quarta-feira, 16 de julho de 2014

A Ouvinte e O Narrador? (primeiros primeiros escritos sobrantes) 2014-2015


Mas o que se movia visivelmente dentro do invisível fluxo de consciência da ouvinte e do narrador? A reflexão no teto de uma lâmpada e cúpula, uma inconstante série de círculos concêntricos de variadas gradações de luz e sombra: uma catedral gótica em construção, sugerindo a invasão do universo inteiro por um sentimento metafísico desconhecido. Em que direções estendiam-se A Ouvinte e O Narrador? Ouvinte, es-sudeste: narrador, nor-noroeste: no 53º paralelo de latitude, Norte, e no 6º meridiano de longitude, Oeste: em um ângulo de 45º em relação ao equador terrestre, provavelmente numa balsa de madeira motorizada boiando sobre um rio tórrido. E em que estado de repouso ou movimento? Em repouso relativamente só a eles mesmos quando mergulhados subitamente no simbolismo poético dentro de cada personagem, mas produzindo um movimento simpático muito específico de convergência sentimental e física. Em movimento sendo ambos e cada um deles carregado para Oeste, para a frente e para trás respectivamente, pelo perpétuo movimento próprio da terra através de sempre mutáveis rotas de navegação fluvial de sempre mutável espaço interior indeterminado dos personagens. Em que postura? A ouvinte: reclinada semilateralmente, para a esquerda, mão esquerda sob a cabeça, perna direita estendida em uma linha reta e descansando sobre a perna esquerda, fletida, na atitude de Géa-Tellus, completada, recumbente, plena de sementes e rasgos felinos de fisionomia. Narrador: reclinado lateralmente, para a esquerda, pernas cruzadas na poltrona, o dedo indicador e o polegar da mão direita descansando na ponta do nariz, na atitude de cumplicidade representada por um cigarro entre os dedos, dizendo para a ouvinte: ''A cada vez que se olha pela janela ou que se anda pela rua, a consciência descreve intermináveis círculos, vai da frente para trás e vice-versa, captando todo tipo de interferencia e sofrendo todo tipo de enriquecimento em fluxo, por isso uma das tarefas da arte é chegar o mais perto possível do mecanismo da percepção... ela tinha tudo o que se pode definir como classe e poder, e me fazia pensar nas coisas mais agradáveis e valiosas que uma transação milionária bem sucedida pode proporcionar a um homem de negócios bom no que faz: fichas azuis de cinco mil dólares espalhadas sobre uma mesa verde de jogo, ouro vinte quatro quilates em estatuetas de marfim indiano, diamantes polidos á perfeição em coroas da realeza britânica, grandes orquídeas brancas em salas de acupuntura de hotéis seis estrelas, partituras de Chopin ou Haydn diante de crianças angelicais, um sol preguiçoso numa manhã de verão nas praias da Riviera Francesa ou Itacaré, etc. ..Mergulho de um corpo em cores que são ventos. O copo de licor dourado: um sino ouvindo e repetindo a paisagem tropical. A tranquilidade chegou-me como um presente refletido nos ombros dela, e eu nadei através de um sentimento de felicidade mais profundo do que o ar. Roçando, em cada poro, o céu do seu corpo. Apaixonar-se subitamente é individualizar alguém pelos signos que traz ou emite. É isto: o ganho não previsto, o prêmio subterrâneo e coruscante, leitura de relâmpago cifrado. Tornar-se sensível á esses signos, aprende-los. Salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo, vibrando no crepúsculo. Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência herdada e ouvida. No amor, de um modo geral, a pessoa amada aparece áquela que ama como um signo, ou melhor, como uma pluralidade de signos, implicando, envolvendo um pluralidade, uma multiplicidade de mundos inacessíveis, misteriosos, desconhecidos. 


(...



?????

Ela estava olhando para mim também, e isso foi suficiente para que eu refletisse um pouco mais em tudo, desnudando seus ombros para minha inspeção, fingindo que o abrir dos seus olhos diante de mim tinha sido um falso despertar. Fazer amor com ela na noite anterior tinha sido parecido com uma maratona. Não achei que ela chegaria assim tão depressa á consciência límpida daquele mundo intermediário, suspenso, onde eu era mais um entre os milhões que ficam lá no fundo da própria mente sem dizer nada, com músculos suficiente para mover o sexo que mantém vivo o mundo, e eu tinha feito ela sentir isso nos últimos dois dias, os saudáveis e vívidos impulsos e o suor do custo da cultura adquirida. Eu queria os sais do seu suor na minha boca e ela não tentava prolongar muito as negociações da sedução, muito pelo contrário: fazia amor como se estivesse subindo um muro inclinado, martelando-me com seu ritmo, um doce ritmo propulsor, ritmo contra ritmo, sem que nenhum de nós dois recuasse um segundo sequer, o que por vezes fazia ela mergulhar numa profundeza melhor do desejo, e depois entrávamos os dois então no que devia ser a satisfação de um bonito momento de prazer, quente e bom. Nesses momentos eu costumava pensar nos quartos dos andares superiores como quartos imaginários de papel. Em função de um inexplicável efeito de psico-acústica, todos eles pareciam de fato feitos de palha, madeira leve e pergaminho colado em estruturas de papelão, porque quando estávamos deitados em nossas camas no primeiro andar, parecia que todos os sons dos aposentos contíguos e superiores passavam facilmente pelas paredes e portas de correr. Com frequência eu ficava deitado na minha cama de madrugada escutando Carmen digitar no teclado do seu note-book e cantar baixinho lânguidas canções xamânicas do rito do peyot. Ás vezes eu ia até ela e deitava a cabeça em seu colo, perguntava alguma coisa sobre sua produção poética, que tinha se tornado incrivelmente prolífica nos ultimos dois anos, e ela resmungava respostas vagas e delicadas, alisando meu rosto e afastando dele qualquer sensação de perplexidade com a ponta dos dedos, ao mesmo tempo que seu riso ecoava hipnoticamente pelos outros quartos. Haviam outros sons de hóspedes desconhecidos ressonando pelo hotel inteiro de madrugada, mulheres rindo abafadamente entre confidências de adultério, casais entediados discutindo á meia-voz, pessoas se drogando sozinhas sob a solenidade do luar, e ás vezes o murmúrio suave e abafado de uma cópula na escuridão. Eu não era ansioso, não procurava ficar enchendo a boca dela com todos os meus gostos.. tudo isso me chegava aos ouvidos em ondas naquele hotel com suas vinte e duas celas de papel, no meio de um Rio de Janeiro praticamente deserto daquele lado, pelo menos para mim, onde um hóspede que por acaso pintasse quadros poderia colocar a saturação prateada do luar sobre a vegetação amarelada de ferragens retorcidas e violetas de velório, ao pé das putas selvagens fincadas na calçada suja e rodeada de areia branca. Na verdade, digo isso pensando mais no caso do escritor de exceção, ao se tratar de um escritor que é ao mesmo tempo um colorista empedernido e um devorador de paisagens psicológicas sobrenaturais. Eu estava vagando á esmo novamente entre os bueiros e quiosques na beira da praia a uns dois quilômetros do hotel, só que de dia. Os matizes se fundindo numa cor de carne alegre e estonteada de sol em Copacabana, cobrindo a areia da praia como uma segunda pele viva. A praia ofuscava, com o brilho do sol, o enxame de corpos e o sal que eu trazia nos olhos, das ondas além da rebentação, meu primeiro mergulho no mar depois de muito tempo. O sol batendo tão forte em mim que pequenos arco-íris se formavam na espuma das ondas, em torno da minha faiscante cabeça solitária, como espíritos; voltando à esfarrapada camiseta que também me servia de toalha, eu acabava de ter uma idéia para o fim do meu livro que deveria anotar no caderno assim que terminasse o cigarro. Mas estava preocupado em pensar que, se não sentasse na areia da praia carbonizada e abrisse o caderno logo e anotasse a idéia, provavelmente a esqueceria. Tentei repetir a idéia para mim mesmo várias vezes a fim de fixá-la na memória: mas agora a idéia já tinha escapado, e eu pensava apenas: '' Carmen tem todos os atributos do espírito poético francês do simbolismo, menos a erudição: sua maior alegria é abordar de maneira lógica os grandes segredos da experiência mística dos quais nada sabe, na verdade; no meio dessa madrugada escaldante, falou-me durante horas, mencionou de passagem Marx, Jung e Husserl - Heidegger , Kierkgaard - D.H. Laurence e Henry Miller - Norman Mailer e John Updike - Nietzsche e Conrad - Fitzgerald e Nathanael Hawthorne - Vico e Edmund Wilson (adoro os AnosVinte!, disse desavergonhadamente) - Jean Genet e Antonin Artaud - Lautreamont e Huxley - etc -houve ainda mais uns cinquenta nomes de importância variada - foi-me necessário, portanto, algum tempo de reflexão para compreender que Carmen nunca havia lido nada daquilo - estava apenas investigando gratuitamente meu cérebro (?) - no entanto, parecia-me jamais ter conhecido uma garota tão inteligente: a amplitude de suas perguntas, a energia de sua curiosidade e a percepção rápida que brilhava em seus olhos enegrecidos pela lâmpada do abajur como bronze ao sol eram impressionantes. ---- Minha história (eu lhe dizia) a galeria dos meus personagens, a essência da trama(: deve haver demasiada introspecção nos personagens(: transformar o barro poético primordial em alguma coisa parecida com ''escrever bem''(:  assim que, modestamente, apresento aqui a natureza felliniana de uuma idéia caleidoscópica(.) ----, e passei o caderno para ela dar uma olhada: foi em meio a uma tal confusão mental que procurei outra vez a lembrança daquela casa de campo em Barbacena e me satisfiz com ela. Eu realmente não valia nada, certo? Toda a aldeia desconfiava de mim até hoje. Aquelas mesmas moças ainda faziam muxoxos quando pronunciavam meu nome, mas minhas noites, ou mesmo minhas rápidas escapadas após duas horas de trabalho naquele hotel- fazenda , ocupado com as vigorosas coxas delas atrás dos estábulos, minhas mãos pesando em seus flancos gordurosos, permanecendo imóveis ou mexendo-se lentamente no compasso da respiração, na veia saltada latejante de um pescoço grosso de mulher, de uma loira corpulenta de braços roliços, levantando o tecido estendido e volumoso da barra de seu vestido. O sentimento de ter penetrado novamente aquela Gorda Divina em sonho. O sexo do meu sonho penetrando a divindade gorda do sonho, e se apresentam ao meu espírito frases como : ''Até o coração, até o rabo, até a flora, a fauna, bem no fundo da garganta(.) ''. ---- Do que você está rindo, K(?) ----, Carmen perguntou, indo me encontrar num bar duas horas depois. O garçom nos viu sentar na entrada do pub e sem demora nos trouxe as mesmas duas taças de cristal cheias de cerveja ale ebânea espumante, que dois nobres gênios escoceses preparavam em seus divinos tonéis nos fundos do estabelecimento, tão sagazes quanto os filhos da Leda Imortal. ---- Eles enceleiram as bagas suculentas do lúpulo (eu disse à Carmen, copo na mão), e juntam e peneiram e esmagam no pilão, e as preparam e misturam nelas sumos azedos, e levam ao mosto ao fogo sagrado entregues à faina dia e noite, sem cessar(.) ----, etc, continuei: ---- Sabe de uma (: gostaria de brincar de inventar as formas que o amor tem de surpreender as pessoas(: ele vem como Deus ao coração dos celerados, e também às escondidas como o Dia do Senhor, como um ladrão à noite (.) ----, disse, pensando em como eu tinha me enrabichado por Jaqueline daquela vez, em Barbacena, Jaqueline a Gorda: e por aquele caminho em que seguiam manadas incontáveis de carneiros-guias e ovelhas reprodutoras, e carneiros e ovelhas já tosquiados preparados para exposição Dorper e White Dorper e gansos, novilhos médios, éguas resfolegantes; carneiros angorás e reprodutores e vacas holandesas prestes a dar crias, e animais de engorda e porcos castrados de primeira qualidade e novilhas Angus e Red Angus e Black Angus e Angus misturados com Nelores e Guzerás; e suínos ricos em toucinho e várias diferentes variedades de porcos de raça impecável, junto com vacas leiteiras e reses de excelente qualidade premiadas; ali se ouvindo permanentemente tropéis, cacarejos, rugidos, mugidos, balidos, bramidos, roncos, grunhidos, triturações, mastigações, salivações, de carneiros e vacas e porcos e gansos vindos das pastagens de Milho Verde, Mantiqueira, Carandaí, Lafaiete, Cupim, Santos Dummont e dos vales regados por regatos de Torreões e Ponte Nova, Mar de Espanha e Ivanhoé, Cátera e Gutierrez, e das gentis declividades do lugar e seus úberes distendidos pela superabundância de leite, e barricas de manteiga e coalhos de queijo mineiro fresco, e barriletes de fazendeiros e pescoços e peitos de cordeiros e grandes quantidades de milho e muitas centenas de ovos oblongos, diversos em tamanho , ágata e castanho -acinzentados. Foi assim que eu entraria de novo na propriedade rural e hoteleira da Senhora Raquel Kiernan , e ali, sem dúvida alguma, encontraria de novo Jaqueline, a Gorda, comandando, monitorando e classificando o desempenho diário das vacas holandesas no curral. ---- Não vamos durar mais nem um diazinho juntos(: duvido que você vá querer ir comigo pra São Paulo(.) ----, Carmen disse, carregando sua infâmia proto-poética como um charuto na ponta dos lábios, como um estigma de ferro em brasa. Como eu disse: não entendia direito o circulo social dela. O cheiro que ele difundia silenciosamente na minha visão tinha o brilho fosco da pérola, enroscado ao seu redor, circundando os passos dela por aí com uma auréola da cabeça aos pés, mas a isolando completamente de mim. A casa do meu caralho caindo de novo. ----- Já tinha dito antes que iria pra Minas (ela me perguntou porque não permanecia no Rio, até ela voltar: ----- Não é um lugar prático para alguém como eu(: gasto uma nota preta toda vez que venho, só com hospedagem(: hoje não existem mais casas de hospedar do tipo pensão Moss (lembra do que te contei uma vez(?), acabaram(: no começo do século XXI eu ainda detinha o conhecimento das últimas, nas ruas de Botafogo, Laranjeiras, Flamengo(: pelo Largo do Machado,Catete, Glória, Riachuelo, Haddock Lobo e Conde de Bonfim(: me serviram de residência durante seis meses e a outros drogados da Lapa, traficantes em trânsito, comerciantes na altura da gerência, viúvas de travestis, solteironas abastadas, traficantes do Disk Droga(: eram cômodos enormes e alucinantes , e uma sala para receber os motoboys do crime de classe-média(: através dos meus papéis e anotações, posso acompanhar meus passos por esses vários endereços cariocas que percorri num curto espaço de tempo, até ser esfaqueado na mão por uma puta cara que me chamou de pivete(: Ladeira do Seminário -bem no centro, na encosta do Morro do Castelo; Marrecas, onde se comprava farinha de aipim; Riachuelo , velha rua de Mata-Cavalos, onde se acotovelavam amigos de Machado de Assis. Morei também em Senador Dantas, numa pensão Moss bem familiar, coletivas austeras alternando com lupanares instalados ali, na vizinhança da Ajuda e bem no centro da cidade(: e ainda conheci essa rua cheia de velhos sobrados recuados em sonho, lendo a Encantadora Alma das Ruas, de João do Rio, de jardins de árvores copadas, trepadeiras nas grades e subindo pelas sacadas; assim vegetal e molhada, verlainiana e fresca, cheia de frutos, de flores, de folhas, de galhos (.) ----, eu disse, refazendo meus caminhos pelos corredores subterrâneos do ópio para reencontrar minha pequena, negra e gelada cela na Ratoeira do Céu. Perseu no Labirinto. O mundo mais vibrante, as Ariadnes feitas com as carnes mais tenras, são feitas de mármore barato, semeando devastação tóxica pela minha passagem. ----De olhos mortos volto a percorrer a cidade da desova, das populações petrificadas de medo (: impossível retomar minha confissão, ou anulá-la, desemaranhar o fio do tempo que a teceu e fazer com que ela se divida e se destrua (: mas... FUGIR(?!) também não, que idéia, o labirinto é mais tortuoso do que os considerandos de certos juízes criminais (.) -----, eu disse e, sem qualquer vã ornamentação em torno da voz, teria me envenenado completamente se continuasse falando. Estava pronto para o Exílio, quando voltamos para o hotel em silêncio; me bastou, ao deitar na cama, lembrar-me dela escapando por minhas mãos pelo espaço de dez segundos, no momento em que já era visitado pela Luz da Prisão (resíduos das recordações de Jaqueline, a Gorda) para que o elemento onírico que criava essas expressões me envolvesse, me causando o vazio interior que precede o nirvana: na escuridão mãos espirituais se fazendo sentir agitadas; a oração em forma de tantras dirigida para a região adequada da cabeça; uma luminosidade fraca mas crescente de luz rósea gradualmente visível (aparelho distribuidor de oráculos, busto que fala, livro oracular -eu escavo a consciência em busca do veio dourado. Minha enxada encontra a forma dura do meu membro ereto: a aparição do duplo etérico sendo semelhante à vida devido à descarga de raios jívicos provindos da coroa da cabeça e rosto. A alma navegando o sangue bombeado embaixo. Alguns rochedos talvez pudessem me estender uma mão de pedra, mas estavam suficientemente longe de mim para que eu pudesse agarrá-los. Caía e, para retardar o baque final, indagava por meio do meu nome terrestre quanto ao meu paradeiro no mundo celestial, declarando que estava agora a caminho do Pralaya, mas ainda submetido à provas nas mãos de entidades sedentas de sangue. Me sentir cair me causava esta embriaguez, que é o desespero absoluto vizinho da felicidade suprema, durante a Queda e a Ressurreição; de voltar às coisas que ainda são, para retardar o choque do fundo do abismo e o despertar na Prisão de Luz: por isso, eu acumulava as catástrofes do passado, provocando acidentes ao longo da verticalidade do precipício, entraves ao ponto de chegada efetuado pela glândula pineal. Raios laranja ígneos e escarlates emanados da região sacra. E, finalmente, eis-me na consoladora suavidade carcerária do Grande Hotel dos Kiernan, em Barbacena, que dentro de algum tempo também deveria largar, pois oitenta mil reais não são eternos.



Desintoxicação...

