: não me saí nada mal, com apenas
duas doses de conhaque e um gramado inteiro ao ar livre sob o luar com espaço
suficiente para circular(: lutamos então, eu e o Armeiro, para agoniante diversão e
consternação de todos em volta, um bando de animais barulhentos e analfabetos(:
me senti mesquinho assim que o alcacei com dois murros nos clinches
improvisados e segui martelando-o à vontade com uma sucessão de jabs tortos,
mantendo as mãos abertas e acertando em cheio aqui e ali, ele lento e
desprevinido como um bêbado(: então, o Sargento veio com sua gangue e um
terrível tumulto se formou à nossa volta(: juntos, ao final, eu e o Armeiro
devíamos ter socado umas vinte cabeças, fomos presos e ficamos sem nosso
dinheiro(: minha passagem pelo Exército foi o que me afastou do cinema durante
algum tempo, mas eu mantive um contato mental com os filmes que já tinha
assistido fazendo anotações num diário,
colocando cruzes ao lado dos títulos dos filmes que já tinha assistido várias
vezes e escrevendo sobre os roteiros dos mesmos(: tinha assistido mais de cinco
vezes filmes como A Regra do Jogo (La Règle du Jeu ), Romance de Um Trapaceiro
(Le Roman d´un Tricheur) ou O Vampiro de Dusseldorf (1931), de Fritz Lang, e
todos, absolutamente todos os filmes de Buster Keaton, até mesmo os que não
tinham legendas (eu não entendia muito bem inglês na época (: lembro que quase
saí na porrada com o bibliotecário negro (de quem era amigo, embora o achasse
insuportável) que fazia a projeção dos
filmes defendendo a polêmica idéia de que Buster Keaton era um gênio maior do
que Charles Chaplin, terminando minha análise falando praticamente sozinho (na
sala de projeção vazia), comparando o CÔMICO de Chaplin ao de Keaton,
defendendo que a originalidade deste foi inscrever o CÔMICO na GRANDE FORMA,
preencher a GRANDE FORMA (que diabos é isso de ''Grande Forma'', ele me
perguntava a todo instante, e eu começava a rir e nao respondia) preenche-la
com um conteúdo burlesco que ela parecia recusar(: ''ela que quem caralho(?!),
ele perguntou, puto(: A GRANDE FORMA
KKKKKKKKKK(: para Keaton (eu disse a ele, quase berrando, sem tirar os olhos da
tela, onde estava sendo projetada pela quinta vez seguida na mesma semana, à
pedido meu, A GENERAL(: para Keaton (continuei) o herói é um ponto minúsculo
num meio imenso, corrupto e catastrófico(: BOXE POR AMOR (1926) também foi
projetado três vezes seguidas numa mesma semana(: apenas eu assisti(.)''. (CORTA
---- uma vez que as arestas de ansiedade do elenco do filme tinham sido
aparadas pela diretora Nola, Phyllis e Anabelle perceberam em silêncio que a
união entre Nola, Paulo Arlt e K nos bastidores de algum acordo secreto tinham
transformado toda aquela engrenagem cinematográfica numa fábrica de loucura
audio-visual gratuita: a Moto-Contínuo Filmes empregava agora um grande grupo
de pessoas altamente nervosas para manter elevada a moral do elenco e
trabalhava paralelamente com outros filmes com todo tipo de orçamentos, obtendo
lucros anormalmente pequenos. Os eixos do carro estavam sendo retirados em
movimento. Nola havia tentado ser uma estrela da Moto-Contínuo Filmes há uma
década atrás, mas, para sua decepção, o
estúdio não havia feito qualquer esforço por ela: Paulo Arlt a tirou da cabeça
logo que ela passou à outro departamento da produtora, que treinava o ''talento'' das candidatas: mas eles também
não haviam despendido despendido nem mesmo o esforço de modificar-lhe o nome, e
Nola alinhou-se como mais uma atrizinha boba, bonita e jovem, cuja opção
contratual poderia alijá-la no fim de alguns meses: sua publicidade consistia,
na época, apenas de uma foto que exibia suas adoráveis curvas num biquini de
duas peças, foto que, mais do que torná-la sexy, mostrava-a luminosamente
vulnerável. Para se vingar espiritualmente do fracasso, tornou-se uma
competente diretora, que mesmo assim nunca possuiu o ímpeto patológico
