quarta-feira, 16 de julho de 2014

MUDAR A VIDA

É uma história intrincada, mas podemos resumir o assunto parafraseando a retificação superadora que RIMBAUD fez a MARX: ''NÃO SE TRATA DE MUDAR O MUNDO E SIM DE MUDAR A VIDA'' (o escritor argentido Ricardo Iribarren nos recorda ainda uma outra possibilidade (igualmente) 'tradicional':a de mudar DE mundo.
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Assim como a linguagem científica abre campos de conhecimento, a linguagem não-instrumental, não-discursiva da criação poética, abre outros campos de experiência do real. Entender o inconsciente como consciência não-discursiva ajuda a esclarecer a modernidade de um Hölderlin, um Nerval, Lautréamont, Corbière, Germain Nouveau, Jarry ou Artaud. Permitindo a intervenção do inconsciente, rompem com o discursivo: rompem com o discurso da sociedade.  Por isso falo em tomá-la como meio de conhecimento, e não apenas como algo a ser interpretado, como objeto do paradigma clínico ou de uma teoria literária. A inserção consciente de Antonin Artaud na tradição da ruptura acentua o caráter universal de sua contribuição, por mais que esta se tenha manifestado de modo particular, irredutível, que não permite uma escola ou doutrina de seguidores, apesar da sua influência em tantos campos da modernidade: teatro, poesia, contracultura, antipsiquiatria. É universal por expressar contradições fundamentais, entre o sujeito e o mundo que lhe é exterior, o imaginário e o real, o absoluto e o contingente, o poético e o prosaico.
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A ciência admite a intuição poética - enquanto a imaginação é o conducto ou a ferramenta epifânica para descobrir ou levantar o véu da natureza e do que ela esconde. Que exista uma unidade subjacente da qual emergem os fenômenos que percebemos como a realidade é algo que foi proposto por diversas filosofias místicas em diferentes tempos e tradições. Um exemplo é o conceito de vazio e ilusão do hinduismo que foi tomado por Arthur Schopenhauer para conceber seu sistema baseado em um Mundo de Vontade e um Mundo de Representação. A filosofia de Schopenhauer tem seu avatar na física com a Ordem Implicada e a Ordem Explicada proposta por David Bohm..
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A palavra “tradição” costuma ser usada para encobertar muita coisa negativa –moralismo, convenção, atavismo, opressão. Muitos impostores se beneficiaram do caráter aberto da Sociedade Teosófica, por exemplo, pra logo depois fecharem as suas entidades e se auto-proclamarem qualquer coisa acima das outras, provando não serem bem intencionados, mas antes uma espécie de aproveitadores baratos, através das tergiversações e redundâncias doutrinais que buscaram catalogar para tirar proveito. Já os legítimos mensageiros espirituais tratam é de aprofundar o conhecimento já existente sem nenhum interesse pessoal, inclusive na dimensão pragmática e oculta, para ao mesmo tempo dar-lhe abertura social responsável. 
Assim, aqueles que pensam e lutam seriamente por um novo ciclo do mundo, têm o dever de buscar “a síntese da ciência, da religião e da filosofia” numa base criativa e artística, ao invés de tergiversar na especulação através de jogos mentais academicos, moralistas e infrutíferos, que é uma forma esotericamente improdutiva de subordinar o mental ao emocional. 
O Esoterismo mais elevado também deve abrir a sua linguagem.
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Uma nova teoria científica sugere que por trás das coisas, do mundo das aparências e dos objetos, jaz um mar de energia radiante onde inclusive as partículas atômicas se diluem em uma unidade holográfica. Desde o início da física quântica foi observado uma espécie de carreira intra-espacial para chegar ao fundo da matéria e definir um limite: um ladrilho fundamental (building block) do qual tudo se constrói. Esta empresa atômica é a essência da ciência: segmentar um fenômeno até seu mais mínimo denominador para poder analisá-lo como uma entidade separada. Mas o que sucederia se não existissem as entidades separadas, se as partículas e os fenômenos que integram fossem apenas uma percepção superficial de uma realidade mais profunda, como uma onda em um mar sem fundo? Provavelmente nos veríamos abrumados, como em uma miragem que mistura o limite entre o céu e a terra. Ao mesmo tempo em que estaríamos nos aproximando de um entendimento mais profundo da matéria - nos aproximando talvez, á crista da sede de totalidade, ao levar a sensação oceânica do mistiscismo a um corpo de conhecimento científico. 
A teoria quântica adverte que existem campos de energia que permeiam o universo, os quais se comportam em ocasiões como partículas e em outras como ondas. Nova evidência sugere que as partículas e as ondas que medimos são somente a manifestação superficial do mar e das ondas e as partículas a turbulência nessa superfície. Cientistas de Harvard e da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara consideram que o nível superficial de descrição do mundo sub-atômico já não é suficiente para descrever todos os fenômenos. Estudando uma estranha forma de matéria conhecida como ''cuprates'' - metais que contém cobre e que exibem a propriedade de super-condutividade em altas temperaturas - , concluíram que a matéria sub-atômica parece estar refletindo uma série de propriedades mais profundas, que poderiam estar ''vibrando'' em outras dimensões, em sintonia com os postulados da teoria das cordas. 
Esta correspondência multidimensional de eventos foi demonstrada pelo físico argentino Juan Maldacena, quem logrou correlacionar matematicamente eventos diferentes sucedendo-se em 3-D com eventos em regiões de 2-D (eventos em 4-D correspondem a eventos em 3-D e eventos em 5-D com eventos em 4-D, e assim sucessivamente). Segundo este modelo a massa e as propriedades macroscópicas correspondem á vibrações e interações de diferentes formas de matéria (possivelmente a espectral matéria escura) e forças que surgem das conexões das cordas - ás quais vivem dentro desse mar metafórico. Isto se conhece como dualidade holográfica, segundo denominou Maldacena em 1997: a superfície bidimensional deste mar seria descrita pela mecânica quântica; os eventos dentro do mar seriam descritos pela teoria das cordas, se traduziriam matematicamente em eventos na superfície e incluiríam a força da gravidade. Paradoxalmente, quando a superfície do mar imaginário se encontra em calmaria, isto é reflexo de complexidade e agitação interna (a tranquilidade é resultado de uma grande quantidade de energia). A maioria dos objetos materiais têm partículas relativamente estáveis , pelo que ao que parece são o resultado de uma espécie de tormenta interna perfeita. 
Materiais como os ''cuprates'' pertencem á categoria de uma forte interação na superfície, até o ponto de perder sua própria individualidade na força de sua correlação. ''Estes efeitos coletivos sumamente complexos da mecânica quântica são belissimamente capturados pela física dos buracos negros'', disse Hong Líu, professor do MIT (Instituto Tecnológico de Massachussets). '' Para os sistemas de forte correlação, se colocas um elétron no sistema, imediatamente ele desaparecerá e já não poderá ser rastreado''. Assim estes elétrons que em alguns casos se comportam como ''ladrilhos de construção'',em outros se comportam como excitações coletivas - mesmas que não podem descrever-se pelos modelos quânticos atuais e poderiam corresponder ás propriedades de buracos negros em dimensõe superiores.
Um teoria da gravidade quântica poderia ter que abandonar a noção de que os constituintes básicos da matéria são partículas, e considerar que os eventos que surgem na superfície do ''mar'' são eventos unidos a uma série de eventos a partir de uma maior profundidade. As implicações filosóficas disto seriam enormes, já que em certo sentido tudo o que ocorre a nossa volta seria a manifestação superficial de um ordem mais profunda, de uma vibração hiperdimensional. O fundo desse mar (do qual surge o mar) é incomensurável, sua fonte é inconcebível. 

