quarta-feira, 16 de julho de 2014

É o que procuramos, aqui.

Um homem que não se arrisca por suas idéias, ou não valem nada suas idéias, ou não vale nada o homem (PLATÃO)

De 1972 a 1975, ocorreram alguns seminários de Gilles Deleuze na Universidade de Vincennes, perto de Paris, onde o governo francês criara um território para os estudantes mais radicais do pós-1968. Era um espaço livre, mas ao mesmo tempo degradado – no restaurante universitário, por exemplo, como furtassem os talheres, a administração parou de fornecê-los, e só comia quem os trouxesse de casa. O pó às vezes se acumulava nos corredores. Mas as aulas, melhor dizendo, os "seminários" (il n’y a pas de cours! não há aulas, dizia Deleuze, quando lhe perguntavam se podiam assistir a elas) faziam pensar. Um dia, Deleuze elogiou as obras de Carlos Castañeda, antropólogo brasileiro que estava em voga pela série de livros sobre um nagual mexicano com quem aprendera muito – e, em especial, a ver de uma maneira nova, diferente. (Deleuze também estudou profundamente a obra de Franz Kafka, e ninguém vai perguntar se "o processo" ocorreu, e quando). Falou da importância de se aprender com a experiência. Um senhor na sala, o único de terno e gravata, lhe perguntou se por "experiência" entendia o que Husserl chamou de Erlebnis, que numa tradução literal seria "vivência".

Deleuze respondeu que não sabia alemão, que não conhecia Husserl – o que era tudo falso, porque ele era um dos mais refinados entendedores da história da filosofia da época; só que, sendo mais um filósofo do que um historiador do pensamento, ele permitia-se esse duplo jogo. Por um lado, um certo charme: fingia uma ignorância ou infantilidade que não tinha. Por outro, uma lição bem clara: não estava interessado no pedigree de suas idéias ou no alto nível intelectual de maestria de que certamente era capaz, mas em pensar a experiência em si. E concluiu, ante a insistência do senhor esnobe: "Pode definir experiência por ''vá ver o que está acontecendo de fato'', como Carlos Castañeda foi fazer com seu mestre índio".

Há, nesse diálogo entre o filósofo e o aluno engravatado, um lado algo coquete. Deleuze não endossaria um vale-tudo com o pensamento. É difícil alguém que passou pela filosofia avalizar uma irresponsabilidade em que qualquer opinião valha. Mas ele também rejeitava uma tentativa de o enquadrarem, ele ainda vivo, como um pensador já canônico, cujas raízes alguém estudaria. Mais que isso, o que lhe importava – e por isso estava em Vincennes, apesar da agressividade de parte dos estudantes da escola, que de vez em quando invadiam as salas de aula, diziam absurdos sobre ele e suas idéias, e assim o faziam desaparecer por duas ou três semanas – era que suas idéias vivessem.

E por isso, ao pedigree nobre que lhe oferecia o porta-voz do espírito de seriedade, fazendo remontar sua "experiência" à fenomenologia, ele preferia contrapor uma origem de registro quase vulgar. É claro, Deleuze não sabia que talvez Castañeda tivesse modificado um pouco sua experiência ao transforma-la em literatura. Mas ele recorria à antropologia e não aos clássicos, a um autor do Terceiro Mundo e não da Europa, ao saber de um adivinho e brujo tolteca e não ao de um acadêmico, ao mundo popular e não ao culto, à empiria e não à dedução. Este é um dos modos, certamente não o único, de nos fazer pensar. Melhor ainda, se combinarmos as duas origens, a culta que Deleuze marotamente ocultava e a vivencial, que ele enfatizava mais do que tudo.

É o que procuramos, aqui.

K.M.

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