quarta-feira, 16 de julho de 2014
''Só o olho da água pode ver a água como ela realmente é''
''Só o olho da água pode ver a água como ela realmente é'' (provérbio sufi)
A ''pupila'' (do latin 'pupilla'', mocinha) do olho apenas no sânscrito é de fato ''kan´na'' , kan´naka ou kan´nakO'' (jovem dama ou mocinha), mas também no grego ''doncella'',em hebraico ''bath'' (filha) , e em cantonês t'ung (Giles 12,308, uma combinação dos caracteres para "olho" e "jovem") e também para alguma coisa " MUITO QUERIDA", em cujo sentido dizemos ''TÃO QUERIDA QUANTO A MOÇA DOS MEUS OLHOS"...
''O SOL,se tornando VISÃO, invadiu os OLHOS" (Oditya§ ca cak·ur bhutvO ak·iö´ pravi§at, Aitareya îraöyaka II.4.2
''Só o olho da água pode ver a água como ela realmente é''
Em seu livro Structure and Dynamics of the Psyche, Carl Gustav Jung faz menção á aparição metahistórica do Purusha (o de mil olhos):
...aparece como uma chuva de brilhos refletidos em um espelho, a cauda de um pavão real,os céus tecidos de estrelas, as estrelas refletidas na água obscura, esferas luminosas, lingotes de ouro ou areia dourada espalhadas na terra negra, uma regata na noite, com lanternas na superfície do mar, um olho solitário na superfície da terra ou do mar.
Antes da criação deste mundo já existia a GRANDE MENTE UNIVERSAL, que descansava nas ÁGUAS.
Este mundo eram as águas que fluíam em si mesmas,'NA ONDA INFINITA''. Até que: ''As águas desejaram. Solitárias, arderam como fogo... e arderam o próprio ardor'' Na onda se formou uma concha de ouro. Isto, o UM, nasceu pela potência do primeiro ardor'', escreve Calasso em Ka. Este desejo ou ardor (tapas), que brotas das águas, se manifesta como uma faísca, como um resplendor que acende a crista de uma onda trêmula, que alcança o branco do olho como uma flecha... como um fogo que acende a alma e dá lugar ao mundo
- só uma mau resumida história de como essa luz na água fez com que a mente se materializasse para perseguir esse ardor que parecia flutuar fora dela
Esta imagem, a da luz na água ou a de um fogo líquido é a imagem central da alquimia erótica de todas as eras, de todas as tradições e lugares. Por isso existe uma particular beleza na descrição de Jung, da avatárica e arquetípica manifestação no mundo do PURUSHA, ''o de mil olhos''. Em cada partícula de luz jaz um olho (fóton) por onde o universo não só se vê a si mesmo, se deleita (de-lights) em outro , joga o eterno jogo do vir a ser consigo mesmo e se seduz com esses brilhos selvagens que hoje até se confundem com o romantismo de uma regata com sua procissão de luzes líquidas pelo rio. Este desfilar da luz na água, que é um tipo de glamour sensual da natureza e seus artifícios, é no fundo a encarnação da divindade no mundo. A luz que é a consciência penetra na água que é a potência do ser.
Os olhos do PURUSHA, distribuídos pelo mundo como um traje de fosforecências que vai derramando-se sem jamais desfazer-se ou esgotar-se, são as CONTAS que integram o COLAR DE OURO ou rede da Consciência do Universo.
Quando William Blake escreve ''Eu te dou a ponta de uma corda de ouro, Apenas enrole ela numa bola; Ela te conduzirá á porta do Céu, Construída na muralha de Jerusalém'', ele não está usando uma terminologia privada e sim uma terminologia cujo rastro podemos seguir mesmo antes da EUROPA e segui-la através de DANTE ''questi la terra in s? stringe'' (Paradiso I.116 ), dos EVANGELHOS ''Ningún hombre viene a mí, excepto que el Padre… tire de él», San Juan 6:44, cf. 12:32 ), de FÍLON, y e de PLATÃO ( con sua «única corda de ouro» a que nós, as marionetes humanas, devemos agarrarnos e pelas quais devemos ser guiados, Leis 644), até HOMERO, onde Zeus pode tirar tudo de todas as coisas e até a si mesmo por meio de uma corda de ouro( Ilíada VIII.18 sigs., cf. Platón, Teeteto 153 ). E não é só na Europa onde o simbolismo do ''fio de ouro'' foi corrente por mais de dois milênios; tal simbolismo tbm se encontra presente em simbolismos islâmicos, hindus e chineses. Assim, lemos em Shams-i-Tabriz, «ELE me deu a ponta de um fio.… "Tira", disse "para que eu possa tirar: e cuida para que ele não se rompa com a ação"», e em Hafiz, «guarda sua ponta do fio, para que ELE guarde sua ponta''; no Shatapatha Brahmana, esse SOL é o nó ao qual todas as coisas estão atadas pelo fio do espírito, mientras que no Maitri Upanishad a exaltação do contemplativo se compara á subida de uma aranha pelo fio de sua teia; Chuang Tzsé nos diz que nossa vida está suspensa por Deus como se fosse um fio, que se corta quando morremos.
Tudo isso se relaciona com o simbolismo do tecido e do bordado, os ''jogos de cordas entrelaççadas'', o cordel, a pesca com rede e a caça com laço; e com o simbolismo do terço, rosário e colar, pois, como nos recorda o Bagavad Gita ''todas as coisas estão entrelaçãdas com ELE como se fossem fileiras de pérolas em um fio''
(...)
A Alquimia gosta de imaginar sua opus (lápis philosophorum) como uma circulação,como destilação circular ou como 'uroboros' ou síntese perfeita que engendra o princípio e o fim, e nos descreveu este processo com numerosas imagens .
Do mesmo modo que a representação central do lápis philosophorum significa o SI-MESMO, como se pode demonstrar, assim tbm o opus, com seus inúmeros símbolos, ilustra o processo inconsciente de individuação, istoé, a evolução gradativa do SI-MESMO de um estado inconsciente a uma completa TOMADA DE CONSCIÊNCIA. Por este motivo, a ''obra'' aparece como designação da matéria inicial (prima materia) tanto no inicío como no final do processo. O ouro - outro símbolo do SI-MESMO - surge, segundo Miguel Maier, do opus circulatorium (da atividade circulatória) do SOL.
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