indispensável ao sucesso : numa cidade de belezas femininas vorazmente
ambiciosas como o Rio de Janeiro, ela chegara àquele ponto apenas pelas
manobras aguilhoantes de Paulo Arlt, com quem teve um caso no passado. Entre
todo o elenco do filme, a opinião geral era de que ela era uma mola
absolutamente descartável da engrenagem fellinniana de ZERO, e se limitava a
ficar por perto durante as filmagens em que havia algum figurante apanhado de
improviso na rua para fazer uma ponta sem fala no filme. Para ela, a ossuda e
elegante participação de Phyllis no filme era terrivelmente opressiva, em
função da sua juventude, beleza , fortuna e do seu caso com K (um esgarçamento
monstruoso no alto de uma estrutura de interesses no qual ela vinha sendo
sistematicamente pisada e humilhada desde os vinte e cinco anos de idade). Bem
cedo naquela manhã, Phyllis e Anabelle já estavam na locação onde ZERO
continuaria sendo filmado: nessa tomada, Phyllis faria o papel de outra
personagem, diferente da SARA que vinha encarnando: esse minúsculo papel era o
de uma hippie mundana francesa, colaboradora e dura: no seu apertado vestido
estampado com motivos hindus, com o cabelo elaboradamente enrolado no alto da
cabeça, usando maquilagem de palco (Pan Cake laranja, cílios falsos e um batom
quase negro) ela parecia uma doce e triste criança forçada a viver na beira da
praia pelas mais sombrias circunstâncias da vida. Sentava-se numa cadeira de
dobrar bem fora do alcance do enxame de atividade técnica que rodeava uma
inconsistente ''brasserie'' sem teto e parede de frente. O encarregado dos
acessórios endireitava o interior sob a voz estridente e escrupulosa de uma
saudável e madura continuísta. A personagem de Phyllis agora tinha que insinuar
coleantemente suas nádegas através da ''brasseire''; por isso, ela fixava as
mesas de mármore, imaginando suas ondulações: ----- Sinto falta de você
(Phyllis disse para K.) ---- (eu também, K. respondeu ----- Então o que é que
há(?) ---- K: ----O que é que não há, você quiz dizer(...) ----- Phyllis: ----O
que é que ''não fiz'' de errado, K(?) ---- K: ----Nada (disse ele), nada que eu
tenha planejado, é só que as coisas agora estão mais ativas (: começou o verão,
certo(?) ---- Phyllis: ----- Sabe, as vezes me irrito com esse seu jeito, tenho
vontade de tornar as coisas realmente difíceis para você(.) ---- K: ---- É o
que talvez você faça, em breve(.) -----, manchas amarelas passavam pela nuvem
preta e cabeluda da peruca da personagem na cabeça dela. Não, não nos
interessa, não é da nossa conta saber exatamente o que ela respondeu e se foi
justa ou não a comparação que fez de K. com o protagonista do filme Permanent
Vacation, de Jim Jarmusch. Phyllis tinha adquirido e conservado até aquele
momento a habilidade de perder-se num papel; por outro lado, não estava
conseguindo de modo algum superar a DR insólita que tinha tido com K. há poucos
minutos. Desde o começo sonhava com K, mas nunca com nenhum tipo de plano para
o futuro, a felicidade que tinha com ele era no presente, e nos últimos dois
meses seus sonhos noturnos tinham adquirido uma dimensão cruelmente sexual:
Phyllis acordava excitada e transpirando, a respiração rápida, as coxas
apertadas uma contra a outra. Essas uniões com K. em sua mente não pareciam
meros sonhos: não se apagavam ou mudavam insubstancialmente à maneira dos
sonhos: eles abrangiam sua carne com uma verossimilhança sensorial tão
completamente delineada que Phyllis tinha começado a acalentar uma crença
furtiva de que a comunicação com K. se dava em vários níveis de significado
simultâneos. Ela deu um tênue suspiro, sentindo que K. emergira de uma tela de
fundo ali perto e a estava observando atentamente: ele pôs um cigarro meio
amassado na boca, acendeu-o e expirou uma baforada comprida para o alto; seu
lábio inferior estava saliente como um bico de chaleira, vazio, e sentiu que K.