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Assim, nem toda informação velada é maliciosa, mas muito está realmente destinado a ser desvelado sob as devidas balizas do tempo. O verdadeiro significado da preconizada reabertura das escolas de iniciação representa acima de tudo uma abertura da sua própria linguagem, poder de síntese e, em particular o alcance de um pragmatismo universalista definitivo. 
As novas informações estão voltadas para uma sistematização, organização e depuração das informações anteriores, empregando nisto arquétipos, a ciência dos ciclos e as leis-de-evolução, num verdadeiro espírito-de-síntese e ainda mais. 
Devemos superar a etapa das crenças, do misticismo, dos boatos esotéricos e da própria fé, assim como das informações isoladas, anti-científicas, simbólicas e veladas, independente de virem ou não de supostas “autoridades” desta transição, antes importando mesmo é o chamado “bom senso”, e tendo por base especialmente as sóbrias e ponderadas avaliações da Tradição Perene, capaz de promover o equilibro e a unidade-na-diversidade ou o universalismo renovador, e trazendo daí a promessa segura de uma honesta e autêntica renovação das coisas.
Quem pensasse que existe alguma tradição espiritual não corrompida hoje em dia, estaria muito equivocado, e tanto mais se esta tradição for detalhada, porque a transmissão tem sido muito corrompida. Mesmo as novas recepções de saberes ainda têm sido distorcidas e se acham em preparação.

continua
Kalki-Maitreya

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