Um pequeno sacrifício financeiro, era verdade, mas eu pensava que agindo assim sempre haveria um lugar para onde escapar caso alguma coisa desagradável acontecesse. Eu de fato usava na minha mente a palavra ''desagradável'', o que nada tinha a ver com Carmen. Muito pelo contrário, mas tomada a decisão de partir, tudo que vinha na minha mente era a última vez em que eu havia coabitado com a Gorda, o mês tumular e irresponsável que havia precedido nossa súbita separação; a libertação das visitas de sua família, daquele maldito círculo de caipiras chatos sentados na varanda do hotel. Varanda que por sua vez me dava segurança quando vazia de tarde: segurança pela seu luxo colonial, por seus ritos de xícaras de porcelana e torrões de açúcar se dissolvendo no café, pela elegância medicamentosa e quase imóvel da Sra. e da Srta. Kiernan, sempre gripadas sob as lamparinas da recepção. E francamente, sem nenhum espírito de proselitismo, é impossível a uma pessoa que não se droga frequentemente como Jaqueline viver junto de uma que o faz, como eu. Essa amarra Jaqueline havia adquirido ao longo do nosso curto relacionamento; mas, como um ácido, a amargura do cânhamo veio a passar sobre ela, comendo sua meiguice inicial de um ou dois tapas. E é raro que um fumante abandone a droga; é a droga que o abandona, estragando tudo. Então, além de não fumar mais comigo, Jaqueline passou a temer tudo na vida que não pudesse ser dito de uma maneira simples e familiar, ou com um mero sorriso. Em outras palavras, ela passou a ter medo de mim e da minha obra. Ela se tornou o barômetro de uma sensibilidade enfermiça que os outros me atribuíam; e só este medo provava o perigo das minhas recaídas e consequente poder da Gulosa sobre mim ( por isso, quando cheguei no hotel, perdi algum tempo contemplando e recordando a casa de fazenda de cinco andares, revestida de tábuas horizontais pintadas de branco e plantada a meia altura numa colina salpicada de rabos-de-raposa e margaridas-do-mato; procurando não confundir uma possível tentativa de desintoxicação com uma convalescença de dengue, ou uma supressão abrupta de haxixe e ópio do meu organismo com seus substitutos mais imediatos: exercícios físicos, caminhadas pelo campo, banhos gelados, cocaína, licores, etc... e sem, por sua vez, confundir o hábito atual com a intoxicação: ela vinha de muito antes, sendo mantida viva '''homeopaticamente'''' . Eu pensava: ''Doze quilômetros de uma estrada rural silenciosa e deserta separando Barbacena das montanhas onde eu havia morado com Jaqueline em 2007. Ou 2008? Não importa: para mim, as colinas verdes e suaves, com as montanhas também verdes vistas à distância através das janelas dos quartos do hotel, me devolviam algo como a paisagem que eu via do meu quarto de dormir quando era criança, na fazenda onde cresci (exatamente a vista do quarto no último Anexo) e aumentava a sensação que a Gorda me transmitia , de que enfim estávamos à salvo com nossos verdadeiros eus , e ''em casa''. Minha figura sentada na varanda do hotel sobre um enorme bloco de pedra aos pés de um moinho redondo recebeu Jaqueline como se eu fosse um herói que voltava vivo do inferno: um herói de ombros largos, de vasto peito, de membros rijos, de olhos franco s, de cabelos loiros de múltiplas poses de gola desgrenhada de boca seca de nariz torto de punhos cerrados de frio de rosto pálido. Os olhos de Jaqueline nos quais uma lágrima e um sorriso constantemente lutavam por supremacia, tinham a dimensão irreal  de um pé de alface. Os sintomas de sua carência eram de uma natureza tão estranha que ninguém saberia descrevê-los. Imaginei que a Terra girava um pouco menos depressa dentro de seus olhos, que a Lua se aproximava um pouco mais do chão; uma poderosa corrente de sopro gelado emanava a intervalos regulares da cavidade profunda da sua boca. Ela vestia uma túnica longa, sem mangas, de couro de boi tosquiado, que chegava até os joelhos como um Kilt solto, e isso era amarrado no meio por uma faixa de palha e fios de juncos trançados; suas extremidades inferiores estavam cobertas por botas altas tingidas com líquen purpúreo: como minha alma se regozijou com o simples fato dela ali banhada pelo sol frio da manhã, e logo me aproximei desejando ser envolvido por seus braços roliços contra seu grande corpo sólido e branco.  ----- Ah, Jaqueline, como senti falta da sua presença substancial (.) ----, não, não foi o que eu disse, pensava no peso dos grandes seios em minhas mãos, e de como aquilo era agora aconchegante, diferente de todos aqueles meses sem fim  à beira-mar, em que eu acordava tendo apenas o travesseiro para abraçar. Abracei-a mais tarde: ----- Ainda não são nem onze horas(?) verdade(?) -----, em silêncio, segurando uma torrada de canela numa das mãos e meu braço na outra, demos uma volta no jardim para colocar a conversa em dia. ''Algumas pessoas'', eu pensava então ''podem ver um  argueiro nos olhos dos outros, mas não podem ver a trave nos próprios olhos (.) ''. Eu fui até o fundo daquele quintal para fazer xixi e, poxa vida, enquanto eu descarregava meu fardo de mijo, nossa, ainda falando comigo mesmo, eu sabia que ela estava com a mente inquieta. Jaqueline disse: ---- Tive um bebê (.) ----, e meu coração murchou aceleradamente sob a areia escaldante do medo, em instantes rápidos como traços de lápis, pequenos como eles, pequenos como o enigma inquietante que se vê entre as pálpebras de um cavaleiro mongol. Ela se explicou, após assegurar (rindo da minha cara desolada) que o filho não era meu. Jaqueline e o filho moravam na única casa de aldeia que, como a igreja, tinha um teto de ardósia. Era uma casa de pedra de cantaria, retangular, dividida em duas partes por um corredor que se abria como uma brecha heróica entre os rochedos; e ela contava com uma renda bastante boa agora, desde que tinha asssumido a administração da fazenda das Kiernan. Poderia inclusive viver no luxo dali em diante, ser servida por vários empregados, mover-se altivamente entre os imensos espelhos emoldurados que se erguiam do tapete até o teto de madeira, coberta de grifes caras da cabeça aos pés. Mas isso não faria nenhum sentido por ali: a Gorda simplesmente se recusava o luxo e a vaidade, dizendo: ----- Conforto demais mata os sonhos da gente (: e o amor também (.)-----, e por mais doce, isso deveria ter substituído subitamente aquilo que eu estava procurando imaginar que existia dentro de seus olhos desde o começo, uma espécie de chegada fragmentária e imóvel da alma num deserto vivo. Ou a primeira equação dessa incógnita. Antes do meu retorno , o amor realmente havia depositado sua alma na terra, e assim manteve Jaqueline como que presa nos abraços e beijos de um lutador de vale-tudo de Ressaquinha, acostumado a derrubar brutamontes em Belo Horizonte. Jaqueline era considerada uma gorda bonita por todos os que a conheciam, embora , como as pessoas frequentemente diziam, ela era mais uma patroa do que uma mulher. ----- Porque voce não vem até o curral me ajudar a pesar as novilhas, K(?) -----, propôs-me ela, estabilizando-se; o frenesi superaquecido do primeiro contato comigo transmudando-se numa serena afeição física. É assim que prefiro descrever o que estava acontecendo com ela, para agora tentar descrever o que estava acontecendo comigo. ''Ninguém pode dizer se sairei daqui, nem, se sair,  quando isto ocorrerá(: tentar descrever os sintomas da abstinência da droga para Jaqueline seria impossível e inútil(: como o amor, ou um enjôo em alto mar, a carência química penetra o organismo por todos os lados(.) '', eu pensava , caminhando com Jaqueline para o curral , já no início do meu primeiro dia de mal-estar. Digo, no início foi um mal-estar. Depois as coisas se agravaram dramaticamente. A palidez de cera do rosto dela era quase espiritual para mim naquele momento, em sua pureza ebúrnea, embora sua boca como um botão de rosa fosse um genuíno arco de cupido , de perfeição grega. A enorme porteira precipita meus olhos sobre o curral lotado, que cheira a flores de bosta bovina verde no chão: Mimosa I, Mimosa II, Mimosa III... uma multidão de jovens vacas holandesas enfim, uma litania ainda grande de quadrúpedes preto e branco que respondiam por nomes resplandescentes esperavam Jaqueline do outro lado do curral; ágil, a Gorda possuía no porte roliço a suntuosidade pesada do bárbaro que pisa com suas botas enlameadas um tapete de peles preciosas. Talvez fosse isso que conferisse aos traços ovais do seu rosto uma expressão (tensa de sentido reprimido) que emprestava aos seus belos olhos uma propensão estranha ao enternecimento. Os de Jaqueline eram do mais azul dos azuis , realçados por pestanas lustrosas e por sobrancelhas escuras e sedutoras. Mas a maior glória da Gorda era sua abundante e maravilhosa cabeleira: loira escura com ondas naturais. ----- Imagine um silêncio que correspondesse ao lamento de milhares de bebês cujas mamães não voltaram para lhes dar o peito(.) -----, eu disse, tentando explicar à ela as consequências da ausência química que começava a reinar no meu organismo naquele momento, com um despotismo ameaçador. Poucas pessoas têm noção do quanto pode ser doloroso fisicamente a abstinência para um organismo viciado em láudano ou heroína... os fenômenos tornam-se nítidos: ondas elétricas, efervescência nas veias, dores nas articulações, cãimbras, suores na raiz dos cabelos, boca seca, lágrimas de irritação, desespero. ----- O corpo à espera de notícias, certo(?) -----, concluí, e corri para ela depressa,como se (quem diria?) pela boca a Gorda pudesse me descarregar até o coração. Os lindos lábios por um momento fizeram beicinho mas então ela ergueu os olhos e soltou uma risadinha alegre que continha toda a frescura de uma jovem manhã de maio. Mas talvez a Gorda não se importasse nem um pouco com o que eu estava sentindo; havia também aquela dor às avessas imprecisa de vazio  em seu coração, que lhe penetrava até o âmago . Depois que o brutamontes partiu para seu vôo solo, deixando Jaqueline sozinha com o bebê, ela sempre reencontrava os antigos gestos dele tão expressivos dentro de si, que se revelavam talhados num cristal multifacetado, tão expressivos que eu suspeitava terem sido totalmente involuntários, pois ele era um rapaz muito novo e me parecia impossível que tivessem vindo de pesada reflexão e decisão. Dele, tangível, só restava em sua alma o molde de gesso que a Gorda tinha feito de sua pica, provavelmente grande quando dura. Mais do que qualquer outra coisa, o que devia tê-lo deixado impressionado nela era o vigor , a fome de piroca, portanto a beleza daquela parte que vai do ânus até o alto da vagina. Por um instante, Jaqueline ficou silenciosa com os olhos tristes postos no chão. E eu pensava ainda em como aquilo tudo ainda conseguia ser tão bonito: aquela expressão tensa no seu rosto! Uma tristeza persistente ali o tempo todo. Sua alma em seus olhos e ela dando tudo para estar recolhida na privacidade de seu quarto familiar, entregue às lágrimas, podendo dar uma boa chorada e aliviar seus confinados sentimentos sem exagero, porque ela sabia chorar bonito diante do espelho como ninguém. Você é encantadora, Gorda! Sim, ela soube desde o princípio que sua fantasia de um casamento planejado nos céus com véu e grinalda, repicando nas colunas sociais de Barbacena, usando um suntuoso vestido guarnecido com renard azul, não se realizaria (aquele brutamontes era jovem demais para compreender; por ocasião da única viagem que fizeram juntos (para Tiradentes), da janela, através das cortinas do hotel, Jaqueline havia entrevisto para eles uma vida de cômodos magníficos e mornos, e enquanto andava de braço dado com o ogro pela cidadezinha histórica, ajuizadamente ela desejou morrer de amor, Rivotril e flores, por aquele ''cavaleiro teutônico''. Mais tarde, já morta em seu amor quatro ou cinco vezes, a casa onde morava com o bebê na aldeia tinha ficado enfim disponível para o drama, agora mais grave que todas aquelas mortes internas. Eu deslizei um braço pela sua larga cintura diante da peãozada no curral, e ela ficou olhando desconfiada para mim. Chamei ela de minha queridinha com uma voz estranhamente rouca e lhe roubei um meio beijo (o segundo!) , mas apenas na ponta do nariz. Aquele que conquistasse a Gorda (a peãozada pensava) devia ser um homem entre os homens: mas o belo ideal amoroso dela não era nenhum príncipe encantado viciado em heroína que fosse colocar a seus pés gordos um amor maravilhoso e raro , mas sim um homem prático com um rosto forte e tranquilo, capaz de calcular arrobações no olho, e que ainda não tivesse encontrado seu ideal na vida; com cabelos talvez grisalhos e que a compreenderia , a tomaria nos braços protetores, a estreitaria com toda a força de uma alma apaixonada e a confortaria com um longo beijo de sopa dos mil e um golpes do universo humano canibal. Era por alguém assim que a Gorda suspirava naquele momento. Não por mim . Eu estava muito ocupado em tentar não encarar  tragicamente o primeiro dia de desintoxicação, em que a nova possibilidade de saúde e limpeza do organismo ainda me parecia apenas um desses filmes ignóbeis em que ministros inauguram estátuas. Era duro sentir a cada segundo que aquele tapete voador do ópio existia, e que eu não mais voaria nele; assim como era gostoso sair para comprar drogas químicas numa rua sórdida embandeirada de varais de roupas em Salvador, como na Bagdá de um califa; e tão doce voltar depressa para meu hotel em Ilhéus para consumí-las. TÃO DOCE! Desenrolá-las do papel, deitar sobre elas, abrir a janela sobre o pontal marinho, escrever e sonhar... fora do tempo. Algo sem dúvida doce: o drogado sábio se integra aos objetos que o cercam (meus cigarros eram dedos que caíam da minha mão, imitando o otimismo da saúde num abismo de perfumes insidiosos. Acho que foi Pablo Picasso quem disse que  ''o cheiro do ópio é o cheiro menos besta do mundo''; de fato: só se aproximam dele o cheiro de um circo numa recordação da infância ou de um porto movimentado ao luar. Ópio bruto: se você se contentar em conservá-lo numa caixa qualquer que não seja de metal, a serpente negra logo achará jeito de escapar (ela margeia as paredes, desce os degraus, os andares, vira , atravessa o vestíbulo, o pátio, o umbral e, em seguida, vai se enrolar no pescoço de algum policial na rua em frente ao hotel. Tudo bem: a impossibilidade de contar minha história em um balé, em uma pantomima com sutis marcações, me obriga a usar palavras pesadas e idéias precisas, enquanto busco a retomada da vida refazendo seu curso, enchendo minha mente da volúpia imaginária de ser agora o que por um erro mínimo (um excesso de dosagem) eu não pude ser até o momento, para me atirar aí como nos buracos negros (aqueles momentos em que me desgarraria do vício através de compartimentos mentais complicados nas armadilhas de um céu subterrâneo; cortar fios químicos de onde pendiamm sentimentos inflamados em forma de ramalhetes, buscando extrair desse cansaço abstênio qualquer acesso de ternura que também me enchesse de tesão por Jaqueline. Em compensação, mais tarde foi com muita sinceridade que olhei para a Gorda atrás do carrinho do bebê na cozinha de sua casa, pensando que jamais chegaria o dia em que pudesse chamá-la de minha mulherzinha. Ainda assim me sentia privilegiado, capaz de passar de um estado de surpresa ao de delícia lúbrica diante do seu físico: a cor de um rosado especial da carnação dela, que às vezes ia até o violáceo; com os fios de cabelo  que entremeavam seu loiro com o jaspe e o ônix, com a ágil ondulação dessa cabeleira de claridade, cujas crinas despenteadas corriam como raios flexíveis nos flancos da ágata musgosa. Mas a Gorda não era apenas uma qualidade de carnação, de cabelo, de olhar azul translúcido e triste, possuía também uma maneira de andar, uma postura corpulenta impregnada de autoridade, e até mesmo uma maneira de me piscar um olho à distância, que a tornava única para mim. Pensava então que talvez ela fosse cuidar um pouco de mim, me proporcionando todos os mimos que uma criatura abstênia pode ter, pois a Gorda tinha também a sabedoria feminina, e sabia que um homem, qualquer que fosse, gostava daquela sensação de ser bem recebido no lar dela. Seus bolos assados na chapa a ponto de adquirirem uma tonalidade dourada, e o pudim da Rainha das Rosas de um cremoso delicioso, lhe tinham valido famosa reputação na aldeia, porque ela tinha uma boa mão para acender o fogo, polvilhar fermento na farinha que crescia, e sempre mexer na mesma direção, então acrescentar creme de leite e açúcar, e bater bem as claras em neve, embora ela não gostasse de comer quando havia visitas; frequentemente a Gorda se peguntava porque as visitas mais magras não comiam algo poético como rosas ou violetas e a deixavam em paz na sala de visitas lindamente mobiliada com quadros e a fotografia do pai do seu filho ainda no porta-retrato: ele era alto de ombros largos, com dentes tortos sob o bigode aparado; ela disse que eles tinham planejado se estabelecerem numa bela e confortável casa de fazenda, despretensiosa e aconchegante, ao pé de uma montanha na Encosta do Céu (todo dia eles tomariam seu café da manhã juntos, simples mas perfeitamente servido, só para eles dois e antes de sair para cuidar dos animais ele brincaria um pouco com o bebê, e daria nela um bom e apaixonado abraço de marido: ----- Minha mulherzinha querida(!) -----, ele exclamaria, e olharia por um momento profundamente nos olhos dela, sorrindo... mas ele se foi bem antes e nada disso nunca aconteceu.