procurava uma resposta à tudo aquilo que não a constrangesse, e lembrou de algo
que K. contou na noite anterior: ----- Eu voltei à frequentar a sala de
projeção de filmes antigos da biblioteca pública do meu bairro depois que
voltei todo machucado e com algum dinheiro da minha primeira temporada de mergulho
numa zona clandestina de garimpo, na Bahia mesmo(: porque eu ainda lia livros
sobre cinema e vivia falando de filmes antigos com as pessoas e não podia mais
admirar Pierre Fresnay depois de ter descoberto, em apenas três meses, James
Stewart, Gary Cooper, Spencer Tracy, Cary Grant, Humphrey Bogart, Peter Lorre,
Mickey Rooney, John Garfield(: eu tinha descoberto ''Zero em Comportamento'' (Zero de Conduite),
O Atalanta (L'Átalante), A Regra do Jogo (La Régle du Jeu) e, na biblioteca
pública, tudo o que havia sido feito por Griffith, Stroheim, Murnau(: ERA
FANTÁSTICO(!!) -----, após a primeira
tomada, Phyllis teve que rir da expressão de K., antes de pedir delicadamente:
---- Me solte, você está me emagrecendo(... ----, mas K. apertou ainda mais a
cintura dela, brincando: ---- Ainda resta muita coisa para acontecer entre nós,
antes da GRANDE DERIVA nos separar(.) ----, deviam ter conversado um pouco mais
a sério sobre aquilo, mas o verdadeiro significado do resto do que disseram
permaneceu escondido na mente de K. por
trás dos véus vibrantes de mosquitos cor de pólvora, o calor nos pés, a figura
do pescador presidindo a cena entre Phyllis e o empresário de férias que se
apaixonava subitamente por ela na outra margem e era dispensado no final da
cena (o pescador sua vara e seu reflexo na água como os dois lados de um arco
precário. Embora em algumas manhãs de gravação sem importância ela desejasse
que seu telefone tocasse para ouvir a voz de K. dizendo que estava por perto,
ficou grata à ele por levá-la à sério e por continuar à aproximar-se dela em
algumas tomadas para dirigi-la em segredo, como se ela ainda tivesse algum
segredo irresistível para revelar-lhe. Ao todo Phyllis estava profundamente
satisfeita com o caso deles, e ao vestir suas roupas íntimas novamente após
cada noite que pasavam juntos pensava com carinho na aventura que estavam
vivendo; julgava-se enriquecida e mais profunda na medida do normal:
arriscara-se ao perigo e colhera sabedoria: mais completa e tolerante: ---- Não
acha que é o melhor para nós dois(?)