Regresso ao hotel

Depois de arrumar o quarto do bebê, Jaqueline colocou as sandálias e modificou a posição do candelabro na mesa; o bebê se esforçava ao máximo em dizer o nome dela, pois ele era muito inteligente para os seus onze meses (todos diziam), e grande para sua idade (diziam) , e a própria imagem da saúde perfeita e recém-chegada ao mundo (diziam), um perfeito feixe de puro amor puro (diziam), e certamente ele seria um dia bem importante (diziam todos na aldeia). Eu tinha começado a compreender de novo o rosto de Jaqueline, os olhos azuis e inquietos, o que havia de dureza em sua mandíbula, e a facilidade com que conseguia alegrar sua boca para brincar com o bebê e logo torná-la novamente inexpressiva; como no antro de uma feiticeira, a Gorda mantinha guardados encantos agressivos, que um gesto imprudente meu poderia liberar do mármore, dos tapetes, do teto de ardósia, do teto de madeira, do veludo do sofá, dos cristais ou mesmo do canto de sua boca. Fechei os olhos. Jaqueline bebericou o vinho e me olhou intensamente. Seus olhos tinham cor de musgo de turfa, suas pupilas estavam dilatadas. ---- Ah, agora já percebo aonde estamos chegando(: rápido demais pra mim dessa vez, querido(.) -----, disse ela, tocando a boca com o guardanapo e semicerrando os olhos. ----- Ainda não tirei suas roupas(.) ----- , respondi. Ela deixou as mãos caírem sobre a mesa, definindo o estado que experimentava como uma conclusão poética. Seria curioso saber a que escala de estratificação astral eu correspondia em sua mente. ''Tornar o mistério luminoso '', eu pensava ''conferindo-lhe sua pureza de mistério (: Meine Nacht ist Licht ( Minha Noite é Luz (.)''. Agora ela me parecia realmente triste. Não tinha tirado nada dela, apenas cheguei a mão até seu sutiã e ela me pareceu triste em vez de chocada, e duas bem grandes bonitas lágrimas rolaram por suas faces. Numa noite de tempestade contida como aquela, o céu baixava sobre a terra como uma poeira azul num copo d´água. O bebê agora berrava e eu vi que a Gorda desejava no fundo do coração que alguém fizesse ele parar logo com aquilo. Fui até o quarto e peguei ele no colo.  Debruçada na janela, ela disse sem se virar: ---- Estou farta de mentirosos e trapaceiros e farsantes e loucos (.) ----, e secou os olhos e fungou. Eu sustentava um ar misterioso e místico, que sabia combinar com a paisagem gelada e erma, destacada da noite da aldeia pela janela. Aquilo tudo era como  aquelas pinturas que costumavam pintar nas calçadas dali nos Domingos de feira, com aquele giz colorido diferente: a noite e as nuvens surgindo como espíritos por trás das árvores. ''A poesia'', eu pensava ''é uma visão do mundo obtida sempre por um esforço, e não por um simples abandono dos sentidos ( não se confundindo nunca com a sensualidade em estado bruto, mas opondo-se à esta: nasce, por exemplo, da tentativa de se delimitar exatamente um fantasma, buscando os contornos do vazio numa paisagem rotineira''. Ouvindo uma música silenciosa como aquela (o bebê ainda no meu colo agora tinha-se calado e ria pra mim), e o perfume de Jaqueline como uma aragem lisérgica nas minhas narinas. ---- Não (disse ela) essa noite não dá pra mim, K (.)  -----, e enquanto ela me olhava sua pulsação se acelerava, sua expressão contendo sinais claros de interesse intrigado e aguçado, mesclados à um receio infundado. Meus olhos a queimavam como se estivessem penetrando nela toda. As pessoas são tão estranhas! A emoção penetrava nela através de ondas curtas e leves, invasoras, escoando pelos pés, as mãos, os cabelos, os olhos, para se perder por toda sua natureza, à medida que Jaqueline dava de ombros pra tudo mais e voltava para a janela, como se por ela fosse avistar o pai do bebê à galope de uma hora para outra. Minha religião imediata pregava a paciência, ainda que a abstinência retorcesse já minhas vísceras naquele momento. Dentro dela, ainda era aquele brutamontes quem importava; havia nela feridas óbvias que precisavam ser curadas com o bálsamo-paciente-do-coração. Ela uma mulher feminina, não como aquelas outras garotas volúveis das cidades grandes que eu conhecia, aquelas bailarinas fitness com tinturas intelectuais, que exibiam o que não tinham na internet, enquanto a Gorda só ansiava ter notícias do pai do seu filho, ter o conhecimento de tudo para tudo poder perdoar, se ela pudesse fazê-lo se apaixonar de novo, esquecendo o que tinham passado. Então quem sabe ele a abraçaria gentilmente desta vez, como um verdadeiro homem, apertaria seu grande corpo roliço contra o dele, e finalmente a amaria, o garotinho também todo dele enfim. Depois que o bebê cochilou, o silêncio dentro da casa coincidiu com um período de vertigem meu, e eu decidi voltar para o hotel. Desse modo, meu orgulho se protegeria por trás do mal-estar, contra qualquer novo golpe do destino, mas também mantinha intacto o que em mim ainda havia de simplicidade autêntica .Começou assim a última e mais longa das minhas fases de desintoxicação, com uma caminhada noturna frustrada de regresso ao Hotel-Kiernan; parando para ver pelas janelas dos casebres os interiores dourados através da renda ilustrada das cortinas; flores, folhas de acanto, cupidos de arco e flecha, vacas bordadas; e como na insônia, tudo aquilo em que não acreditava tornava-se instantaneamente decorativo, ou era apropriado pelo filtro psíquico da minha consciência como parte de uma obra-prima abstrata e invisível, dentro da qual eu existia ( obra-prima furtiva, sem forma e sem juízes: diante e sobre os lados das janelas, as lâmpadas como círios montavam uma guarda de honra às árvores ainda com folhas que se estendiam em maços de lírios orvalhados; o menor dos meus gostos, enquanto caminhava pela alamenda escura, vinha me provar que um espelho de cristal, que meu punho por vezes abria e fechava, aprisionava o universo de casebres, de lâmpadas,de berços e bebês, de batismos e missas, de casórios e traições, de currais e negociatas em caminhões de gado. Fosse qual fosse o individualismo abstênio que me atacava, o lado solitário e cósmico, reservado e aristocrático, luxuoso e bizarro da obra-prima invisível que me navegava naquele instante carecia completamente da necessidade de expressão. Exausto, voltei para o hotel das Kiernan e me deixei ficar longamente sentado na grande poltrona de couro da sala de recepção, bebericando as bordas de um copinho de licor amarelo. Aí, na intimidade com o invisível, segui elaborando a alquimia interna da desintoxicação restante; uma solene escada de mármore conduzia aos corredores cobertos de tapetes vermelhos, sobre os quais hóspedes quase imateriais andavam silenciosamente ( talvez cientes de que eram apenas personagens em um filme, misturando neste sonho seus gestos com os meus, elevado pela arte à dignidade de um culto masturbatório. ''Bastam ---- '', eu pensava ''bastam iniciarem um dos seus mínimos gestos e uma transposição promíscua e sobrenatural desloca a verdade do mundo externo para o meu colo, e logo tudo em mim se torna rito, passagem e iniciação (: é estranho estar digitando agora dentro deste magneto de energia psíquica ; este teclado tem algo de incrivelmente vagabundo pra mim  ----gesto de solidão que me faz possuir imagens alheias que servem ao meu próprio prazer egoísta sem que o percebam (os poetas, nos quais se prolonga a infância, sofrem muito ao perderem esse poder... ''Mas ainda tenho muito tempo para fazer meus dedos voarem(!)'', e, de repente, via-me no espelho do salão vazio, duro como ferro. Via-me trepando comigo mesmo, meus músculos crescendo, endurecendo em volta das coxas, omoplatas e braços, num fogo que só se abrandava ao se tornar escritura e desenho. Eu era agora um personagem em evidência num filme . Cerca das dez horas da noite, a porta do grande salão não deixava mais de se abrir, de voltar a fechar-se, de se abrir de novo, para dar passagem aos ''hóspedes''. No entanto, atento àquele jogo de chegadas e conversações, fingia não ver quem entrava, e só no momento em que estava a dois passos de distância, é que eu me erguia gracioso, sorrindo sedutoramente para todas as mulheres sem exceção; e estas faziam, encantadas diante de mim, uma reverência que ia até os abismos da genuflexão, de modo a colocarem em seguida seus lábios na altura dos meus olhos, quando eu voltava a me sentar em silêncio. Naquele momento agitado, não cheguei a me sentir nenhum super-homem ou fauno imoral (elas não tinham todo esse poder) , mas um jovem de pensamentos banais, bonitinho e falsamente civilizado, completamente perdido no mundo e embelezado pela violência da voluptuosidade. Tal admiração era ainda acrescida do fato da cultura infinitamente inferior da Srta. Kiernan, que apesar de tudo recebia os hóspedes com elegância e finura, e conduzia alguns debates relâmpago sobre os quadros pendurados na parede; a própria Sra. Kiernan (sua mãe) estava, sob esse aspecto, ainda menos avançada do que se supunha; mas bastava à Amanda que o fosse mais que a mãe para impressionar os hóspedes diante desta: haviam na parede muitas reproduções em pequenas dimensões de Tarsila do Amaral e Portinari. E quando Amanda (Kiernan) tirou por um momento as presilhas para ajeitar o cabelo  (pausa: nunca se viu nos ombros de uma moça tão magra uma cabeça de tranças castanhas-escuras mais bonita e charmosa ---- a um tempo desenvolta e majestosa ---- de um gênero intermediário entre a Vênus de Milo e a Vitória de Samotrácia ---- uma visão radiosa, quase enlouquecedora para mim, no fogo daquele momento, em sua delicadeza . A Srta. Kiernan quase pôde ver nos meus olhos um lampejo de admiração, que fez com que quase todos os meus nervos tinissem; ela pôs as presilhas no balcão  e balançou suas sandálias de fivela mais rápido, pois perdeu um pouco a respiração quando surpreendeu a expressão nos meus olhos. Eu olhava como uma cobra olha sua presa, balançando o chocalho da minha mente sob o pórtico do mundo, da vida, e a Srta. (Amanda) Kiernan, sozinha aqui, se sentindo a dona -herdeira de um grande negócio. Me levantei e marchei em direção à sombra densa dela, como um corpo sólido pisado no chão.  Seu instinto de mulher tinha lhe dito que ela havia despertado o demônio existente em mim, e com esse pensamento um vermelho abrasador deslizou da sua garganta à sua fronte até a cor encantadora de sua face adquirir um rosa gloriosamente vivo. Ela ergueu a cabeça à minha aproximação, silenciosa . As sandálias a empurraram um pouco para frente e transportaram seu olhar com infinita cautela sobre a lã alta do tapete, como o hálito de uma amante, insensibilizando os medos que nasciam em nossos peitos, densos e rápidos, a cada um de nossos gestos; de modo que foi por isso que eu fiz aquela patética insinuação sobre estar tarde, quando ela me perguntou as horas: ---- Já se passaram mais de meia hora da hora de beijar (.) -----, então, quando fui chegando mais perto , ela pôde me ver tirar a mão do bolso, ficar nervoso, e começar a brincar com os aplicativos do celular, debruçado no balcão ao seu lado.  Mas se deu que ela se oferecia à mim por muito menos (no amor, muitas vezes, o desejo de agradar faz as pessoas concederem além do que as expectativas haviam prometido há um minuto. Eu me movia com vagar, os músculos fatigados, as veias doídas da abstinência, embotado pelo perfume daquela cabeleira estranha, que tão bem recuava o momento em que eu parecia não estar ''nem aqui nem agora''. Cerca de uma hora depois, o balde metálico de gelo com a garrafa de espumante apareceria no carpete perto da porta entreaberta do meu quarto, no último Anexo, e a Srta. (Amanda) Kiernan me peguntaria: ----- O banho estava bom(?) ----, as cortinas duplas bem fechadas, e da fenda da porta, tão obscena, naquele instante, quanto uma braguilha aberta, despontando a pequena chave que manteria a porta fechada após ela entrar. Sua mão alcançou a parte inferior da minha cintura, e o canto preso da toalha se soltou, desmoronando aos nossos pés. Ela retribuiu tirando o vestido: seus peitos eram medianos, rígidos e redondos, os ombros largos e os braços e coxas firmes e suaves ( as marcas de sol eram muito pálidas, quase imperceptíveis... ----- Porque não colocar o balde entre as pernas, Amanda (?) -----, sugeri à ela, pensando que os homens dotados de uma imaginação plástica meio louca devem receber em troca esta grande faculdade poética, pela qual negar nosso universo e seus valores para poder agir sobre eles com uma vontade soberana. ''Fumar ópio durante muito tempo'', continuei comigo mesmo ''sempre vem (necessariamente) substituir obsessões sexuais de baixa intensidade por outras bem mais altas e singulares, ignoradas por um organismo sexualmente previsível e esteriotipado(: por exemplo, um modelo espiritual superior será realmente pressentido , procurado, incorporado através dos séculos e das artes, resistindo às aparências, e virá obcecar esta sexualidade transcendente, como um modelo humano hipnótico, através dos sexos e dos meios culturais os mais disparatados(.) ''. Então, Amanda (Kiernan) sentiu uma espécie de sensação percorrê-la toda, ao encostar no balde, e soube pela sensação no seu couro cabeludo e por aquele endurecimento dos mamilos que aquela coisa estava chegando porque a última vez também tinha sido assim, quando ela aparou seu cabelo devido à lua. Meus olhos escuros se fixaram novamente nela: seus cabelos cheios e desarrumados combinavam perfeitamente com o corpo . E para não ficar imobilizada de encabulação, ela disse: ----- Mas onde será que eu pus a toalha(?) -----, e logo eu disse que ela era maravilhosa, perfeita, incrível. Disse que tinha amado seus seios. Meio sedutoramente, meio inquietantemente, ela passou as mãos de cima a baixo ao longo das coxas finas e torneadas; sua carne logo acima do joelho se esticou e avolumou numa curva para o lado, adquirindo a forma da tampa de um piano de cauda visto de cima, o que me encantou. Depois, separou as coxas e retirou o balde dali, deixando-me ver um flash de pêlos castanhos-claros. Bebi com os olhos cada um daqueles pêlos e contornos, literalmente adorando-a em seu santuário. Durante quase uma hora inteira, o corpo de Amanda foi mercê das ordens e estímulos do meu, que pareciam não emanar mais desse mundo. E durante a noite inteira ocupamos nossas mentes nos dando papéis sexuais esplêndidos através de motivações luxuosas; inventamos tantas que, pela manhã, percorremos fracos as possibilidades de uma futura vida de ação: se por acaso alguma delas viesse a se concretizar (um emprego, um casamento ou mesmo uma fuga) creio que seríamos incapazes de sermos felizes, pois em uma única noite havíamos exaurido todas as delícias secas, e várias vezes ejaculamos nossas ilusões na cama, com suas mil e uma variantes de glória melecando os lençóis. Pela manhã não nos restava nada além do que uma miséria vesga e vegetativa. ----- Olhe justamente, K (.) ------, disse-me Amanda fixando em mim um olhar risonho e suave, e porque, como perfeita dona-herdeira do hotel, pretendia manter-me enjaulado numa daquelas celas de aluguel para sempre, deixando luzir meu conhecimento de artista extraviado do mundo sobre o seu ----- Olhe ----continuou : ----- Creio que os quadros de Tarsila do Amaral vestem-se à moda parisiense, como ela mesma se vestia (: enormes brincos e molduras de vidro trazendo o mesmo nome de Lalique num prolongamento decorativo da belle epoque(: a pagu dos olhos orientalizantes, assimilando o espírito caipira de Minas e São Paulo por meio da técnica européia, certo (?) -----, as palavras de Amanda soavam claras como cristal, mais musicais que os passarinhos naquela manhã-mate, embora cortassem gelidamente o silêncio; e havia aquele tom na voz dela informando que ela não era alguém que pudesse ser nem mesmo ligeiramente escarnecida.. menos culta, mas mais viajada do que eu. Quanto à mãe dela, com toda sua arrogância e fortuna, mais tarde eu travei uma longa conversa com ela: falei longamente sobre peculiaridades técnico-administrativas da holding J and B, com ramificações em áreas que iam da bioenergia à celulose, produtos de limpeza, cosméticos, florestas, bancos, comunicação estratégica, além de alimentos, o carro-chefe do grupo que o mercado internacional começou a procurar entender,quem eram e o que vieram fazendo e sua capacidade megalomaníaca de gerir um negócio deste tamanho (: Friboi, Seara, Swift, Tyson, Anglo, Bordon, Rezende, Wilson e tantas outras empresas(: foi fundada em 1953,  no interior de Goiás, pelo patriarca José Batista Sobrinho, e até o início do ano 2000 a JBS  faturava apenas R$ 500 milhões, com meia dúzia de frigoríficos(: em pouco mais de uma´década, tornou-se presente em mais de 20 países, exportando para cerca de 150 mercados com (entre outras operações) o abate diário de 100 mil bovinos, 70 mil suínos e 13 milhões de aves. São 200 mil funcionários e um faturamento de R$ 92 bilhões em 2013 (:negócio de carne bovina, suína e de aves, Sra. Kiernan, cujo CEO global raramente altera o tom de voz para explicar o que pensa à sócios ou jornalistas ... ----- Ela ficou encantada com seu papo-furado, K(.) ----, Amanda disse depois, mas me advertindo que eu tinha corrido um grande risco de sair humilhado daquele dedo de prosa, pois geralmente a velha não tolerava essas ''liberalidades'', e sempre lançava para os interlocutores um bem calculado olhar de desprezo, quando tentavam se aproximar, o que fazia as pessoas murcharem. ----- Azul puríssimo (continuei então) rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante, tudo em gradações mais ou menos fortes, conforme a mistura do branco (.) -----, referindo-me à sua amada Tarsila, evidentemente (já sob o repicar daqueles sinos vespertinos e ao mesmo tempo um morcego a voar da capela coberta de hera em frente ao hotel através da penumbra; e, caminhando, Amanda podia ver à distância na rodagem as luzes dos faróis dos carros pitorescos que ela teria gostado de tentar reproduzir com uma caixa de tintas porque era mais fácil do que fazer um homem ou tocar uma mazurca de Chopin. ------ Tarsila descobriu (eu disse) o lado animal do vegetal, tornou plástico o sortilégio tupi e africano (: e inaugurou um 'eixo' inesperado (: Sabará-Paris, território ideal que reunia Rousseau, Léger, Gleizes, Lhote e muitos ingênuos decoradores anônimos de capelas, arcas e baús (.) -----, meu mal-estar havia aumentado um pouco sob os lampiões,  naquele segundo dia de abstinência; Amanda amava ler poesia e eu observei que, partindo de Tarsila do Amaral, a pintura havia começado a influenciar a pintura feita no Brasil, até alcançar os poemas gráficos dos poetas concretos de São Paulo. Meu rosto perdia, caminhando ao lado dela, os reflexos de aço azulado do ópio, a dureza de estátua de ferro em praça pública; meus olhos se adoçavam ao cair da noite até o ponto de inexistirem, até não serem mais do que dois buracos por onde passava o céu da desintoxicação. E um certo balanço no andar dela revelava uma inteligência aberta a todas as coisas que via em mim e não compreendia. ----- A Jaqueline já tinha me falado bastante de você, K (: da última vez que você veio eu achei aquilo engraçado (: ainda vejo bastante ela, passando aqui pra conversar com minha mãe, à caminho do curral(: ela nunca foi com a minha cara, me acha uma patricinha, e acho que sou mesmo (: mas ela é uma espécie bem rústica de ''evaporeé'', como dizem os franceses(.) ------, Amanda comentou e, sem tentar, ia desenvolvendo a mentira, acrescentando mais uma palavra ou um gesto dos ombros, um bater de cílio ou sorriso encantador; desta forma, nos provocava uma perturbação deliciosa, alguma coisa como a emoção que costumo sentir à leitura dos Cantos de Maldoror. Aquilo era a solução elegante, rápida, luminosamente falsa e clara, de um conflito nas nossas profundezas. Porém, mais tarde, refletindo  mais detidamente, sozinho no meu quarto, percebi que aquele aprazível conflito interno entre os estados poéticos das nossas consciências era daquele gênero que os garimpeiros-marujos, no Pará, costumavam chamar de ''nó-de-puta''.



Nó-de-puta


---- A administração familiar, se profissionalizada, pode ser muito eficiente (.) -----, disse a Sra. Kiernan, dona do hotel e do rebanho, e representante da quarta geração do clã dos Kiernan, que vinha se sucedendo à frente daquele empreendimento há 70 anos, iniciado por um pequeno pecuarista chamado José (ph) Kiernan, filho de imigrantes irlandeses. Mas o que de fato a Sra. Kiernan me ofertava com aquela nova disponibilidade para a conversa (domada e submissa por minha amabilidade) , eram os antigos encantos, energia e valores de uma cruel menina da aristocracia rural dos arredores de Barbacena, que desde pequena montava a cavalo, derrubava bois, descadeirava gatos e cachorros, arrancava os olhos dos coelhos e explorava sexualmente um ou outro empregado, em meio a refeições com muita carne de porco e sobremesas de frutas; e, tanto quanto a filha,  tinha permanecido uma flor de virtude social aos olhos da sociedade. Unicamente, era incapaz de compreender o que eu havia procurado nela, e o pouquinho que havia encontrado daquilo: um resto provinciano de encantamento poético. Como poderei explicar que Amanda (sua filha) já tinha trinta e três anos (como eu) ?, pois é necessário que ela tenha minha idade para que eu aplaque enfim minha necessidade de falar de mim, simplesmente, como tenho necessidade de me queixar e tentar conquistar o amor de uma certa leitora. A época em que Amanda cursou a faculdade de direito no Rio de Janeiro, foi a época do grande luxo internacional na sua vida; após se formar, ela fez ainda um cruzeiro pelo Mediterrâneo, depois foi ainda mais longe, nas ilhas *****, num iate branco onde ela flanava acima dela mesma e do seu amante, vice-presidente de logística e suprimentos de uma fábrica de bebidas alcóolicas, orgulhoso de sua companhia e sua fortuna. Ao voltarem, o iate ancorou em Veneza e ali Amanda fez sexo escondido com um sujeito envolvido com cinema; ele se apaixonou por ela e viveram algumas semanas através de salas imensas num palácio dilapidado. Em seguida, veio a Riviera francesa, entre Marselha e a fronteira italiana, num grande hotel dourado enroscado sob as asas de uma águia negra. Mas as relações de Amanda com aquele projeto abortado de cineasta se fundavam num mal-entendido, desde que as apaixonadas declarações dele, em lugar de se dirigirem à mulher superior que ela já se julgava ser, naufragavam rente à pálida sombra de um delírio amoroso medíocre. Mal-entendido tão natural e que existirá sempre entre um playboy idiotizado pelo amor e uma puta de alta estirpe, e que o perturbou profundamente enquanto ele não foi capaz de reconhecer a natureza das faculdades imaginativas de Amanda e não teve sua parte na inevitável decepção final, que deveria ainda experimentar com inúmeras outras mulheres parecidas, pois seu pau era incrivelmente pequeno  e isto parecia definir as coisas negativamente para ele. Ainda na Riviera, Amanda dormiu nos braços de um fabricante de inseticidas norte-americano, num leito de cortinado e baldaquim; houveram passeios numa comprida limousine branca onde pela primeira vez ela usou cocaína e participou de swings com homossexuais drogados. Num navio no mar de não sei onde a cena era iluminada pela chama baixa de uma lamparina retrô, no topo da qual uma enorme quantidade de droga crepitava numa colher metálica de sopa; os corpos se imbricavam uns nos outros e, sem despertar a menor surpresa, o menor desagrado nela,  Amanda se meteu ali, com uma garrafa de absinto na mão (as pernas dobradas e a nuca apoiada num tamborete onde realmente não havia lugar para mais ninguém; sua agitação inicial não incomodou nem mesmo um dos bofes que dormiu com o pau enfiado na boca dela, um pesadelo de morfina o convulsionando. Mais tarde (foram três longos dias) ela se revirou naquele ''leito'', rasgando sua camisola de seda, e foi sumariamente enrabada por um jovem desconhecido que não poderia ter mais de quinze anos de idade. ----- É a primeira vez que transo com uma garota (.) ----, ele disse depois, apalpando seus peitos como um bebê com sede. As caretas de Amanda criavam um contraste extraordinário com a calma drogada das outras pessoas (calma vegetal de corpos dobrados em que os esqueletos visíveis sob as peles muito pálidas nada mais eram que a delicada armadura de um sonho de ópio. Na verdade, pouca coisa daquela noite restava em sua alma e aqueles jovens fumantes evocavam em Amanda apenas as oliveiras que ela encontrou dias depois em Provença, oliveiras tortuosas sobre a terra vermelha, plana, com nuvens prateadas suspensas no ar. Na Itália, sonhou algumas vezes com a mãe: recebia dela ordens de pagamento, e-mails pedindo notícias e fotos, e jóias que usava uma noite e logo as revendia para pagar os jantares das amantes lésbicas e parceiros gays (os aspargos acabavam de ser servidos, naquela hora, após o ''poulet financiére'', aspargos verdes crescidos ao ar livre e que, como dizia um refinado autor que assinava E. de Clermont-Tonnerre : '' Não possuíam a rigidez impressionante de seus irmãos (.) ''. ----- Devem ser comidos com ovos cozidos e molho verde (.) -----, comentou a Srta. Bréauté, autora de um estudo sobre gastronomia mediterrânea, que só frequentava os meios aristocráticos da Europa, e entre estes somente os que tinham uma certa fama de inteligência lésbica. Com ela Amanda comeu várias vezes e voou até Paris, tudo dentro de um luxo quente e dourado... e invento para ela aqui os apartamentos mais aconchegantes, onde eu mesmo me adaptei em várias ocasiões; mas houve alguma oportunidade em que Amanda (convidada pela Srta. Bréauté) não foi recebida, tal o esnobismo que se manifestava na festa de então: ela passou a noite quase toda num corredor vazio para onde lhe tinha conduzido um segurança, onde a necessidade  de falar com alguém não a impedia apenas de escutar, mas também de ver o que acontecia a sua volta; e , neste caso, a ausência de toda descrição do meio exterior já era em si uma descrição do estado interno dela. E se lhe era recusada toda cena justificadora, Amanda, um cigarro aceso entre os dedos, evocava-as com um fervor tão desesperado e ofendido, que por alguns segundos (mais de uma vez) chegou a acreditar que bastaria um nada ---- um ligeiro deslocamento, imperceptível, de suas retinas ----- para que o luxo privativo do outro lado daquela mansão se tornasse também seu. Finalmente de volta ao hotel, ela se imiscuiu intensamente por mais alguns dias na vida da viadagem parisiense, multiplicando-se pelos bares médios e minúsculos de Montmartre. E recontando-me , com um certo sotaque forçado de príncepe alemão, a história de Amanda Kiernan em Paris, eu ria bem alto, como se meu riso, semelhante a certos aplausos que aumentam a admiração interior, fosse necessário à minha narrativa para lhe corroborar a comicidade. . ----- Agora estou realmente ansiosa para me mandar de volta pro Brasil (.) -----, Amanda pensou consigo. ''Mergulhe-a, K(!) '', eu refletia em resposta, entrevendo os contornos dos meus dedos sob as nádegas brancas dela em flor, na poltrona do avião. Um Martini, dois. Meu rosto estava tão junto do dela , naquele momento, que eu podia ouvir cada detalhe de sua respiração, transplantando-a através do ar para dentro do meu livro, mas ainda não conseguíamos nos beijar. O autor da narrativa ainda era um espírito. Eu lia, olhava.. ''Pensamentos(!)'', pensei de repente; Amanda os expressava então da forma mais direta, naquela hora, quase no sentido em que a Srta. Bréauté empregava a palavra quando, em Paris, achando enfadonho e antiquado que os convidados de suas festas de gala fizessem seguir suas assinaturas, na lista de recepção, de uma reflexão filosófico-poética, advertia os recém-chegados com um tom suplicante: ------ O seu nome, minha cara, mas nada de ''pensamentos'' (!) ----, aqui, tentando ver claro na escuridão e, com os pés na terra, após o longo vôo transcontinental, abordando cara a cara problemas que Amanda foi obrigada a abordar apenasde viés, tamanha a humilhação que experimentou na França (certamente aumentada pelo seu sentido de futilidade). ----- Para os franceses do círculo da Srta. Bréauté ----- ela me disse na varanda do hotel, me servindo o café da tarde : ----- ...o Brasil é apenas uma ilha além dos mares e dos sóis, onde homens de compleição atlética, rostos rudes, passam a madrugada agachados ao redor de fogueiras  gigantescas , descascando laranjas que depois seguram com uma das mãos enquanto a outra repousa fechada no cabo do facão (.) -----, tais pensamentos eram até certo ponto tocantes para mim e, já em torno deles, sem que a forma tivesse ainda a profundidade narrativa que só deveria atingir bem mais tarde; o fluxo de palavras numerosas e imagens opulentas inconscientemente articuladas fazendo-as assimiláveis àqueles versos do tipo que se poderia descobrir num Henry Miller ou num Campos de Carvalho, por exemplo, e onde um romantismo intermitente, contido, e que tanto mais me emocionava, todavia não penetrava nas fontes físicas da vida, nem modificava o organismo inconsciente e generalizável em que o autor acolhia as idéias de sua personagem. Esboço sublime, no entanto: Amanda triunfava(!), era a palavra-poema que caía daquela visão e começava a petrificá-la; o cubo noturno do quarto onde volteavam como sóis ( confundidos num emaranhado com as pernas de uma acrobata de maiô azul, executando um grande sol em voltado meu falo ereto) as laranjas atiradas pela cor da palavra: ----- BRASIL(!) ----, mas justamente, citando desse modo uma frase isolada, decuplicava-se seu valor atrativo na história; as que entravam ou tornavam a entrar no decurso daquele café na varanda, magnetizavam por sua vez, chamavam a si com tal força as cenas em que suspeitavam-se encravadas, que minhas mãos, eletrizadas, não podiam resistir à força que as conduziam  ao caderno e à caneta. Eu relia aqueles rascunhos do começo ao fim, antes de recomeçar a escrever, e não encontrava a paz de espírito até perceber de súbito, esperando-me na luz da consciência divina em que eu as havia banhado, as frases que acabava de ouvir Amanda pronunciar diante de mim. daí, ela, liberando um fragmento de imaginação que há algum tempo existia em mim, declarou: ----- O que você quer de mim, K(?) -----, era uma frase murmurada mentalmente numa noite antevista por ela numa página já escrita. ''Mas teria ela antevisto aquilo no mogno da cômoda'', eu pensava '' ou talvez numa percepção inconsciente associada ao lugar (o quarto, a Luz) e ao momento transpassado pelo presente (?) ''. Ela estava sorrindo, alheia às minhas divagações, satisfeita por eu estar tão obviamente aos seus pés; eu podia sentir o cheiro do seu batom, quando ela disse: ---- Acho que é hora de tirar as roupas e colocar aquele balde de gelo entre as pernas, certo ?) -----, e a voz que eu ouvia era surda, naquele momento , dirigida para um só ponto por uma mão em concha, recortando uma boca de criança triste que aguardava os suspiros contidos de um tigre. Até aquele momento eu me mantive encostado na parede do banheiro de forma que meu corpo ficasse fora do raio de visão dela; me mexi, em seguida, colocando um joelho contra a porta e o outro do lado do batente, sentado sobre os pés. Minha indumentária se resumia à uma venerável cueca Calvin Klein preta, quando puxei para o lado uma das pernas, liberando meu conjunto peniano para o alto, para poder balançar um pouco meu caipirão para ela à medida que ele endurecia. A arte nasce do coito entre o elemento macho e o elemento fêmea que nos compõe a todos, sem exceção, sendo bem mais equilibrados e desenvolvidos nos artistas de gênio do que nos outros seres humanos; isso resulta de uma espécie de incesto, de amor consigo mesmo, ou partenogênese. ----- Você quer me ver lavando os seios, K(?) -----, Amanda me perguntou, passando a língua nos lábios; vi os olhos dela correrem para baixo, passarem pelo meu peitoral, descerem pelo meu abdômen  e pousarem na minha mão recheada do meu pau: a velocidade do meu punho pareceu dizer que sim. Não se pode traduzir um autêntico poeta-vidente pela musicalidade do seu estilo, pois seu pensamento comporta também uma estrutura plástica: se tal plasticidade muda, seu pensamento também muda; portanto, um poeta só deve contar com leitores que conheçam sua língua,  o espírito de sua língua e a alma de sua língua. Eu diria que Amanda estava coberta de razão:  um mistério emanou um arrepio através de sua epiderme, quando caí sobre ela tirando sua calcinha; todo o azul reverente sobre a pele branca vestindo um prestígio afrodisíaco obscuro, mas potente, como uma lisa coluna que torna-se sacra ao esporrarem hieróglifos nela. Os sinais foram bárbaros e tórridos durante o ato sexual: amores-perfeitos, arcos, corações trespassados, gotejando suor e sangue, rostos um sobre o outro, respirações uma dentro da outra, estrelas, meias-luas, linhas, andorinhas, serpentess, divisas, propagandas de cerveja, toda uma literatura profética e apocalíptica nascendo de nossos múltiplos orgasmos.  Mais tarde, naquela noite, na sala de jantar do hotel, pelas palavras da sua velha mãe e pelos gestos histriônicos de seu novo homem (e autor), um novo universo também se abriu instantaneamente sobre Amanda: o universo do irremediável em literatura. O mesmo, aliás, em que eu vivia, com uma diferença peculiar: em vez de agir e saber que estava agindo, Amanda sabia claramente agora que era eu quem estava agindo sobre ela, como um carrasco. Seu olhar ---- que poderia também ser o meu próprio , quando a fodia ----- possuía a agudeza rápida e precisa do extra-lúcido, e a ordem extra-sensorial deste mundo ---- vista de dentro para fora ---- apareceu diante de nós tão perfeita em sua inevitabilidade que só restava ao nosso novo mundo agora desaparecer completamente da face da Terra, como se jamais tivesse existido. Amanda não disse mais nenhuma palavra, durante o jantar, mas o fato é que a partir daquele momento em diante, eu poderia, sem fingimentos, sem transposições, sem truques narrativos do arco da velha, falar da minha vida ali, naquele novo mundo auto-criado. Minha vida atual.


Recém-chegado

Tudo era uma questão de velocidade(s). Velocidade imóvel; de velocidades em si, velocidades sedativas, de seda (jogo fonopoético com ''en soi'', em si, e ''en soie'', de seda). Velocidade diversa da condição humana normal, que só nos oferece uma imobilidade relativa, ou a dos metais, que exibem uma imobilidade ainda mais relativa... lá onde começam os reinos inorgânicos muito rápidos para que possam ser percebidos por olhos não-treinados. O olho-ventilador, o anjo; mudando as velocidades, provocando a intuição muito nítida de mundos que se superpõem, num estilo que não se deixa diluir de nenhum modo, nascido de um profundo corte da visão carnal: a morte separa completamente nossas águas pesadas de nossas águas leves; a iniciação as separa um pouco. O importante é que a minha voz não se pareça mais com a minha voz, mas que a máquina cósmica das velocidades produza para cada um destes novos estágios uma voz própria , nova, fluida, desconhecida, secretada em colaboração com a nova velocidade. O busto de Amanda, por exemplo, declamado, clamado pela grandiosa máquina cósmica da VOZ como se fosse uma esponja capaz de reter ''o som e a voz articulada'' de uma nova antiguidade (idílica, diáfana, intocável como uma madona francesa medieval, toda luz e cultura, de raça, sedutora, com suas tranças castanhas e seus olhos verdes caramelados como mel no fogo: isso me faz pensar naquela planta descoberta por Fogar no fundo da água (Impressões da África, R.Roussel) e que conservava as imagens, eu anotando (como ela) os absurdos transparentes do semi-sono crepuscular. Flutuo. Ora, é um livro que tenho que concluir.

---- ''NADA(!)''  (Amanda disse) seu olhar embotado pareceu  me responder; era uma manhã encantadora e eu tinha dormido a tarde e a noite anteriores inteiras, após uma farra numa suíte do Ritz (: fui visitar uma amiga no Pont des Arts, num ateliê que ficava nos fundos de um café na Rue des Lombards, mas envolvida pelo ótimo cheiro de croissants que saía dos fornos, decidi fazer o desjejum (: e lá estava Monsieur Lemoine, me olhando com essa mesma cara que mistura absinto, sarro, láudano e doença(: uma claridade filtrava-se através das vidraças do café, iluminando esse mesmo velho homem de semblante de aristocrata do Ancien Régime, no qual Deus parece ter tido prazer em sublinhar o contraste entre as maçãs do rosto, a altivez orgulhosa da testa, os restantes cabelos velhos, o nariz austero e aquilino e, depois, inesperado sob o traço das sobrancelhas hisurtas, o singular embotamento de um olhar tão delirante quanto compassivo. Vinte minutos depois, estava sentada diante dele no apartamento da minha amiga Berthe, pois ele era pai dela (: havia móveis e cavaletes e uma janela no ateliê que dava para um restaurante do outro lado da rua (: fumamos e conversamos um pouco: ele simpatizou comigo logo de cara, e antes de ir embora disse que estava voltando para o Brasil, que provavelmente moraria no Rio mas visitaria nosso hotel com prazer ( ''---- No inverno(.) '' ----, ele disse (sorrindo: referindo-se à Barbacena como a famosa ''Cidade dos Loucos'' (e ao Bispo do Rosário)  , onde realmente existiram muitos hospitais psiquiátricos; a cidade atraía esses manicômios antigamente em decorrência da velha idéia, defendida por alguns médicos, de que seu clima ameno, com temperaturas médias bem baixas para os padrões brasileiros, faria com que os doentes mentais ficassem quietos e menos arredios, menos loucos, facilitando o tratamento. Um deles hoje em dia é o Museu da Loucura. Antes de nos despedirmos, no entanto, Monsieur Lemoine voltou-se para sua filha, iniciante talentosa na arte, e disse(:  ----- Deixei um crédito no La Platense pra você comprar telas , tintas e o que faltar (: o dono é meu amigo(: eu vou te mandar uma amiga, Madame Olívia Monvel, que disse estar precisando de um retrato urgente, como se necessita (creio) um aborto ou um pacotinho de heroína(: não quero voce pintando só pra passar o tempo, encurtarei sua mesada e mandarei pra cá também toda e qualquer amiga que me restar na cidade, pra voce pintar(: te fará bem trabalhar sob pressão por uns meses(: como disse Niezsche: ''Um verdadeiro artista só pode contar com as estrelas'' (.)----, concluiu ele, obviamente se referindo às putas que serviriam de modelo para a filha (:) ----, eu ouvia o relato de Amanda estarrecido, enquanto observava atentamente Monsieur Lemoine na mesa; mas como nos aproximarmos dele sem espantar suas companhias ou constrange-lo era a questão: por hora ele me parecia um tanto embaraçado ali, pregado em sua cadeira por um torpor tenaz. Foi um dos seus olhares para o vazio que me alertou (um olharzinho de nada; um daqueles olhares bem simples, sem história, como os que trocamos na rua diariamente sem consequências: breve e furtivo, um olhar que eu poderia não ter visto e que não deixou , uma vez verificado, mais lembrança do que um fantasma: o que havia naquele olhar era um nada de conveniência, mas que possuía uma força estranha, surgida das profundezas dos olhos e que, pela sua duração, parecia afastar aquelas prostitutas mais velhas dele, do quarto que tinha alugado no Hotel Kiernan, para transportá-las de volta a algum lugar que elas conheciam, em Barbacena, e para o qual ele não seria novamente convidado. "Grande lascivo '', pensei comigo , em sintonia com Machado de Assis ''espera-te a grandiosa voluptuosidade do nada(!)''. Olhar parecido com uma união que ele não queria mais, ou da qual acabava de se arrepender, após ter se saído relativamente bem com elas no quarto. As duas na sua mesa tão inocentes e alheias às suas paisagens internas; estarrecidas também (?, abobadas ou tensas, seguindo com ele em direção ao buraco final e à última palavra. Tão treinadas, comuns, caladas, falantes, imbecis; aquele buraco no meio da noite as havia estado esperando, e à ele, desde sempre, em algum universo paralelo que subitamente engolira nossa dimensão: o buraco esperava-os apenas, sem esperança ou interesse. Na cabeça delas, lembranças de outros clientes, colegas de profissão, cálculos vagos (flores sem viço que mudavam de nome depois da meia-noite.

----- Então ele é também um pintor, certo(?) ----, perguntei para Amanda. ----- Sim, mas você precisa ver a minha mãe falando sobre ele (: ''o vagabundo'', o ''pobre cão'', o ''maldito colorista'' (: acho que ela nem desconfia o que são essas moças na mesa dele, mas mamãe vive dizendo que as camareiras acham o ar do quarto dele pesado e enjoativo, que ele mal abre a janela durante o dia, espalha um monte de coisas pelo chão, fuma demais (: podem até pensar que ele dorme muito, mas eu o conheço: na poltrona, a maior parte do tempo ele fica mergulhado num estado em que o mínimo movimento custa caro, sobrando força apenas suficiente para pensar na própria cabeça, nos contornos quase imateriais do corpo na penumbra.. ou , quando abre os olhos e acende o abajur, nos defeitos do teto, nas cortinas imóveis, etc.. (nos efeitos da iluminação natural do sol nascente sobre as cores do quadro que mostrou-me da última vez(.) -----, ela disse; mas Amanda não tinha se interessado muito pelos progressos daquele quadro: tratava-se de uma amazona, com delicioso talhe de ampulheta e de pele lembrando suco de morango; sobre o cavalo, ela parecia daquelas capazes de partir um homem em dois, mas que numa cama devia servir para muitas coisas mais. Sobre o quadro: ----- Chame-o (Monsieur Lemoine disse à Amanda) de sonho de vigília de um homem que vai envelhecendo mal (.) -----, e eu ri, me perguntando porque seria que um velhote franzino daqueles viveria suspirando por mulheres robustas e carnudas como aquela amazona com pele cor de suco de morango. ----- No dia em que ele me apresentou o quadro, confessou que vinha copiando os contornos de uma fotografia publicitária, tirada de uma revista de moda, e que seus pincéis a estavam acabando de despir(: mas eu pedi para ver a foto e ele desconversou(.) ----- , Amanda completou, e minha curiosidade teve que esperar até a tarde do dia seguinte, pois Monsieur Lemoine dispensou suas duas companhias e subiu para seu quarto como um autômato. Eu e Amanda, logo depois, fizemos o mesmo, e trepamos na cama do quarto dela, que tinha uma varanda com cadeiras de balanço de cana da índia de frente para o luar. Confesso que naquela noite me daria no mesmo foder ou não, porém Amanda se revelou uma garota incrivelmente capacitada para continuar surpreendendo após o ato, tão disposta se mostrou a inundar a noite com mais relatos e confidências pitorescas; aos poucos eu iria percebendo que quando acontecia de fazermos amor e a bebedeira nos obrigava a conversar longamente entre uma e outra foda, era como possuir dezenas de mulheres em uma, sabendo profundamente de cada uma delas. ----- Antes que eu saísse de seu quarto (Amanda disse) Monsieur Lemoine me perguntou(: ''-----O que você acha(?) não tenho certeza de que comprarão isso (: parece um Modigliani dos tempos em que o italiano já estava podre (: parece-me com qualquer coisa estranha e suja que me ocorreu de repente, enquanto caminhava por aí, mas juro que estive trabalhando duro no cabelo liso, loiro e cheio com a larga linha amarelenta que o divide (.)'' -----, eu o espiava com dissimulação (continuou Amanda), pois sabia que não era bom falar de quadros com um artista antes que estivessem pintados ou vendidos (: é necessário um certo sacrifício, quando se trata de uma causa nobre, como um quadro ou um livro grandiosos (: mesmo assim, não fui capaz de decidir se ele tinha realmente algum valor como artista, mas ficou indiscutível, ao menos para mim, seu valor como filósofo, quando estava calmo o bastante para formular frases inteiras: ''----- Sujeitos ao tempo e ao espaço (disse ele, na porta do quarto) acontece-nos de vez em quando esquecer estas duas categorias, e situar-nos num território insólito, fora da faixa mesmo de teólogos e poetas, fora da faixa de toda verbalização (: os tecnocratas de toda espécie que nos rodeiam, os ''toscos'', aplicam a esse estado de espírito o nome de evasão, condenando-o expressa ou veladamente (: mas o desejo de evadir-se da realidade pode ser substituído por outro: o de mudar de realidade, transfixar-se em outro mundo; sucede-me, pois, às vezes, evadir-me ou transfixar-me nos quadros de Gastone Biggi (: a grande protagonista dos quadros de Biggi é a esfera; segundo Empédocles de Agriento ''altiva e alegre na sua independência, como o Sol'' (: pintura de uma certa realidade não-quotidiana que anexamos ao nosso próprio território, que nos apresenta de novo à Pitágoras intacto e absoluto (.) ----, foi então (continuou ela) que ele me contou como tinha feito e perdido o ateliê no mercado de Barbacena; não entendi nada, por sinal, apenas que agora ele carregava consigo seus papéis-cartão, sua caixa de óleos e pincéis, e, segundo ele, sua eterna ''promessa de cigarros e garrafas''. Ainda segundo ele ''Pintar era mais divertido que advogar'', profissão de que se aposentou há anos, a fim de devotar-se à pintura de celeiros vermelhos ao crepúsculo, estradas rurais flanqueadas de vidoeiros prateados e mulheres nuas.