----, o pescador distante torceu a vara e os pássaros das árvores em
volta deles soltaram um chuveiro de comentários. Os sacos de compras junto ao
cotovelo dela farfalharam: o sorvete derretendo-se, as caixas de suco de
laranja esquentando-se ao sol. ---- Os casos de amor (disse K.) exigem muito, como tudo o mais(:
todos nós queremos um alto preço só pelo fato de existirmos(.) ----, no canto
de sua visão abstraída, moveu os olhos: Phyllis recuou, esperando o começo da
segunda tomada. Fingindo decisão, K. apagou o cigarro num pedaço de papelão, e
permaneceu imóvel, acompanhando a performance de Phyllis em cena
apaixonadamente: ele realmente tinha algo de clarividência: o episódio, como a
frenética peripécia de um seriado, mostrava muito claramente a ruptura entre o
passado e o futuro: sob seus olhos, os ectoplasmas do seu MANUSCRITO
abandonavam os espelhos mágicos do romance gótico que tinha escrito, a
fantasmagoria, as sombras chinesas do kung-fu, para se tornarem, em Phyllis,
uma coagulação de átomos fosforescentes da quarta dimensão: à golpes de
eletrochoques dramáticos, aquela espécie de holograma era evidentemente o anjo
anunciador da televisão e suas telas de controle: demonstração de que a
realidade podia ser decomposta e recomposta à vontade: que ela tampouco se
limita à uma existência dura sempre colocada em questão, e que talvez ela
também fosse, para além daquilo, alguma coisa construída por um hiper-sábio
oculto, um Jivan-Mukta que lhe podia a qualquer momento torce-la, agitá-la,
perturba-la e embaralha-la de todas as maneiras. NO MESMO INSTANTE, A COISA SE
PRODUZIU(: foi brusco, imediato! Aquilo jorrou de uma vez das profundezas de
Phyllis (alguns alinhavos com uns poucos parágrafos aglutinadores: toma conta
da tela imagens em cores de um deserto, sob a qual vemos alguns créditos e
títulos. Em seguida imagens em preto e branco de uma praia aparentemente vazia
intercaladas com imagens descontínuas nos mostram dois encontros entre jovens,
servindo de prenúncio para o que a cena irá retratar. Inicia-se então a
primeira parte da cena, na qual é anunciada, através de um turista banal e
saltitante que parece querer voar, a chegada de uma forasteira ilustre, que se
hospedará na casa de pousada a beira mar e que, por conta de sua presença,
acabará por esfacelar com os valores e estruturas presentes naquele ambiente.
Enquanto cuida do jardim, a empregada se incomoda com a figura da visitante
(Phyllis) que está lendo e escrevendo confortavelmente no quintal, e então
corre para dentro de casa retirando seus brincos e beijando uma imagem
religiosa ao lado de seu espelho, numa clara alusão a toda repressão a que a
personagem se impõe, tanto sob uma perspectiva moral (a de retirar os brincos
para não incitar sua sensualidade) quanto de uma perspectiva religiosa (a
castidade e o pecado). Ao perceber que mesmo assim a visitante forasteira
continua atraindo-a, ela corre novamente para a casa, mas a forasteira então
salva-a, leva-a para o seu quarto e consuma o ato sexual, citando trechos da
obra de K. Quando se dá o fim da estadia e a forasteira abandona a casa,
inicia-se a segunda parte da rápida trama com a completa ruptura de toda a
estrutura narrativa que unia aquela história à história principal. A forasteira
muda-se para o interior, onde passa a se alimentar de ervas e a operar milagres
nas montanhas de uma reserva ambiental. A empregada percebe-se lésbica e
entrega-se a pintura abstrata. O empresário de férias fica catatônico e é