INTERRUPÇÃO

Reencontramos Monsieur Lemoine, naquele Domingo, pouco antes do crepúsculo, andando à margem da alameda como quem volta para o hotel; as tardes de Monsieur Lemoine se repetiam, com temores e preferências, enquanto seu nu progredia lentamente no cavalete do quarto: talvez já retido, completamente terminado, nos ossos de sua face, naquelas maçãs do rosto salientes, com um brilho mortiço no olhar. ----- Bom dia, madame (.) ----, ele disse para Amanda, todo cerimonioso, e levantando um pouco seu chapéu me cumprimentou silenciosamente. ----- Bom dia, Sr. Lemoine (: de onde o Sr. vem com essa aparência boa e altiva (?) ----- , ela perguntou. ------ Não sou eu quem estou bom e altivo, meu anjo, é o dia (: fui caminhar por aí, mas depois de uma hora de caminhada, aquele exército de tabaréus pinguços veio no meu encalço e me obrigou a jogar(: a sinuca (a princípio) é comigo mesmo, mas minhas pernas começaram a tremer um pouco, de fraqueza, e foi como se eu nunca tivesse segurado um taco em toda minha vida (: o horror, o horror(!) -----, retrucou ele, explicativo, e nós rimos. ----- O Sr. já deve ter visto o K, no hotel, mas ainda não foram apresentados (: o Sr. tem aqui um autêntico discípulo de Marcel Proust (: ''a memória das coisas passadas não é necessariamente a memória das coisas como estas foram'' (: certo(?) -----, apresentou-me Amanda, produzindo um efeito vivo na fisionomia morta de Monsieur Lemoine. ----- Que preciosa novidade, Miss Kiernan (: não era com a senhorita que eu conversava outra dia sobre estudos de dialetos selvagens (?) e não sei com quem, em Paris, um dia, eu comentei o quanto me agradava imaginar a tradução das obras completas de Proust para o tupi-guarani, para assim podermos ensiná-lo aos índios (: ''as coisas como estas foram'' (!, Proust não criava personagens ''à clef'', mas certos amigos entravam em doses maciças nas suas misturas (: ele não conseguia compreender, então, que o modelo, cujos defeitos pintava com charme, se recusasse a lê-lo, seja por rancor ou fraqueza de espírito (.) -----, ele disse, apertou as costelas com certa dificuldade e fez, depois, uma cara infantil para que escutássemos, a nossa volta, tudo aquilo que ia ficando de noite; parecia ter tomado uma joelhada na barriga. ------ O Sr. está bem, Sr. Lemoine (?) -----, Amanda perguntou. Eu por enquanto me limitava a rir. Mais tarde, um dos informantes do hotel, cumprindo ordens da mãe de Amanda, descreveu-o chegando ao povoado onde Jaqueline morava, nos seguintes termos: ''Entrou naquele seu boteco preferido, pediu uma cerveja, bebeu, titubeou um pouco, pediu mais uma, rodou em volta das mesas como um vagabundo, avistou uma puta esquelética que pareceu agradá-lo, e com uma cômica autoridade, sem pedir permissão à ninguém , sentou-se com ela no colo e começou a se vangloriar. ----- Mas de quê (?), pelo amor de Deus(?!) -----, perguntou a Sra. Raquel Kiernan. Informante: ----- Eu estava num canto do balcão, perto da TV, e todos falavam muito alto, de modo que não deu para ouvir muito (: mas que ele se vangloriava, não resta dúvida (: embebedava o mundo com teorias, lembranças, prognósticos políticos delirantes (: e dava pena ver aquele povo todo, entre os quais dois ou três fazendeiros ricos, não exatamente rir, mas sugarem seus cigarros de palha e charutos com volúpia, ouvindo-o atentamente (.) -----, naquele momento, fomos nós três alcançados por uma chuvinha alfazema; a floresta apresentava tons dolorosos de uma vermelho amarelado onde se insinuava o castanho-junho; mais além a estrada serpenteava subindo a Serra da Mantiqueira, vertentes cor de peito de morcego das colinas, o ar rescendia a maçãs, cerejas, morangos e... ROSAS. Foi o que Monsieur Lemoine disse, ao ver Amanda flertar com uma rosa à margem da alameda: ----- ''Transplantá-las, porém, da terra, que crime, Senhor (!) -- No peito ou nos livros morreriam de tédio, - e, inalienáveis, em ambos nem enfeite, nem rosas seriam (.) -- Vivas,tristes ou belas, não as canteis jamais (.) -- Deixai que os campos ou os ventos as agitem serenas, -- frágeis, mansas, no mistério de todas as palavras (.) '', concorda com o poeta Dantas Mota, meu caro (?) ----, ele me perguntou,de súbito. Assenti com a cabeça e disse que o poeta tinha sido amigo do meu avô, que costumava dizer dele: ''Desceu ao abismo mais pobre e perigoso e trouxe de lá o verso lento e severo, semelhando o fluxo do rio São Francisco''. Monsieur Lemoine conhecia de fato Minas Gerais, tinha desenvolvido ali alguns hábitos , incluindo as drogas, que lhe proporcionavam, justo a partir daquela hora do dia em que estávamos adentrando, a impressão deliciosa e redentora de abrandamento das suas dores, físicas e espirituais. Voltou ao tema da memória, falando de Proust com propriedade: ----- Quando penso nele, geralmente o vejo de barba, diferente daquela famosa foto (: numa das banquetas vermelhas do Larue, em 1912 ou 1913 (: e sem barba eu o vejo na casa de Madame Alphonse Daudet, assediado por um certo Jammes que parecia mosca varejeira em torno dele (: e também o vejo morto,com aquela maldita barba do começo (: enfim, com e sem barba, que diabos estou falando (?, o tempo da infância: futuro, partido a priori em fragmentos (certo?) num cosmorama(: mas nem todo escritor possui um estilo idêntico ao nervo, um estoque inesgotável de asma, um detector de ondulações humanas, um quarto forrado de cortiça e três mil anos de cultura acumulada (: sim, aquele quarto de cortiça, de poeira e pequenos frascos, ora deitado de luvas, ora de pé num banheiro de cena de crime, abotoando um colete de veludo num pobre torso quadrado que parecia conter todo seu vertiginoso mecanismo literário (: eu o vejo também entre as capas dos seus móveis, a poltrona e o lustre recobertos (: a naftalina cintilando na penumbra, ele apoiado na lareira da sala desse ''Nautilus'' como um personagem de Júlio Verne, ou então de fraque, ao lado de uma moldura revestida de crepe, como Carnat morto (:quando eu estava morando em Paris, cheguei a sonhar uma noite que ele tinha me acompanhado até o Louvre, com um jeito de lamparina acesa em pleno dia, de campainha tocando o dia inteiro numa casa vazia (: cheguei mesmo a rascunhar  um conto sobre esse sonho, mas Madame Dubech me disse: ''----- Tenho dó de gente que não sabe escrever (.) '' .Certo, um pintor geralmente fica de pé o dia todo (,) eu sentia necessidade de me divertir com qualquer coisa acessória, como escrever ou frequentar lugares agradáveis, de preferência com um pouco de luxo, um pouco de arte e pessoas finas, como no encontro que tive no meu sonho (: ele reaparecia, no conto, lá pelas onze da noite; eu estava ensinando pintura à minha vizinha do primeiro andar, em Montmartre, sobre quem Proust me havia dito em surdina: ''------ Quando eu tinha vinte anos ela se recusava a me amar; agora que tenho quarenta e criei Charlus e a Duquesa de Guermantes, ela se recusará a me ler (.) ---- '', fechei os olhos  e deixei o tempo correr ( O Tempo Perdido (!, pensando que aquele simples fato já lhe daria combustível para mais um tomo de quinhentas páginas da Recherche. Então eu disse:  ----- Não nos custaria caro, Marcel, quem sabe, irmos hoje à noite no Dancing do Amassadeurs (: os garçons do café aqui são tão insolentes, vê-se que eles só lidam com gentinha, com exceção daquele moreninho da Martinica (: mas Madame Dubech tem medo de ir a um lugar realmente chique (: no fundo, ela não tem confiança em si, fica intimidada até com minhas boas maneiras (: em todo caso, sente-se à vontade o bastante, quando o caso é dizer que não me ama, que nunca me amou de fato (: de todo modo, foi eu mesmo quem pediu à ela que me prevenisse (: à meia-noite, subi as escadarias do Dancing e encontrei-o no hall da entrada (: ele já me aguardava, sentado numa banqueta, imerso em trevas totais ao lado de um dj senegalês que berrava palavrões por cima das batidas de rap. ----- MAAAAAAARCEL(!) ----, eu gritei: ----- PORQUÊ DIABOS NÃO ME ESPEROU NA PORTA, ELA FICA SEMPRE ABERTA MESMO NESSES LUGARES (.) ----, comentei. ----- Caro Lemoine (ele respondeu, com uma voz obstruída pela mão, que era um lamento, um riso, sei lá o quê. -----Caro Lemoine... -----, ele disse, e a partir daí, à medida que sua voz saía pela boca, o sonho foi se desmantelando em alexandrinos intermináveis que descreviam a Rue D´Anjou, a partir do Boulevard Hausmann, até o Faubourg Saint-Honoré, e daí estendendo-se indefinivelmente por toda Paris, num turbilhão inesgotável de frases descritivas só com vírgulas e nenhum ponto(: sua última frase inteligível que captei foi : ''----- Perto do antro onde voava um dia Froment-Meurice, e o inefável Nadar (.) -----, mas no conto que depois mostrei à Madame Dubech, esqueci o começo e suprimi esse final, e talvez por isso ela tenha achado tão fraca minha história (: me defendi explicando à ela que para compreender Proust, era preciso antes compreender a atmosfera de sua casa e conhecer a Comédie-Française tal qual era em sua época ou pelo menos visualizá-la mentalmente com precisão (,) empurrar aquela primeira porta à direita de um pequeno corredor entre o palco e o grande ''foyer' dos artistas (: ali ficava o camarim de Raquel, da Berma, queridos (não a mãe da nossa Amanda aqui) onde sob o calor de uma boca de calefação, se viam móveis cobertos, uma harpa, um cavalete de pintura, um pequeno órgão, pêndulos de globo, bronzes, pedestais de ébano, vitrines vazias, uma poeira ilustre (enfim... ali vocês estariam na casa do grandioso Marcel Proust, esperando que Celeste viesse para introduzí-los (.) -----, quando Monsieur Lemoine fez aquela pausa (como falava !, enquanto eu e Amanda ríamos, eu pensava que, depois de rodar tanto por aí, gozando de um padrão de vida aparentemente bem alto, agora aquele homem estava ali, naquele hotel-fazenda perdido no nada, menos sólido a cada dia, pontual em acordar depois do meio dia, um pouco desesperado, às vezes, com aqueles frasquinhos de heroína iguais aos meus, ou brincando de se embebedar com as meias-garrafas que encontrava na bagagem ou trazia do boteco; nós seguimos escutando-o dizer que SIM, o pensamento preso ao nu: uma mulher de esqueleto grande, com uma cabeça loira, camponesa e jeitão de homem: a cena continuaria sendo pintada noite adentro, no quarto forrado de madeira grená e decorado com pequenas gravuras representando cenas e paisagens de suas viagens ao Oriente, que ele deixava espalhadas sobre os móveis, onde pairava sempre um aroma constante de borras de vinho, vindima e perfumes caros (fais ce que voudras saute Bourgignon - no vale do olho - Monsieur Lemoine o Ródano os primeires feixes cor de palha do pincel até o sol nascente projetando sobre a estrada parda branca faixas negras de Diná Rocha à sombra das amoreiras esqueléticas em cada paragem o quadro no quarto vinho tão forte como bifes crus e tão rico como o Palácio de Francisco I e perfumado como as rosas orvalhadas de Barbacena (este indefectível cigarro - esta noite e estas cantigas - tantas vezes viajado pelo mesmo papel - só os rabiscos indicando as viagens interrompidas; não atravessado, naquele momento, o rio em pensamento para Lyon, onde Jean-Jacques sofreu de clorose na mocidade... as cidades dentro de seus olhos eram dicionários de radicais latinos descrevendo Orange Tarascon Arles onde Van Gogh decepou a orelha (-------------) estaminets à caminho  do sul (: para beber o vinho preferido dos Papas, para comer pratos fortes com azeite e alho (: à caminho do sul (Monsieur Lemoine pensava) soprando gelado pela topografia da Camargue empurrando-me para Marselha diante do Passeio de Apollo, ostras e vin de Cassis petite fille tellement brune tête de lune qui aimait máquinas com ranhuras postadas nuas como estatuetas da Fócida de pernas abertas em torno de seu pescoço. ----- Será que alguém já pensou nisto(?) -----, Monsieur Lemoine pensou, agora com mais calma, avivando a lembrança da Riviera passado San Remo avistando no alto da colina a igrejinha cor de caramelo: ----- Já se disseram(: energia, coragem, mas isto porque eram homens quem falavam, era preciso que as mulheres também falassem, são elas que podem pensar como eu e dizer Dignidade; o mais belo prêmio, diriam (: mas eu o ganharia porque diria também Felicidade e diria à Louise(: ----- Você não tem o direito de ir contra sua felicidade. Sua Felicidade, sua Felicidade (.) -----, Porto Maurizius garrafas azuis de seltzer alinhadas no poente cor de cinzano ao lado de um cálice de Vermouth Torino . ------ Ora essa (seguiu pensando Monsieur Lemoine, em seu quarto) como é estranho que agora eu venha a pensar em Louise (: porque Louise (?), porque aqui, neste lugar, neste momento (?), porque o rosto dela... nenhuma ponta de nostalgia (: aqueles ''jantares de artistas'' na casa dela; seu tolo perfume de erotismo e elegia, num jantar após o outro, no tom de alegria lasciva e medíocre instalado depois, na Itália, Savona edificada para cenário pintado pelo ***** (havia ambulâncias estacionadas numa praça ao luar de casas de pedras tristes onde viviam operários, a geada cobrindo tudo como aqui, no barzinho o ''Escritor Famoso'' ensinando a beber conhaque e marrasquino em partes iguais (: havanuzzerone, apurou-se que o homem afinal não escrevia aquilo que sentia que devia escrever, apurou-se que afinal não queria escrever nada daquilo, queria SENTIR, apenas SENTIR (-----------) conhaque marrasquino (já não era novo: Pierre C. tinha dinheiro e faria tudo por Louise: um desses homens bons em aplacar pequenas dificuldades financeiras, o que sempre agrada algumas mulheres (: Louise chamava a isso ''ser um homem'' (: ----- Gosto de quem sabe mandar (ela dizia) e é um pormenor interessante ele saber falar aos garçons e aos  maitres d´hôtel, eles obedecem-lhe (.) ------, mas com a saúde que ela tinha, ela devia buscar uma academia, e não restaurantes; ------ É interessante ser magra e elegante, não sentir fome toda hora, não dormir tanto  e percorrer Paris o dia todo a pé, e a noite (.) -----, eu disse à ela, mas não era eu talvez o mais indicado para falar no assunto: eu na verdade já a tinha como minha eleita, eu O Louco. ----- Só um louco se comporta assim, Jean (.) -----, Louise disse-me. Mas o Louco agora estava bem apaixonado, ainda que deitado na cama de uma puta que nem sequer havia se vestido ainda, da qual nem sequer me recordo o nome (mas amava Louise de longe, passava meses sem aparecer na sua frente. E que maravilha, agora, pensar naquilo (!), Louise recebia minhas cartas e e-mails, lia e relia, temerosa da opinião alheia. ''Alegria excessiva'', ''Carnes excessivamente plenas'', ''Puta gorda'', e ''Sangue envenenado'', eram expressões comuns naquela barulhenta e divertida correspondência; em muitos jantares que Louise dava eu me fazia presente através delas, mesmo estando ausente: a voz clara mas sem corpo que os (a todos seus convidados e pretendentes) atormentaria na vertigem da clandestinidade (aquilo irritava-os tremendamente: sentiam que eu queria dizer a todos, sem mostrar o rosto, que todos eles mentiam; apurava-se então que a maior parte dos escritores e poetas contemporâneos desejavam apenas serem uns ''pastorezinhos'' nus e morenos sentados no alto de um morro a tocar flauta à luz do sol poente. Eu imaginava Louise meio satisfeita, meio atemorizada; meio honrada por aquelas minhas ''homenagens'', meio atemorizada pela perspectiva daqueles prazeres que elas prometiam. Ela olhou com ar perplexo o relógio de Montparnasse cujos ponteiros marcavam 11:20h. ----- Eu não te compreendo, Louise, seu temperamento é muito estranho (: não consigo saber se você ama aqueles homens ou se eles lhe causam repugnância (.) -----, terça-feira, fevereiro e quinze (me estirei na cama para me reconhecer e insultar: ----- Um homem que se ama (Louise não sabe o que é um homem), e que tem uma porção de gravuras orientais (: um solitário, com sua cigarreira de prata e muitas pequenas manias (.) ----, já desperto, com náuseas, colocado de novo num outro dia, ali estavam a hora, a estupidez prazerosa, a fêmea pertinaz na tela, pernas abertas, a farsa do trabalho artístico, a necessidade de companhia e vinho. Presente mesmo estando ausente. Durante os dias em que vaguei por Gênova, eu ainda era aquela mesma invisibilidade invasora: imaginava-os discutindo os comentários de Louise sobre o seu ''amigo misterioso''... Gênova pejada de doges de mármore de íngremes escadarias de mármore de leões ao luar, o velho burgo ducal a arder nas minhas retinas: todos os palácios de mármore e casas de pedras da praça e os campanários. Auto-de-fé ao luar. Morrendo deliciosamente só no hotel todas as noites, maravilhado com meu recente dom de ubiquidade. ----- Gênova que procuras (?) -----, as perguntas mais loucas me apareciam enviadas telepaticamente por Louise: tinha que pensá-la nua antes que pudesse vê-la, ou tê-la; em minha lembrança, o rosto do primeiro nu que fiz de Louise dava um passo atrás e não se confessava, permanecia confundível, e no mês seguinte, ao nos encontrarmos de novo, olhando-nos nos olhos como dois filhotes de animal ensopados, ela disse: ----- Você não está nada mal (.) -----, foi o suficiente: agora, todos aqueles imbecis saberiam: após o coito o quadro veio inteiro, num jato, as nádegas de Louise untadas com cascas flutuantes de uma fruta doce cujo nome era Gauguin. ----- Não gosto que falem enquanto estou gozando (.) ----, ela disse; eu, porém, não parava um segundo sequer de dizer porcarias, enquanto via mentalmente Pierre, seu pretendente mais apaixonado, empalidecendo, lançando olhares furiosos para o meu quadro, enquanto C. Lemaitre (o gay) dizia em alto e bom som, às gargalhadas: ----- É definitivamente o quadro de alguém que comeu a buceta que pintou (.) -----, Meu Deus, e dizer que a vida é isto, QUE NOITE HORRIPILANTE, depois fiquei imaginando quem morava naquele hotel; ainda naquela tarde, encontrei uma russa na escada que tinha os olhos típicos de uma viciada. ----- AMANHÃ, NESTE ENDEREÇO(.) -----, Louise disse, me entregando um bilhete. Deux Mondes: espantou-me o fato de ela ser ''um pouco'' conhecida por ali. Pele rosada, boa expressão corada e saudável, com aqueles cabelos loiros caídos nos ombros: uma carne branca e nutrida em excesso por doces e cremes batidos com açúcar. Eu sorria para ela, roçava sua anca, sentindo a doçura leitosa do resto do corpo. Por via das dúvidas, Louise falou um pouco antes. Falou de Pierre, em seu papel de ''protetor'', a quem ela vinha enchendo gratuitamente de esperanças nos últimos meses; explicou-me o mecanismo de sua devoção e a pressão que suas ''escapulidas'' geravam sobre ele através aquele bando de farristas dos seus jantares (uma daquelas gargalhadas de escárnio que ela entreviu em meu rosto naquele momento ameaçavam gelar a audiência se detonadas em público, mais tarde; mas Louise recobriu intensamente meu riso com o seu próprio, enquanto sentia o ventre molhado enchendo-se de porra bruta. ----- Ela fez realmente isso(.) ----, pensei depois, dias depois, ao reencontrá-la no Dôme, com Pierre. Ela estava com um jeito tão estranho. Na segunda vez, naquele mesmo hotelzinho barato, aquele seu riso esquisito já estava um pouco mais frouxo no rosto, apontando apenas para o teto, e não para o céu da minha boca. ----- E Pierre (?) ----, perguntei. ------ Não me serve pra muita coisa(.) -----, respondeu ela, secamente. Eu a ouvia divagar, cada vez mais estupefacto: ela contava irrelevâncias ao ar, ao hotel, às fendas no teto; mexericos de projetos editoriais e cinematográficos que tornariam ''temporariamente'' imortais um ou outro nonato condenado ao esquecimento; e fumava, deitada, meu cachimbo de ópio, relembrando outras travessias noturnas em invernos chuvosos, com uma memória impessoal: evocava circunstâncias, mexericos.



EQUAÇÃO -TÓXICA: CAMINO ROJO, COCAÍNA e ÁLCOOL
Adimitindo inclusive o fato de que o uso de entorpecentes leva muitos dos adictos ao transtorno, não compreendo com que direito a sociedade poderia se opor á eles, pois da única coisa que os legisladores deveriam se ocupar é dos seus efeitos sobre terceiros. Juan comentou logo depois que ele terminou de falar: - Concordo com você em linhas gerais, Júlio. Como praticante de nagualismo, não sou alheio á questão das plantas de poder. O nagualismo é similiar á outros sistemas porque orienta o praticante á buscar informação ''dentro de si mesmo''. É como uma velha fórmula de autotransformação e poder espiritual que remonta aos primórdios de todo o xamanismo. Mas sei que no embalo do nagualismo surgiu um sub-caminho obscuro derivado diretamente do consumo de plantas de poder. No México chamamos de ''Camino Rojo'' e é uma prática de altíssimo risco, pois busca encurtar um caminho de desenvolvimento gradual que não deve ser encurtado de forma alguma. Usa drogas alucinógenas como o Peyote e a Erva de São Pedro, uma das dez drogas consideras como mais perigosas e adictivas(.), Júlio interrompeu Juan nessa altura do diálogo e interpôs: - É a mesma coisa que acontece com a música sincopada, destinada a provocar transes no praticante. Meios utilizados em sua origem como facilitadores de aberturas ao supra-sensível ou extra-sensorial no curso de uma iniciação regular, são subitamente aplicados a um contexto mundano e alienado. Assim como as danças das haves derivam das antigas danças extáticas, os entorpecentes urbanos de hoje em dia correspondem ás drogas naturais que os povos primitivos empregavam com finalidade ''sagrada'' em suas tradições milenares. É muita ignorância não se levar esse fato em conta. Essa é a verdade(...), Juan pareceu concordar, mas retomou sua fala no ponto exato em que tinha sido interrompido: - Para perceber outras realidades, o nagualismo se vale de meios mais seguros e eficientes, tais como um implacável controle mental na vida cotidiana, a depuração sistemática das emoções negativas, a supressão total de qualquer classe de julgamentos sobre condutas próprias ou alheias, a eliminação dos egos da personalidade, que sempre se ocultam nos ângulos cegos da mente, assim como uma perfeita atenção sobre se a Consciência está dirigida ao exterior ou ao interior, e a constante concentração de energia, entre elas e uma das mais importantes A ENERGIA SEXUAL, que se recanaliza e se converte em ENERGIA-CONSCIÊNCIA. Esse é o verdadeiro e genuíno nagualismo original asteca, o Camino Rojo é uma degeneração posterior que já produziu inumeráveis vítimas (risos), que ignorando que sem uma depuração prévia muito adequada e qualificada, o contato prematuro com energias sutis e poderosas produz apenas transtornos em um personalidade impura e sem direção(...), Juan concluiu categoricamente, enquanto eu  ia juntando os entulhos numa mesa ao lado dos dois, agora esperava uma réplica ainda mais inflamada e apaixonada de Júlio, embora concordasse com o que Juan tinha acabado de dizer em gênero, número e grau. E a réplica de Júlio veio caudalosa, como imaginei: - Claro, claro. Mas não faz sentido abordar casos de transtorno provocados pelo consumo de plantas de poder dentro do contexto tradicional, o próprio Don Juan Mattus se valeu delas com Carlos Castaneda, como você bem sabe. E isso, além do mais, pode e deve ser extendido á todas elas, como o tabaco empregado pelos Índios da América Central para preparar psicologicamente os aprendizes que deviam se retirar da vida durante um certo tempo com o objetivo de terem ''signos'' e ''visões'' . Em certa medida, pode-se dizer o mesmo do álcool: se conhece a tradição das ''beberagens sagradas'' entre os gregos antigos e a utilização do álcool nos cultos dionisíacos e outras correntes similares. O antigo taoísmo não proibia em nada as bebidas alcóolicas, que consideram inclusive como ''extratos de vida'' que conduziam a um ''estado de inspiração''. Os extratos de coca, mescalina, peyote e outros integram ainda hoje grande parte do ritual de sociedades secretas na América Central e do Sul, e nada têm haver com o Camino Rojo de que voce falou(.) , Juan concordou, abriu um sorriso de quem tinha acabado de lançar uma provocação no ar e provocou Júlio um pouco mais: - O que eu quiz dizer foi só que a falta de instrução apropriada conduz o aprendiz a estimular de tal forma o lado obscuro do seu ser que em pouco tempo não podem senão acabar na mais completa loucura e enfermidade, produzindo na sequencia uma morte prematura. Mais próximos de um demônio que de um anjo. Essa foi a razão pela qual Don Juan Matus advertia Castaneda sobre o enorme perigo com que lidaram seus antecessores, acabando por cairem presos á práticas de magia negra com inorgânicos para aumentar o poder que tinham sobre seus semelhantes. "Mescalito mata !!", Don Juan disse várias vezes á Castaneda(. ). , quem riu agora foi Júlio, percebendo a insistência de Juan em abordar o lado obscuro do consumo das plantas de poder. Continuou falando calmamente: - Na atualidade não existem idéias claras e precisas sobre tudo isso, porque fora de um contexto tradicional não se leva em conta o fato de que os efeitos dessas substâncias variam muito segundo a constituição e a capacidade de reação de cada pessoa. Meu xará, o Barão Julius Evola, falou com extrema propriedade sobre a existência de uma EQUAÇÃO-TÓXICA, diferente para cada pessoa, mas não se deu, ao longo do tempo, atenção necessária á essa noção. De fato, a EQUAÇÃO-PESSOAL deveria ser levada em conta porque, como já reconheceram cientificamente a maioria dos patologistas e neurologistas, a maioria dos casos graves de transtornos causados pelo consumo de entorpecentes, o uso da droga é menos uma causa do que um sintoma de uma profunda alteração, de um estado de crise interna ou neurose. Em outras palavras, é uma situação psíquica existencial negativa que precede e independe do uso da droga, e que induz ao consumo da droga como solução efêmera e desesperada(.), Júlio serviu-se de um drink com uma garrafa de gim que estava do lado deles, numa mesa, e esperou o troco de Juan com serena indulgência. Os dois aparentemente estavam gostando de trocar aquelas farpas. Juan retomou a palavra um pouco mais agressivo : - Mas o obscuro caminho desses Caballeros Rojos não tem nada haver com o nagualismo, ainda que muito se diga em nosso meio para confundi-los de propósito. Acabam todos convertendo-se em escravos psíquicos do mezcal, da ayahuasca, da Erva de São Pedro e outros enteógenos, cuja periculosidade lhes colocam em destaque na famosa lista de Drogas Duras proibidas pela Organização Mundial de Saúde (O.M.S). Além do mais, é sabido que falsos mestres e gurus usam essas drogas para debilitar a vontade dos seus seguidores e a percepção da realidade em volta deles e assim dominá-los psicologicamente. Como consequencia, os defeitos da personalidade preexistentes se multiplicam de forma exponencial: um indivíduo que era antes ligeiramente rancoroso se torna um sujeito com um profundo ódio inumano ardendo dentro do peito; um que tinha uma excessiva tendência ao sexo, se converte em um sátiro descontrolado; outro que era um pouco metido e presunçoso, a soberba faz dele uma criatura que ninguém mais suporta e acaba na solidão total. Conheço muitos casos de gente assim, nosso antigo grupo, inclusive, se desintegrou por causa de pessoas que passaram por esse tipo de transformação, por isso insisto um pouco em bater nessa tecla: porque vi essas catástofres humanas de perto. Essas pessoas dificilmente conseguem sair de dentro desse caos depois, a não ser com ajuda espiritual externa muito qualificada(...), Júlio compreendeu os motivos da insistência de Juan sobre esse ponto, mas voltou com a elegante idéia da ''equação-tóxica'': - Mas para retomar o que dizia sobre a EQUAÇÃO-PESSOAL e a zona específica sobre que vão atuar os enteógenos, é claro que sem a devida preparação e instrução eles produzirão uma alienação completa, uma ABERTURA PASSIVA á estados que dão a ilusão de uma certa liberdade superior, de uma embriaguez e uma intensidade desconhecida das sensações, mas que em última instância têm um CARÁTER DISSOLVENTE e que de forma alguma leva a pessoa á ''OUTRO PLANO''. Para esperar de experiências com plantas de poder resultados espituais satisfatórios faria falta um grau excepcional de atividade espiritual prévia e ter uma atitude contrária á da pessoa que busca e necessita das drogas como válvula de escape para tensões, neuroses e traumas pessoais, ou ao sentimento de vazio existencial. Para que haja um resultado espiritual genuíno, é necessario uma RESPOSTA ATIVA de todo o SER da pessoa, mas uma reação desse tipo não ocorre quase nunca, mesmo no Santo Daime, eu adimito. A ação da ayahuasca é demasiadamente forte, brusca, imprevista e externa, o que dificulta muito o controle mental e a possibilidade de uma RESPOSTA ATIVA. É como se uma poderosa corrente se introduzisse na consciência da pessoa e que só restasse á essa dar-se conta de que mudou de estado sem poder atuar conscientemente sobre tal estado. É necessário uma tonelada de energia psíquica e habilidade mental prática para se controlar uma mudança de velocidade consciencial dessa magnitude, e a maioria dos praticantes fica limitada ao simples consumo periódico, sem fazer o rastreamento energético no dia a dia. E dessa forma, todos submergem no estado alterado de consciência como se estivessem sendo arrastados por uma correnteza enfurecida. O resultado disso é um mero desfalecimento mental, uma lesão espiritual, apesar de muitos voltarem dos transes com a impressão de uma vivência exaltada, beatitudes psicodélicas e volúpias transcendentes. Eu admito(...), com isso Júlio parecia ter deposto as armas, diante da insistência de Juan de ressaltar o pouco efetivo que tem sido no mundo o consumo de plantas de poder com finalidades espirituais. Juan aproveitou esse último gancho para enriquecer um pouco a perspectiva: - O objetivo do nagualismo genuíno era obter a chamada TERCEIRA ATENÇÃO, na qual o sujeito e o objeto se fundem, depois de uma larga e dura prática de fortalecimento da ATENÇÃO, do INTENTO, da ESPREITA, do SONHOS LÚCIDOS, do SILÊNCIO MENTAL e da extinção da IMPORTÂNCIA PESSOAL. Trabalho árduo, em outras palavras(...), Júlio assentiu, não parecia de forma alguma alheio ao nagualismo de Juan, pelo contrário, parecia conhecer profundamente os princípios do xamanismo tolteca: - Para que o processo siga um curso ascendente, seria necessário que no exato momento em que a droga libere uma energia X de forma exterior, uma RESPOSTA ATIVA DO SER introduzisse subitamente na correnteza do estado alterado de consciência uma energia dobrada e a mantivesse sob controle até o final. De forma idêntica á onda que golpea um nadador hábil, poderia ser utilizada também para tomar impulso e supera-la. Então não haveria desfalecimento, o negativo seria transformado em positivo, o PASSIVO em ATIVO, a experiência do estado alterado de consciência estaria descondicionada e não desembocaria numa dissolução extática, desprovida de toda verdadeira abertura mais além do mundo físico, que só se alimenta de sensações flutuantes. Seria, ao contrário, possível, em certos casos, chegar ao contato genuíno com uma dimensão superior da realidade(.), - para mim, com aquilo Júlio finalizava a questão com chave de ouro.