levado para um hospital de loucos. K. passa a sair pelas ruas à noite à procura
de garotas, e por fim se despede em uma estação ferroviária e caminha em
direção a um mirante marinho, onde aquela sequencia de cenas se encerra com seu
passo libertador(: as unhas esmaltadas de Phyllis faziam pressão no tecido
estampado que lhe cobria as coxas: um espetáculo que jorrava de um mulher em
cena assim como de uma camada de horizonte cinzento escuro que não tinha mais
de dois ou três centímetros de largura na tela ao fundo. Mas dou aqui a
sensação que o próprio K. experimentou, que foi a mesma que toda a equipe de
produção do filme experimentou ao mesmo tempo, com a mesma nitidez, a mesma
certeza e o mesmo espanto. Nada há para contestar neste fato indiscutível:
aquilo jorrou das profundezas cavadas por Phyllis no close oceânico da matéria
e apareceu diante de todos brutalmente, como o clarão de um farol que se acende
no fundo de um espessa treva. Quando K. avançou em direção à um espelho,
percebeu que sua imagem agora também jorrava do fundo daquele horizonte
subitamente descoberto através de Phyllis. Mas, ao mesmo tempo, não era sua
imagem : o que ele via era... ---- Ok, eu levarei você em casa quando a
filmagem de hoje acabar(.) ----, K. disse à Phyllis, no intervalo entre as
tomadas; o intenso bronzeado do deserto no rosto de K. de algum modo acentuava diante dela o poder
espiritual da sua presença alta, ossuda e espessa. ---- Tudo bem(.) ---,
Phyllis respondeu (K. sorriu , contente ---- Vejo você no portão principal , às
19:00h(.) ----, e ele esperou no quente crepúsculo pacientemente, meio cego
pelos faróis dos carros de apoio da Moto-Contínuo Filmes que entravam e saíam
sem parar por aquele portão: o vento úmido golpeando suas canelas e pescoço
(---- Posso lhe mandar minhas coisas novas de vez em quando (: SÃO SÓ PARA
VOCÊ(.) ---- Seus textos(?) ----, ela respirou profundamente como fazia para
acalmar-se diante das câmeras ---- Não é permitido (disse K, rindo) segundo o
contrato, nenhum choro de verdade fora de cena neste filme, não até que façamos
de você uma estrela(.)
VENHO
ESCREVENDO ''KOERENTE'' COM K
UMA
PROSA PODE APODRECER COMO UM FILÉ COM FRITAS. HÁ MUITOS ANOS QUE ASSISTO AOS
INDÍCIOS DE PODRIDÃO NA MINHA PROSA. COMO EU , TEM SUAS ANGINAS , SUAS
ICTERÍCIAS, SUAS APENDICITES, SEUS CÂNCERES, SEUS INFARTOS, MAS SEMPRE ME
EXCEDE NO CAMINHO DA DISSOLUÇÃO FINAL . DEPOIS DE TUDO , APODRECER SIGNIFICA
TERMINAR COMO A IMPUREZA DOS COMPOSTOS E DEVOLVER OS SEUS DIREITOS AO SÓDIO ,
AO MAGNÉSIO , AO CARBONO , QUIMICAMENTE PUROS. MINHA PROSA APODRECE
SINTATICAMENTE, E AVANÇA ----- COM MUITO TRABALHO ---- PARA A SIMPLICIDADE.
CREIO QUE É POR ISSO QUE JÁ NÃO SEI ESCREVER A A PALAVRA ''COERENTE ''. VENHO
ESCREVENDO ''KOERENTE'' COM K . UM ENCABRITAMENTO VERBAL ME DEIXA A PÉ POUCOS
PASSOS MAIS ADIANTE. FIXER DES VERTIGES. QUE BONITO ! MAS SINTO QUE DEVERIA
FIXAR ELEMENTOS. O POEMA EXISTE PARA ISSO, E CERTAS SITUAÇÕES DE ROMANCES OU
CONTOS. O RESTO É TAREFA DE RECHEIO E NÃO ESTÁ ME SAINDO BEM NO MOMENTO.
-----
SIM, MAS OS ELEMENTOS SERÃO O ESSENCIAL ? FIXAR CARBONO VALE MENOS QUE FIXAR A
HISTÓRIA DOS GUERMANTES .
-----
CREIO OBSCURAMENTE QUE OS ELEMENTOS QUE APONTO SÃO UM TERMO DE COMPOSIÇÃO. O
PONTO DE VISTA DA QUÍMICA ESCOLAR SE INVERTE. QUANDO A COMPOSIÇÃO CHEGA AO SEU
EXTREMO, O TERRITÓRIO ELEMENTAR ABRE-SE. OLHÁ-LOS E, SE POSSÍVEL, ''VÊ-LOS''
...
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