Câmera-consciência...
Em que ponto do caso entre K. e Phyllis, dias depois, nos rochedos de Barra Grande, ela o surpeendeu por conhecer perfeitamente todas as estrelas, tendo tido um tio astrônomo? Ela lhe ensinou, então, com o rosto bem junto do dele, a fim de que seguir a mão que apontava. ---- Procure primeiro as estrelas brilhantes (: depois viaje entre elas(: imagine linhas retas(.)  ----, o orvalho os atingia através da manta, as janelas iluminadas da pousada atrás marchavam sobre a grama japonesa, mas morriam entre os arbustos podados como tampos de mesa. O hálito quente de Phyllis falava de lendas acima deles: na maneira como o ardor da faísca se alastrava pelas ondas no mar adiante dando força e transformando o lugar de absorção espectral em que estavam nos pormenores da lua. ---- O universo é uma gigantesca alegria total capaz de se dilatar com sua sombra dispendida pela distância(.) -----, o andar de Phyllis na areia, agora, era a distância mais curta entre as coisas que ela queria: no quarto, o canto estridente das cigarras do lado de fora formava paredes sonoras em volta deles; pela janela, a rígida cascata das estrelas tinha recebido um golpe lateral: Vega, a rainha do céu do verão, não mais reinava no zênite, tendo cedido lugar à mais pálida Deneb e a uma débil constelação em formade casa: Cefeu . Em Andrômeda, K. procurou o brilho muito débil, que Phyllis outra noite lhe apontou como outra galáxia completa, a dois milhões de anos-luz de distância; através de oceanos de ônix, aquela luz havia viajado até eles: como num espelho o seu olhar viajaria para o exterior numa linha reta. Sentiu-se tomado de vertigem: entre aquelas multidões cintilantes, sentiu um gigantesco deslizamento, que afundava para o alto: lembrou-se da iniciação, da prática meditativa intensiva, o samadhy era muito parecido com aquilo. Depois firmou-se com os olhos na terra escura: as folhas de um galho lilás quebrado, morto e incapaz de suportar suas hastes e o outono, pendiam imóveis à luz que vinha da janela: sob o bombardeio de partículas de luz que delicadamente, ternamente os desintegram, o espectador no céu se considera um ser poroso: retendo o fôlego, ele é tragado pelo ''maelstrom'' e desaparece atrás da imagem, sonhando em ser o pedaço que falta do frágil quebra-cabeça. Noite que desliga entre as ruas, a continuidade insuspeitada de cenas, azulando por cima as pedras brancas, condensação da distância; as moitas derretem-se (o chuvisco ainda não parou), QUE DESAPARECIMENTO(!) K. voltou a pensar em Phyllis ali do seu lado, um vapor, uma penugem de água, uma lembrança de axilas, lábios secos e depois molhados, da curva ligeiramente musculosa em suas costas onde ele massageava com os polegares, os eretos bicos dos seios coral provocados pelos seus dedos, a vaga reserva do olhar dela. Phyllis se tornava informe, indefesa açucarada sob a emissão do seu sêmen. ----- Estou abusando de você (K disse) ---- Não, não pare (ela respondeu) ----Vou acabar ---- Acabe então, acabe, está bom  (.) ---- É mesmo(?) VOCÊ GOSTA ASSIM(?) ---- Fico desconectada de vez em quando, ainda mais conversando com voce meu pensamento vai longe ---- Film (.)----, ela assentiu com a cabeça, em silêncio, a boca cheia. A língua dela levou K. ao calor, ajudada pela mão. ---- Que bom , então engula-me (.) ----, ela o engoliu: as folhas do galho quebrado por trás (calmamente viraram uma página: ---- Film (Filme) é um filme de Samuel Beckett: trata-se de um filme de perseguição que parece romper  (mesmo hoje, passados tantos anos de sua realização) com todos os padrões estabelecidos por um filme desse tipo: um único personagem, interpretado por Buster Keaton, é perseguido por alguém ou por algo que não nos é dado ver imediatamente(.. ----, a cúpula ardente da noite parecia estilhaçada por uma violenta fuga de pensamentos em disparada. DÊ-ME AGORA AQUELA POR QUEM VOCÊ FUGIU. Caía agora uma chuva dissolvendo qualquer forma. As casas passavam sob a água tépida, o outono aquoso e quente banhava a pequena ilha, o litoral fragmentado do arquipélago os engolia: mas eles planavam acima, sem planejamento, partindo, partindo sempre: já se aproximavam ondas de colinas arborizadas, os campos, a reconciliação chegava. ----- Conforme o filme avança e os movimentos do protagonista tornam-se sôfregos e claudicantes, somos informados que perseguidor e perseguido são a mesma pessoa, entende(?) em nenhum momento temos certeza se a perseguição está realmente acontecendo ou se é fruto de um delírio do personagem(: Beckett não nos deixa a resposta(.) a obra de Beckett tem como primeiras palavras do roteiro uma frase de Berkeley, que o escritor irlandês abre o que ele chama de RESUMO GERAL do filme: ''Esse est percipi (: ''a autopercepção subsiste no ser ao substrato de toda percepção estranha, animal, humana, divina. A pesquisa do não-ser para supressão de toda percepção desconhecida acaba na insuprimível percepção de si. Proposição ingênua que ressoa por suas possibilidades formais e dramáticas. Para poder figurar nessa situação o protagonista se cinde em dois, objeto (O) e olho (OE), o primeiro em fuga, o segundo em sua perseguição. Ele aparecerá somente no fim do filme, quando o olho perseguidor se revelará, não como um terceiro, mas como ele próprio.Então, no fi m do fi lme, O é percebido por OE, sendo que o ângulo não deve ultrapassar 45º. Convenção: O entra em percipi = experimenta a angústia de ser percebido somente quando o ângulo é ultrapassado (Beckett) ----, K. olhava a nova rua de comprido e orientava-se. Rostos súbitos, totalmente desconhecidos, faiscavam através do seu espírito enquanto procurava apagar-se no sono: plantas detalhadas de prédios ainda não construídos, nítidas em todas as alas e cornijas, eram desdobradas instantaneamente sobre a sua vacilante superfície interna: ----- Beckett parece almejar um ambicioso projeto: encontrar devires imperceptíveis por meio da supressão da percepção, utilizando o cinema como veículo para o projeto(: ele parece apontar para essas devires em Film(: nessa sua única iniciativa cinematográfica, produziu uma obra de singularidade estarrecedora: um filme que atinge não a “essência” da percepção, mas o âmago da própria imagem-movimento, melhor dizendo, um filme que comporta no encadeamento de suas imagens, imagens-movimento puras, inventando, dessa forma, ângulos e perspectivas inusitadas, ultrapassando a dimensão do humano. Beckett talvez tenha criado o cinema do INUMANO(.) propondo com sua obra a PERCEPÇÃO DA PERCEPÇÃO, ao fundir a percepção objetiva com a percepção subjetiva, levando, assim, a imagem-percepção a um esgotamento que produz efeitos: criam-se formas não humanas de apreensão do real: mas para Beckett a imobilidade, a morte, o negro, a perda do movimento pessoal e da estatura vertical, quando se está reclinado na cadeira de balanço que nem balança mais, são apenas uma finalidade subjetiva(: não passam de um meio em relação a um objetivo mais profundo. Trata-se de voltar a encontrar o mundo de antes do homem, de antes de nossa própria aurora, lá onde o movimento, ao contrário, submetia-se ao regime da variação universal, e ONDE A LUZ, propagando- se sempre, NÃO PRECISAVA SER REVELADA(: Beckett remonta em direção ao plano luminoso da imanência, o plano da matéria e seu marulho cósmico de imagens-movimento(: remonta as três variedades de imagens à imagem-movimento mãe: as relações entre câmera objetiva e câmera subjetiva já estão presentes em Film , como SUPERAÇÃO(.) -----, repetidamente (Phyllis estendida ao lado dele) o coração disparado de K. freava a pretendida dissolução do espírito (estava ansioso por acordar Phyllis no meio da noite, para conversar, mas não o fez(: depois de rolar na cama muitas vezes, desceu e saiu: as estrelas haviam rodado a ponto de se tornarem irreconhecíveis: agora era como se fossem vistas de outra Terra, além da Via Láctea, cheia de silêncio e estranheza. Flores lisas com cálices abertos até as lâmpadas, cobertas com véus, retinham uma luz avermelhada. Alguma coisa passava perto de sua testa no escuro enquanto uma sonoridade realmente suave, ombro a ombro com ele, inclinava-se em seus ouvidos em abandono(: cochichos, imagens de contatos, Phyllis, apalpadelas, a felicidade (um sorriso largo e contente no rosto de K:  ele sabia que tinha se tornado secretamente uma avis rara entre os escritores do continente e numa idade tão incrivelmente precoce que sua variedade de interesses dispersos e a excentricidade de sua visão de mundo em nada impediam sua sombra de seguir avançando sobre a mediocridade estabelecida de críticos literários de jornal e poetas surrealistas de mentira, acadêmicos e parnasianos: para K, a tendência dos escritores atuais  era a mesmice, a especialização aplastante: escolhiam um assunto  ou nicho de conhecimento qualquer e dedicavam o resto do livro a decorá-lo interiormente como se fossem estúpidos decoradores de apartamentos terceirizados(: em meio à toda essa lastimosa idiotização, não tinha sido difícil para ele alcançar uma sombria consagração como realista místico de enésima potência, nu e cru em busca de um estilo mais flexível e múltiplo, de uma LINGUAGEM maior que a da formação acadêmica padrão, que transformava todos os escritores atuais em sonolentos jornalistas de segundo escalão: os dois primeiros livros de K. haviam sido classificados nos calabouços anônimos da alta inteligentsia portenha como  ''duas estranhas histórias em quadrinhos''  e o definiam como um inacreditávelmente jovem literato culto e fluente em Marx, Nietszche, Kieerkgaard e demais chefes do pensamento moderno, que tinha conseguido  converter a matéria absurda e brutal dos heróis das ''comic strips'' norte-americanas (os super-homens com que está atualmente intoxicada e aprisionada a imaginação do mundo inteiro) numa crítica picaresca da sociedade global(: disseram ainda  que havia nos seus livros ecos do impressionismo de Louis Ferdinand Céline, da fascinação excrementícia e viral de William Burroughs e da desunidade proposital de estilo que caracteriza as mais avançadas experiências literárias do século XX. À medida que refletia e andava, K. entrava um pouco mais no MANUSCRITO, no adeus do gesto, no peso do seu próprio mito selvagem: ---- Foi mais ou menos isto(: no fundo, o que eu queria era vagabundar(: o herói do meu filme é alguém que desce às profundezas da experiência psíquica e extra-sensorial que poucos homens conhecem hoje em dia(: sua postura de herói de histórias em quadrinhos é talvez circunstancial , e apenas emoldura aquilo que o narrador quer dizer e mistura-se à uma profusão de outras vozes(: a época em que assisitia filmes antigos na biblioteca pública precedeu uma etapa ainda mais intelectualizada, uma vez  que logo depois que parti passei a refletir sobre todos os filmes que assistia ou que já tinha assistido(: de comentá-los, de ESCREVE-LOS(!) não se tratava mais de se deixar embebedar pelas imagens, mas realmente era preciso ANALISAR O ROTEIRO(: etapa extremamente importante (: comecei a procurar as raízes  e razões de certos filmes não serem interessantes, o porquê de a primeira metade ser boa e a segunda decepcionar em todos os sentidos(: ao invés de dizer simplesmente que algo era BOM ou RUIM, comecei a tentar imaginar como o filme poderia ter sido realizado de modo a ficar bom, ou porque era irremediavelmente ruim ou cansativo(: sentia realmente a necessidade de ANALISAR O ROTEIRO(: quando nos obrigamos a resumir o roteiro, vemos muito bem o que há lá dentro, ou como foi elaborado(: ----, inclinado diante do mar, abrigava o rosto na camiseta que tinha nas mãos, ondulando ao vento , seus golpes fendendo o ar, como se batessem sobre um animal, a boa talagada para refrescar o último da linhagem(: ---- Aprendi muita coisa(: perdi o entusiasmo pelo cinema americano antigo, que Rossellini odiava, e despertei para a simplicidade e a clareza (fiquei surpreso ao saber que o roteiro do filme ACOSSADO (A bout de souftle) havia sido escrito por François Truffaut, após ler uma notícia alarmanete no jornal(: o roteiro foi recusado pelo ator Phillipe Lemaire, famoso na época, e outros também declinaram ou não conseguiram filmá-lo, até que foi parar nas mãos de Jean-Luc-Godard, que não teve a menor dificuldade em viabiliza-lo, exatamente dois meses depois de Os Incompreendidos, de Truffaut(: o poeta, escritor, crítico e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini desenvolveu a célebre tese do “Cinema de Prosa” e “Cinema de Poesia” (: o primeiro cinema, que se consagrou pela fortuna crítica cinematográfica como cinema clássico, ainda estaria preso ao modelo narrativo do folhetim e não teria, desse modo, descoberto sua própria essência, reproduzindo uma língua prosaica, uma linguagem de prosa(: Pasolini o denomina de “cinema de prosa”(:dizendo que mesmo alguns filmes de arte não escaparam dessa armadilha: “Porém, historicamente, após algumas tentativas, imediatamente interrompidas, na época da sua origem, a tradição cinematográfica constituída parece ser a de uma ‘língua de prosa’ ou, pelo menos, a de uma ‘língua da prosa narrativa’. (... até mesmo os filmes de arte adotaram com sua língua específica esta língua da prosa: esta convenção narrativa sem pontas expressivas, impressionistas, expressionistas etc (...)” (Pasolini contrapõe o “cinema de prosa” à adoção de uma língua de poesia, que violente a narrativa cinematográfica tradicional e inaugure novas formas plásticas para a arte cinematográfica, calcadas em uma língua poética adaptada ao cinema; isto é, deve-se criar um “CINEMA DE POESIA”(: ele vê nas obras de alguns cineastas, seus contemporâneos, os pressupostos formais desse “Cinema de Poesia”: a título de exemplos concretos de tudo isto, submeterei à análise de meu laboratório filmes de Antonioni, Bertolucci e Godard – mas poderia aqui acrescentar, do Brasil, Glauber Rocha ou, da Tchecoslováquia, Milos Forman (...)” (Pasolini). Gilles Deleuze se vale dessa distinção, proposta por Pasolini, de “cinema de prosa” e “cinema de poesia”, para acrescentar um ponto em relação à questão da objetividade e da subjetividade cinematográfica. Esse ponto é crucial no que diz respeito ao seu pensamento do cinema: trata-se do “DISCURSO INDIRETO LIVRE”. Pasolini já o menciona, destacando que o “Cinema de poesia” se valeria de uma ‘SUBJETIVIDADE INDIRETA LIVRE’, inspirado naquela figura do discurso, que se contraporia ao discurso direto, que inspira por sua vez uma abordagem objetiva da narrativa cinematográfica. O cinema moderno, segundo Pasolini, SUPERA A NARRATIVA, ainda inspirada no folhetim e nos antecedentes teatrais do primeiro cinema, instaurando um processo discursivo aparentado ao moderno romance do século XX, por meio da utilização da técnica narrativa denominada de MONÓLOGO INTERIOR: “O ‘cinema de poesia’ – tal como se apresenta poucos anos depois do seu nascimento – tem assim como característica comum a produção de filmes dotados de uma dupla natureza. O filme que se vê e se aceita normalmente é uma ‘Subjetividade Indireta Livre’, por vezes irregular e aproximativa – muito livre, em suma: o realizador serve-se do ‘estado de alma psiquicamente dominante do filme’ – que é o do protagonista (...)”. O pensador italiano vê nos filmes do cinema moderno os elementos definidores do que ele chama de “Cinema de poesia”, que apresentariam como característica fundamental o que ele denomina “subjetividade indireta livre”. Deleuze, ao analisar a imagem-percepção, propõe a superação da clássica dualidade objetividade/subjetividade cinematográfica, quase sempre representada por meio da utilização da câmera – o que a câmera vê (câmera objetiva) ou o que o personagem nos dá a ver (câmera subjetiva) –, utilizando-se em parte da tese de Pasolini. Trata-se não de redefinir o cinema em “prosa” ou “poesia”, mas de identificar o cinema moderno com o “DISCURSO INDIRETO LIVRE”: quem fala não sou eu, nem é o outro, falo pelo outro em meio ao meu discurso, isto é: “EU É UM OUTRO”, tal como a fórmula de RIMBAUD. Com o discurso indireto livre cinematográfico, temos a possibilidade de equacionar o citado dualismo – objetividade/subjetividade – que estaria ainda presente no cinema clássico, constituindo-se como uma característica marcante da imagem-percepção: Suponhamos então que a imagem-percepção seja semi-subjetiva. O difícil é encontrar um estatuto para tal semi-subjetividade, já que ela não tem equivalente na percepção natural. Aliás, a esse respeito, Pasolini recorria a uma analogia lingüística. Pode-se dizer que uma imagem-percepção subjetiva é um discurso direto; e, de uma maneira mais complicada, que uma imagem-percepção objetiva é como um discurso indireto (o espectador vê o personagem de modo a poder, mais cedo ou mais tarde, enunciar o que este espontaneamente vê). Ora, Pasolini pensava que o essencial da imagem cinematográfica não correspondia nem a um discurso direto, nem a um discurso indireto, mas a um DISCURSO INDIRETO LIVRE. Esta forma de enunciação elimina a metáfora, na medida em que torna homogêneo o sistema da linguagem, trazendo muitos problemas aos lingüistas, ao colar na própria enunciação o falante e o discurso de outros. Essa crise de identificação no processo de enunciação seria uma característica geral da arte moderna, em especial na literatura, podendo ser exemplificada pelo romance de James Joyce, ULISSES. Deleuze com esta fi gura do discurso apresenta-nos, já em Imagem-movimento, uma das características fundamentais do cinema moderno: “Eu é um outro”. Em outras palavras, a enunciação se faz através da interseção de falas ou de pontos de vista dos personagens, diluindo-se, assim, a “forma-Eu”. Esse procedimento no plano cinematográfico foi denominado pelo filósofo francês de “CONSCIÊNCIA-CÂMERA”: “Em suma, a imagem-percepção encontra seu estatuto, como SUBJETIVIDADE INDIRETA LIVRE, assim que reflete seu conteúdo numa CONSCIÊNCIA-CÂMERA que se tornou autônoma (‘cinema de poesia’)” . Deleuze, por intermédio da tese de Pasolini, e de Film de Samuel Beckett, apresenta o que é mais essencial na imagem-percepção: sua capacidade de refletir-se (através de uma consciência-câmera) e de buscar o “em-si” do processo perceptivo (a invenção de percepções não-humanas) -----


A crise da imagem-ação...

Os cabelos de Anabelle estavam caídos e dançavam ao sol enquanto ela se movia agilmente. K. e ela comeram sob um pesado silêncio, assim que ele acabou de falar. Sentia, entretanto, que tinha feito uma boa ação, reunindo aquele sistema de idéias sobre cinema de forma tão sucinta e clara diante dela: ----- Pensamento... á medida que o cinema foi se modernizando, foi dando nascimento á um tipo de arte que exigia cada vez mais ''pensamento''(.) sobretudo a partir do que Deleuze chama de ''A Crise da Imagem-Ação: a nova imagem, A IMAGEM MENTAL, que resulta dessa crise, explica-se em termos de pensamento, no sentido de que nela a percepção não se prolonga mais em ação, mas se relaciona diretamente com o pensamento(.) ''a alma do cinema exige cada vez mais pensamento, mesmo se o pensamento começa a desfazer o sistema de ações, percepções e afecções que tinham alimentado o cinema até então(.)'', essa libertação da imagem-movimento ou criação de um novo tipo de imagem se deve ao Neorealismo Italiano, que foi, na verdade, o responsável pela elaboração das cinco características que estão na base da nova imagem mental: a situação dispersiva, as ligações fracas, a errância dos personagens, a tomada de consciência dos clichês e a denúncia do complô(.) os responsáveis por esta ruptura foram Rossellini, De Sica,Fellini,Francesco Rosi(...) Rossellini questionando a grande forma da imagem-ação, com Roma Cidade Aberta (1945) e Paisá (1946) - De Sica, com Ladrões de Bicicleta (1948) e Umberto D (1952) - Fellini com Os Boas Vidas (1953), dando vez ao passeio (o passeio é uma hecceidade) á perambulação aleatória dos personagens. Neles as situações humanas são dispersivas, lacunares, com múltiplos personagens, que ás vezes aparecem como principais, ás vezes tornam-se secundários(...) os italianos tinham uma consciência intuitiva da nova imagem que nascia. Nesses filmes também se interrompe a linha que ligava os acontecimentos uns aos outros - as ligações ou os encadeamentos tornam-se fracos, ao acaso (um agenciamento é precisamente este crescimento das dimensões numa multiplicidade que muda necessariamente de natureza à medida que ela aumenta suas conexões livremente) gerando situações dispersivas: personagens que erram sem reagir ao que lhes acontece substituem a ação (imagem-ação) em que predominava uma situação ''sensório-motora'' (.) o passeio, a perambulação, a errância fazem com que os personagens estejam num contínuo ir e vir destacado da estrutura ativa ou afetiva que estava na sua base(.) não há propriamente uma ação que se desenvolve num espaço determinado, e sim um espaço qualquer, como espaço desconectado ou vazio, em que ainda se denuncia a fabricação de clichês físicos e psicológicos como em (ainda nos anos cinquenta) Viagem á Itália (1954), De Crápula á Herói (1959) e O Xeique Branco (1952),de Rossellini e Fellini, e como exemplo de denúncia de complôs em forma de imposições de papéis pelo poder estabelecido temos O Bandido Giuliano(1961), de Rosi, denúncia de um complô organizado por um poder difuso que faz circular os clichês físicos e psicológicos(.) trata-se do complô de um poder que se exerce sobretudo pela vigilância dos cidadãos em todos os níveis, na qual o controle da informação disponível publicamente e os meios de comunicação desempenham um grande papel, inclusive no que se refere á vigiar os próprios agentes de comunicação e pessoas públicas(.) -----.............................................................................


Close-up...

K. fica ali de pé, olhando e esperando que Phyllis diga: ---- Onde é que estávamos mesmo(?) essa câmera está aqui há horas, olhando pra nós(.) ----, diz; não pode crer que aceitem o resultado da última tomada tão facilmente (enquanto ele apenas olha, a mão dela tranquila e branca (mais dois câmeras já estão instalados na seção de espera da locação: ali é o hall de entrada da frente; pessoas entram e saem a cada instante. K. senta-se numa cadeira de imitação de couro, com braços de metal cromados, e tem a idéia de que está numa delegacia de polícia e que os outros dois câmeras são os detetives que efetuaram sua prisão. Pega uma revista: é uma revista católica no formato da Caras. Tentou ler um artigo sobre um advogado na Inglaterra que ficou tão impressionado com a ilegalidade do ato de confisco das propriedades dos mosteiros por Henrique VIII que acabou convertendo-se ao catolicismo e entrando para um mosteiro ( os dois câmeras agora conversavam em voz baixa, não lhe lembravam mais os detetives do seu conto : o mais moço torce constantemente as mãos e faz um sinal de assentimento à tudo o que o mais velho diz. Phyllis reaparece, piscando os olhos para K. e com uma aparência tensionada (K. estava se esquivando mentalmente, é muito comum entre escritores). Phyllis reaproxima-se, olha-o no rosto e oferece-lhe um cigarro. O efeito é mais ou meos o de uma hóstia. A primeira fumaça do dia, depois de uma noite inteira sem fumar , em meditação. Phyllis sentou-se à velha mesa redonda, onde um vidro de geléia de uva quase vazio tronava no centro de migalhas espalhadas: ---- Eu ainda não lhe mostrei nem a mínima parte do que escrevi(: na verdade, escrevi dois roteiros(: até agora mostrei à todos apenas um(: além do mais , fazer o filme com poucos recursos financeiros está sendo estimulante(: onde o diretor tarimbado faz quinze tomadas, nós gravamos apenas uma ou duas(: isso certamente estimula e aflige um verdadeiro ator, que busca dar tudo de si, pois sabe que não haverá repetição (: e isso também vem libertando nossas imagens da ''síndrome de perfeição fria'' do cinema enlatado com o aspecto espontâneo das nossas realizações(: e filmes de jovens cineastas sempre se parecem bastante com quem os faz, pois são realizados em total liberdade(: os cineastas atuais há muito já perderam o hábito de ''escolher o assunto'' a ser filmado, ISTO É, uma concepção de filme que poderiam trazer dentro de si já não existe(: ao se tornarem um rebanho de vedetes, esses cineastas passaram a ser muito solicitados e quando têm alguma rara iniciativa autoral usam a velha desculpa da injustiça social para rodarem melodramas baratos que só à seus olhos guardam alguma relação com o neorealismo italiano(.) -----, Phyllis ouve K. falar em silêncio, senta-se numa cadeira de praia perto dele e não faz qualquer esforço para interrompe-lo. No momento, K. não pode pensar em muita coisa fora daquele nicho crítico: ---- E se por acaso meu filme choca, NÃO FLUI, não procura simplesmente oferecer um momento agradável aos sentidos, ou um conjunto de coisas pretensiosamente fortes, importantes e urgentes, é porque ele não tem preocupação de bilheteria ou compromissos com as verdades estereotipadas dos livros de sociologia e economia política( -----, agora K. apanha outra revista do cesto, certificando-se desta vez de que não é religiosa: abre-a num artigo cujo autor, que, pelas fotografias, parece italiano, conta como levou a mulher, quatro filhos e a sogra numa excursão de três semanas num camping pelas Montanhas Rochosas do Canadá, que só lhe custou uma bagatela, descontado o investimento inicial num Piper Club. Ms não consegue mais acompanhar as palavras e a cada instante derrapa e se desvia para florescer em rápidas visões em que Phyllis atua em alguma cena de ZERO, a cabeça esvoaçante brotando da luz; às vezes, a claridade barulhenta da locação escurecia por trás dos olhos, e K. contemplava as contorções relembradas a que o desejo lhe forçava de noite: sua vida então lhe parece uma sucessão de poses assumidas com propósitos urgentes na cama (numa onda volumosa, sente-se dentro dágua em correntes de gelatina transparente, fantasmas do gel que ele depositou dentro das mulheres (os dedos passados nos joelhos puxam fios invisíveis e persistentes (K. se aproxima de Phyllis como um vitorioso , o suor fazendo-o arder, numa antecipação cheia de sombras dos cautelosos contatos sob o teto acolchoado de cinza do carro e, uma vez ali, o triunfo da respiração cintilando pela pele calma dela, vincada talvez pelas sombras da chuva de verão no pára-brisas. FATOS CRIAM FATOS. No set de filmagem , Phyllis e Anabelle passavam muito pouco tempo conversando: suas vidas haviam se tornado um ciclo interminável de levantar-se na aurora, trabalhar com intensidade nervosa durante todo o dia e à noite, voltar para os hotéis, engolir com dificuldade o cardápio da nutricionista e então cair na cama com os músculos doendo depois de malhar ( a mente girando para estudar as falas do dia seguinte (uma existência de horas isoladas em tubos de ensaio: a inexperiência pueril de Phyllis, as exigências de Nola para que ela estivesse em frente às câmeras quase que continuamente numa produção cujo orçamento vinha sendo remendado toscamente à medida que o filme avançava, o interminável fuzilamento das meias-verdades e invenções completamente mentirosas a respeito de K. emanando das colunas de jornal através das focas amestradas da fraternidade crítica nacional se movendo em torno do MANUSCRITO dele numa embriaguez de puro terror animal e demencia precoce. A diretora oficial do filme, Nola, uma lésbica quarentona de fala macia, ressentia-se não sem razão de que uma novata (como Phyllis) ''colocada ali'' fosse impingida à ela: ressentia-se de que escritores e fotógrafos de revistas tivessem permissão de entrar em SEU SET para entrevistar aquela bonita e (na opinião de Nola) incompetente não-entidade fabricada de última hora. Nola falava arrastadamente uma ou duas palavras de conselho diretorial para os outros atores, todos tarimbados, e então desabava em sua cadeira de lona, não dando à Phyllis o paliativo de uma única palavra de encorajamento, nenhuma crítica construtiva, NADA, e ordenava rancorosamente novas tomadas (às vezes até quarenta, cinquenta) para as cenas dela. Para Phyllis, tais cenas eram uma paródia. Estava paralisadamente próxima do seu papel. Pela primeira vez,  não podia desaparecer no meio de um trabalho: cada movimento que fazia era rígido. O enfado maldosamente exagerado de Nola, a frieza de Paulo Arlt, o produtor-executivo, ao olhar diretamente para ela quando repetia o quanto já estavam atrasados na programação da filmagem, o testemunho hostil da equipe ante sua eterna inadequação eram às vezes insuportáveis e Phyllis corria do set para o trailer reformado que era seu camarim. ---- O cinema até hoje conheceu três estágios (disse K.) o MUDO, quando o filme era uma realização física, época de Griffith e John Ford(: fazer um filme então era se dispor a fazer tudo, a enfrentar os maiores imprevistos(: o diretor carregava sobre si o peso de um filme e de um material considerável(: devia orquestrar milhares de figurantes(.) ao passar a ser FALADO, o filme tornou-se um subproduto do romance e, sobretudo, do teatro(: transformou-se num produto semi-intelectual(: atualmente o desempenho físico não é o que está em jogo num filme, pois todos os problemas técnicos são resolvidos por uma equipe numerosa e competente(: as cenas são tão bem realizadas quanto as do décimo quinto filme de qualquer grande diretor e o filme inteiro passa a sofrer da ''síndrome da perfeição fria'' (.) -----, na segunda-feira seguinte, a primeira cena a ser filmada foi aquela em que SARA (personagem de Phyllis) ouve seu ex-namorado dizer pelo telefone que vai partir e ela relê a carta de K. em voz alta, evocadora; Phyllis encolhia-se num canto do trailer (a voz erguida numa histérica meia-oitava: poucos minutos mais tarde, sem nenhuma batida, a porta se abriu e K. encheu a moldura da porta, teve que se curvar para entrar. O trailer estremeceu quando ele cruzou a porta e fez aparecer uma garrafa de Southern Confort de dentro de um saco de papel. ---- Pode-se dizer que estamos buscando inovar profundamente a concepção de diálogo do cinema atual(: negativamente, sim ou não, na medida em que reprovamos diálogos que só sabem apresentar personagens mundanos que resumem suas experiências na menor das frases, como em Hemmingway ou Dashiel Hammet(: a fala em nosso filme , pelo contrário, jorra despudoradamente e já ninguém é capaz de diferenciar o que é texto e o que é diálogo real, pois a função ali é captar a verdade e não teatralizar diálogos e gozar de tanta verossimilhança com o resultado final(: se um diálogo tem forma definida, damos-lhe uma forma(: mas se é informe, deixamos ele informe e incompleto, e o espectador é que se FÔDA(: e nada de diálogos do tipo professor e aluno , nada de precisão, o mesmo com a escolha dos assuntos(: estamos realizando um filme em que não acontece quase nada, apenas tentamos captar o movimento da GRANDE DERIVA(:  nem sangue, nem murros, nem dramas, nem violência, mas sequências intermináveis de pequenos incidentes cotidianos que compõem a matéria e a essência do filme(.) ----, Phyllis interrompeu-o: ----- Você parece ter uma necessidade desesperada de enfatizar isto, K(.) ----, depois encolheu-se novamente no sofá-cama. ---- Tenho(: é verdade, TENHO SIM(!) todas essas pessoas ali dependendo da GRANDE DERIVA( -------, as palavras voavam pela boca de K., ditas num tom alto, quase demente. ----- EU NÃO PERTENÇO AO CINEMA (K. acrescentou , e serviu o Southern Confort no copo dágua vazio dela (continuou: ---- Mea Culpa(: que asno eu fui de não prever as dificuldades que você teria nesse papel(: não sou ator, nem diretor, nem roteiristas ou dialoguista(... mas você é uma autêntica atriz até a medula(: ouça, Phyllis, a cena que você tem que fazer ali agora é um close-up(: UM CLOSE-UP MOSTRA PROCESSOS MENTAIS( ----, K. disse, e enfiou o copo de bebida na mão dela: ---- SAÚDE(!) ----, o cheiro era forte demais, como palha rançosamente adocicada. Ela engoliu de um só trago: o líquido saturante desceu asperamente por sua garganta abaixo e seus olhos lacrimejaram avermelhando-se. ----- Mas não tem nada(: eu escrevi o maldito texto(: UM CLOSE-UP(: repito o que está gravado na pedra da lei (isso é tudo na sua cena: um close-up serve para mostrar um pensamento ao público (: basta você pensar de verdade, certo(?) ----, sugeriu K. com certa aspereza. ---- Esse é um pouco o jeito da Nola ser(: ela fica distanciada dos atores até que eles lhe dêem uma boa interpretação (K disse, e serviu mais um copo da bebida para Phyllis: o Southern Confort havia acendido um calor reconfortante no peito dela: ----- Esse é o seu filme, minha bem amada(: só voce pode salvá-lo, nós dois sabemos  disto(: Nola é que se fôda também( -----, a consciência de K, a recordação física dele e a antecipação física do próximo encontro amoroso entre os dois enchia as veias de Phyllis naquele momento; trêmula, transparente e transbordante: a sensação era conhecida. Sua restauração invisível à autenticidade foi realizada num mundo de súbitos moldes em evolução. K. encostou-se mais à ela, e começou a ronronar, um velho truque indígena: uma vibração no fundo da garganta dele chegara aos ouvidos dela. Era um sinal para Phyllis virar-e para ele e mudar o ritmo da respiração automaticamente. ---- Claro que sim(: sou feliz a maior parte do tempo, é esse o meu problema(.) todo mundo espera sempre que eu esteja calma e satisfeita e, que diabos, sempre estou mesmo(: não sei o que há comigo hoje(.) ----, K. escondeu o rosto no ombro dela, e perguntou: ---- Você acha que pode estar grávida de mim(?) ----, ante aquele súbito quadro mental, Phyllis enrubesceu e riu de novo: ---- Não (: o que eu sinto é uma certa relação de proteção que você tem comigo(: Nola é oca e egoísta e sei que se algum dia eu tiver que bater de frente com ela, não haverá nenhuma contemplação, mas também vejo algo de generoso em toda o exibicionismo dela, alguma coisa que está querendo dar ao mundo e ainda não conseguiu(: no set, quando ela põe aquele boné ridículo, de borlas, e começa a flertar com o assistente de direção, há momentos em que tenho vontade de abraçá-la de compaixão, de tanto que ela faz papel de boba(: mas não senti nada disto quando vi você e ela dançando twist naquela tenda à meia-noite, um mais bêbado que o outro(.) -----, ela disse (rindo) e fechou os olhos: parecia que ia fazer o gol que esperava-se dela (o sorriso de K. roçou em seu ombro: ---- Não há nada de errado em se sentir um pouco atingida no set, de vez em quando (: NÃO DEMAIS, O SUFICIENTE PARA SE DESEMBARAÇAR(.) ----, K. disse, e pôs o braço em torno dela, ajudando-a a descer os degraus do trailer. Ela se sentou num banco de madeira, deixando o calor do Southern Confort espalhar-se por ela enquanto o maquilador lhe fazia alguns reparos. Respirando profundamente, entrou então no círculo brilhantemente iluminado. Meia centena de profissionais altamente habilitados fixou-a. Nola suspirou e encostou-se em sua cadeira de diretora. Um certo pânico flamejou dentro de Phyllis como uma labareda. Então ela avistou K. , uma figura maciçamente entalhada em madeira à distancia, magro e forte, piscando para ela enquanto batucava na coxa, pensando: ----- Pessoalmente, eu me recusaria a fazer um filme com mais de duas vedetes(: atrizes famosas geniosas costumam decidir coisas do roteiro ou retifica-lo, caso não gostem dele(: não hesitam em impor-se à distribuição ou em recusar certos parceiros de cena (: influenciam a direção pesadamente, como Anabelle faz com Nola toda hora, exigindo planos mais abertos(:  ----, (pensamentos: contudo, ela ria indulgentemente, quando murmurou: ---- Estou pronta(.) ----, o homem dos efeitos especiais fez um telefone tocar. Phyllis entrou em cena e ergueu o gancho PENSANDO se a primordial detonação daqueles pensamentos estavam de fato ficando visíveis na tela (mantêm-se absolutamente paralisada enquanto outra voz matraqueia sem parar) ESTOU FICANDO ROUCA -- ''Ele' (como posso dizer) forma um todo comigo, da mesma maneira que o gavião entre as nuvens, planando nas correntes de vento à caminho de casa, FORMA UM TODO COMIGO, e o meu nascimento e a minha morte -- SIM, MEU AMANTE FORMA UM TODO COMIGO SEMPRE QUE CONSEGUIMOS MEIA HORA A SÓS (os cabelos de K. são mais loiros no alto, de tomar sol no asfalto (ele construiu uma estrada marginal para manter os carros longe do CHAKRA, prevendo o tempo todo que isso será uma verdadeira cidade com muitos milhares de habitantes, uma próspera alternativa para a vida atroz e suicida que as pessoas levam hoje nas metrópoles(.) DEU PARA OUVIR O BARULHO DA SUPERSIRENE(?), é uma velha buzina de cerração que pertencia à um barco em Ilhéus(: usam ela para nos chamar para o jantar ou em caso de guerra nuclear(: é possível ouvi-la a quilômetros de distância, até nas plantações de cana, e me lembra aquele triângulo de mar pelas janelas, TODOS OS DIAS, TODAS AS HORAS, tinha uma cor ligeiramente diferente sempre, reagindo  ao vento, ao céu, ao meu estado de ânimo (.) -----, Phyllis deixou que algumas lágrimas escorressem pelo seu rosto: não podia dizer se estava projetando uma habilidade de interpretação ou uma boneca de papier-marchê, mas pela primeira vez, desde que assinou o contrato com a Moto-Contínuo Filmes, compreendeu o que estava fazendo. ----- CORTE(!) COPIE ISTO (!!) ----, gritou Nola subitamente numa voz empolgada e estimulante para o assistente de direção (ergueu-se de sua cadeira de lona, trazendo na mão uma caixa de lenços de papel), e acrescentou: ---- Eu raramente uso uma primeira tomada, mas essa foi simplesmente perfeita, Phyllis (: PERFEITA(!!) ----, abaixando um exemplar antigo do  Hollywood Reporter, K. piscou de novo para Phyllis, de longe, que lhe lançou um olhar de gratidão. Depois disto, ela foi capaz de entrar no set todos os dias e mergulhar em suas pungentes lembranças. K. aparecia ainda com frequência, saído dos limbos do MANUSCRITO.  Naquele dia, Phyllis estava tensa demais para ir à cantina onde os outros almoçavam: assim, K. encomendou os espessos sanduíches vegetarianos de que Phyllis tanto gostavam. À noite, quando assistiam ao copião, ele disse calmamente: ----- Você é linda(... mas muitas outras moças também são(: SÓ QUE VOCÊ TEM AQUELE MAGNETISMO EXTRA(: Deus sabe o que é, e nenhum mortal ainda conseguiu lhe dar um nome(.) quando você está na tela, ATRÁI O OLHO(: e isso, Phyllizinha, é o que faz uma estrela de cinema(.) ----, Phyllis fixou a tela, incapaz por um momento de compreender o que K. queria dizer ( tudo o que via era uma enorme imagem dela mesma andando às tontas em cada movimento). No fim das filmagens daquele dia, K. sentou-se perto de Phyllis no set (Phyllis não havia percebido até aquele momento o quanto de si mesma as câmeras haviam captado (viu uma moça dançando com o namorado sob luzes oscilantes, viu seu vôo selvagem pelas ruas vazias para estar com ele uma vez mais, e viu também o corajoso rosto estilhaçado dele voando pelos ares no seu sonho em torno dela e mudo ( um momento de silêncio, aplausos (UM VIVA PARA O MELHOR FILME DO ANO). ''Descoberta sensacional, esse pessegozinho, tão luminosa quanto Ingrid Bergman (VOCÊ BRILHOU COMO UMA ESTRELA!!, diziam). Com o tempo, formou-se entre Phyllis e Nola um fino verniz de amizade profissional, mesmo assim ela não sabia como responder ao macio tom respeitoso com que passou a ser tratada por Nola. ----- Podemos ir (Phyllis perguntou à K: ----- Poque não(?) -----, era uma úmida e quente noite de outubro e as poucas luzes na rua do set brilhavam através da maresia como halos de arco-íris (ESSA MENINA PHYLLIS PODE SER COMPARADA À VIVIEN LEIGH) essa menina: EU, pensou Phyllis (eles estão falando de mim do modo como falavam de Vivien Leigh, antigamente). A exaltação aqueceu-a brevemente; depois, não levou em conta a observação, da mesma forma como não tinha levado em conta os louvores de Nola. Era a primeira vez que Phyllis tocava a coroa de louros do sucesso, mas tanto naquela noite quanto pelo resto da sua vida a humildade que sentia em relação à sua profissão faria com que qualquer cumprimento, dali por diante, por mais sincero que fosse, soasse falso ao seu espírito. ---- Ouviu isso(?) ----, perguntou K: ---- As pessoas se sentem na obrigação de dizer algo simpático nas exibições de cenas dentro de um set ou estúdio(.) ----, ela respondeu, rápida no gatilho. Então K. pensou satisfeito que aquele ego estava realmente sob controle (deu um sorriso, pegando-lhe pelo braço: ---- E então(?) ----, K. puxou-a para o portão mergulhado na sombra de um edifício de contabilidade (e então?), pensou Phyllis, sua mente encheu-se rapidamente de uma lembrança não muito recapturável, o trêmulo momento em que havia beijado K. do lado de fora do seu apartamento, no Sutton Palace, em Salvador, e do cheiro vigoroso de um limoeiro vindo não sabia de onde... seus lábios se abriram maciamente, de novo, como naquela noite. Depois, Phyllis e K. rolaram de carro pela avenida até o motel mais próximo, cujo nome piscava em letras verdes: The Lanai


A GRANDE FORMA

K. percorre a maior parte do caminho até a locação onde será gravada a cena em que Hester e Sara (personagem de Phyllis) passariam o dia inteiro fazendo testes Rorschach e de personalidade para os citadinos verem se elas eram suficientemente boas da cabeça para trabalharem na creche comunitária da cidade por um mês (explicaram) ; K. agora sobe um quarteirão e passa por um freezer de Summers, desce uma esquina panorâmica, uma rua paralela e a Prefeitura ao norte, uma rua de casas de cômodos de tijolos e casas de comércio que ainda restam, tendas de sapateiro que ainda cheiram secretamente a couro, lojas de bombons escuras, agências de companhias de seguros, que mostram nas vitrines fotografias dos prejuízos causados pela enchente do ano passado, escritórios de corretores de imóveis com letreiros dourados, uma livraria. A Rua Nanouk atravessa os trilhos da estrada de ferro por um velho viaduto cheio de rachaduras. A estrada passa por entre muros de pedra enegrecidos, abrandada pela fuligem ao sol, como se fosse musgo através do centro da cidade, as tiras de metal no fundo da sombra das árvores como um rio, recebendo leves matizes rosáceos de poentes das luzes de gás neon das espeluncas para viajantes à margem da Rua da Estrada de Ferro. De repente sobem até seus ouvidos sons de música e palavras de Anabelle ou Hester, ao longo do caminho: '' Poucos minutos antes de sair para enfrentar a parada indigesta que seria aquele jantar com o grupo de tensegridade(: um trabalho maravilhoso aqui com a Cleargreen para tentar organizar as coisas, mas o magnetismo espiritual de K. extravasou a capacidade das instalações(: se exige que um camping planejado para quatrocentas pessoas abrigue e alimente agora quase mil, com uma porção de visitantes diários e farejadores nos fins de semana(: mas ontem à noite, andando quilometros adentro na trilha da cachoeira, descobri  um lugar onde posso ser eu mesma durante algumas horas, embora alguns líderes da tensegridade tivessem comentado minhas escapadas dizendo que o desejo de privacidade era muito pró-ego e anti-ashram(: eu não sei bem(: o Buda Gautama mesmo estava sempre fazendo algo do tipo e o próprio K. nunca nos disse para irmos a parte alguma em bandos barulhentos como alguns dos ''sannyasins'' parecem querer(: é óbvio que é preciso estar sozinho de vez em quando e o esforço energético isolado é a única coisa que realmente pode multiplicar a energia vital de alguém além do padrão meramente humano(: quando penso em todos os dias que me agitei pela minha velha casa matrimonial indo de quarto em quarto para me animar, esperando meu marido voltar do trabalho ou ao menos alguém telefonar, vejo que perdi um tempo precioso em que poderia ter praticado algumas técnicas de ocultismo(: quatorze cômodos e quatro banheiros e seis mil metros quadrados de jardim só para mim, por um lado parecia obsceno e fútil, mas por outro , uma espécie de falso paraíso(: não é engraçado como o paraíso se encontre sempre no passado ou no futuro, nunca exatamente no presente(?) não pode haver felicidade no presente enquanto o ego falante existir usando os outros para fazer suas projeções(: hoje, temos K, e nada ou ninguém além deste nagual para apontar o caminho(: o ego é como um punho que se descontrái dentro da gente, depois de ficar fechado e socando inutilmente madeira cheia de farpas durante anos''. As pesadas pranchas do velho viaduto, agora, enceradas de preto pela fumaça das locomotivas, retumbam sob os pés de K. Corre mais depressa: a calçada se alarga, os medidores do estacionamento começam: corta caminho pelo beco entre a Associação Cristã de Moços e uma igreja de pedra, cujas janelas com vitrais mostram à rua o avesso de cenas bíblicas: uma luz verde de aquário: pisa agora as sementes polpudas de alguma árvore: as folhas tropicalmente estreitas são espigões pretos sobre o fundo amarelo do céu sombrio. Então K. pára rigidamente na pequena sombra rabiscada no asfalto para olhar no alto a rocha celeste que reflete com brilho metálico a pedra que se formou dentro da sua pele quente ao longo da caminhada de quilometros. Acende um cigarro. Escreve num bloco de mão: ''Jean Genet: ele é autor de um livro que talvez seja o texto europeu mais contundente do século XX sobre desobediência e liberdade, que é o livro Diário de Um Ladrão(: hoje me parece inacreditável que o único roubo que cometi na vida tenha sido justamente o do exemplar deste livro da biblioteca púlbica do meu antigo bairro, três meses depois de ter me alistado no exército(:  é provável também que este livro tenha despertado em mim o gosto pelos diários e crônicas(: enquanto fui soldado, escrevia diariamente em meu diário no quartel, e me lembro perfeitamente do dia em que fui preso por desacato neste mesmo maldito quartel(: o Armeiro se levantou do chão com um cigarro na boca e me convidou para um sparring na grama em frente ao galpão dos tanques, valendo algo como cinquenta reais(: ---- Vamos boxear um pouco, garoto(.) ----, mas não só nisso se resumiu aquela noite, e eu vim a ser preso em função do caos que se seguiu entre os apostadores no final da luta. O Armeiro estava bem mais alcoolizado que eu, essa é que era a verdade, e distribuiu cigarros de maconha para os outros soldados antes de começar a luta(: não era uma luta, mas um sparring pontuado, uma sombra de boxe à valer(: apenas punhos, nada de chutes ou golpes abaixo da linha da cintura(: não me saí nada mal, com apenas duas doses de conhaque e um gramado inteiro ao ar livre sob o luar com espaço suficiente para circular(: lutamos então, eu e o  Armeiro, para agoniante diversão e consternação de todos em volta, um bando de animais barulhentos e analfabetos(: me senti mesquinho assim que o alcacei com dois murros nos clinches improvisados e segui martelando-o à vontade com uma sucessão de jabs tortos, mantendo as mãos abertas e acertando em cheio aqui e ali, ele lento e desprevinido como um bêbado(: então, o Sargento veio com sua gangue e um terrível tumulto se formou à nossa volta(: juntos, ao final, eu e o Armeiro devíamos ter socado umas vinte cabeças, fomos presos e ficamos sem nosso dinheiro(: minha passagem pelo Exército foi o que me afastou do cinema durante algum tempo, mas eu mantive um contato mental com os filmes que já tinha assistido  fazendo anotações num diário, colocando cruzes ao lado dos títulos dos filmes que já tinha assistido várias vezes e escrevendo sobre os roteiros dos mesmos(: tinha assistido mais de cinco vezes filmes como A Regra do Jogo (La Règle du Jeu ), Romance de Um Trapaceiro (Le Roman d´un Tricheur) ou O Vampiro de Dusseldorf (1931), de Fritz Lang, e todos, absolutamente todos os filmes de Buster Keaton, até mesmo os que não tinham legendas (eu não entendia muito bem inglês na época (: lembro que quase saí na porrada com o bibliotecário negro (de quem era amigo, embora o achasse insuportável)  que fazia a projeção dos filmes defendendo a polêmica idéia de que Buster Keaton era um gênio maior do que Charles Chaplin, terminando minha análise falando praticamente sozinho (na sala de projeção vazia), comparando o CÔMICO de Chaplin ao de Keaton, defendendo que a originalidade deste foi inscrever o CÔMICO na GRANDE FORMA, preencher a GRANDE FORMA (que diabos é isso de ''Grande Forma'', ele me perguntava a todo instante, e eu começava a rir e nao respondia) preenche-la com um conteúdo burlesco que ela parecia recusar(: ''ela que quem caralho(?!), ele perguntou, puto(:  A GRANDE FORMA KKKKKKKKKK(: para Keaton (eu disse a ele, quase berrando, sem tirar os olhos da tela, onde estava sendo projetada pela quinta vez seguida na mesma semana, à pedido meu, A GENERAL(: para Keaton (continuei) o herói é um ponto minúsculo num meio imenso, corrupto e catastrófico(: BOXE POR AMOR (1926) também foi projetado três vezes seguidas numa mesma semana(: apenas eu assisti(.)''. (CORTA ---- uma vez que as arestas de ansiedade do elenco do filme tinham sido aparadas pela diretora Nola, Phyllis e Anabelle perceberam em silêncio que a união entre Nola, Paulo Arlt e K nos bastidores de algum acordo secreto tinham transformado toda aquela engrenagem cinematográfica numa fábrica de loucura audio-visual gratuita: a Moto-Contínuo Filmes empregava agora um grande grupo de pessoas altamente nervosas para manter elevada a moral do elenco e trabalhava paralelamente com outros filmes com todo tipo de orçamentos, obtendo lucros anormalmente pequenos. Os eixos do carro estavam sendo retirados em movimento. Nola havia tentado ser uma estrela da Moto-Contínuo Filmes há uma década atrás,  mas, para sua decepção, o estúdio não havia feito qualquer esforço por ela: Paulo Arlt a tirou da cabeça logo que ela passou à outro departamento da produtora, que treinava o  ''talento'' das candidatas: mas eles também não haviam despendido despendido nem mesmo o esforço de modificar-lhe o nome, e Nola alinhou-se como mais uma atrizinha boba, bonita e jovem, cuja opção contratual poderia alijá-la no fim de alguns meses: sua publicidade consistia, na época, apenas de uma foto que exibia suas adoráveis curvas num biquini de duas peças, foto que, mais do que torná-la sexy, mostrava-a luminosamente vulnerável. Para se vingar espiritualmente do fracasso, tornou-se uma competente diretora, que mesmo assim nunca possuiu o ímpeto patológico indispensável ao sucesso : numa cidade de belezas femininas vorazmente ambiciosas como o Rio de Janeiro, ela chegara àquele ponto apenas pelas manobras aguilhoantes de Paulo Arlt, com quem teve um caso no passado. Entre todo o elenco do filme, a opinião geral era de que ela era uma mola absolutamente descartável da engrenagem fellinniana de ZERO, e se limitava a ficar por perto durante as filmagens em que havia algum figurante apanhado de improviso na rua para fazer uma ponta sem fala no filme. Para ela, a ossuda e elegante participação de Phyllis no filme era terrivelmente opressiva, em função da sua juventude, beleza , fortuna e do seu caso com K (um esgarçamento monstruoso no alto de uma estrutura de interesses no qual ela vinha sendo sistematicamente pisada e humilhada desde os vinte e cinco anos de idade). Bem cedo naquela manhã, Phyllis e Anabelle já estavam na locação onde ZERO continuaria sendo filmado: nessa tomada, Phyllis faria o papel de outra personagem, diferente da SARA que vinha encarnando: esse minúsculo papel era o de uma hippie mundana francesa, colaboradora e dura: no seu apertado vestido estampado com motivos hindus, com o cabelo elaboradamente enrolado no alto da cabeça, usando maquilagem de palco (Pan Cake laranja, cílios falsos e um batom quase negro) ela parecia uma doce e triste criança forçada a viver na beira da praia pelas mais sombrias circunstâncias da vida. Sentava-se numa cadeira de dobrar bem fora do alcance do enxame de atividade técnica que rodeava uma inconsistente ''brasserie'' sem teto e parede de frente. O encarregado dos acessórios endireitava o interior sob a voz estridente e escrupulosa de uma saudável e madura continuísta. A personagem de Phyllis agora tinha que insinuar coleantemente suas nádegas através da ''brasseire''; por isso, ela fixava as mesas de mármore, imaginando suas ondulações: ----- Sinto falta de você (Phyllis disse para K.) ---- (eu também, K. respondeu ----- Então o que é que há(?) ---- K: ----O que é que não há, você quiz dizer(...) ----- Phyllis: ----O que é que ''não fiz'' de errado, K(?) ---- K: ----Nada (disse ele), nada que eu tenha planejado, é só que as coisas agora estão mais ativas (: começou o verão, certo(?) ---- Phyllis: ----- Sabe, as vezes me irrito com esse seu jeito, tenho vontade de tornar as coisas realmente difíceis para você(.) ---- K: ---- É o que talvez você faça, em breve(.) -----, manchas amarelas passavam pela nuvem preta e cabeluda da peruca da personagem na cabeça dela. Não, não nos interessa, não é da nossa conta saber exatamente o que ela respondeu e se foi justa ou não a comparação que fez de K. com o protagonista do filme Permanent Vacation, de Jim Jarmusch. Phyllis tinha adquirido e conservado até aquele momento a habilidade de perder-se num papel; por outro lado, não estava conseguindo de modo algum superar a DR insólita que tinha tido com K. há poucos minutos. Desde o começo sonhava com K, mas nunca com nenhum tipo de plano para o futuro, a felicidade que tinha com ele era no presente, e nos últimos dois meses seus sonhos noturnos tinham adquirido uma dimensão cruelmente sexual: Phyllis acordava excitada e transpirando, a respiração rápida, as coxas apertadas uma contra a outra. Essas uniões com K. em sua mente não pareciam meros sonhos: não se apagavam ou mudavam insubstancialmente à maneira dos sonhos: eles abrangiam sua carne com uma verossimilhança sensorial tão completamente delineada que Phyllis tinha começado a acalentar uma crença furtiva de que a comunicação com K. se dava em vários níveis de significado simultâneos. Ela deu um tênue suspiro, sentindo que K. emergira de uma tela de fundo ali perto e a estava observando atentamente: ele pôs um cigarro meio amassado na boca, acendeu-o e expirou uma baforada comprida para o alto; seu lábio inferior estava saliente como um bico de chaleira, vazio, e sentiu que K. procurava uma resposta à tudo aquilo que não a constrangesse, e lembrou de algo que K. contou na noite anterior: ----- Eu voltei à frequentar a sala de projeção de filmes antigos da biblioteca pública do meu bairro depois que voltei todo machucado e com algum dinheiro da minha primeira temporada de mergulho numa zona clandestina de garimpo, na Bahia mesmo(: porque eu ainda lia livros sobre cinema e vivia falando de filmes antigos com as pessoas e não podia mais admirar Pierre Fresnay depois de ter descoberto, em apenas três meses, James Stewart, Gary Cooper, Spencer Tracy, Cary Grant, Humphrey Bogart, Peter Lorre, Mickey Rooney, John Garfield(: eu tinha descoberto  ''Zero em Comportamento'' (Zero de Conduite), O Atalanta (L'Átalante), A Regra do Jogo (La Régle du Jeu) e, na biblioteca pública, tudo o que havia sido feito por Griffith, Stroheim, Murnau(: ERA FANTÁSTICO(!!) -----,  após a primeira tomada, Phyllis teve que rir da expressão de K., antes de pedir delicadamente: ---- Me solte, você está me emagrecendo(... ----, mas K. apertou ainda mais a cintura dela, brincando: ---- Ainda resta muita coisa para acontecer entre nós, antes da GRANDE DERIVA nos separar(.) ----, deviam ter conversado um pouco mais a sério sobre aquilo, mas o verdadeiro significado do resto do que disseram permaneceu escondido na mente de K.  por trás dos véus vibrantes de mosquitos cor de pólvora, o calor nos pés, a figura do pescador presidindo a cena entre Phyllis e o empresário de férias que se apaixonava subitamente por ela na outra margem e era dispensado no final da cena (o pescador sua vara e seu reflexo na água como os dois lados de um arco precário. Embora em algumas manhãs de gravação sem importância ela desejasse que seu telefone tocasse para ouvir a voz de K. dizendo que estava por perto, ficou grata à ele por levá-la à sério e por continuar à aproximar-se dela em algumas tomadas para dirigi-la em segredo, como se ela ainda tivesse algum segredo irresistível para revelar-lhe. Ao todo Phyllis estava profundamente satisfeita com o caso deles, e ao vestir suas roupas íntimas novamente após cada noite que pasavam juntos pensava com carinho na aventura que estavam vivendo; julgava-se enriquecida e mais profunda na medida do normal: arriscara-se ao perigo e colhera sabedoria: mais completa e tolerante: ---- Não acha que é o melhor para nós dois(?)  ----, o pescador distante torceu a vara e os pássaros das árvores em volta deles soltaram um chuveiro de comentários. Os sacos de compras junto ao cotovelo dela farfalharam: o sorvete derretendo-se, as caixas de suco de laranja esquentando-se ao sol. ---- Os casos de amor  (disse K.) exigem muito, como tudo o mais(: todos nós queremos um alto preço só pelo fato de existirmos(.) ----, no canto de sua visão abstraída, moveu os olhos: Phyllis recuou, esperando o começo da segunda tomada. Fingindo decisão, K. apagou o cigarro num pedaço de papelão, e permaneceu imóvel, acompanhando a performance de Phyllis em cena apaixonadamente: ele realmente tinha algo de clarividência: o episódio, como a frenética peripécia de um seriado, mostrava muito claramente a ruptura entre o passado e o futuro: sob seus olhos, os ectoplasmas do seu MANUSCRITO abandonavam os espelhos mágicos do romance gótico que tinha escrito, a fantasmagoria, as sombras chinesas do kung-fu, para se tornarem, em Phyllis, uma coagulação de átomos fosforescentes da quarta dimensão: à golpes de eletrochoques dramáticos, aquela espécie de holograma era evidentemente o anjo anunciador da televisão e suas telas de controle: demonstração de que a realidade podia ser decomposta e recomposta à vontade: que ela tampouco se limita à uma existência dura sempre colocada em questão, e que talvez ela também fosse, para além daquilo, alguma coisa construída por um hiper-sábio oculto, um Jivan-Mukta que lhe podia a qualquer momento torce-la, agitá-la, perturba-la e embaralha-la de todas as maneiras. NO MESMO INSTANTE, A COISA SE PRODUZIU(: foi brusco, imediato! Aquilo jorrou de uma vez das profundezas de Phyllis (alguns alinhavos com uns poucos parágrafos aglutinadores: toma conta da tela imagens em cores de um deserto, sob a qual vemos alguns créditos e títulos. Em seguida imagens em preto e branco de uma praia aparentemente vazia intercaladas com imagens descontínuas nos mostram dois encontros entre jovens, servindo de prenúncio para o que a cena irá retratar. Inicia-se então a primeira parte da cena, na qual é anunciada, através de um turista banal e saltitante que parece querer voar, a chegada de uma forasteira ilustre, que se hospedará na casa de pousada a beira mar e que, por conta de sua presença, acabará por esfacelar com os valores e estruturas presentes naquele ambiente. Enquanto cuida do jardim, a empregada se incomoda com a figura da visitante (Phyllis) que está lendo e escrevendo confortavelmente no quintal, e então corre para dentro de casa retirando seus brincos e beijando uma imagem religiosa ao lado de seu espelho, numa clara alusão a toda repressão a que a personagem se impõe, tanto sob uma perspectiva moral (a de retirar os brincos para não incitar sua sensualidade) quanto de uma perspectiva religiosa (a castidade e o pecado). Ao perceber que mesmo assim a visitante forasteira continua atraindo-a, ela corre novamente para a casa, mas a forasteira então salva-a, leva-a para o seu quarto e consuma o ato sexual, citando trechos da obra de K. Quando se dá o fim da estadia e a forasteira abandona a casa, inicia-se a segunda parte da rápida trama com a completa ruptura de toda a estrutura narrativa que unia aquela história à história principal. A forasteira muda-se para o interior, onde passa a se alimentar de ervas e a operar milagres nas montanhas de uma reserva ambiental. A empregada percebe-se lésbica e entrega-se a pintura abstrata. O empresário de férias fica catatônico e é levado para um hospital de loucos. K. passa a sair pelas ruas à noite à procura de garotas, e por fim se despede em uma estação ferroviária e caminha em direção a um mirante marinho, onde aquela sequencia de cenas se encerra com seu passo libertador(: as unhas esmaltadas de Phyllis faziam pressão no tecido estampado que lhe cobria as coxas: um espetáculo que jorrava de um mulher em cena assim como de uma camada de horizonte cinzento escuro que não tinha mais de dois ou três centímetros de largura na tela ao fundo. Mas dou aqui a sensação que o próprio K. experimentou, que foi a mesma que toda a equipe de produção do filme experimentou ao mesmo tempo, com a mesma nitidez, a mesma certeza e o mesmo espanto. Nada há para contestar neste fato indiscutível: aquilo jorrou das profundezas cavadas por Phyllis no close oceânico da matéria e apareceu diante de todos brutalmente, como o clarão de um farol que se acende no fundo de um espessa treva. Quando K. avançou em direção à um espelho, percebeu que sua imagem agora também jorrava do fundo daquele horizonte subitamente descoberto através de Phyllis. Mas, ao mesmo tempo, não era sua imagem : o que ele via era... ---- Ok, eu levarei você em casa quando a filmagem de hoje acabar(.) ----, K. disse à Phyllis, no intervalo entre as tomadas; o intenso bronzeado do deserto no rosto de K.  de algum modo acentuava diante dela o poder espiritual da sua presença alta, ossuda e espessa. ---- Tudo bem(.) ---, Phyllis respondeu (K. sorriu , contente ---- Vejo você no portão principal , às 19:00h(.) ----, e ele esperou no quente crepúsculo pacientemente, meio cego pelos faróis dos carros de apoio da Moto-Contínuo Filmes que entravam e saíam sem parar por aquele portão: o vento úmido golpeando suas canelas e pescoço (---- Posso lhe mandar minhas coisas novas de vez em quando (: SÃO SÓ PARA VOCÊ(.) ---- Seus textos(?) ----, ela respirou profundamente como fazia para acalmar-se diante das câmeras ---- Não é permitido (disse K, rindo) segundo o contrato, nenhum choro de verdade fora de cena neste filme, não até que façamos de você uma estrela(.)




VENHO ESCREVENDO ''KOERENTE'' COM K

UMA PROSA PODE APODRECER COMO UM FILÉ COM FRITAS. HÁ MUITOS ANOS QUE ASSISTO AOS INDÍCIOS DE PODRIDÃO NA MINHA PROSA. COMO EU , TEM SUAS ANGINAS , SUAS ICTERÍCIAS, SUAS APENDICITES, SEUS CÂNCERES, SEUS INFARTOS, MAS SEMPRE ME EXCEDE NO CAMINHO DA DISSOLUÇÃO FINAL . DEPOIS DE TUDO , APODRECER SIGNIFICA TERMINAR COMO A IMPUREZA DOS COMPOSTOS E DEVOLVER OS SEUS DIREITOS AO SÓDIO , AO MAGNÉSIO , AO CARBONO , QUIMICAMENTE PUROS. MINHA PROSA APODRECE SINTATICAMENTE, E AVANÇA ----- COM MUITO TRABALHO ---- PARA A SIMPLICIDADE. CREIO QUE É POR ISSO QUE JÁ NÃO SEI ESCREVER A A PALAVRA ''COERENTE ''. VENHO ESCREVENDO ''KOERENTE'' COM K . UM ENCABRITAMENTO VERBAL ME DEIXA A PÉ POUCOS PASSOS MAIS ADIANTE. FIXER DES VERTIGES. QUE BONITO ! MAS SINTO QUE DEVERIA FIXAR ELEMENTOS. O POEMA EXISTE PARA ISSO, E CERTAS SITUAÇÕES DE ROMANCES OU CONTOS. O RESTO É TAREFA DE RECHEIO E NÃO ESTÁ ME SAINDO BEM NO MOMENTO.

----- SIM, MAS OS ELEMENTOS SERÃO O ESSENCIAL ? FIXAR CARBONO VALE MENOS QUE FIXAR A HISTÓRIA DOS GUERMANTES .

----- CREIO OBSCURAMENTE QUE OS ELEMENTOS QUE APONTO SÃO UM TERMO DE COMPOSIÇÃO. O PONTO DE VISTA DA QUÍMICA ESCOLAR SE INVERTE. QUANDO A COMPOSIÇÃO CHEGA AO SEU EXTREMO, O TERRITÓRIO ELEMENTAR ABRE-SE. OLHÁ-LOS E, SE POSSÍVEL, ''VÊ-LOS'' ...

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